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RESUMO:
O
presente trabalho visa apresentar,
de forma lacônica, a temática do
uso do Antigo Testamento na
pregação da igreja de hoje. Este
estudo se faz necessário visto que
em nossos dias a pregação
veterotestamentária não encontrado
espaço no púlpito de nossos dias, e
por vezes, quando se faz presente
assume um caráter alegórico que não
condiz com a realidade da
revelação. Na presente avaliação
vislumbramos a temática do Antigo
Testamento no kerigma da igreja
desde o Novo Testamento até os dias
atuais. Focalizando o uso que é
feito do texto veterotestametário
ao longo dos séculos, revelando
assim, que a história da Igreja e
da Pregação sempre valorizou o
Antigo Testamento como suficiente
para comunicar a mensagem redentiva
aos homens.
PALAVRAS-CHAVES: Antigo Testamento;
Pregação. Kerigma.
INTRODUÇÃO:
Dentro de nossa discussão sobre
esta temática torna-se necessário
uma caminhada histórica para
compreendermos a problemática
concernente ao texto do Antigo
Testamento. Na verdade precisamos
entender como a Igreja ao longo de
sua história usou o Antigo
Testamento no que concerne ao
púlpito e à defesa do Evangelho.
Quando nos inclinamos
para uma análise do Antigo
Testamento como elemento textual
para a prédica é percebido que os
primeiros cristãos “nos mostram o
quanto o Antigo Testamento foi
largamente citado, seja por
questões doutrinárias ou por
questões apologéticas.”.
Esta crença
está refletida através da história
da Igreja que não pode ser
negligenciada ou esquecida quando
tratamos de um assunto de suma
importância; é nosso dever olharmos
para a história do cristianismo e
contemplar o que a Igreja ensinava
sobre o Antigo Testamento.
A história da Igreja
é uma testemunha singular da
importância e da relevância do
Antigo Testamento para a pregação
da Igreja cristã. Sem a pregação da
Palavra, tendo por base e
fundamento o Antigo Testamento, não
haveria Igreja verdadeiramente
cristã.
1
A Igreja no Novo
Testamento e o Texto
Veterotestamentário.
No Novo
Testamento nós percebemos uma visão
muito nítida das Escrituras
veterotestamentárias. Isto pode ser
notado quando Cristo usa as
Escrituras do Antigo Testamento
para fundamentar algum argumento
que levantara; era notória a
expressão de Cristo “Está escrito.”
esta palavra no grego descreve a
crença na infalibilidade de todo o
Antigo Testamento, e não apenas
isto, mas o termo de também
descreve a normatividade do texto
veterotestamentário para a vida da
Igreja.
O
termo grego empregado é o verbo “ge,graptai”
que ocorre no Novo Testamento 67
vezes isto nos indica algo que era
de “uso tão comum” e “indiscutível
a autoridade que, no seu conflito
mais vibrante, Jesus não precisou
de outra arma além da palavra:
“Está Escrito!”(Mt. 4.4,7; Lc.
4.4,8; 24.26). Isto leva a uma
consideração de que “recebemos o
Velho Testamento baseados na
autoridade de Cristo”.
Este verbo encontra-se no modo
indicativo, indicando a certeza de
fato; ou seja, aquela autoridade
conferida ao texto do Antigo
Testamento permanece inalterada.
Gerhard Kittel explica que o NT ao
fazer uso deste verbo “não denota
meramente o apelo à Lei Grega para
a autoridade inexpugnável da Lei,
mas também a solidez do
argumento do que está escrito
igualmente para Israel no
absoluto sentido religioso e também
no judicial”
Isto
implica que a concepção de Cristo
sobre o Antigo Testamento era que
esta parte das Escrituras é Palavra
infalível de Deus destinada para a
edificação dos crentes em Cristo.
Sendo assim, é suficiente e eficaz
para suprir as necessidades do
púlpito contemporâneo.
No evangelho de Marcos esta mesma
expressão iniciando a sua narração
da vida de Cristo (Mc.1.2). Mas,
surge-nos uma pergunta: “está
escrito” em que local? Em qual
registro? A resposta é no Antigo
Testamento. O registro
veterotestamentário assume o status
de “pedra de toque” de qualquer
doutrina ou controvérsia de
natureza religiosa. É bom que se
diga que
Há 32 referências diretas e indiretas ao AT em Marcos, desde citações
para provar que o que estava
acontecendo era cumprimento
profético (1.2, 11; 4.11, 12; 9.
12; 12. 10-12; 14.21, 24, 49, etc.)
como citações apenas histórica ou
apologética (2. 23-28; 7. 6, 10;
10. 2-12, 19; 12. 18 – 27;
13. 14; 14. 12, etc). Em cada
um dos quatro evangelhos a intenção
ao evocar “está escrito” é a mesma.
Na
visão de Cristo o Antigo Testamento
não deveria ser tirado de foco,
pois, tudo o que o texto
veterotestamentário anunciava
estava se cumprindo no Filho de
Deus de forma singular, ou como
coloca Philip Yancey quando diz que
o
Antigo Testamento era a Bíblia que
Jesus lia. O Senhor achou no
Antigo Testamento cada fato
importante sobre si mesmo e sua
missão. Citava suas páginas
para resolver controvérsias com os
oponentes, como os fariseus,
saduceus e o próprio Satanás. As
figuras – cordeiro de Deus, pastor,
sinal de Jonas, a pedra que os
construtores rejeitaram – que Jesus
usou para definir a sim mesmo vinha
diretamente das páginas do Antigo
Testamento (...). Quando lemos o
Antigo Testamento, estamos lendo a
Bíblia que Jesus lia e usava.
