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Relatos...

      

MARCOS OLIVEIRA DAMASCENO, 27 ANOS, ESCRITOR, CRONISTA, MEMORIALISTA, HISTORIADOR. NATURAL DE DOM INOCÊNCIO – PI. DOUTORANDO EM FILOSOFIA POLÍTICA, PELA INTERNATIONAL UNIVERSITY OFF CAMBRIDGE.


Cemitério movimentado

marcosdamasceno23@yahoo.com.br


          Certa época existia um cemitério numa cidade da região de São João do Piauí-PI muito movimentado. Lá era ponto de encontro de namorados, amantes, bêbados e de formadores de opinião (fofoqueiros). Também era o point da cidade. O cemitério, mesmo fora do centro, na periferia da cidade, ganhou calçamento. Tudo por causa da movimentação. Nem toda rua do centro tinha calçamento, pra se ter noção da importância dele. Porém, um calçamento ruim, parecia até que havia sido feito de avião (jogaram as pedras lá de cima). Tinha cada bico de pedra. Bêbado, principalmente, sofria.

 

A maioria dos frequentadores do cemitério era de bêbados, com direito a sentar nos túmulos e colocar as bebidas também em cima. Era uma liberdade danada. ‘Pedro 51’ (imagine porque o apelido: só bebia 51) cismou de tomar dois livros de 51 naquele dia, com dois amigos, só por causa da companhia energética que insistia em cortar a energia, só porque ele devia seis meses. Revoltou-se, foi para o cemitério beber. Não pagava a conta porque não queria, tinha dinheiro. Mas era só pra beber. A mulher nem pegava no dinheiro.

 

‘Pedro 51’ disse para o amigo: “Ave-maria, aqui é bom demais!” Nessa justa hora estavam com dois livros de 51. E dinheiro pra mais um livro. Beberam rapidinho esses dois. E não pensaram duas vezes: “Jovito, vá comprar outro litro.” Foi numa bicicleta. Mas empurrando, pois o centro da cidade situa-se em cima de um morro. Comprou! Ao voltar, procurou todo lugar pra botar o litro, parecia não encontrar. Todo cuidado era pouco. Quebrar? Nem pensar! De maneira alguma. Então, resolveu colocá-lo na calça, de um lado. Igualmente se guarda uma arma.

 

Desceu de morro abaixo, rumo ao cemitério. Montado na bicicleta. Na frente se deparou com uma dificuldade, era à noite, estava chovendo, e teria que virar à esquerda pra entrar na rua do cemitério. Bem do lado do litro, lado que estava guardado. Pra acabar de completar, a bicicleta, que não era sua, e sim do dono da bebida, estava ruim de freio. Desceu de “bolo”. Bem na hora de virar à esquerda, um lodo danado no calçamento, a bicicleta derrapou e saiu arrastando. Uma escuridão medonha. Ele caiu, ouviu um barulho como se algo estivesse quebrado, sentiu a calça molhada bem no lugar do litro, e conclamou: “Ai meu Deus, tomara que seja sangue.” Preferia ser sangue, ao litro ter quebrado.

 

O litro quebrou. Logo, mais imediato mesmo, voltou pra comprar outro, com seu dinheiro, ainda todo ralado, para continuar com os amigos a bebedeira. Deu tudo certo. Chegou lá com um litro cheio. E arrocharam! De manhã, conta um amigo meu de Simplício Mendes-PI, Djalma Moura, no seu livro, foram para um riacho próximo tomar banho. E lá estava ocorrendo um batizado de uma igreja. Dentro da água, igualmente João Batista batizou Jesus Cristo. Os bêbados, ao chegaram ao local, estranharam aquele movimento danado. Mesmo assim, sem saber do que se tratava entraram na fila. Era a fila das pessoas que seriam batizadas. Imagine o final dessa história.

