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As
estórias (ou mentiras, no caso
aqui) fazem parte do nosso
convívio. E até do nosso
folclore. Que o diga Câmara
Cascudo, folclorista:
“Essas estórias constituem um
gênero especial, onde a
imaginação exagerada e livre se
liberta dos limites da lógica.”
É do conhecimento de todos que as
profissões em que mais se
associam mentiras são: de
pescador e de caçador. Isso é
inquestionável. E existem as
mentiras que não agradam às
pessoas, são mentiras “do mal”.
Porém, existem as mentiras “do
bem”. São aquelas que não
afetam, nem ofendem, a ninguém.
Apenas nos alegram.
Pois bem. Seu João, um
senhor do interior do município
de São Raimundo Nonato-PI
ultrapassa, em matéria de
mentira, todos os limites. É um
nato contador de mentiras. E um
mentiroso que não gagueja nem
dar risadas enquanto conta suas
estórias. Se a gente não tomar
cuidado, acaba acreditando.
Muito sério, e não aceita
ninguém rir. Uma vez, um
vereador, meu amigo, disse-me:
“Rapaz, se tiver um campeonato
de mentiras aqui na região,
ninguém ganha do Seu João.”
Um dia, eu estava passando por perto do
‘Posto Guerra’, em São Raimundo
Nonato-PI, e Seu João
estava conversando com o
Gilberto Dias, que também
gostava de contar umas
estórias. E o Gilberto Dias
chamou-me: “Marcos, venha
ouvir uma história (na verdade,
estória) do Seu João.”

Fui. Cheguei pra perto. Não o conhecia.
Percebi logo que se tratava de
um mentiroso invocado. Ele
começou a contar-nos a tal da
história (mentira mesmo),
enrolado todo, um rodeio
danado. Logo vi que era uma
mentira. Daquelas “cabeludas”.
E o Gilberto Dias
disse-me: “Não vá rir,
que ele se zanga.” E
disse bem alto: “Seu João
só fala a verdade!”
Nisso, disparou um mentireiro
sem fim. Logo, comecei a rir.
Não podia. E virei pro
Gilberto Dias, e disse-lhe,
ironizando: “Está rindo
por quê? É verdade.”
Seu João deu pra valente.
Depois perdeu a vergonha. E a
moral. Com o Gilberto Dias
ninguém podia, ele botava a
pessoa pra se abrir.
As mentiras
continuaram a proliferar
naquele cérebro engenhoso.
Passou a
contar-nos outra história
(talvez, estória). Foi à
agência bancária, de São
Raimundo Nonato-PI, com sua
esposa, fazer um cadastro.
Pediram-lhe o CPF (cadastro de
pessoas físicas). E dizendo
ele, começaram a relatar toda a
sua vida (através do CPF).
Segundo ele, acusou tudo lá.
Conversa fiada. Até que teve
que pedir pra eles pararem.
Justificou-nos:
“Estava perto de
descobrirem minhas namoradas.
Já pensou? Minha mulher do
lado. Computador é um bicho
terrível, dá notícia de tudo.”
Como ninguém deu muita importância, pulou
pra outra história (estória, de
novo). Uma viagem que fez ao
Estado de Goiás. Pra lá muita
chuva. Um novo dilúvio. Muitas
enchentes. Tudo mentira.
Segundo ele, água corria alto,
por lá. Foi até surgir o
exagero: “Foi tanta água,
que tinha até sapo pedindo
canoa.” Mas ê! Foi
quando o Gilberto Dias
emendou: “Foi mesmo, Seu
João? Pois aqui está uma seca
danada. Tem vaca dando leite já
em pó, por falta de água. As
vacas do Laércio mesmo, por
contarem com uma estrutura
melhor, o leite já sai
empacotado.” Seu
João não gostou:
“Isso aí é mentira, Gilberto.”
Acabou a graça do rei das
mentiras (Seu João).
Seu João
não contou-nos uma passagem
dessa viagem. Ele foi para uma
festa (lá se chama balada).