Trata-se das orações que Jesus
fazia, dos poemas que memorizava,
dos cânticos que entoava, das
histórias de ninar que ouvia quando
criança, das profecias sobre as
quais refletia. E reverenciava cada
‘jota ou [...] til ’ da Bíblia
hebraica. Quanto mais entendermos
o Antigo Testamento, mais
entenderemos Jesus.
Esta é a perspectiva pela qual o
Antigo Testamento deve ser
avaliado. O Antigo Testamento
precisa ser mais compreendido para
enxergarmos a Cristo. Sem o Antigo
Testamento as nossas pregações
figuram apenas como casas sem
alicerces que irão ruir em breve,
pois, as paredes de nossas
palavras lúdicas irão revelar as
gritantes rachaduras que
encontra-se em nossa teologia, isso
porque não tem alicerce para
sustentar-se.
A luz que almejamos não vem de
nosso tempo, mas do texto antigo é
por isso devemos estar atentos as
palavras de A.G.Hebert: “De fato,
não existe possibilidade de
elucidar quem Jesus foi, e qual
foi o significado de Sua
pregação e tudo mencionado
sobre Sua morte e
ressurreição, e qual foi a
verdadeira condição da comunidade
cristã, separado do Antigo
Testamento (1947, p. 200).”
Diante disso podemos dizer que o
que “se pode perceber que a
autoridade do AT exposta por
Cristo Jesus estava baseada, embora
de forma incipiente , na doutrina
da inspiração. Ao citar o Salmo
Jesus disse: “o próprio Davi disse
pelo Espírito Santo”(Mc 12. 36).”
Um exemplo basilar é o de João 10.35
“E a Escritura não pode falhar”
Boettner nos informa que
É absolutamente evidente que Jesus
considerava o Velho Testamento como
plenamente inspirado. Ele cita-o
como tal e baseou nele o Seu
ensino. Uma das Suas afirmações
mais claras a este respeito,
encontra-se em João 10.35, onde,
numa controvérsia como os judeus, a
Sua defesa toma a forma de apelo às
Escrituras e, depois de citar uma
declaração, Ele acrescenta as
significativas palavras: “E a
Escritura não pode ser
anulada”[...] E a palavra que se
traduz por “anulada” é a que se
usava para a transgressão do
Sábado, ou da Lei e que significa
negar, ou resistir a autoridade.
No texto grego nós temos a palavra
“luqh/nai”
(lythênai) é um verbo no infinitivo
aoristo e o sentido é de quebrar,
colocar de lado, abolir, destituir
de poder. O que Jesus está
ensinando a respeito do Antigo
Testamento? Está nos dizendo que o
Antigo Pacto é inspirado e
infalível; em toda e qualquer
questão que a ele se apela para se
resolver qualquer controvérsia. (Veja-se
a Confissão de Fé de Westminster,
Capítulo 1 Seção 8.)
Mas a Igreja atual
parece desconhecer o Antigo
Testamento e as implicações das
declarações de Cristo neste texto.
Yancey nos alerta para uma triste
realidade:
Estamos precisando hoje de uma
experiência inversa à do caminho de
Emaús. Os discípulos conheciam
Moisés e os Profetas, mas não
conseguiam imaginar em que se
relacionavam com Jesus, o Cristo.
A igreja de nossos dias conhece
Jesus, o Cristo, mas está
rapidamente perdendo todo o contato
com Moisés e os Profetas.
Os apóstolos também
nos apresentam uma visão muito
coerente do Antigo Testamento. É
digno de nota que
o “Cristianismo
primitivo aceitou sem problema a
autoridade e valor das Escrituras
do Antigo Testamento em suas
experiências religiosas”.
Mateus foi um dos que mais usou o
Antigo Testamento para fundamentar
todo o seu ensino sobre o reino
messiânico apresentado e inaugurado
por Cristo Jesus, o uso de
literatura hebraica e construções
singulares da língua hebraica são
marcantes neste Evangelho ele tem
um “impulso natural para o
paralelismo hebraico”.
Nós podemos contemplar isso de
forma muito clara neste Evangelho
(Mt 1. 1 – 17; cf. Gn 5.
1; 10. 1; 11. 10; ICr 1.
29, etc).
Marcos continua dentro desta
perspectiva de apresentar o fato de
que o Antigo Testamento encontra
sua concretização escatológica e
profética na Pessoa de Cristo. É
bom que se tenha em mente que
Marcos principia seu relato com uma
declaração teológica: “Princípio
do Evangelho de Jesus Cristo,
Filho de Deus”(Mc 1. 1) e em
seguida evoca duas citações:
uma de Malaquias 3. 1 e outra
de Is 40. 3. Ambas as
passagens são identificadas com
a missão de João Batista que,
para Marcos, não era um
simples acontecimento, como
fica demonstrado pelo advérbio
Kaqw.j (Kathos) (conforme – Mc 1. 2 - ARA).
O evangelista Lucas também citou o
Antigo Testamento para fundamentar
suas exposições teológicas, e
assim, vemos que os apóstolos
usavam o Antigo Testamento como
fonte autoritativa, mas também como
a principal fonte de exposição
teológica. O sermão de Pedro, em
Atos 2, aponta para a realidade de
que o Antigo Testamento era o texto
fundamental para a pregação dos
primeiros cristãos. O sermão de
Estevão (em Atos 7 a 8.1) aponta
para o conhecimento e o uso do
Antigo Testamento de forma
singular. No uso do texto de Joel
para se explicar o evento de
Pentecostes. Fica notório que a
Igreja estava ali valorizando o
Antigo Testamento como autoritativo
na vida da Igreja.
