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Relatos...

      

MARCOS OLIVEIRA DAMASCENO, 27 ANOS, ESCRITOR, CRONISTA, MEMORIALISTA, HISTORIADOR. NATURAL DE DOM INOCÊNCIO – PI. DOUTORANDO EM FILOSOFIA POLÍTICA, PELA INTERNATIONAL UNIVERSITY OFF CAMBRIDGE.


Ambulância do povão

marcosdamasceno23@yahoo.com.br


Mais uma história do automobilismo na região. A chegada de uma ambulância (projetada e apropriada) para o transporte de doentes de certo município da nossa região. Não sei se foi a primeira da região, sei mesmo é que causou um alvoroço danado na cidade, teve impacto social muito grande.

 

A novidade abalou a pacata cidade. Ao ser anunciada a sua compra por parte do gestor municipal, o povo festejou de alegria. O transporte de doentes, até então, era precário e com condições desumanas. E olhe que a ambulância adquirida nem era tão boa, nem era lá essas coisas, existiam alguns problemas: pequena, apertada, o teto baixo e sem ar condicionado. Mas tinha um aparelho toca-fita na cabine. Rolava só Amado Batista.

 

Na chegada da ambulância à cidade ocorreu uma grande festa. Grande multidão. As pessoas quando moram num lugar isolado alegram-se com qualquer adjunta (reunião de gente). Até mesmo com um enterro (sepulto de uma pessoa). O fato, é que a ambulância, assim como tudo nessa vida, tinha seus elogiadores e seus críticos. Muitos a viam como um avanço significativo no socorro às pessoas doentes. Já outros, como um retrocesso, um transporte ruim, pior do que o pau de arara. “Eu mesmo não, que não viajo nessa porqueira (a ambulância). Prefiro a C-10 do Joãozinho. Todo mundo que viaja nela falta é morrer de vomitar”, sentenciava Dona Maroca. Essa adorava uma picuinha. Já Seu Zezinho da Lagoa das Emas, bajulador do prefeito, fazia propaganda do novo transporte: “Ave Maria, um carro deste é bom demais! Uma maravilha. Só gente besta que fala mal. Tem gente pra tudo nessa vida.”

 

Só pelo simples fato de ser na sombra o transporte de doentes, o povo já comemorou. Antes a ambulância era um pau de arara, na maioria das vezes uma C-10 (da Chevrolet) ou uma F-75 (da Ford). Mas o primeiro transporte utilizado pra tudo foi o Jeep (da Willys). O fato, é que só em ser adesivada com o nome “Ambulância” já era o suficiente para caracterizar um transporte apropriado para os doentes.

 

A novidade foi pra boca do povo. Pau de arara nem pensar. Era a pedida da moda no posto de saúde, não havia hospital na cidade. Viagens e mais viagens. Não parava de rodar. “Tanto que quando voltava de uma viagem, a poeira da ida não havia baixado ainda”, contou-me seu Dudu (na época, o secretário de saúde). A bem da verdade, o povo foi sempre socorrido pela nova ambulância. Um motorista exclusivo para a função, de nome Constantino. Um sujeito baixinho. Gente boa. Mas muito agitado. Além de fofoqueiro, pois era o informante do prefeito (fuxiqueiro todo). Tanto, que inventaram uma estória com ele. Fala-se que certa ocasião, em 1979, estava levando uma pessoa doente para Teresina-PI, e ao chegar a Canto do Buriti-PI avistou uma multidão. Havia acontecido um acidente à beira da rodovia. Ele, muito curioso (normalmente fofoqueiro é curioso demais) queria ver rapidamente, pois teria que continuar sua urgente viagem. Mas não conseguia, pois era baixinho e as pessoas não abriam espaço pra ele ir até o local (no meio da multidão). Foi quando teve uma brilhante ideia, e gritou: “Saiam da frente, que chegou o irmão da vítima. Preciso vê-lo.” Nisso todos abriram passagem para ele aproximar-se do morto. E se deparou com um jumento que havia sido atropelado por um caminhão (carreta). Curiosidade demais atrapalha.

 

Tinha o pé pesado ao dirigir. Corria demais. Cá pra nós, matou muito animal nas estradas, com suas carreiras. E não faltava carne na sua casa. Nunca matou um jumento. Era só bode ou ovelha. Menino esperto. As pessoas reclamavam muito, diziam que ficavam tontas na viagem. Na verdade, ninguém viajava mais do que um 1 km nela, na parte de trás, sem vomitar. Pelo fato de não ter ar condicionado não podia fechar os vidros. E abertos, entrava uma poeira danada.

 

Um fato inusitado. Numa viagem para Remanso - BA, o paciente (o doente) não dispunha de acompanhante. Mas pela gentileza e solidariedade do povo do interior, seu vizinho Pedrinho do Jó se prontificou a ir. Justificou que além de servir ao amigo, queria conhecer a cidade baiana. Nunca havia ido a lugar nenhum. Só conhecia o seu município. Foram. O motorista botou uma fita do Amado Batista e largou o pé na estrada. Logo nos primeiros quilômetros o acompanhante do paciente dava com a mão pra parar. O motorista não via, não olhava no retrovisor. O carro dava cada pinote. Quase morre de vomitar na estrada. A ambulância era branca, mas chegou marrom (dos vômitos) a Remanso – BA.

