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Relatos...

      

MARCOS OLIVEIRA DAMASCENO, 27 ANOS, ESCRITOR, CRONISTA, MEMORIALISTA, HISTORIADOR. NATURAL DE DOM INOCÊNCIO – PI. DOUTORANDO EM FILOSOFIA POLÍTICA, PELA INTERNATIONAL UNIVERSITY OFF CAMBRIDGE.


Profissão delicada 

marcosdamasceno23@yahoo.com.br


      Certa época surgiu em São Raimundo Nonato-PI mais um médico formado, filho da terra. Colocado por seu pai pra estudar na capital (Teresina-PI). O pensamento daquele líder político era ter um filho formado em medicina, para ter mais projeção eleitoral. E ocorreu dessa forma. Depois que concluiu o curso, o filho retornou à sua cidade natal. Passou a ser o médico do povo, e o “escravo” do grupo político do seu pai. O pai ganhou (eleitoralmente) com o trabalho do seu filho. E o filho quase morre.

 

       Começou atuando na profissão com muita empolgação. Aquela vontade em ser útil à sua terra e ao seu povo. Era clínico geral, médico de todos e pra tudo. Isso aumentou sua responsabilidade. Também sua procura. Sossego que era bom, nada. Sua vida cotidiana na profissão passava dos limites, visto que tinha pouco descanso. E como seu pai era político, era um trabalho quase voluntário, já que o povo não dispensava esse fato, e aproveitava mesmo. Explorava-o até umas horas. E muitos, depois diziam que ele não trabalhava. Sempre acontece isso. E o pai que não era besta, tentando sempre empolgá-lo para a política, prometendo-o que seria seu herdeiro político, mas no fundo apenas queria segurá-lo (na verdade, “escravizá-lo”) na comunidade, para angariar votos. O filho não tinha pretensões políticas.

 

       No entanto, como tudo na vida cansa a gente, nos desestimula, passou a refletir se tal situação compensava pra ele (profissionalmente e financeiramente). Ninguém queria pagar a consulta, o pai era político. E o jovem médico já vivia seus dias de frustração, desestímulo. Também não era pra menos, só vinha confusão pro seu lado. Mas seria difícil deixar esse caminho, desviar desse rumo, por causa de seu pai. Não encontrava jeito para comunicar sua decisão de ir embora pra capital onde estudou. Sua cidade natal ficaria somente para passeios em épocas estratégicas. Queria mesmo era fugir daquela vida.

 

       No interior, como sabemos, sou do interior, existem muitas doenças psicológicas, isto é, as pessoas botam na cabeça que têm tal doença, e pegam. Já foi publicado um livro nesse sentido (“Cure-se: você é seu próprio remédio”). E tem ainda aqueles que procuram o médico, mas já fazem sua própria diagnose e dão o diagnóstico. O médico passa a ser “imbecilizado”. Outros praticam a automedicação. Tudo isso é irresponsabilidade por parte dessas pessoas.

 

       Pois bem. Aquele jovem médico via-se na desilusão de uma atuação medíocre, em que não iria fazer reciclagem, aperfeiçoamentos, participar de seminários etc. Era só passando remédio pra verme, disenteria (caganeira), dor nisso, dor naquilo... Fazia parto, e era só aparecendo mulheres grávidas. Uma coisa desenfreada. E ainda enfrentava cada crendice: uns acreditavam em milagre, outros em macumba, alguns em remédios caseiros... Era uma confusão sem igual. E o empirismo e os conceitos populares se alastravam no seu consultório: “Leite (nódoa) de pião roxo é bom para ferimentos.” Ou essa: “Mijo (urina) de vaca é bom pra matar verme. Agora tem tomar na hora que aparar (coletar).” E até essa: “Chá de bosta de cachorro cura sarampo.” E logo surge a certeza: “É tiro e queda. Pode tomar. É um santo remédio!” E o interessante é que quem passa, não toma. Outros rezam nas outras pessoas, mas quando adoecem procuram o médico. Ainda bem. São espertos. Muitos dos remédios caseiros (assim chamados) têm realmente um fundo de verdade (é a sabedoria indígena), já outros são apenas ilusões. São simpatias que fazem parte do conhecimento popular. E estão bem enraizadas. Ainda hoje é assim. Imagine naquela época. Exercer a profissão de médico torna-se delicado, diante de uma cultura e de uma educação da desinformação. E mais ainda: da má informação popular.