O apóstolo João é um dos
evangelistas que mais cita o Pacto
Antigo; pois, ao abrirmos a
primeira página já o temos exposto
diante de nós.
A importância das Escrituras
Antigas para João pode ser vista
desde o prólogo onde João apresenta
o início do ministério de Jesus não
no nascimento virginal, mas “no
princípio...” (Jo 1. 1; cf. Gn
1.1). “No princípio” indicaria o
Lógos (O Verbo) como a Palavra
criadora de Deus (cf. Prov. 8. 22).
Mas Tasker afirma que não apenas no
prólogo, mas também nos festivais
judaicos e em particular na sua
apresentação da história da paixão
(1963, p. 54). Em cada uma destas
apresentações a forma mais
indicativa do uso
veterotestamentário por João está
em sua relação tipológico-temático,
isto é, os temas do Antigo
Testamento são tipos e temas que se
cumprem
em Jesus Cristo e os “eventos crísticos” em sua época eram “para que se cumprisse as
Escrituras” (Jo 19. 36).
Na
construção da Teologia Paulina
percebemos a importância
fundamental do Antigo Testamento;
pois, não existe uma epístola de
Paulo (com exceção da epístola
escrita a Filemon) na qual o
argumento fundamental não esteja
atrelado, inserido e baseado no
Antigo Testamento, os discursos ou
pregações do apóstolo são
fundamentadas no Texto Hebraico
(sabemos que em algumas cartas ele
usou a Septuaginta) de forma
gritante.
A carta de
Paulo aos Romanos tem uma gama de
citações do Antigo Testamento que
corrobora para a compreensão de que
o apóstolo sustentava a validade do
Antigo Testamento na vida da Igreja
Cristã. Isto não era por causa de
influências judaizantes na mente
Paulina, como alguns tencionam
argumentar, mas por pura crença de
que aquele documento antigo era de
fato a Palavra infalível de Deus, e
assim, digna de ocupar o púlpito da
Igreja Cristã.
No capítulo
primeiro de Romanos, Paulo discute
sobre a justiça divina manifestada
pelo evangelho, mas para
fundamentar a sua tese, no
versículo 17, insere o conceito
instrumental de fé para a
manifestação desta justiça
redentiva do evangelho: “o justo
viverá pela fé”.
A questão
é: De onde Paulo extraiu tal
conceito? A resposta está no Antigo
Testamento, pois, o apóstolo usa o
texto de Habacuque 2.4 – “Eis
que a sua alma está orgulhosa, não
é reta nele; mas o justo pela sua
fé viverá.”. Esta doutrina
não foi fundada nos conceitos de
Paulo, mas estava sendo confirmada
pelo uso que o apóstolo faz do
Antigo Testamento, pois, a “citação
de Habacuque 2.4 tem o propósito
de confirmar a verdade utilizando o
Antigo Testamento”.
Na
argumentação Paulina a respeito do
uso do Antigo Testamento uma
verdade fica evidente para nós; é
que “o apóstolo estava tão convicto
[..] das grandes verdades do
evangelho que necessitava utilizar
uma passagem do Antigo Testamento
em apoio à sua afirmativa”.
No
entendimento Paulino as Escrituras
do Antigo Testamento era o
fundamento para a sua teologia e
pregação. Não havia outro texto
disponível para ele elaborar suas
prédicas com autoridade absoluta e
singular. Isto é confirmado por
causa de sua “formação
farisaica onde aprendeu o valor
do AT e é isto que, segundo
Herman Ridderbos (2004, p. 33, 52 –
54) e Leonhard Goppelt (2002, p.
302 – 310), faz do AT o
fundamento do kerygma Paulino.”
No restante
da revelação neotestamentária temos
de fato grandes passagens citadas
do Antigo Testamento, as cartas
gerais são um belo exemplo de
tamanha verdade; a carta aos
Hebreus é o Antigo Testamento sendo
exposto e aplicado a luz de Cristo
para a nova realidade e à
substância da aliança de Deus; este
princípio deveria permear a nossa
pregação de hoje, pois se os
cristãos primitivos tiveram grande
zelo pelo o Antigo Testamento, quem
somos nós para rejeitarmos a
Palavra de Deus em nossos púlpitos?
Uma objeção
levantada seria que eles não tinham
o Novo Testamento, e que agora nós
já temos a revelação do Novo Pacto.
A dificuldade com este argumento é
o fato de que esta segunda parte
das Escrituras é a continuação do
Antigo Testamento; então,
negligenciar este princípio seria
solapar a revelação de Deus. Isso
significa que não posso
negligenciar a primeira parte das
Escrituras, pois, é o fundamento
para tudo que vem posteriormente.
2. A Igreja Patrística e a
sua relação com o Antigo
Testamento.
Dentro do
processo histórico precisamos
avaliar como os escritores
posteriores aos apóstolos encararam
o Antigo Testamento. Isto se torna
importante porque pode nos mostrar
o processo pelo qual o Antigo
Testamento foi apresentado à
Igreja.
Então, a
Igreja deve usar a tradição
apostólica para avaliar se algo
deve ser visto como sendo uma
determinada prática que sempre
esteve presente ou não na vida da
Igreja, em nosso caso,
especificamente, buscar a
confirmação da utilização do Antigo
Testamento na pregação de sua
época. Alguém poderia perguntar:
Por que estudar os Pais da Igreja
sobre esta questão? Pelo menos três
razões são basilares para nós: “1)
Por serem mais próximos da tradição
apostólica; 2) Porque os pais nos
ajudam a entendermos as nossas
raízes teológicas; 3) Os Pais
foram, antes de tudo, pastores e,
como tais escreveram e viveram.”
