.:":.Portal Sanraimundense.:":. - Entretenimento e Informação.

 

.

   

Relatos...

      

MARCOS OLIVEIRA DAMASCENO, 27 ANOS, ESCRITOR, CRONISTA, MEMORIALISTA, HISTORIADOR. NATURAL DE DOM INOCÊNCIO – PI. DOUTORANDO EM FILOSOFIA POLÍTICA, PELA INTERNATIONAL UNIVERSITY OFF CAMBRIDGE.


Além das palavras

marcosdamasceno23@yahoo.com.br


          Desde criança ouvi esta frase do meu avô Joaquim Rodrigues Damasceno: “Gosto de pessoas de ação!” Quem não conhece a frase célebre: “Um quadro vale por mil palavras.” Uma obra e/ou realização é além de palavras. Dá até respaldo para o autor. A terceira frase é: “Na vida não podemos ter dois defeitos: medo e preguiça.”

 

(Meu avô Joaquim Damasceno, recebendo a Medalha]

 “Ordem Estadual do Mérito Renascença do Piauí”, Grau “Cavaleiro”, das

mãos do então  governador Wellington Dias, pelos seus 67 anos

de vida pública/Oeiras – PI, 2010. Eu ao seu lado).

 

 

Modéstia a parte, fui moldado por estas três frases, que passaram a fazer parte de minha vida. Não milito através de falácias, mas de ação. Incomoda-me a demagogia da falsa indignação, ou então, da indignação sem ação. Também o idealismo e o julgamento de pessoas que nada constroem ou realizam. Muitos têm boca, mas silenciam; têm olhos, e não querem enxergar; têm indignação, mas nunca agem ou reagem; têm sonhos, mas não lutam pela realização, ficam só arrumando desculpas ou sonhando sem nenhuma ação.

 

“Ninguém é incompetente”, dizia o sábio Tancredo Neves, ex-presidente da República Federativa do Brasil. A incompetência para fazer coisas boas é injustificável, inadmissível. O que existe é má vontade ou falta de desejo. Como existe a competência para fazer coisas ruins, erradas! Há ainda os fracassados e pessimistas, que ficam de plantão agourando as coisas dos outros (torcendo pelo pior), ou as outras pessoas. Ora por inveja, ora por incômodo (“dor de cotovelo”). Mas inveja ruim (aquela que não se quer pra ninguém). Existe a inveja boa (aquela que se deseja ter ou ser também, assim como o próximo).

 

Na vida é difícil agradar. Isso é muito relativo. Surgem logo alguns questionamentos: “Agradar a quem? E como? Do meu jeito? Ou do jeito dele?” A felicidade pessoal é incompleta e egoísta, é justa e necessária a felicidade social. Ensinaram-me assim. Realizamo-nos melhor quando vemos as pessoas ao nosso redor realizadas. O mundo assim é sempre melhor. E o pior disso tudo é que aproveitamos melhor a vida quando somos infelizes. Desfrutamos melhor as coisas. Parece até que a felicidade tem um problema: limita! Só sei que o que se perde em conforto físico, lutando e batalhando nessa vida, se ganha em conforto mental, pelo sentimento de dever cumprido. Ou ao menos, pela certeza de que tentamos, de que fizemos algo, fizemos nossa parte. Assim cumpriremos nossas missões e deixamos nossa contribuição social.

 

Civilidade demais não é bom. Traz acomodação e resignação. “Os problemas não inevitáveis, mas ser derrotado por eles é opcional.” (Fernando Pessoa). Os problemas não nos derrotam sem nosso consentimento. E a vivência (e convivência) com problemas é sempre uma oportunidade de aprendizagem, e até de entretenimento. Temos que aprender a conviver com os problemas, e tirar as lições das suas experiências. Sempre existirá um problema na nossa vida, quando mexemos aqui e acolá. Aparece sempre algo pra ser resolvido.

 

A vida sem problema não tem graça nem aprendizado. Evita desconforto, sofrimento, angústia, raiva, tristeza etc., porém, dessa maneira, não teremos (e não seremos) nada nessa vida. Resumindo: onde há o conforto, há normalmente acomodação. Quando já temos algo ou somos alguma coisa, normalmente nos acomodamos e não almejamos mais nada. Ou pouca coisa, sonho pequeno. Da mesma forma, onde há desconforto há também agitação. Isso é bom. Temos que sonhar, querer, lutar. Se sonho matasse, estaria morto. Sonho sempre. Mas luto pela realização de meus sonhos. Se eu quero, vou atrás do que quero. Não fico inventando desculpa ou criando dificuldade. Também não espero pelos outros para realizar meus sonhos, nem culpo ninguém pelo meu fracasso. Busco parcerias e alianças, pois ninguém atinge o sucesso, ou vive a vida, sozinho. Digo isso sem falsa modéstia.

