.:":.Portal Sanraimundense.:":. - Entretenimento e Informação.

 

.

   

Relatos...

      

MARCOS OLIVEIRA DAMASCENO, 27 ANOS, ESCRITOR, CRONISTA, MEMORIALISTA, HISTORIADOR. NATURAL DE DOM INOCÊNCIO – PI. DOUTORANDO EM FILOSOFIA POLÍTICA, PELA INTERNATIONAL UNIVERSITY OFF CAMBRIDGE.


O tesoureiro da igreja

marcosdamasceno23@yahoo.com.br


           Numa cidade da região de São Raimundo Nonato-PI, surgiu uma igreja moderna, organizada, inovadora e muito atuante na comunidade. Seus trabalhos envolviam toda a sociedade, e parte dela passou a frequenta-la. Os adeptos foram aumentando cada vez mais.

 

Normalmente, as cidades interioranas têm hábitos tradicionais e conservadores, e quando surge uma novidade mexe com a rotina de vida das pessoas. O impacto é certo. E a nova igreja passou a moldar as pessoas, para uma nova proposta de celebrar os ensinamentos bíblicos. Os idosos e as mulheres representam a maioria dessas pessoas. Com isso, as esposas (e mães) levavam a família toda, iam convidando os familiares e vizinhos; os idosos, da mesma forma.

 

Com ‘Miltinho’ e ‘Ezequiel’ foi diferente (o contrário), eles é que levaram suas famílias. A regra era as mulheres levarem os maridos. ‘Miltinho’, um sujeito muito carismático, amigável, bem relacionado, mas irresponsável. Não servia nem pra dar recado! Já ‘Ezequiel’, era sério e responsável. E a dupla passou a fazer amizade com o novo missionário da igreja. A confiança e a participação nas tarefas da igreja surgiram naturalmente. Os dois, cada um com suas qualidades, eram fundamentais para o crescimento da igreja, na visão do missionário.

 

A igreja ficou enorme, muita gente frequentava-a. Foi ampliada sua estrutura física, várias vezes. E o missionário resolveu eleger uma comissão administrativa para administrá-la. Até aí, tudo bem! Tudo estava indo muito bem, até ocorrer o não aconselhável: o ‘Miltinho’ foi escolhido o seu tesoureiro. E bem votado. O ‘Ezequiel’ ficou com a função de monitor junto à comunidade.

 

Era só entrando dinheiro nos cofres da igreja e aparecendo despesas. E o ‘Miltinho’ “mandando brasa”, pagando tudo. Ficou também muito importante. Muito valorizado. Parecia até ser um sujeito responsável, mas era no empurrão. Sua mulher “pegava no seu pé”: “Vê se não apronta alguma atrapalhada!” Já conhecia o troço, como o chamava sua vizinha. Cada vez mais a igreja crescia, seus projetos se ampliavam e sua atuação se estendia.

 

Estava indo tudo bem, até o ‘Miltinho’ conhecer uma mulher, que o deixou apaixonado. O nome: ‘Lurdinha furacão’. Não era da igreja. Furacão mesmo foi o do ‘Miltinho’, nas finanças da igreja. O tesoureiro apaixonado “pipocou” (gastou) o dinheiro de pagar a energia do mês, com sua paixão. E prosseguiu por quatro meses seguidos. E o desmantelo tomou de conta da sua vida.

 

Nas reuniões da comissão administrativa era sempre indagado pelos membros, pelo pagamento dos compromissos da igreja: “Miltinho, todos os compromissos foram cumpridos?” E ele: “Sim, estão todos em dia!” E as contas de energia sem pagar. A companhia energética só mandando aviso de corte, e o tesoureiro escondendo tudo, até encontrar um jeito de pagar a dívida. E a ‘Lurdinha furacão’ só luxando. Pense numa tentação.

 

No entanto, como a filosofia de vida da igreja que fazia parte cobrava sempre uma boa disciplina, ‘Miltinho’ fez um esforço danado para sair desse desmantelo. E sua mulher sem saber de nada. Resolveu recorrer ao amigo ‘Ezequiel’, seu melhor amigo: “Irmão Ezequiel, estou com um problema...” Contou-lhe tudo. Seu amigo logo quase cai de costa: “Irmão Miltinho, não me diga uma desgraça dessas!” E ele: “É verdade. Preciso da sua ajuda. Mas não conte pra ninguém.” O amigo do tesoureiro prometeu emprestar-lhe um dinheiro para pagar todo o débito. Mas seria só no mês seguinte. E com uma condição: “Agora mocinho (perdeu até a formalidade, chamar de irmão), você não vai mais procurar essa mulher (‘Lurdinha furacão’).” O endividado ‘Miltinho’ aceitou a proposta. Isso tudo enquanto arrumava um dinheiro para pagar seu amigo, pelo dinheiro emprestado.

 

Problema? A qualquer momento, seria cortado o fornecimento da energia da igreja (as contas já estavam quatro meses atrasadas), e o dinheiro do ‘Ezequiel’ só sairia no mês seguinte (na verdade, uma semana após). Pra piorar, o missionário programou um evento enorme para o final de semana, à noite. Na segunda-feira seguinte, seria o dia em que iria pagar tudo. A dívida estava orçada em mais de R$ 1.000,00 (um mil reais). Não tinha como pagar naquele dia. E agora? ‘Miltinho’ disse preocupadamente: “Irmão Ezequiel, estou preocupado (lascado), já pensou se faltar energia no dia do evento (pelo corte do fornecimento)!” Iriam, os membros da igreja, descobrir tudo.

 

Chegou o dia do evento, no sábado. A igreja lotada, e só chegando gente. A energia estava normal. O ‘Miltinho’ não havia chegado. Só que deu uma queda de energia na cidade, e a igreja ficou no escuro. E o tesoureiro chegou já aflito, não sabia que tinha sido geral a queda de energia, imaginou logo ser o corte do fornecimento pela companhia energética. O ‘Ezequiel’ também. Logo disse para o tesoureiro: “Irmão Miltinho, a casa caiu. Seu ato de irresponsabilidade vai ser descoberto.” E o missionário sem entender nada. ‘Miltinho’, carregado pelo senso de culpa, e pelo sentimento de pecaminosidade, tremia as pernas. Faltava era não segurar em pé.

 

De repente, a energia voltou e a igreja ficou toda iluminada. O tesoureiro (irresponsável e pecador) deu um grito entusiasmado, na verdade foi um descarrego de alívio: “Aleluia, irmãos!” Todos olharam para ele, sem entender o motivo de uma invocação tão alta. Virou para o lado, olhou para o ‘Ezequiel’, e cochichou: “Essa, e outra nunca mais!” E o amigo respondeu: “Amém!”

 

‘Miltinho’ corrigiu o erro, normalizou toda a sua vida, resolveu todas as suas pendências, e passou a ter responsabilidade, forçado pelas experiências amargas que vivenciara. E se consagrou o tesoureiro da igreja, onde está até hoje. E com muitos serviços prestados à igreja, e à comunidade.

 

Marcos Damasceno

(pesquisador)

  Página Inicial | Comente esta matéria | Imprimir | Painel de Notícias | Topo

Está coluna é de inteira responsabilidade do colunista Marcos Damasceno