Os últimos
fatos envolvendo o prefeito Herculano mostram a
política como ela é. De salvador da pátria,
Herculano se vê agora com seu mandato arriscado. O
STJ o julgou culpado pela não-prestação de contas
da sua primeira gestão. Os vereadores aprovaram
seu afastamento. Alguns velhos aliados pedem que
ele renuncie. Herculano está sozinho!
Dos anos
90 para cá o Padre Herculano é pessoa emblemática
em São Raimundo Nonato. O sanraimundense que
retornou à cidade trazendo na bagagem muito
conhecimento, fez do seu ofício de pastor uma
forma de mobilizar um povo inerte. Suas homílias
cheias de sabedoria incomodaram e entusiasmaram
muitos sanraimundenses.
Do altar
para os palanques políticos foi um pulo. Os
sanraimundenses viram no Padre Herculano o homem
certo para enfrentar as caducas oligarquias. Ele
não se furtou ao combate. Como político tocou nas
feridas dos poderosos. Assim, Padre Herculano se
tornou a voz de muitos sanraimundenses oprimidos.
Os
seguidores do Padre Herculano se avolumaram. Em
todos os lugares ele colhia adeptos. Já não era
mais a fé no pastor que atraia, mas a crença no
líder político. O dom do carisma estava em suas
falas e gestos. Tais ingredientes tornaram o Padre
Herculano no primeiro candidato a furar o bloqueio
das elites políticas da região. Não só candidato,
mas prefeito eleito.
Com o
Padre Herculano a política sanraimundense adquiriu
mais cores. Seu primeiro mandato trouxe novidades.
Todavia, isso não foi suficiente para que ele se
reelegesse. A antiga oligarquia retomou o poder.
Mesmo assim, a cada eleição seu nome estava no ar.
O padre tinha deixado um legado não em obras
físicas necessariamente, mas em transformações nas
mentalidades de parcela dos sanraimundenses.
O Padre
Herculano protagonizou diversos dramas políticos.
Ora colocado como o herói para recompor grupos
políticos fragmentados. Ora, como estorvo por ter
muitos seguidores. Com efeito, ele se tornou um
mito da política local. A política sanraimundense
não era mais pensada sem a referência do seu nome.
Tudo isso
fez do padre novamente prefeito. Numa eleição
acirrada mais uma vez ele destronou as
oligarquias. Só ele seria capaz de tal feito, pois
nenhum outro possuía condições de atrair os
interesses dispersos. Entretanto, não bastava
vencer a eleição, tinha de convencer a justiça
também. O fantasma das contas não-aprovadas
voltou. No entanto, o TSE concedeu o direito de
ele ser prefeito.
O Padre
Herculano assumiu com o alinhamento do governo
local, estadual e federal. Ele estava no nirvana
dos prefeitos. Todavia, isso não passou de lindos
sonhos dourados (LDS), cujos efeitos prazerosos
duraram pouco. Já no iniciar da gestão os
interesses particulares falaram mais alto,
porquanto cada grupo cobrou sua parte do apoio
concedido à época da eleição. Padre Herculano,
portanto, começou um mandato sem coesão.
As
decisões do STJ e da Câmara de Vereadores de São
Raimundo sobre a perda do mandado decorrem dessa
falta de apoio. A pressão contra o prefeito
Herculano veio de todos os lados, inclusive de seu
vice-prefeito, que há tempos está sedento para
ocupar o comando da prefeitura. O mandato do Padre
Herculano está por fio mais uma vez.
A despeito
de tais eventos, o nome do Padre Herculano
representa um período em que a política
sanraimundense tinha esperança. Nesse período,
discutir a política era se entusiasmar. Era falar
de coração sobre como a política pode melhorar a
vida das pessoas. Era ver num partido político o
meio se tornar realmente cidadão. A política tinha
ideologia.
Hoje isso
não existe. O que se vê é a mera politicagem. De
um lado, a luta frenética por cargos e recursos
públicos. De outro, partidos políticos que só
representam os interesses de alguns. É uma
política vazia, fria e imediatista que visa
atender demandas privadas em vez de valores
comunitários. Faltam ideologias para se poder
viver.
Sem
ideologias a política não tem sentido. É a
ideologia que é capaz de conectar o passado com o
futuro. É ela que faz homens sonharem com um mundo
melhor e lutarem para tornar isso realidade. Sem
ideologias a política cai na banalização. É nesse
triste estágio que se encontra a política
sanraimundense.
Sem
atribuir valor à figura do Padre Herculano, o que
se tem é que sem ele a política sanraimundense se
torna mais pragmática. Em algum momento ele nutriu
a política com ideologias. Contudo, será que
acabou a era do padre? É cedo para tal afirmativa,
porque na política é possível ressuscitar várias
vezes. O próprio padre já teve essa experiência.
Seja qual
for o futuro da política sanraimundense, com ou
sem Padre Herculano, o que ela deve reencontrar é
a ideologia. Faltam pessoas com comprometimentos
ideológicos pela cidade de São Raimundo. Assim, a
porta está aberta aos desbravadores, mas não sem
pedras pelo caminho.
Alexandre
Pereira da Rocha
Cientista político