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Casos e Coisas de Minha Terra
Amenália Macêdo, professora, exerceu o magistério durante 42 anos em São Raimundo Nonato e hoje reside e Teresina
onde continua trabalhando em educação.
  Está coluna é de inteira responsabilidade da colunista Amenália Macêdo

 

 

 

Amenália Macêdo

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O Barreiro do Catarino


10 de Jan de 2012

Neste Brasil de diversidades, ao mesmo tempo em que os meios de comunicação focalizam as enchentes no sudeste arrasando tantas cidades, mostram também a calamidade da seca em outras regiões, levando-me a relembrar as agruras de estiagens prolongadas em São Raimundo Nonato e de como era difícil para a população sobreviver numa região tão inóspita.

Eu uso o verbo no passado porque muita coisa felizmente tem mudado. O nosso sertanejo aprendeu a conviver melhor com seca e tem hoje uma qualidade de vida bem diferente da que conheci na minha época de infância e da qual eu me lembro com tantos detalhes.

Lembro-me que nas décadas de 50 e de 60 na cidade de São Raimundo a falta de água se agravara, porque a população tinha aumentado consideravelmente e as fontes de abastecimento continuavam precárias. O açude Aldeia nos anos de boas chuvas tinha água que servia como “água de gastar”, uma água salgada e imprópria para beber. Se não chovesse o açude secava; o seu solo ressecava e ali se abriam cacimbas para minar um pouco de água também salgada.

A “água de beber” para a população era produto muito raro e de baixa qualidade. Podia ser apanhada nos barreiros do Junco, do Galo Branco, do Juju, do Edivirge, ou melhor, no “Duvige,” como era chamado, e em outros poucos lugares. Essa água variava de cor e de sabor: a mais clara sempre era mais salobra; a mais doce era “leitosa”, ou seja, enlameada.

Essa água era transportada em grandes cabaças ou latas de querosene assentadas na cabeça das mulheres, sobre uma “rodilha” de pano; os homens costumavam levá-la em duas latas penduradas nas extremidades de uma vara atravessada sobre o ombro forrado; ou surgia a figura do jumento transportando-a em quatro barris de madeira pendurados à cangalha com ganchos de ferro. Era uma carga bastante pesada, mas o pobre animal se acostumava tanto com o ofício que aprendia o caminho percorrido muitas vezes ao dia e podia-se soltá-lo que fazia o percurso sem ninguém tangê-lo.

Seu Catarino também tinha uma “aguada” que era seu meio de vida. Ela ficava próxima de sua casa a uns cinco quilômetros da cidade e era dividida ao meio por uma cerca rala de madeira. Negro bonito de boa estatura seu Catarino era uma figura simpática, atenciosa e de boa conversa. Todo mundo na cidade o conhecia e respeitava

Cedo da manhã ele arreava seu jumento, pegava os barris e mergulhava-os no barreiro, sempre no mesmo lado da aguada, fazendo bolhas de ar subirem ao mesmo tempo em que os enchia do precioso líquido. O bom homem ia todos os dias mais de uma vez a pé, tangendo o seu jumento e assobiando, vender água na cidade.

A água do Catarino era das melhores que existia na região: não era salgada e nem muito leitosa e tinha uma freguesia certa dentre as famílias mais abastadas da cidade. Ela dispensava o uso da pedra-ume tão usada naquele tempo para “cortar a água”, isto é, para decantar a lama, mas que deixava um sabor travoso no líquido a ser bebido.

Certo dia, ao voltar para casa tangendo seu jumentinho, o vendedor de água deparou-se com uma cena que o tirou do sério: um grupo de rapazes, filhos dos cidadãos a quem ele vendia água, estava ali na sua aguada tomando banho e fazendo a maior algazarra. Suas roupas e alpercatas estavam jogadas sobre os lajedos a pouca distância, onde de certo eles iriam levar sol para secar-se ao terminar o lazer.

Seu Catarino, conhecido como um homem pacífico, não conteve a raiva. Aquilo era uma afronta. Como aquelas criaturas podiam fazer tamanha perversidade com a preciosa água de beber? Não quis nem saber quem eram aqueles elementos. Correndo para o barreiro, juntou seus pertences e os atirou bem longe gritando:

- Seus filhos de uma mãe, vocês não viram a cerca, não?! Podem banhar do lado de lá que eu não me importo; do lado de cá, não senhor, que é a água de beber!

No outro dia estava seu Catarino na cidade desculpando-se com os pais dos infratores pela maneira como falou, mas ao mesmo tempo fazendo queixa do comportamento deles.

E... pelo que conheço daqueles cidadãos sei que devem ter dado uma sova bem grande nos malandros.

Naquela época os pais ainda não tinham perdido o direito de fazer as correções necessárias.

Amenália Macêdo

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