Esta é concepção correta na qual
devemos nos aproximar dos Pais
Apostólicos. A Igreja estava
entrando em uma nova esfera, e
ainda assim, precisava manter-se
firme, pois agora novas ideias
estavam surgindo dentro da
comunidade cristã. E uma destas
concepções afetava efetivamente o
entendimento sobre o lugar do
Antigo Testamento dentro da Igreja
Cristã.
Havia lugar
para o Antigo Testamento dentro da
Igreja que manifesta-se dentro da
Nova Aliança de Deus? O primeiro
ataque frontal ao texto antigo veio
do Gnosticismo. Este foi o primeiro
ataque que levou a Igreja
defender-se. Isto porque surgia
dentro do Cristianismo
pós-apostólico, o problema de
admitir ou rejeitar a “herança
veterotestamentária”.
A nova
proposta era que o Antigo
Testamento não pertencia a Igreja
Cristã. Esta foi a grande guerra
estabelecida na comunidade
pós-apostólica. Os gnósticos e os
judaizantes tentavam sufocar a
Igreja Cristã; os primeiros com a
negação absoluta do Antigo
Testamento e os segundos com a
valorização cerimonial do Antigo à
Comunidade Cristã. Então, a prática
dos Pais passou a ser de profunda
apologia ao texto Antigo, e assim,
nasce a avaliação exegética dentro
da Igreja pós-apostólica, isto
porque
A afirmação irrenunciável da unidade dos dois
testamentos tornou-se assim o ato
do nascimento da exegese cristã
propriamente dita. A defesa desta
mesma unidade, na multiplicidade
das táticas exegéticas, estará
também na origem da diversificação
dos métodos, no interior de uma
essencial unidade de fundo, na
exegese cristã antiga
( GARGANO, 2000, p. 172 ).
Havia um
real conflito se deveria ou não
receber e aceitar o Antigo
Testamento dentro do Cânon da
Igreja, por outro lado, havia a
questão da defesa dos falsos
ensinos a respeito de Cristo e de
sua obra; como resolver estas
questões? Como encarar este
problema? A Igreja da época
patrística ofereceu uma resposta
para estas questões.
Clemente de
Roma (AD 100) ele chegou a
desenvolver uma concepção um pouco
reservada a respeito do Antigo
Testamento. Mas em sua Carta
aos Coríntios ele “invoca
constantemente os exemplos e as
virtudes do Antigo Testamento”.
Ainda
existem gritantes exemplos de que
Clemente apelou para o Antigo
Testamento em diversos momentos,
inclusive quando seguia a
interpretação alegórica, ele diz “desta
forma, tornavam claro que o
sangue do Senhor resgataria
todos aqueles que acreditam e
esperam em Deus. Vede,
caríssimos, que nessa mulher
havia não só a fé , mas também a
profecia”
O segundo
Pai da Igreja que nos chama atenção
pelo uso do texto
veterotestamentário é Justino, o
Mártir. Ele viveu entre 100-165
d.C. é considerado um dos
primeiros apologetas Cristãos, e
graças a ele os cristãos
“continuaram a usar o Antigo
Testamento”
Este Pai da Igreja nos informa como
se procedia à reunião Litúrgica em
sua época, nesta organização de
liturgia figurava um lugar para a
leitura do Antigo Testamento, a
qual era chamada de “escritos
dos profetas”, ele diz:
E no dia Chamado Domingo, todos
quantos moram nas cidades ou no
interior reúnem-se juntos num só
lugar, e são lidas as memórias dos
apóstolos ou os escritos dos
profetas, por tanto tempo
quanto Possível; depois, tendo
terminado o leitor, o presidente
instrui verbalmente, e exorta à
imitação dessas coisas virtuosa
s[...]
(Apud, STOTT, 2003, p.19 – ênfase
nossa)
A compreensão que os pais tinham a
respeito do Antigo Testamento nos
inclina a pensar que eles usaram o
Antigo Pacto de forma positiva.
Isto nos leva a uma reflexão que é
preciosa: o valor dado ao Antigo
Testamento na comunidade patrística
nos lembra que todo o desígnio de
Deus deve ser exposto com verdade,
e com cautela, todavia, sem
timidez.
O outro líder espiritual deste
período que nos chama a atenção é
Irineu de Leão, sendo um grande
defensor da fé, nos leva a pensar
que de fato os pais “usavam o
Antigo Testamento para defender sua
fé e como uma fonte para seu ensino
[...]”; Irineu figura entre os que
usaram as Escrituras para defender
a fé. Ele fora discípulo de
Policarpo, este por sua vez,
discípulo de João o apóstolo de
Cristo. Qual fora a tarefa deste
pai da Igreja?
A tarefa de Irineu foi de
demonstrar e desenvolver as
relações entre o AT e o NT (BARRERA,
1995, p. 629). Sua mais famosa obra
é conhecida como Adversus
Haeresis (Contra Heresias)
e considerada uma ‘exposição
convincente, simples e persuasiva
da doutrina da Igreja, além de ser
a única fonte atual para o
conhecimento dos sistemas gnósticos
e a teologia da Igreja dos Padres,
do final do século II’ (FRAGIOTTI,
1995, p. 10). O Livro IV desta obra
é dedicado a explanação da
‘Continuidade entre o Antigo
Testamento e o Novo Testamento’.
O grande problema sentido pelos
pregadores contemporâneos é a não
percepção da unidade do Antigo
Testamento com a revelação
neotestamentária. Esta questão não
gerou dificuldades ou crise de
consciência entre os pais
apostólicos. Os pais ao usarem este
texto antigo estavam reafirmando a
autoridade do Antigo Testamento
para resolver qualquer controvérsia
religiosa, mas também estavam
mostrando o quanto eram atuais –
para a sua época – o texto do
Antigo Testamento.
