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Mais uma história do
automobilismo na região. A
chegada de uma ambulância
(projetada e apropriada) para o
transporte de doentes de certo
município da nossa região. Não
sei se foi a primeira da
região, sei mesmo é que causou
um alvoroço danado na cidade,
teve impacto social muito
grande.
A novidade abalou a pacata
cidade. Ao ser anunciada a sua
compra por parte do gestor
municipal, o povo festejou de
alegria. O transporte de
doentes, até então, era
precário e com condições
desumanas. E olhe que a
ambulância adquirida nem era
tão boa, nem era lá essas
coisas, existiam alguns
problemas: pequena, apertada, o
teto baixo e sem ar
condicionado. Mas tinha um
aparelho toca-fita na cabine.
Rolava só Amado Batista.
Na chegada da
ambulância à cidade ocorreu uma
grande festa. Grande multidão.
As pessoas quando moram num
lugar isolado alegram-se com
qualquer adjunta (reunião de
gente). Até mesmo com um
enterro (sepulto de uma
pessoa). O fato, é que a
ambulância, assim como tudo
nessa vida, tinha seus
elogiadores e seus críticos.
Muitos a viam como um avanço
significativo no socorro às
pessoas doentes. Já outros,
como um retrocesso, um
transporte ruim, pior do que o
pau de arara. “Eu mesmo
não, que não viajo nessa
porqueira (a ambulância).
Prefiro a C-10 do Joãozinho.
Todo mundo que viaja nela falta
é morrer de vomitar”,
sentenciava Dona Maroca.
Essa adorava uma picuinha. Já
Seu Zezinho da Lagoa das
Emas, bajulador do prefeito,
fazia propaganda do novo
transporte:
“Ave Maria, um
carro deste é bom demais! Uma
maravilha. Só gente besta que
fala mal. Tem gente pra tudo
nessa vida.”
Só pelo simples fato de ser na
sombra o transporte de doentes,
o povo já comemorou. Antes a
ambulância era um pau de arara,
na maioria das vezes uma C-10
(da Chevrolet) ou uma F-75 (da
Ford). Mas o primeiro
transporte utilizado pra tudo
foi o Jeep (da Willys).
O fato, é que só em ser
adesivada com o nome
“Ambulância” já era o
suficiente para caracterizar um
transporte apropriado para os
doentes.
A novidade foi pra boca do
povo. Pau de arara nem pensar.
Era a pedida da moda no posto
de saúde, não havia hospital na
cidade. Viagens e mais viagens.
Não parava de rodar.
“Tanto que quando voltava de
uma viagem, a poeira da ida não
havia baixado ainda”,
contou-me seu Dudu (na
época, o secretário de saúde).
A bem da verdade, o povo foi
sempre socorrido pela nova
ambulância. Um motorista
exclusivo para a função, de
nome Constantino. Um
sujeito baixinho. Gente boa.
Mas muito agitado. Além de
fofoqueiro, pois era o
informante do prefeito
(fuxiqueiro todo). Tanto, que
inventaram uma estória com ele.
Fala-se que certa ocasião, em
1979, estava levando uma pessoa
doente para Teresina-PI, e ao
chegar a Canto do Buriti-PI
avistou uma multidão. Havia
acontecido um acidente à beira
da rodovia. Ele, muito curioso
(normalmente fofoqueiro é
curioso demais) queria ver
rapidamente, pois teria que
continuar sua urgente viagem.
Mas não conseguia, pois era
baixinho e as pessoas não
abriam espaço pra ele ir até o
local (no meio da multidão).
Foi quando teve uma brilhante
ideia, e gritou: “Saiam
da frente, que chegou o irmão
da vítima. Preciso vê-lo.”
Nisso todos abriram
passagem para ele aproximar-se
do morto. E se deparou com um
jumento que havia sido
atropelado por um caminhão
(carreta). Curiosidade demais
atrapalha.
Tinha o pé pesado ao dirigir.
Corria demais. Cá pra nós,
matou muito animal nas
estradas, com suas carreiras. E
não faltava carne na sua casa.
Nunca matou um jumento. Era só
bode ou ovelha. Menino esperto.
As pessoas reclamavam muito,
diziam que ficavam tontas na
viagem. Na verdade, ninguém
viajava mais do que um 1 km
nela, na parte de trás, sem
vomitar. Pelo fato de não ter
ar condicionado não podia
fechar os vidros. E abertos,
entrava uma poeira danada.
Um fato inusitado. Numa viagem
para Remanso - BA, o paciente
(o doente) não dispunha de
acompanhante. Mas pela
gentileza e solidariedade do
povo do interior, seu vizinho
Pedrinho do Jó se
prontificou a ir. Justificou
que além de servir ao amigo,
queria conhecer a cidade
baiana. Nunca havia ido a lugar
nenhum. Só conhecia o seu
município. Foram. O motorista
botou uma fita do Amado
Batista e largou o pé na
estrada. Logo nos primeiros
quilômetros o acompanhante do
paciente dava com a mão pra
parar. O motorista não via, não
olhava no retrovisor. O carro
dava cada pinote. Quase morre
de vomitar na estrada. A
ambulância era branca, mas
chegou marrom (dos vômitos) a
Remanso – BA.
Chegado lá,
socorro imediato. A enfermeira
perguntou para o motorista:
“Quem é o doente?”
