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Certa época existia um
cemitério numa cidade da região
de São João do Piauí-PI muito
movimentado. Lá era ponto de
encontro de namorados, amantes,
bêbados e de formadores de
opinião (fofoqueiros). Também
era o point da cidade. O
cemitério, mesmo fora do
centro, na periferia da cidade,
ganhou calçamento. Tudo por
causa da movimentação. Nem toda
rua do centro tinha calçamento,
pra se ter noção da importância
dele. Porém, um calçamento
ruim, parecia até que havia
sido feito de avião (jogaram as
pedras lá de cima). Tinha cada
bico de pedra. Bêbado,
principalmente, sofria.
A maioria dos
frequentadores do cemitério era
de bêbados, com direito a
sentar nos túmulos e colocar as
bebidas também em cima. Era uma
liberdade danada.
‘Pedro 51’
(imagine porque o apelido: só
bebia 51) cismou de tomar dois
livros de 51 naquele dia, com
dois amigos, só por causa da
companhia energética que
insistia em cortar a energia,
só porque ele devia seis meses.
Revoltou-se, foi para o
cemitério beber. Não pagava a
conta porque não queria, tinha
dinheiro. Mas era só pra beber.
A mulher nem pegava no
dinheiro.
‘Pedro 51’
disse para o amigo:
“Ave-maria, aqui é bom demais!”
Nessa justa hora estavam com
dois livros de 51. E dinheiro
pra mais um livro. Beberam
rapidinho esses dois. E não
pensaram duas vezes:
“Jovito, vá comprar outro
litro.” Foi numa
bicicleta. Mas empurrando, pois
o centro da cidade situa-se em
cima de um morro. Comprou! Ao
voltar, procurou todo lugar pra
botar o litro, parecia não
encontrar. Todo cuidado era
pouco. Quebrar? Nem pensar! De
maneira alguma. Então, resolveu
colocá-lo na calça, de um lado.
Igualmente se guarda uma arma.
Desceu de morro abaixo, rumo ao
cemitério. Montado na
bicicleta. Na frente se deparou
com uma dificuldade, era à
noite, estava chovendo, e teria
que virar à esquerda pra entrar
na rua do cemitério. Bem do
lado do litro, lado que estava
guardado. Pra acabar de
completar, a bicicleta, que não
era sua, e sim do dono da
bebida, estava ruim de freio.
Desceu de “bolo”. Bem na hora
de virar à esquerda, um lodo
danado no calçamento, a
bicicleta derrapou e saiu
arrastando. Uma escuridão
medonha. Ele caiu, ouviu um
barulho como se algo estivesse
quebrado, sentiu a calça
molhada bem no lugar do litro,
e conclamou: “Ai meu
Deus, tomara que seja sangue.”
Preferia ser sangue, ao litro
ter quebrado.
O litro quebrou. Logo, mais
imediato mesmo, voltou pra
comprar outro, com seu
dinheiro, ainda todo ralado,
para continuar com os amigos a
bebedeira. Deu tudo certo.
Chegou lá com um litro cheio. E
arrocharam! De manhã, conta um
amigo meu de Simplício
Mendes-PI, Djalma Moura,
no seu livro, foram para um
riacho próximo tomar banho. E
lá estava ocorrendo um batizado
de uma igreja. Dentro da água,
igualmente João Batista
batizou Jesus Cristo. Os
bêbados, ao chegaram ao local,
estranharam aquele movimento
danado. Mesmo assim, sem saber
do que se tratava entraram na
fila. Era a fila das pessoas
que seriam batizadas. Imagine o
final dessa história.
Conta meu amigo historiador,
que o chefe religioso daquela
igreja enfiava a pessoa a ser
batizada na água, e ao
retirá-la de volta, perguntava:
“Viu Jesus?” A
pessoa tinha que responder:
“Vi, sim, senhor!” E
completava-se o processo do
batismo. Existia todo um
respeito, uma formalidade, uma
seriedade, entre os membros
daquela igreja. Mas o tumulto
começou quando chegou a vez do
Jovito, o primeiro
bêbado, da vez. O líder
religioso sem saber que se
tratava de alguém que não era
da sua igreja, repetiu o
procedimento. Enfiou o
Jovito na água, que deu uma
mergulhada boa, bebeu logo um
tanto de água, e retirou-o. Foi
quando perguntou: “Viu
Jesus?” Aí o bêbado
respondeu: “Vi não.”