 

Conta meu amigo historiador, que o chefe religioso daquela igreja enfiava a pessoa a ser batizada na água, e ao retirá-la de volta, perguntava: “Viu Jesus?” A pessoa tinha que responder: “Vi, sim, senhor!” E completava-se o processo do batismo. Existia todo um respeito, uma formalidade, uma seriedade, entre os membros daquela igreja. Mas o tumulto começou quando chegou a vez do Jovito, o primeiro bêbado, da vez. O líder religioso sem saber que se tratava de alguém que não era da sua igreja, repetiu o procedimento. Enfiou o Jovito na água, que deu uma mergulhada boa, bebeu logo um tanto de água, e retirou-o. Foi quando perguntou: “Viu Jesus?” Aí o bêbado respondeu: “Vi não.” Bêbado não mente. Só fala a verdade, ou melhor, o que ver. Aquele senhor que batizava seu povo não gostou nada do que viu e ouviu.

 

Mergulhou novamente o Jovito, e disse, já com raiva: “Vou perguntar mais uma vez: viu Jesus?” O bêbado respondeu de novo: “Continuo sem ver.” Aí começou o tumulto. “Vamos pra última chance”, disse um membro da igreja. E enfiaram o Jovito na água e seguraram-no bastante. Parecia até que estava competindo na apnéia (modalidade esportiva que em que ocorre a suspensão da respiração). Tiraram o bêbado, quase desmaiado, por ficar alguns segundos sem respirar, e o batizador exclamou: “Essa é a última vez que vou perguntar: viu Jesus?” Aí o Jovito desesperou-se: “O senhor tem certeza que ele está aqui nessa água?” Foi quando teve de sair correndo com seus amigos. Os membros da igreja gritavam: “Seus hereges!” Herege é a pessoa que apresenta profundo desrespeito às religiões.

 

Pois bem. Vamos voltar ao cemitério, ou melhor, à história do cemitério movimentado. Um andejo (pessoa que anda por aí sem destino certo) chegou à cidade, e foi hospedar-se no cemitério. Logo na noite que chegou, ocorreu uma chuva forte. Pra não se molhar, e conseguir dormir, resolveu entrar no túmulo da Dona Aurora, construído na arquitetura de uma igreja (uma igrejinha sobre o túmulo). O hóspede fez dela uma casa. E ninguém da cidade sabia. O cemitério não dispunha de coveiro ou zelador. E começou a roubar bode nas redondezas da cidade, à noite, em parceria com outro andejo que estava num vilarejo próximo, que vinha buscar toda noite a carne caprina.

 

Ruim para o Seu Viturino, coitado, que teve que ir pagar uma promessa do seu afilhado, que caminhava com dificuldade (era portador de necessidades especiais). Na cultura interiorana existem as promessas que são feitas para alcançar-se uma graça. Seu Viturino fez uma promessa, em nome de um rezador que estava sepultado no cemitério, ‘Seu Pedro Bituca’ (por causa do cigarro), que se seu afilhado melhorasse iria lá acender umas velas no seu túmulo. A graça foi recebida. Promessa é dívida. Foi pagar. E ainda à noite. Levou seu afilhado, que era um adolescente, nas costas.

 

No mesmo momento, o andejo havia saído pra roubar mais um bode. E o comprador (o outro andejo) mandando “brava”, era só ensacando carne. Ao abrir o portão do cemitério, Seu Viturino ouviu vozes: “Esse que traz aí é gordo ou magro?” E o pagador de promessa saiu na carreira, com seu afilhado nas costas, pensando ser alma. Livuzia. Deixa que era o andejo (comprador de bode) que aguardava o último bode para viajar. E na ansiedade, pensando ser seu amigo com o bode, fez a pergunta: “Esse (bode) que traz aí é gordo ou magro?”

 

Com isso, caiu a movimentação do point da cidade (o cemitério), por causa da assombração que passou a surgir. Por causa do andejo, habitante de lá. As pessoas pensavam que fosse a alma da Dona Aurora perambulando por este mundo. Ninguém queria passar por perto. Toda essa confusão só acabou quando o andejo foi embora. Anos depois tudo foi esclarecido, ou melhor, imaginado assim, devido o andejo ter sido preso roubando bode numa outra cidade, e sendo sua moradia, um cemitério também.

Marcos Damasceno

(pesquisador)

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