3. O Antigo Testamento no período
da Reforma Protestante.
O que veio a ser a Reforma
Protestante? Há diversas respostas
de grandes historiadores. Cairns
nos indica que várias formas de se
definir a Reforma protestante. Isto
porque, o “nome e o sentido dados à
Reforma são parcialmente
condicionados pela visão do
historiador”, isto quer dizer, que
os pressupostos dos historiadores
nortearão o que venha a ser a
Reforma Protestante. É bom que se
diga que o “historiador protestante
considera-a (Reforma) como uma
reforma que fez a vida religiosa
voltar aos padrões do Novo
Testamento [...]”, isto nos indica
que
Não é fácil aclarar o sentido do termo “Reforma”. Se for considerada
apenas como um movimento religioso
de criação de igrejas nacionais,
seu período de duração vai de
1517
a 1648. Como, porém na Holanda só
aderiu o protestantismo depois do
Concílio de Trento, parece mais
correto circunscrever a parte mais
importante da Reforma aos anos de
1517 a 1545.
Embora esta observação do Cairns
seja de fato verdadeira, ela não
reproduz com propriedade o que
tenha sido o movimento da Reforma
Protestante. A manifestação da
Reforma só pode ser realmente
entendida sob duas avaliações: 1)
uma intervenção divina na história
(avivamento); 2) Um retorno às
Escrituras.
A Reforma só foi possível devido a
um movimento que libertou a Igreja
de Roma – a valorização do
indivíduo. Pois,
O Humanismo, com sua volta ad
fontes, foi um dos fatores para
o estudo das Escrituras em sua
língua original. Duas contribuições
foram importantes para isso:
primeiro, a elaboração de manuais
das línguas clássicas (Hebraico,
Grego e Latim), como por exemplo, a
obra Rudimenta Linguae Hebraicae
(1506) do hebraísta João Reuchlin;
segundo, a impressão dos textos
bíblicos nas línguas originais,
como por exemplo, Os Salmos de
Lefèvre d’Etaples (1509), a
Poliglota Complutense do
Cardeal Ximenes (1514 – 17),
a Bíblia Rabínica de Daniel
Bomberg (1516 – 17) e Segunda
Bíblia Rabínica de Jacob ben Hayyim(1524
– 25)
O humanismo adicionado com o
movimento do retorno às fontes
liberou o homem e, isto o levou até
a Bíblia Sagrada. Isto viabilizou a
exposição Bíblica com um todo. A
doutrina imperiosa deste período é
o Sola Scriptura (somente as
Escrituras) esta convicção gerou
maturidade no púlpito da Igreja,
que, desde então, se libertara de
Roma. Esta concepção da suficiência
das Escrituras foi aditada pelo
princípio “Escritura interpreta
Escritura” – então, não temos
apenas uma Bíblia que seja
suficiente, mas também temos uma
Bíblia que nos diz como ela mesma
deve ser interpretada. A
interpretação canônica das
Escrituras possibilitou aos
reformadores a expor a Bíblia com
muita clareza.
O grande Reformador Martinho Lutero
sustentava o Antigo Testamento como
sendo Palavra de Deus; isto é, ele
não é uma porção inferior ao Novo
Testamento, ele [Lutero] mesmo diz
que encontra no A.T no N.T o
próprio evangelho de Deus se
encontra revelado
Portanto, palavra do evangelho
e Escritura, evangelho e NT,
lei e AT não são idênticos
para Lutero; o AT abrange,
antes, lei e evangelho. Mas
também o NT ainda deve ser
lido segundo o critério lei
e evangelho, e nem tudo que
está escrito nele é puro
evangelho [...] A distinção
dialética entre lei e evangelho é
uma questão de princípio e é
fundamental, a distinção entre
Antigo e Novo Testamento como
partes do cânone não o é. Em
primeiro lugar, a diferença
entre os testamentos é apenas
de grau: o AT contém mais lei , o
NT, mais evangelho. Em segundo
lugar, a diferença é de
caráter temporal: segundo a
opinião de Lutero, o evangelho
é promulgado no AT como
promessas e profecia, no NT,
porém, se anuncia o
cumprimento.
Este
entendimento mostra-nos como o
Antigo Testamento é importante para
Lutero e para a sua teologia da
unidade do Cânon.
Todavia, a exemplificação deste
tema não fica somente aos pés de
Lutero, mas é devidamente
representada pelo grande João
Calvino, este tinha uma profunda
veneração, se assim podemos dizer,
pelo Antigo Testamento. Era um
hábil expositor do Antigo
Testamento. E como ele fazia tal
abordagem do Antigo Testamento? É
bom que se diga que “Calvino foi um
pregador mestre numa época em que
o púlpito era o principal meio de
comunicação para uma cultura
inteira”.
O reformador de Genebra, “seguindo
o padrão que Zuínglio instituíra em
Zurique, Calvino em geral pregava
continuamente através dos livros da
Bíblia. Seu método era pregar sobre
o Novo Testamento aos domingos e
sobre o Antigo Testamento nos dias
úteis.”.