Pedrinho do Jó (o
acompanhante), se antecipou e
disse: “Quando saímos de
lá era só ele (apontou para o
doente). Mas agora é ele e eu.
Quero que a senhora interne nós
dois.” Assim aconteceu.
Os dois foram internados. E a
princípio, Pedrinho do Jó
estava bem. Mas pelas condições
da viagem ficou pior de saúde
do que seu amigo. Voltou muito
depois. Ambulância na volta?
Nem pensar. Mandou um recado
para seu filho ir com um burro
buscar-lhe. E turrava:
“Deus me
livre de andar naquele troço!
Quero é distância. Aquilo é
transporte de gente.”
Outro fato, a morte de
Zezão em São Raimundo
Nonato-PI. Um sujeito grande e
nojento. Era intrigado do povo
quase todo do município.
Inclusive do Constantino,
o motorista da ambulância. Foi
pra lá se consultar, mas no
carro da feira. E teve que
ficar internado. Dias depois
acabara falecendo. A ambulância
estava lá, e o motorista foi
comunicado (recebeu a ordem)
que teria que trazer o defunto.
Constantino,
que andava só, xingou muito ao
saber da missão. O defunto
também estava só. “Tão
ruim que nem acompanhante tem”,
disse o motorista. Somente os
dois viriam. Procurou uma
pessoa pra trazer como
companhia (contra alma), rodou
a cidade toda (pra cima e pra
baixo) e não encontrou. E dizia
chateado: “Isso só pode
ser castigo.”
Logo escureceu. Foi pegar o
defunto no hospital, que já
estava todo arrumado (no caixão
e com roupa nova). Colocou o
caixão na ambulância, que não o
comportou. Ficou sem poder
fechar a porta. O Zezão
era um homem grande e a
ambulância, curtinha. Teve que
amarrar o caixão, com a porta
praticamente aberta. Fechou os
vidros da cabine, travou as
portas, botou a fita de
Amado Batista, e partiu
rumo a sua cidade. Carreira
medonha, com medo da alma do
defunto (seu intrigado). Pense
num medo, num arrocho. Situação
complicada para Constantino.
Olha só o que aconteceu. O
caixão caiu na estrada. O
motorista não ouviu, mas sentiu
o impacto do peso da sua queda.
E parou na frente. Pegou a
lanterna pra olhar, mas cadê a
coragem? Até que teve coragem,
e se atreveu a conferir. Não é
que o defunto havia caído. Num
lugar muito isolado, longe de
casas. Constantino disse
desesperadamente: “Não é
possível um negócio desse
acontecer. E agora? Como vou
pegar este caixão?”
Matutou por alguns minutos o
que faria. Pensou em tudo,
depois em nada. Até que partiu
de pé na estrada, de volta, com
a lanterna, pra ver se
encontrava o caixão. Estava lá
o caixão aberto e Zezão
estirado no chão, todo
arrumadinho. Na queda, o caixão
abriu-se e o defunto caiu fora.
O motorista ficou num dilema.
“E agora? Nem tenho
coragem de pegar este cretino,
e nem posso chegar lá sem ele.”
Seus familiares aguardando na
cidade a sua chegada. Pense num
arrocho. Chamou por todos os
Santos que pôde lembrar. Fico
ali, imaginando a vida e o
episódio. Até que deu um grito
enorme (de raiva, impaciência e
revolta), igual ao do Tarzan,
chega tremeu o pé da serra
próxima. Saiu na carreira, rumo
ao defunto, e num tempo
recorde, numa rapidez
inacreditável, açoitou o
defunto no caixão e fechou.
“Não deu tempo nem de ver o
rosto do desgraçado”,
disse mais tarde a um amigo. O
medo maior dele seria ver o
Zezão. Deu uma respirada,
aliviado, e gritou: “Esse
dia foi lascar!”
Abraçou o caixão, colocou-o de
volta no carro. E seguiu
viagem.
Por muito tempo, somente ele
sabia dessa história. Certa
época contou o acontecimento a
um amigo, que espalhou para um
monte de gente, inclusive pro
Gilberto Dias, que me
contou. Hoje é assunto de uma
de minhas crônicas. O fato, é
que o povo ficou bom, e Dudu
(o secretário de saúde) foi
quem adoeceu. De tanta demanda
e responsabilidade.
A aposentadoria da ‘ambulância
do povo’ ocorreu com a chegada
das ambulâncias do SAMU. Hoje
temos um grande desafio na
saúde do nosso Piauí: a sua
regionalização. Implica isso em
organização e administração
regional. Uma estrutura
regional (em São Raimundo
Nonato-PI) para servir de
suporte aos municípios traria
mais conforto para as pessoas.
Diminuiria distâncias e o
sofrimento da nossa gente.
Saúde mais eficiente e mais
próxima.
Por fim, dizer que esta crônica
é também um tributo ao
Constantino (já falecido),
pelo seu trabalho essencial à
sociedade e muito presente na
memória coletiva, como o
motorista da ambulância. Foi
meu amigo, o conheci através de
Gilberto Dias. Mas ele
não era mais motorista da
ambulância, e sim de um
caminhão. Guardo sua lembrança
na minha mente. Das nossas
conversas.
Marcos Oliveira Damasceno
Escritor, doutorando em
Filosofia Política
Dom Inocêncio-PI, 29 de
novembro de 2010
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