 

Chegado lá, socorro imediato. A enfermeira perguntou para o motorista: “Quem é o doente?” Pedrinho do Jó (o acompanhante), se antecipou e disse: “Quando saímos de lá era só ele (apontou para o doente). Mas agora é ele e eu. Quero que a senhora interne nós dois.” Assim aconteceu. Os dois foram internados. E a princípio, Pedrinho do Jó estava bem. Mas pelas condições da viagem ficou pior de saúde do que seu amigo. Voltou muito depois. Ambulância na volta? Nem pensar. Mandou um recado para seu filho ir com um burro buscar-lhe. E turrava: “Deus me livre de andar naquele troço! Quero é distância. Aquilo é transporte de gente.”

 

 Outro fato, a morte de Zezão em São Raimundo Nonato-PI. Um sujeito grande e nojento. Era intrigado do povo quase todo do município. Inclusive do Constantino, o motorista da ambulância. Foi pra lá se consultar, mas no carro da feira. E teve que ficar internado. Dias depois acabara falecendo. A ambulância estava lá, e o motorista foi comunicado (recebeu a ordem) que teria que trazer o defunto.

 

Constantino, que andava só, xingou muito ao saber da missão. O defunto também estava só. “Tão ruim que nem acompanhante tem”, disse o motorista. Somente os dois viriam. Procurou uma pessoa pra trazer como companhia (contra alma), rodou a cidade toda (pra cima e pra baixo) e não encontrou. E dizia chateado: “Isso só pode ser castigo.” Logo escureceu. Foi pegar o defunto no hospital, que já estava todo arrumado (no caixão e com roupa nova). Colocou o caixão na ambulância, que não o comportou. Ficou sem poder fechar a porta. O Zezão era um homem grande e a ambulância, curtinha. Teve que amarrar o caixão, com a porta praticamente aberta. Fechou os vidros da cabine, travou as portas, botou a fita de Amado Batista, e partiu rumo a sua cidade. Carreira medonha, com medo da alma do defunto (seu intrigado). Pense num medo, num arrocho. Situação complicada para Constantino.

 

Olha só o que aconteceu. O caixão caiu na estrada. O motorista não ouviu, mas sentiu o impacto do peso da sua queda. E parou na frente. Pegou a lanterna pra olhar, mas cadê a coragem? Até que teve coragem, e se atreveu a conferir. Não é que o defunto havia caído. Num lugar muito isolado, longe de casas. Constantino disse desesperadamente: “Não é possível um negócio desse acontecer. E agora? Como vou pegar este caixão?” Matutou por alguns minutos o que faria. Pensou em tudo, depois em nada. Até que partiu de pé na estrada, de volta, com a lanterna, pra ver se encontrava o caixão. Estava lá o caixão aberto e Zezão estirado no chão, todo arrumadinho. Na queda, o caixão abriu-se e o defunto caiu fora.

 

O motorista ficou num dilema. “E agora? Nem tenho coragem de pegar este cretino, e nem posso chegar lá sem ele.” Seus familiares aguardando na cidade a sua chegada. Pense num arrocho. Chamou por todos os Santos que pôde lembrar. Fico ali, imaginando a vida e o episódio. Até que deu um grito enorme (de raiva, impaciência e revolta), igual ao do Tarzan, chega tremeu o pé da serra próxima. Saiu na carreira, rumo ao defunto, e num tempo recorde, numa rapidez inacreditável, açoitou o defunto no caixão e fechou. “Não deu tempo nem de ver o rosto do desgraçado”, disse mais tarde a um amigo. O medo maior dele seria ver o Zezão. Deu uma respirada, aliviado, e gritou: “Esse dia foi lascar!” Abraçou o caixão, colocou-o de volta no carro. E seguiu viagem.

 

Por muito tempo, somente ele sabia dessa história. Certa época contou o acontecimento a um amigo, que espalhou para um monte de gente, inclusive pro Gilberto Dias, que me contou. Hoje é assunto de uma de minhas crônicas. O fato, é que o povo ficou bom, e Dudu (o secretário de saúde) foi quem adoeceu. De tanta demanda e responsabilidade.

 

A aposentadoria da ‘ambulância do povo’ ocorreu com a chegada das ambulâncias do SAMU. Hoje temos um grande desafio na saúde do nosso Piauí: a sua regionalização. Implica isso em organização e administração regional. Uma estrutura regional (em São Raimundo Nonato-PI) para servir de suporte aos municípios traria mais conforto para as pessoas. Diminuiria distâncias e o sofrimento da nossa gente. Saúde mais eficiente e mais próxima.

 

Por fim, dizer que esta crônica é também um tributo ao Constantino (já falecido), pelo seu trabalho essencial à sociedade e muito presente na memória coletiva, como o motorista da ambulância. Foi meu amigo, o conheci através de Gilberto Dias. Mas ele não era mais motorista da ambulância, e sim de um caminhão. Guardo sua lembrança na minha mente. Das nossas conversas.

 

Marcos Oliveira Damasceno
Escritor, doutorando em Filosofia Política
Dom Inocêncio-PI, 29 de novembro de 2010

 

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