Neste Brasil
de diversidades, ao mesmo tempo em
que os meios de comunicação
focalizam as enchentes no sudeste
arrasando tantas cidades, mostram
também a calamidade da seca em
outras regiões, levando-me a
relembrar as agruras de estiagens
prolongadas em São Raimundo Nonato
e de como era difícil para a
população sobreviver numa região
tão inóspita.
Eu uso o verbo
no passado porque muita coisa
felizmente tem mudado. O nosso
sertanejo aprendeu a conviver
melhor com seca e tem hoje uma
qualidade de vida bem diferente da
que conheci na minha época de
infância e da qual eu me lembro com
tantos detalhes.
Lembro-me que
nas décadas de 50 e de 60 na cidade
de São Raimundo a falta de água se
agravara, porque a população
tinha aumentado consideravelmente e
as fontes de abastecimento
continuavam precárias. O açude
Aldeia nos anos de boas chuvas
tinha água que servia como “água de
gastar”, uma água salgada e
imprópria para beber. Se não
chovesse o açude secava; o seu solo
ressecava e ali se abriam cacimbas
para minar um pouco de água também
salgada.
A “água de
beber” para a população era produto
muito raro e de baixa qualidade.
Podia ser apanhada nos barreiros do
Junco, do Galo Branco, do Juju, do
Edivirge, ou melhor, no “Duvige,”
como era chamado, e em outros
poucos lugares. Essa água variava
de cor e de sabor: a mais clara
sempre era mais salobra; a mais
doce era “leitosa”, ou seja,
enlameada.
Essa água era
transportada em grandes cabaças ou
latas de querosene assentadas na
cabeça das mulheres, sobre uma
“rodilha” de pano; os homens
costumavam levá-la em duas latas
penduradas nas extremidades de uma
vara atravessada sobre o ombro
forrado; ou surgia a figura do
jumento transportando-a em quatro
barris de madeira pendurados à
cangalha com ganchos de ferro. Era
uma carga bastante pesada, mas o
pobre animal se acostumava tanto
com o ofício que aprendia o caminho
percorrido muitas vezes ao dia e
podia-se soltá-lo que fazia o
percurso sem ninguém tangê-lo.
Seu
Catarino
também tinha uma “aguada” que era
seu meio de vida. Ela ficava
próxima de sua casa a uns cinco
quilômetros da cidade e era
dividida ao meio por uma cerca rala
de madeira. Negro bonito de boa
estatura seu Catarino era uma
figura simpática, atenciosa e de
boa conversa. Todo mundo na cidade
o conhecia e respeitava
Cedo da manhã
ele arreava seu jumento, pegava os
barris e mergulhava-os no barreiro,
sempre no mesmo lado da aguada,
fazendo bolhas de ar subirem ao
mesmo tempo em que os enchia do
precioso líquido. O bom homem ia
todos os dias mais de uma vez a pé,
tangendo o seu jumento e
assobiando, vender água na cidade.
A água do
Catarino era das melhores que
existia na região: não era salgada
e nem muito leitosa e tinha uma
freguesia certa dentre as famílias
mais abastadas da cidade. Ela
dispensava o uso da pedra-ume
tão usada naquele tempo para
“cortar a água”, isto é, para
decantar a lama, mas que deixava um
sabor travoso no líquido a ser
bebido.
Certo dia, ao
voltar para casa tangendo seu
jumentinho, o vendedor de água
deparou-se com uma cena que o tirou
do sério: um grupo de rapazes,
filhos dos cidadãos a quem ele
vendia água, estava ali na sua
aguada tomando banho e fazendo a
maior algazarra. Suas roupas e
alpercatas estavam jogadas sobre os
lajedos a pouca distância, onde de
certo eles iriam levar sol para
secar-se ao terminar o lazer.
Seu Catarino,
conhecido como um homem pacífico,
não conteve a raiva. Aquilo era uma
afronta. Como aquelas criaturas
podiam fazer tamanha perversidade
com a preciosa água de beber? Não
quis nem saber quem eram aqueles
elementos. Correndo para o
barreiro, juntou seus pertences e
os atirou bem longe gritando:
- Seus filhos
de uma mãe, vocês não viram a
cerca, não?! Podem banhar do lado
de lá que eu não me importo; do
lado de cá, não senhor, que é a
água de beber!
No outro dia
estava seu Catarino na cidade
desculpando-se com os pais dos
infratores pela maneira como falou,
mas ao mesmo tempo fazendo queixa
do comportamento deles.
E... pelo que
conheço daqueles cidadãos sei que
devem ter dado uma sova bem grande
nos malandros.
Naquela época
os pais ainda não tinham perdido o
direito de fazer as