|
Certa época surgiu em São
Raimundo Nonato-PI mais um
médico formado, filho da terra.
Colocado por seu pai pra
estudar na capital
(Teresina-PI). O pensamento
daquele líder político era ter
um filho formado em medicina,
para ter mais projeção
eleitoral. E ocorreu dessa
forma. Depois que concluiu o
curso, o filho retornou à sua
cidade natal. Passou a ser o
médico do povo, e o “escravo”
do grupo político do seu pai. O
pai ganhou (eleitoralmente) com
o trabalho do seu filho. E o
filho quase morre.
Começou atuando na
profissão com muita empolgação.
Aquela vontade em ser útil
à sua terra e ao seu povo. Era
clínico geral, médico de todos
e pra tudo. Isso aumentou sua
responsabilidade. Também sua
procura. Sossego que era bom,
nada. Sua vida cotidiana na
profissão passava dos limites,
visto que tinha pouco descanso.
E como seu pai era político,
era um trabalho quase
voluntário, já que o povo não
dispensava esse fato, e
aproveitava mesmo. Explorava-o
até umas horas. E muitos,
depois diziam que ele não
trabalhava. Sempre acontece
isso. E o pai que não era
besta, tentando sempre
empolgá-lo para a política,
prometendo-o que seria seu
herdeiro político, mas no fundo
apenas queria segurá-lo (na
verdade, “escravizá-lo”) na
comunidade, para angariar
votos. O filho não tinha
pretensões políticas.
No entanto, como tudo na
vida cansa a gente, nos
desestimula, passou a refletir
se tal situação compensava pra
ele (profissionalmente e
financeiramente). Ninguém
queria pagar a consulta, o pai
era político. E o jovem médico
já vivia seus dias de
frustração, desestímulo. Também
não era pra menos, só vinha
confusão pro seu lado. Mas
seria difícil deixar esse
caminho, desviar desse rumo,
por causa de seu pai. Não
encontrava jeito para comunicar
sua decisão de ir embora pra
capital onde estudou. Sua
cidade natal ficaria somente
para passeios em épocas
estratégicas. Queria mesmo era
fugir daquela vida.
No interior, como
sabemos, sou do interior,
existem muitas doenças
psicológicas, isto é, as
pessoas botam na cabeça que têm
tal doença, e pegam. Já foi
publicado um livro nesse
sentido (“Cure-se: você é
seu próprio remédio”). E
tem ainda aqueles que procuram
o médico, mas já fazem sua
própria diagnose e dão o
diagnóstico. O médico passa a
ser “imbecilizado”. Outros
praticam a automedicação. Tudo
isso é irresponsabilidade por
parte dessas pessoas.
Pois bem. Aquele jovem
médico via-se na desilusão de
uma atuação medíocre, em que
não iria fazer reciclagem,
aperfeiçoamentos, participar de
seminários etc. Era só passando
remédio pra verme, disenteria (caganeira),
dor nisso, dor naquilo... Fazia
parto, e era só aparecendo
mulheres grávidas. Uma coisa
desenfreada. E ainda enfrentava
cada crendice: uns acreditavam
em milagre, outros em macumba,
alguns em remédios caseiros...
Era uma confusão sem igual. E o
empirismo e os conceitos
populares se alastravam no seu
consultório: “Leite
(nódoa) de pião roxo é bom para
ferimentos.” Ou essa:
“Mijo (urina) de vaca é bom pra
matar verme. Agora tem tomar na
hora que aparar (coletar).”
E até essa: “Chá de
bosta de cachorro cura
sarampo.” E logo surge
a certeza: “É tiro e
queda. Pode tomar. É um santo
remédio!” E o
interessante é que quem passa,
não toma. Outros rezam nas
outras pessoas, mas quando
adoecem procuram o médico.
Ainda bem. São espertos. Muitos
dos remédios caseiros (assim
chamados) têm realmente um
fundo de verdade (é a sabedoria
indígena), já outros são apenas
ilusões. São simpatias que
fazem parte do conhecimento
popular. E estão bem
enraizadas. Ainda hoje é assim.
Imagine naquela época. Exercer
a profissão de médico torna-se
delicado, diante de uma cultura
e de uma educação da
desinformação. E mais ainda: da
má informação popular.