Nas
suas exposições ele situava o texto
dentro do seu contexto histórico, e
alguns tem sustentando que Calvino
fora um judaizante disfarçado de
cristão, mas tal acusação ignora
que o que o reformador genebrino
estava seguindo era um método
seguro para interpretação do texto,
um exemplo clássico deste zelo
expositivo é Ageu 2.7:
Isto
permite duas explanações: a
primeira é que todas as nações
virão e trarão consigo todas as
coisas que são preciosas, a fim de
consagrar ao serviço de Deus, pois
o hebreu chama o que quer que
seja de um desejo valioso;
assim, o que incluem sob este
termo eles incluem toda riquezas,
honras, satisfação e todas as
coisas deste tipo [...] elas
viriam com o que eles
desejavam, isto é, as nações
não viriam [de mãos] vazias,
mas recolheriam todos os seus
tesouros para um sacrifício
santo a Deus [...] Mas nós
podemos entender que ele diz de
Cristo, ‘virá o desejado de
todas as nações, e encherei
esta casa de glória’ Nós
realmente sabemos que Cristo
foi a expectação de todo
mundo, conforme o que é dito
em Isaías. E isto pode ser
corretamente dito, que quando
o desejado de todas as nações
virá, isto é, quando Cristo
fosse manifestado, em quem os
desejos de todos deveriam
centralizar, a glória do Segundo
Tempo então seria reconhecida;
mas conforme imediatamente
sucede, ‘minha é a prata,
e meu é o ouro’, o
significado mais simples é
aquele que eu primeiro
expressei – que as nações
viriam, trariam consigo todas
as suas riquezas, que eles
poderiam ofertar a si mesmo e
suas possessões como um sacrifício
a Deus. É, então, melhor ler o que
segue como uma explicação, ‘minha
é a prata, meu é o ouro,
disse o Senhor’
Esta
postura não é de nenhum judaizante,
mas de alguém que se preocupa com a
precisão da exposição bíblica. Esta
posição do reformador sumariza o
que ele pensa sobre o dever do
Pastor. Calvino lembra que o que se
requer não é que “... uma pessoa
seja eminente no conhecimento
profundo...” mas que este
conhecimento seja acompanhado do
talento para ensinar, que seja
sábio no uso correto das Escrituras
para a edificação do seu rebanho.
O uso
correto nas Escrituras exige que o
Antigo Testamento seja lido e
entendido dentro de seu contexto
histórico.
Calvino
tinha um entendimento de que há
unidade singular entre o Antigo e o
Novo Testamento. “A
compreensão acima coloca Calvino
como o maior intérprete das
Escrituras, abordando o AT e o NT
como um só livro, compreendendo o
valor do AT em si mesmo, bem como
em sua relação com o NT. Sua
abordagem é histórica e
pneumático-cristólogica.”.
Diante disso, podemos dizer que
Calvino foi “de fato o exegeta por
excelência da Reforma”..
Este epíteto é aplicado a Calvino
devido ao seu grande zelo e
reverência para com toda a
totalidade das Escrituras, ele
mesmo diz:
As Escrituras dissipam a trevas da
nossa mente tornando claras as
noções confusas da divindade e
dando-nos uma visão clara de Deus.
E é um favor singular que Deus na
instrução da Igreja usa não apenas
mestres, mas abre também a sua boca
sagrada[...] não somente ensina aos
seus eleitos a elevar os olhos para
a divindade, mas também se
manifesta como objeto desta
contemplação; devemos, pois,
aprender das Escrituras o que Deus
revelou aos patriarcas [...] É fora
de dúvida que a esses patriarcas
Deus se revelou numa persuasão, de
modo que estavam convencidos de que
a revelação que receberam veio de
Deus. Para que os oráculos dos
profetas servissem de instruções a
todas as eras, Deus ordenou que
fossem guardados e, assim, também a
lei promulgada fosse reunida e os
profetas fossem os seus
intérpretes”
Calvino pode de fato fazer suas
exposições no texto do Antigo
Testamento porque tinha essa grande
reverência pelas Escrituras, não
somente isso, mas também porque
reconhecia os livros
veteretestamentários dignos para a
Igreja de Deus. “Na polêmica que
manteve com Sebastião de Castélio,
em que este negava a canonicidade
de Cântico dos Cânticos”, Calvino
continua sustentando que o texto é
Palavra de Deus e digno de
aceitação para a Igreja.
Então, o Antigo Testamento não era
para Calvino um apêndice para as
suas exposições, mas pelo contrário
era de fato a palavra infalível de
Deus, pois, Deus se descortina por
meio deste texto aos pecadores
oferecendo a graça.
Como Calvino avalia seu trabalho de
expositor bíblico? Esta questão
poderia deixar muitos arrogantes e
orgulhosos se tivessem feito a
metade do que Calvino fez, mas ele
mesmo nos ensina uma lição de
humildade – característica
essencial daqueles que se submetem
à Palavra de Deus – sob os
seguintes termos:
A respeito de minha doutrina,
ensinei fielmente e Deus me deu a
graça de escrever. Fiz isso do modo
mais fiel possível e nunca corrompi
uma só passagem das Escrituras, nem
conscientemente as distorci. Quando
fui tentado a requintes, resisti à
tentação e sempre estudei a
simplicidade. Nunca escrevi nada
com ódio de alguém, mas sempre
coloquei fielmente diante de mim o
que julguei ser a glória de Deus
Calvino, ao decidir expor o Antigo
Testamento, não o fazia para
entreter o povo ou ser ovacionado,
mas para fielmente ser um ministro
da Palavra de Deus; como expositor
bíblico era insuperável, a ponto de
o seu opositor Jacob Armínio dizer:
“Eu exorto aos estudantes que,
depois das Sagradas Escrituras,
leiam os comentários de Calvino,
pois eu lhes digo que ele é
incomparável na interpretação da
Escritura”
Calvino usa o Antigo Testamento de
forma consciente, isto é, percebido
quando ele demonstra o aspecto
redentivo de Deus tanto no período
veterotestamentário como no
neotestamentário; pois, ele diz
que “a vocação dos gentios é
um admirável sinal ela qual
se ver claramente a excelência
do Novo Testamento sobre o
Antigo”. Tal promessa “foi
anunciada em numerosos e evidentes
oráculos dos profetas”
Como Calvino foi capaz
de produzir tanto no que tange ao
seu entendimento do texto do Antigo
Testamento? Talvez a resposta
esteja no fato de seu treinamento e
perícia nas línguas bíblicas:
Calvino sempre estava “recorrendo a
seu excelente conhecimento de grego
e hebraico e a seu profundo
treinamento na filosofia humanista
[...] é bom que se diga que: “Os
comentários de Calvino e seus
sermões-conferências sobre o Antigo
Testamento preenchem 45 volumes na
tradução Inglesa do século XIX.”; o
trabalho de expositor de Calvino
tem raízes fincadas na exegese,
pois, todo o seu trabalho “é
marcado pela modéstia. “Seu
objetivo era penetrar na mente do
autor tão concisa e claramente
quanto possível, evitando
demonstrações profusas de erudição
e digressões em assuntos
secundários.”