Dançou a noite toda com uma
“mulher” (grande, do pé grande
etc.). Já estava num romantismo
danado, arrochando a “mulher”.
Todo mundo olhando. Seu
sobrinho foi quem apresentou a
tal “mulher” para ele. Bonita
toda. Foi quando resolveu puxar
assunto: “Qual o seu
nome, minha querida?” E
a “mulher”: “Aroldo. Mas
pode me chamar de Carmelita.”
Era um travesti. Seu João
tirou um pulo, ficou muito
bravo. “Que safadagem é
esta?”, sentenciou. Seu
sobrinho entrou no meio, e
disse-lhe: “Meu tio, isso
é normal na sociedade de hoje.
É o mundo moderno.” E
ele, no seu conservadorismo, e
até preconceito, revidou:
“Eu
lá quero saber dessa
modernidade! Gosto mesmo é de
muié (mulher).”
Tornamo-nos amigos (eu e Seu João).
Toda vez que se encontra
comigo, quer contar-me uma nova
história (mentira mesmo). Foi
num desses encontros que me
contou uma mentira pesada.
Certo dia, ao acordar e abrir a
porta da sua casa, na sua
propriedade, no município de
Dirceu Arcoverde-PI, avistou
uma bola enorme no terreiro.
Tomou logo um susto. Todos (da
casa) ficaram olhando da
calçada, mas com medo (não
sabiam o que era
verdadeiramente). Seu João,
metido a valente, pegou um
facão e marcou no rumo da bola.
Lá, enfiou o facão nela, com
muita ânsia. E explodiu-a. Foi
um pipoco danado. Da calçada,
os outros perguntaram: “O
que era?” E ele:
“Foi um trovão que caiu sem
explodir.” Depois tudo
foi esclarecido. Nos festejos
do município de Remanso-BA, um
balão (daqueles balões enormes
de divulgação) se soltou, e foi
trazido pelo vento. Parou bem
no terreiro da casa do Seu
João.
Certa vez
Cardoso Ponte, pesquisador,
foi questionado: “Mentira
tem valor?” E ele:
“É claro que sim, tem tanto
valor como a verdade, pois a
mentira é formada por uma
composição entre a verdade
distorcida em comunhão a fatos
simbólicos, antagônicos e
dramáticos. A verdade não vive
sem a mentira nem a mentira tão
pouco consegue sobreviver sem a
verdade, pois ambas não teriam
sentido sem a existência uma da
outra, pois a própria
existência da mentira já por si
é uma verdade.”
Implica-se dizer, porém, que a
mentira é uma matéria abstrata
de uma verdade materializada em
fatos imaginários.
Estou doido pra encontrar-me
com Seu João. Soube de
uma viagem que fez para o
Estado do Pará, com seu filho.
É caminhoneiro. Foi um sucesso
danado. Lá, em Paragominas-PA,
foram dormir. O filho dormiu na
cabine (só cabia um). Seu
João foi armar a rede na
carroceria do caminhão. Sem
experiência, em vez de armar
somente na carroceria do
caminhão do seu filho, armou do
caminhão que andava para o
caminhão do lado, sem saber nem
quem era. E deitou-se. Estava
num sono bom, lá pela
madrugada, quando o
caminhoneiro do lado partiu de
viagem. Ele percebeu Seu
João deitado, mas revoltado
com sua folga não o acordou. O
sono estava tão pesado que nem
ouviu o caminhão funcionando.
Moral da história: o caminhão
partiu de viagem, e a rede do
Seu João acompanhou.
Torou bem no meio. Foi uma
queda feia.
É justo que façamos aqui uma
referência ao Seu João,
um contador de mentiras que nos
alegra. Também nos dá
habilidade, e sabedoria, para a
vida. Gosto dele, não faz mal a
ninguém. Grande amigo do meu
tio Gilberto Dias, e
quero continuar essa amizade
para sempre. Viva Seu João,
nosso professor de estórias
(mentiras)!
Marcos Damasceno
(pesquisador) |