 

Em suma, gosto de ação. Mas com planejamento. Uma das melhores lições no episódio da Independência do Brasil foi a rapidez com que foi feita. Isso é que é atitude! Atitude planejada. Imagine se fosse hoje, far-se-ia uma reunião para deliberar problemas e resolvê-los. Seria como sempre: entrar-se-ia com nove problemas, e sair-se-ia com dez. Fazia era aumentar os problemas. Sempre me lembro da frase de Luís Veríssimo: “Democracia é boa, mas excesso atrapalha.” Em regra, sempre surge a subjetividade, acompanhada da falta de ação. Não estou defendendo a ditadura ou a desordem, mas a ordem e a ação. Dom Pedro I calou muita gente que o considerava fraco, sem atitude.

 

Vivemos numa sociedade competitiva, qualquer fracasso passa a figurar na imagem do fracassado. Poucos perdoam ou compreendem. Principalmente os fracassados por natureza, que querem uma desculpa para continuar fracassados. Já os fracassados pela luta não são, na verdade, fracassados, e sim, vitoriosos. Nem sempre conseguimos as coisas de uma vez, temos que persistir. Não podemos criar trauma, e ficarmos sem tentar novamente. Desculpe-me se grosseiro estiver sendo. Mas é o desgaste de vivência, e convivência, numa vida em que parece uma selva competitiva. Também, muitos não se contentam com pouca coisa, querem é muito. Isso já passa a ser um problema também. É egoísmo puro. E a ‘Lei da Selva’, a lei do mais forte (no caso aqui, do mais poderoso), deixa sequela sempre. Quer diretamente, quer indiretamente. Sendo otimistas, podemos dizer sempre que nem tudo está perdido; sendo pessimistas, afirmamos sem cessar que ainda temos o que perder.

 

Tudo é complicado nessa vida. A Justiça, por exemplo, sofre o peso maior disso. Muitos que recorrem a ela se queixam dela. Outros se recusam recorrer a ela. Ora por falha dela, temos que confessar isso, que demonstra ser incapaz ou influenciada; ora por falha de quem recorre a ela, querendo apenas formalizar sua decisão, querendo uma Justiça pop ou como um serviço público que deve fazer “a minha vontade”, e esquecer-se de ser justa. É oportuno aqui lembrar duas frases:

 

A primeira frase tem conotação de resignação, é como que estivesse dizendo: não mexa em nada, deixe tudo como está. A segunda frase tem conotação de indignação, é como que estivesse dizendo: vá à luta sempre! E nessa empreitada de irmos à luta sempre, surge uma constatação: os sonhos considerados grandes não são grandes, se o nosso potencial for suficiente. Passam a ser realizáveis, restando apenas a ação. São relativos à sua potencialidade de realizá-los. Como também, os sonhos pequenos não são insignificantes, se houver grandeza. Ser pequeno com grandeza é melhor do que ser grande sem grandeza. Sonhos são sempre bem-vindos. E sonhos sociais mais ainda. Agora, numa visão bem prática, sonho não deve ser imaginação. Sonhar é detectar projetos e buscar suas realizações. Devemos fazer com que os conflitos resultem em somas positivas. Divergências são inevitáveis, até mesmo rompimentos. O que devemos fazer é usar os meios bons para produzir fins também bons.

 

Pra finalizar, tenho que dizer, é até um desabafo, que ainda somos muito acomodados e conformados, em regra, enquanto povo e lugar. Nossos sonhos e projetos estão aquém dos nossos potenciais. Podemos muito mais. Portanto, vamos querer mais. E melhor. Deixar de lado esse costume de ficarem só avaliando os outros, como muitos, pensando serem formadores de opinião. Formadores de opinião não têm relevância, e sim, realizadores. Muitos gostam de julgar os outros, ver defeitos em tudo, e não têm nenhuma utilidade social. Quem sabe das coisas não fala, faz. É além de palavras. É ação.

 

Marcos Damasceno

(pesquisador)

  Página Inicial | Comente esta matéria | Imprimir | Painel de Notícias | Topo

Está coluna é de inteira responsabilidade do colunista Marcos Damasceno