Isto significa que
Calvino tinha todas as explicações
para cada passagem que lia das
Escrituras? A resposta é negativa,
pois, ele mesmo reconhece sua
debilidade em explicar tudo, tal
verdade pode ser percebido quando
ele está expondo Atos 1, no que se
refere a Segunda vinda de Cristo,
Calvino diz: “É melhor deixar
intocado o que eu não consigo
explicar”.
Este
exemplo é um consolo para os
expositores das Sagradas Letras,
pois, não propomos neste trabalho
que o expositor do Antigo
Testamento tenha a obrigação de
explicar todo texto, mas que eles
tem de pregar todo o “conselho de
Deus” e reconhecendo suas
limitações quanto a esta laboriosa
tarefa. Assim como fez o mestre de
Genebra devemos fazer, isto é,
sermos expositores do texto sagrado
sem distorcê-lo, mas reconhecendo
nossas limitações para compreender
alguns destes textos.
4.
O Antigo Testamento na Pós-Reforma.
No século XIX o Antigo
Testamento foi solapado de diversas
formas. Muitos eruditos começaram a
questionar a validade do Antigo
Testamento. Alguém já disse que é:
Muito
difícil descobrir com precisão
quando apareceu a primeira crítica
hostil contra a Bíblia.
Naturalmente, todo pecado é uma
crítica contra a Bíblia, é uma
manifestação do desejo de ser mais
sábio que tudo o que Deus ordenou.
Porém, o primeiro descontentamento
consciente para com o Antigo
Testamento provavelmente apareceu
na cidade egípcia de Alexandria
[...] Clemente de Alexandria cita
um tal de Aristóbulo, um
peripatético, que ensinava que a
filosofia judia era mais que a
grega e que Platão havia obtido
suas ideias da Lei mosaica [...]
depois menciona-se um tal de
Dositeo, o samaritano que rejeitou
os profetas apoiando-se na crença
de que eles não haviam falado sob a
inspiração do Espírito Santo [...]
No Indiculus de Haeresibus,
menciona-se um grupo chamado
Meristae, dos quais se diz que
dividam as Escrituras e não
acreditavam em todos os profetas
Mas é
no século XIX que surge o
Criticismo Bíblico com várias
hipóteses, mas a predominante
destas é a teoria dos “vários
documentos” conhecida como Hipótese
Documentária. A proposta desta
teoria valia-se de que havia vários
autores para o documento – o
Pentateuco em primeiro plano –
negava-se a autoria de Moisés dos
cinco primeiros livros da Bíblia.
Esta foi a forma como a Alta Crítica começou com Jean Astruc (
ca. 1750). Astruc estudou
cuidadosamente o livro de Gênesis e
observou que os nomes de Deus eram
usados em contextos determinados,
tais como: Elohim em Gn.
1:1-2:4; Javé Elohim ou Gn.
2:5 - 3:24) e Javé em Gn.
4:1-16. Não somente os nomes, mas
também outros fatores como:
repetições de histórias, semelhança
de temas, etc, deram, a base para
Astruc postular duas fontes que
teriam sido usadas por Moisés, para
compilar o livro de Gênesis. Astruc
não defendeu nem negou a autoria de
Moisés. Essa questão não era
importante para ele. Ele nos deu a
primeira divisão crítica do
Pentateuco, sob a sigla JE. J
representando o material Javista,
isto é, o que tinha o nome de
Javé, reiteradamente; e, E
representando o Eloísta,
isto é, o material que trazia o
nome Elohim.
A pergunta
que se levantada é ao que tudo isso
conduziu os eruditos bíblicos? O
professor Humberto Gomes de Freitas
nos indica que tal posicionamento
levou tais homens para um caminho
sem volta:
A combinação da Crítica das Fontes com a Critica Histórica
levou à posição dominante da
Hipótese Documentária, plenamente
desenvolvida por Julius Wellhausen,
1878. Depois de refinar as teorias
anteriores podemos resumir a
posição final de Wellhausen como
segue:
1.
A fé dos hebreus se desenvolveu da
religião tribal (animismo) para
monoteísmo, como resultado da
atividade profética.
2.
O Pentateuco é uma coleção de
escritos que cobre vários séculos.
Cada fonte pode ser, a grosso
modo, datada pelo critério do
desenvolvimento das idéias
teológicas contidas nelas:
J = IX século
E = VIII Século
D = VII Século (c.a. 621 - reforma de Josias)
P = V Século
3.
A legislação “mosaica” é um
produto do judaísmo pós-cativeiro.
