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Relatos...

      

MARCOS OLIVEIRA DAMASCENO, 27 ANOS, ESCRITOR, CRONISTA, MEMORIALISTA, HISTORIADOR. NATURAL DE DOM INOCÊNCIO – PI. DOUTORANDO EM FILOSOFIA POLÍTICA, PELA INTERNATIONAL UNIVERSITY OFF CAMBRIDGE.


Seu João, um contador de mentiras

marcosdamasceno23@yahoo.com.br


          As estórias (ou mentiras, no caso aqui) fazem parte do nosso convívio. E até do nosso folclore. Que o diga Câmara Cascudo, folclorista: “Essas estórias constituem um gênero especial, onde a imaginação exagerada e livre se liberta dos limites da lógica.”

É do conhecimento de todos que as profissões em que mais se associam mentiras são: de pescador e de caçador. Isso é inquestionável. E existem as mentiras que não agradam às pessoas, são mentiras “do mal”. Porém, existem as mentiras “do bem”. São aquelas que não afetam, nem ofendem, a ninguém. Apenas nos alegram.

Pois bem. Seu João, um senhor do interior do município de São Raimundo Nonato-PI ultrapassa, em matéria de mentira, todos os limites. É um nato contador de mentiras. E um mentiroso que não gagueja nem dar risadas enquanto conta suas estórias. Se a gente não tomar cuidado, acaba acreditando. Muito sério, e não aceita ninguém rir. Uma vez, um vereador, meu amigo, disse-me: “Rapaz, se tiver um campeonato de mentiras aqui na região, ninguém ganha do Seu João.”

Um dia, eu estava passando por perto do ‘Posto Guerra’, em São Raimundo Nonato-PI, e Seu João estava conversando com o Gilberto Dias, que também gostava de contar umas estórias. E o Gilberto Dias chamou-me: “Marcos, venha ouvir uma história (na verdade, estória) do Seu João.”

Fui. Cheguei pra perto. Não o conhecia. Percebi logo que se tratava de um mentiroso invocado. Ele começou a contar-nos a tal da história (mentira mesmo), enrolado todo, um rodeio danado. Logo vi que era uma mentira. Daquelas “cabeludas”. E o Gilberto Dias disse-me: “Não vá rir, que ele se zanga.” E disse bem alto: “Seu João só fala a verdade!” Nisso, disparou um mentireiro sem fim. Logo, comecei a rir. Não podia. E virei pro Gilberto Dias, e disse-lhe, ironizando: “Está rindo por quê? É verdade.” Seu João deu pra valente. Depois perdeu a vergonha. E a moral. Com o Gilberto Dias ninguém podia, ele botava a pessoa pra se abrir.

As mentiras continuaram a proliferar naquele cérebro engenhoso. Passou a contar-nos outra história (talvez, estória). Foi à agência bancária, de São Raimundo Nonato-PI, com sua esposa, fazer um cadastro. Pediram-lhe o CPF (cadastro de pessoas físicas). E dizendo ele, começaram a relatar toda a sua vida (através do CPF). Segundo ele, acusou tudo lá. Conversa fiada. Até que teve que pedir pra eles pararem. Justificou-nos: “Estava perto de descobrirem minhas namoradas. Já pensou? Minha mulher do lado. Computador é um bicho terrível, dá notícia de tudo.”

Como ninguém deu muita importância, pulou pra outra história (estória, de novo). Uma viagem que fez ao Estado de Goiás. Pra lá muita chuva. Um novo dilúvio. Muitas enchentes. Tudo mentira. Segundo ele, água corria alto, por lá. Foi até surgir o exagero: “Foi tanta água, que tinha até sapo pedindo canoa.” Mas ê! Foi quando o Gilberto Dias emendou: “Foi mesmo, Seu João? Pois aqui está uma seca danada. Tem vaca dando leite já em pó, por falta de água. As vacas do Laércio mesmo, por contarem com uma estrutura melhor, o leite já sai empacotado.” Seu João não gostou: “Isso aí é mentira, Gilberto.” Acabou a graça do rei das mentiras (Seu João).