Bêbado não mente. Só fala a
verdade, ou melhor, o que ver.
Aquele senhor que batizava seu
povo não gostou nada do que viu
e ouviu.
Mergulhou novamente o Jovito,
e disse, já com raiva:
“Vou perguntar mais uma vez:
viu Jesus?” O bêbado
respondeu de novo:
“Continuo sem ver.” Aí
começou o tumulto. “Vamos
pra última chance”,
disse um membro da igreja. E
enfiaram o Jovito na
água e seguraram-no bastante.
Parecia até que estava
competindo na apnéia
(modalidade esportiva que em
que ocorre a suspensão da
respiração). Tiraram o bêbado,
quase desmaiado, por ficar
alguns segundos sem respirar, e
o batizador exclamou:
“Essa é a última vez que vou
perguntar: viu Jesus?”
Aí o Jovito
desesperou-se: “O senhor
tem certeza que ele está aqui
nessa água?” Foi quando
teve de sair correndo com seus
amigos. Os membros da igreja
gritavam: “Seus hereges!”
Herege é a pessoa que apresenta
profundo desrespeito às
religiões.
Pois bem. Vamos voltar ao
cemitério, ou melhor, à
história do cemitério
movimentado. Um andejo (pessoa
que anda por aí sem destino
certo) chegou à cidade, e foi
hospedar-se no cemitério. Logo
na noite que chegou, ocorreu
uma chuva forte. Pra não se
molhar, e conseguir dormir,
resolveu entrar no túmulo da
Dona Aurora, construído na
arquitetura de uma igreja (uma
igrejinha sobre o túmulo). O
hóspede fez dela uma casa. E
ninguém da cidade sabia. O
cemitério não dispunha de
coveiro ou zelador. E começou a
roubar bode nas redondezas da
cidade, à noite, em parceria
com outro andejo que estava num
vilarejo próximo, que vinha
buscar toda noite a carne
caprina.
Ruim para o Seu Viturino,
coitado, que teve que ir pagar
uma promessa do seu afilhado,
que caminhava com dificuldade
(era portador de necessidades
especiais). Na cultura
interiorana existem as
promessas que são feitas para
alcançar-se uma graça. Seu
Viturino fez uma promessa,
em nome de um rezador que
estava sepultado no cemitério,
‘Seu Pedro Bituca’ (por
causa do cigarro), que se seu
afilhado melhorasse iria lá
acender umas velas no seu
túmulo. A graça foi recebida.
Promessa é dívida. Foi pagar. E
ainda à noite. Levou seu
afilhado, que era um
adolescente, nas costas.
No mesmo
momento, o andejo havia saído
pra roubar mais um bode. E o
comprador (o outro andejo)
mandando “brava”, era só
ensacando carne. Ao abrir o
portão do cemitério, Seu
Viturino ouviu vozes:
“Esse que traz aí é gordo ou
magro?” E o pagador de
promessa saiu na carreira, com
seu afilhado nas costas,
pensando ser alma. Livuzia.
Deixa que era o andejo
(comprador de bode) que
aguardava o último bode para
viajar. E na ansiedade,
pensando ser seu amigo com o
bode, fez a pergunta:
“Esse
(bode) que traz aí é gordo ou
magro?”
Com isso, caiu a movimentação
do point da cidade (o
cemitério), por causa da
assombração que passou a
surgir. Por causa do andejo,
habitante de lá. As pessoas
pensavam que fosse a alma da
Dona Aurora perambulando
por este mundo. Ninguém queria
passar por perto. Toda essa
confusão só acabou quando o
andejo foi embora. Anos depois
tudo foi esclarecido, ou
melhor, imaginado assim, devido
o andejo ter sido preso
roubando bode numa outra
cidade, e sendo sua moradia, um
cemitério também.
Marcos Damasceno
(pesquisador) |