De vez em quando ainda
enfrentava a teimosia de
alguns. Certa ocasião emendou
um braço quebrado (fraturado)
de um homem que havia brigado
com o vizinho. E disse ao
terminar de emendar, e
medicá-lo: “Fique uns
dias sem fazer esforço.
Qualquer esforço feito
interromperá o processo.”
Ao chegar a casa, a
primeira providência foi ir
atrás do vizinho pra brigar de
novo. O braço ainda engessado.
Lá deu um soco nele (com o
braço engessado), um peso
danado, derrubou-o. O braço
quebrou de novo. Na verdade não
havia nem emendado ainda. Meu
Deus! De repente, o médico
recebe o paciente novamente.
Pense numa raiva daquele
profissional, que já estava com
a paciência esgotada. Mas a
ética profissional, e a
responsabilidade social, fez
controlar-se, e exercer a
profissão naquele momento,
fazer os procedimentos
necessários.
Mal se livrou desse
paciente, trouxeram um rapaz
que estava agitado. A baba
escorria pela boca. E diziam os
acompanhantes: “‘Doutor’,
ele ficou assim depois que um
cachorro o mordeu!” E o
médico percebeu que se tratava
de uma pessoa que estava doida.
Doido varrido. Providenciou uma
injeção “sossega-leão”. Porém,
no dia seguinte, ao passar o
efeito da injeção, o doido se
encarregou de destruir seu
consultório todinho. Os
equipamentos novos, tudo novo.
Foi então, que aquele
já desiludido médico disse ao
seu pai: “Papai, eu
pretendo ir embora, quero
trabalhar numa cidade grande.
Aqui não dá certo. Não aguento
mais essa vida!” E o
pai preocupado, e tendo
consciência da situação em que
seu filho enfrentava,
compreendeu: “É verdade
meu filho. Você está certo. Mas
vamos conversar sobre isso.
Dê-me uns dias pra pensar numa
saída.” E o velho como
não era besta, precisava muito
do seu filho, jamais o deixaria
ir embora. E encontrou um
caminho: “Meu filho,
vamos fazer o seguinte: você
terá seu consultório montado do
bom e do melhor, todo mês
viajará, receberá pelo seu
serviço (o trabalho dele até
então, era “escravo”), e seu
consultório será ainda
ampliado, fará exames.”
Proposta boa, o filho aceitou.
Promessa cumprida.
O jovem médico, com
aquele consultório moderno, uma
rotina de vida diferente,
voltou a se animar. Fazia
exames de todo jeito. Mas
é preciso dizer, apenas
coletava, as análises eram
feitas em outros lugares, nas
capitais. E num certo dia
recebeu uma moça, que queria se
consultar com ele. E passou a
examiná-la. Resolveu requisitar
um exame de fezes. E disse:
“Preciso fazer um exame de
fezes.” Logo vendo que
aquela moça não havia
compreendido nada, falou mais
claramente: “Quero ver
sua bosta.” E
continuou: “Passe na
farmácia (já existia), compre
um coletor e defeque amanhã
cedo. E traga-o.” Foi
necessário esclarecer de novo:
“A senhora pegue uma latinha e
cague nela. Pode arrochar!”
E alertou o médico: “Mas
não se esqueça de botar o nome
(o nome dela)!”
Chegado a casa, aquela
desinformada moça pegou uma
lata de margarina vazia,
daquelas antigas, de 1 kg, e
deu uma cagada federal. Não
esperou nem o dia seguinte. Foi
tanta bosta que quase não
conseguiu tampar a lata. Até
que deu uma encalcada e tampou.
Terminado, botou o nome:
“bosta”.
Ao receber a amostra de
fezes, o médico se assustou:
“O que é isso?” E
ela: “É a bosta que o
senhor pediu.” E o
médico se irritou: “Mas
desse jeito?” A lata
ainda estava suja. E
bronqueou-a: “A senhora
poderia ter colocado pelo menos
‘bosta da Maria do Zuquinha’
(nome da paciente)!” E
ela, talvez pela inocência,
ainda perguntou: “Este
tanto dá? Aí tem 1 kg de
bosta.” E o médico
pensou consigo:
“Desisto!”
Isso tudo demonstra o
quanto é difícil atuar na
medicina. Uma profissão
delicada.
Marcos Damasceno
(pesquisador) |