Seu João não contou-nos uma passagem dessa viagem. Ele foi para uma festa (lá se chama balada). Dançou a noite toda com uma “mulher” (grande, do pé grande etc.). Já estava num romantismo danado, arrochando a “mulher”. Todo mundo olhando. Seu sobrinho foi quem apresentou a tal “mulher” para ele. Bonita toda. Foi quando resolveu puxar assunto: “Qual o seu nome, minha querida?” E a “mulher”: “Aroldo. Mas pode me chamar de Carmelita.” Era um travesti. Seu João tirou um pulo, ficou muito bravo. “Que safadagem é esta?”, sentenciou. Seu sobrinho entrou no meio, e disse-lhe: “Meu tio, isso é normal na sociedade de hoje. É o mundo moderno.” E ele, no seu conservadorismo, e até preconceito, revidou: “Eu lá quero saber dessa modernidade! Gosto mesmo é de muié (mulher).”

Tornamo-nos amigos (eu e Seu João). Toda vez que se encontra comigo, quer contar-me uma nova história (mentira mesmo). Foi num desses encontros que me contou uma mentira pesada. Certo dia, ao acordar e abrir a porta da sua casa, na sua propriedade, no município de Dirceu Arcoverde-PI, avistou uma bola enorme no terreiro. Tomou logo um susto. Todos (da casa) ficaram olhando da calçada, mas com medo (não sabiam o que era verdadeiramente). Seu João, metido a valente, pegou um facão e marcou no rumo da bola. Lá, enfiou o facão nela, com muita ânsia. E explodiu-a. Foi um pipoco danado. Da calçada, os outros perguntaram: “O que era?” E ele: “Foi um trovão que caiu sem explodir.” Depois tudo foi esclarecido. Nos festejos do município de Remanso-BA, um balão (daqueles balões enormes de divulgação) se soltou, e foi trazido pelo vento. Parou bem no terreiro da casa do Seu João.

Certa vez Cardoso Ponte, pesquisador, foi questionado: “Mentira tem valor?” E ele: “É claro que sim, tem tanto valor como a verdade, pois a mentira é formada por uma composição entre a verdade distorcida em comunhão a fatos simbólicos, antagônicos e dramáticos. A verdade não vive sem a mentira nem a mentira tão pouco consegue sobreviver sem a verdade, pois ambas não teriam sentido sem a existência uma da outra, pois a própria existência da mentira já por si é uma verdade.” Implica-se dizer, porém, que a mentira é uma matéria abstrata de uma verdade materializada em fatos imaginários.

Estou doido pra encontrar-me com Seu João. Soube de uma viagem que fez para o Estado do Pará, com seu filho. É caminhoneiro. Foi um sucesso danado. Lá, em Paragominas-PA, foram dormir. O filho dormiu na cabine (só cabia um). Seu João foi armar a rede na carroceria do caminhão. Sem experiência, em vez de armar somente na carroceria do caminhão do seu filho, armou do caminhão que andava para o caminhão do lado, sem saber nem quem era. E deitou-se. Estava num sono bom, lá pela madrugada, quando o caminhoneiro do lado partiu de viagem. Ele percebeu Seu João deitado, mas revoltado com sua folga não o acordou. O sono estava tão pesado que nem ouviu o caminhão funcionando. Moral da história: o caminhão partiu de viagem, e a rede do Seu João acompanhou. Torou bem no meio. Foi uma queda feia.

É justo que façamos aqui uma referência ao Seu João, um contador de mentiras que nos alegra. Também nos dá habilidade, e sabedoria, para a vida. Gosto dele, não faz mal a ninguém. Grande amigo do meu tio Gilberto Dias, e quero continuar essa amizade para sempre. Viva Seu João, nosso professor de estórias (mentiras)!

Marcos Damasceno

(pesquisador)

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Está coluna é de inteira responsabilidade do colunista Marcos Damasceno