As fontes revelam o desenvolvimento teológico. Por exemplo, o
javista (J) apresenta Deus
se revelando pessoalmente aos
patriarcas. O eloísta (E)
retira Deus do mundo do homem, cujo
contato é feito através de anjos e
sonhos. O Sacerdotal (P) tem um
estilo característico, é preciso
nos detalhes do culto, minucioso em
matéria de rituais. O
Deuteronomista (D) é rico em
linguagem pactual.
E, assim, o
Antigo Testamento ficou mutilado
para uma avaliação hermenêutica
como também para uma contemplação
homilética.
A alta
Crítica desdobrou-se em problemas
confusos e, assim, uma avaliação
do texto sagrado ficou em algo que
chamamos de suspensão hermenêutica
e homilética. Pois os seus
pressupostos nortearam os eruditos
pelo caminho equivocado.
Que
pressupostos foram esses? O
principal deles é o
Anti-Sobrenaturalismo, pois, o
eruditos da Alta crítica rejeitavam
tudo o que fosse sobrenatural.
Então, eles tentavam retirar da
Bíblia todo sentido que fosse
miraculoso. Não há milagres na
Bíblia, então, relatos
significativos para a fé da Igreja
não são verdadeiros, tais como o
dilúvio, a travessia do Mar
Vermelho.
Pode-se, segundo Hague, atribuir o
surgimento do movimento moderno da
Alta Crítica a Spinoza (1632-1677),
filósofo racionalista, judeu de
Amsterdã (HAGUE, 2002).
Em seu Tratactus
Teologico-Politicus, “defende a liberdade de pensamento e o direito de criticar livremente a
Bíblia” (MESSER, 196-? p.259). Ali
ele ousadamente combate a data
aceita do Pentateuco, atribuído a
Moisés, e atribui a origem a Esdras
ou algum outro escritor posterior
(HAGUE, 2002), alegando a diferença
pronominal entre a 3.ª pessoa (ele)
e a 1.ª pessoa (eu), bem como o
registro da morte de Moisés em
Deuteronômio 34 (ARCHER, 2000, p.
465). Nas palavras de Hague (2002):
“Spinoza foi realmente o mentor do
movimento”.
Mas tal teoria mostrou-se
inconsistente e foi totalmente
rejeitada pelos eruditos
conservadores, e hoje é plenamente
descartada. Por que ela foi
rejeitada? Porque todos os críticos
antes de Wellhausen e Keunen, ou
seja, todos até Karl H. Graf,
aceitavam que o documento
javista (J) era mais recente
que o Eloísta (E), mas
Wellhausen acreditava que o
javista era mais velho que o
Eloísta
(ARCHER, 2000, p. 476). Quem
está certo?
O
próprio sistema de datação das
fontes que compunha a hipótese
documentária era falho e
contraditório, isso gerou um
profundo descrédito para com a
teoria. Outra questão é que tais
eruditos, quando se basearam, na
questão de nomes distintos nos
relato da criação, ignoraram a
questão do estilo literário dos
autores. Archer nos diz algo
interessante sobre isso:
A capacidade de empregar mais do que um
nome para Deus; mais do que
um só estilo de escrita
(...); mais do que um entre
vários sinônimos da mesma
idéia; mais do que um tema
típico ou círculo de
interesse. Segundo esta teoria,
um autor único como Rui
Barbosa não poderia ter
escrito pesquisa literárias,
como Ensaio sobre Swift,
reportagens vivas e cintilantes
da atualidade da época, como
em Cartas da Inglaterra, e
ainda a grande obra de
polemica religiosa, que é sua
versão de ‘O Papa e o Concílio’.
E qual o resultado desta busca
acadêmica dos eruditos da Alta
Crítica? O professor Humberto mais
uma vez nos dá uma centelha do que
isso resultou para a vida da
Igreja:
A
exploração dos assuntos
controversos e polêmicos levou a
duas posições definidas: o gosto
pelo academismo teológico, pelo
tratamento exaustivo a problemas
insolúveis, exemplificado nos
volumes que foram publicados sobre
quaisquer dos temas acima, como
pura demonstração de erudição; e o
abandono do VT para enfatizar a
pregação simples do Evangelho. A
idéia era pregar missões e não
confusões. Resultou na posição de
preferência pelo NT confirmando,
dentro da Igreja, o neo-marcionismo
refinado. Não a rejeição frontal
mas, o não uso deliberado.
CONCLUSÃO:
Ainda neste
afamado século XIX nos deparamos
com o chamado Dispensacionalismo,
que será discutido com maiores
detalhes em um futuro artigo sobre
esta temática, onde a rejeição do
Antigo Testamento para a vida da
Igreja se torna notório pelo alto
índice de publicações desta
vertente hermenêutica; o
Dispensacionalismo sustenta uma
distinção ímpar entre o Antigo e o
Novo Testamento, o primeiro sendo
aplicado apenas aos judeus, e o
segundo é seguramente da Igreja.
Nas Igrejas
onde esta visão é sustentada a
pregação veterotestamentária nunca
se aplica a Igreja, e quando há uma
pregação no escopo revelacional do
Antigo Testamento a mensagem é
ilustrativa, alegórica ou
moralista. Não existe um aspecto
redentivo ou um conceito
soteriológico fundamentado na graça
de Deus. Isto porque a graça é um
fenômeno apenas do Novo Testamento.
Esta abordagem impossibilita de
haver uma pregação no texto do
Antigo Testamento para a vida da
Igreja.
O não-uso
deliberado do Antigo Testamento –
como indicou o professor Humberto –
tem gerado um Cristianismo sem a
Lei de Deus. Esta é a realidade que
enfrentamos. Ou seja, presenciamos
uma total desvalorização do Antigo
Testamento onde o
Dispensacionalismo Clássico é
sustentado.
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