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Numa cidade da região de São
Raimundo Nonato-PI, surgiu uma
igreja moderna, organizada,
inovadora e muito atuante na
comunidade. Seus trabalhos
envolviam toda a sociedade, e
parte dela passou a
frequenta-la. Os adeptos foram
aumentando cada vez mais.
Normalmente, as cidades
interioranas têm hábitos
tradicionais e conservadores, e
quando surge uma novidade mexe
com a rotina de vida das
pessoas. O impacto é certo. E a
nova igreja passou a moldar as
pessoas, para uma nova proposta
de celebrar os ensinamentos
bíblicos. Os idosos e as
mulheres representam a maioria
dessas pessoas. Com isso, as
esposas (e mães) levavam a
família toda, iam convidando os
familiares e vizinhos; os
idosos, da mesma forma.
Com ‘Miltinho’ e
‘Ezequiel’ foi diferente (o
contrário), eles é que levaram
suas famílias. A regra era as
mulheres levarem os maridos.
‘Miltinho’, um sujeito
muito carismático, amigável,
bem relacionado, mas
irresponsável. Não servia nem
pra dar recado! Já
‘Ezequiel’, era sério e
responsável. E a dupla passou a
fazer amizade com o novo
missionário da igreja. A
confiança e a participação nas
tarefas da igreja surgiram
naturalmente. Os dois, cada um
com suas qualidades, eram
fundamentais para o crescimento
da igreja, na visão do
missionário.
A igreja ficou enorme, muita
gente frequentava-a. Foi
ampliada sua estrutura física,
várias vezes. E o missionário
resolveu eleger uma comissão
administrativa para
administrá-la. Até aí, tudo
bem! Tudo estava indo muito
bem, até ocorrer o não
aconselhável: o ‘Miltinho’
foi escolhido o seu tesoureiro.
E bem votado. O ‘Ezequiel’
ficou com a função de monitor
junto à comunidade.
Era só entrando dinheiro nos
cofres da igreja e aparecendo
despesas. E o ‘Miltinho’
“mandando brasa”, pagando tudo.
Ficou também muito importante.
Muito valorizado. Parecia até
ser um sujeito responsável, mas
era no empurrão. Sua mulher
“pegava no seu pé”: “Vê
se não apronta alguma
atrapalhada!” Já
conhecia o troço, como o
chamava sua vizinha. Cada vez
mais a igreja crescia, seus
projetos se ampliavam e sua
atuação se estendia.
Estava indo tudo bem, até o
‘Miltinho’ conhecer uma
mulher, que o deixou
apaixonado. O nome:
‘Lurdinha furacão’. Não era
da igreja. Furacão mesmo foi o
do ‘Miltinho’, nas
finanças da igreja. O
tesoureiro apaixonado “pipocou”
(gastou) o dinheiro de pagar a
energia do mês, com sua paixão.
E prosseguiu por quatro meses
seguidos. E o desmantelo tomou
de conta da sua vida.
Nas reuniões da comissão
administrativa era sempre
indagado pelos membros, pelo
pagamento dos compromissos da
igreja: “Miltinho, todos
os compromissos foram
cumpridos?” E ele:
“Sim, estão todos em dia!”
E as contas de energia sem
pagar. A companhia energética
só mandando aviso de corte, e o
tesoureiro escondendo tudo, até
encontrar um jeito de pagar a
dívida. E a ‘Lurdinha
furacão’ só luxando. Pense
numa tentação.
No entanto, como a filosofia de
vida da igreja que fazia parte
cobrava sempre uma boa
disciplina, ‘Miltinho’
fez um esforço danado para sair
desse desmantelo. E sua mulher
sem saber de nada. Resolveu
recorrer ao amigo ‘Ezequiel’,
seu melhor amigo: “Irmão
Ezequiel, estou com um
problema...” Contou-lhe
tudo. Seu amigo logo quase cai
de costa: “Irmão Miltinho,
não me diga uma desgraça
dessas!” E ele:
“É verdade. Preciso da sua
ajuda. Mas não conte pra
ninguém.” O amigo do
tesoureiro prometeu
emprestar-lhe um dinheiro para
pagar todo o débito. Mas seria
só no mês seguinte. E com uma
condição: “Agora mocinho
(perdeu até a formalidade,
chamar de irmão), você não vai
mais procurar essa mulher (‘Lurdinha
furacão’).” O
endividado ‘Miltinho’
aceitou a proposta. Isso tudo
enquanto arrumava um dinheiro
para pagar seu amigo, pelo
dinheiro emprestado.
Problema? A qualquer momento,
seria cortado o fornecimento da
energia da igreja (as contas já
estavam quatro meses
atrasadas), e o dinheiro do
‘Ezequiel’ só sairia no mês
seguinte (na verdade, uma
semana após). Pra piorar, o
missionário programou um evento
enorme para o final de semana,
à noite. Na segunda-feira
seguinte, seria o dia em que
iria pagar tudo. A dívida
estava orçada em mais de R$
1.000,00 (um mil reais). Não
tinha como pagar naquele dia. E
agora? ‘Miltinho’ disse
preocupadamente: “Irmão
Ezequiel, estou preocupado
(lascado), já pensou se faltar
energia no dia do evento (pelo
corte do fornecimento)!”
Iriam, os membros da igreja,
descobrir tudo.
Chegou o dia do evento, no
sábado. A igreja lotada, e só
chegando gente. A energia
estava normal. O ‘Miltinho’
não havia chegado. Só que deu
uma queda de energia na cidade,
e a igreja ficou no escuro. E o
tesoureiro chegou já aflito,
não sabia que tinha sido geral
a queda de energia, imaginou
logo ser o corte do
fornecimento pela companhia
energética. O ‘Ezequiel’
também. Logo disse para o
tesoureiro: “Irmão
Miltinho, a casa caiu. Seu ato
de irresponsabilidade vai ser
descoberto.” E o
missionário sem entender nada.
‘Miltinho’, carregado
pelo senso de culpa, e pelo
sentimento de pecaminosidade,
tremia as pernas. Faltava era
não segurar em pé.
De repente, a
energia voltou e a igreja ficou
toda iluminada. O tesoureiro
(irresponsável e pecador) deu
um grito entusiasmado, na
verdade foi um descarrego de
alívio: “Aleluia,
irmãos!” Todos olharam
para ele, sem entender o motivo
de uma invocação tão alta.
Virou para o lado, olhou para o
‘Ezequiel’, e cochichou:
“Essa, e outra nunca
mais!” E o amigo
respondeu:
“Amém!”
‘Miltinho’
corrigiu o erro, normalizou
toda a sua vida, resolveu todas
as suas pendências, e passou a
ter responsabilidade, forçado
pelas experiências amargas que
vivenciara. E se consagrou o
tesoureiro da igreja, onde está
até hoje. E com muitos serviços
prestados à igreja, e à
comunidade.
Marcos Damasceno
(pesquisador) |