 

       De vez em quando ainda enfrentava a teimosia de alguns. Certa ocasião emendou um braço quebrado (fraturado) de um homem que havia brigado com o vizinho. E disse ao terminar de emendar, e medicá-lo: “Fique uns dias sem fazer esforço. Qualquer esforço feito interromperá o processo.” Ao chegar a casa, a primeira providência foi ir atrás do vizinho pra brigar de novo. O braço ainda engessado. Lá deu um soco nele (com o braço engessado), um peso danado, derrubou-o. O braço quebrou de novo. Na verdade não havia nem emendado ainda. Meu Deus! De repente, o médico recebe o paciente novamente. Pense numa raiva daquele profissional, que já estava com a paciência esgotada. Mas a ética profissional, e a responsabilidade social, fez controlar-se, e exercer a profissão naquele momento, fazer os procedimentos necessários.

 

       Mal se livrou desse paciente, trouxeram um rapaz que estava agitado. A baba escorria pela boca. E diziam os acompanhantes: “‘Doutor’, ele ficou assim depois que um cachorro o mordeu!” E o médico percebeu que se tratava de uma pessoa que estava doida. Doido varrido. Providenciou uma injeção “sossega-leão”. Porém, no dia seguinte, ao passar o efeito da injeção, o doido se encarregou de destruir seu consultório todinho. Os equipamentos novos, tudo novo.

 

       Foi então, que aquele já desiludido médico disse ao seu pai: “Papai, eu pretendo ir embora, quero trabalhar numa cidade grande. Aqui não dá certo. Não aguento mais essa vida!” E o pai preocupado, e tendo consciência da situação em que seu filho enfrentava, compreendeu: “É verdade meu filho. Você está certo. Mas vamos conversar sobre isso. Dê-me uns dias pra pensar numa saída.” E o velho como não era besta, precisava muito do seu filho, jamais o deixaria ir embora. E encontrou um caminho: “Meu filho, vamos fazer o seguinte: você terá seu consultório montado do bom e do melhor, todo mês viajará, receberá pelo seu serviço (o trabalho dele até então, era “escravo”), e seu consultório será ainda ampliado, fará exames.” Proposta boa, o filho aceitou. Promessa cumprida.

 

       O jovem médico, com aquele consultório moderno, uma rotina de vida diferente, voltou a se animar. Fazia exames de todo jeito. Mas é preciso dizer, apenas coletava, as análises eram feitas em outros lugares, nas capitais. E num certo dia recebeu uma moça, que queria se consultar com ele. E passou a examiná-la. Resolveu requisitar um exame de fezes. E disse: “Preciso fazer um exame de fezes.” Logo vendo que aquela moça não havia compreendido nada, falou mais claramente: “Quero ver sua bosta.” E continuou: “Passe na farmácia (já existia), compre um coletor e defeque amanhã cedo. E traga-o.” Foi necessário esclarecer de novo: “A senhora pegue uma latinha e cague nela. Pode arrochar!” E alertou o médico: “Mas não se esqueça de botar o nome (o nome dela)!”

 

       Chegado a casa, aquela desinformada moça pegou uma lata de margarina vazia, daquelas antigas, de 1 kg, e deu uma cagada federal. Não esperou nem o dia seguinte. Foi tanta bosta que quase não conseguiu tampar a lata. Até que deu uma encalcada e tampou. Terminado, botou o nome: “bosta”.

 

       Ao receber a amostra de fezes, o médico se assustou: “O que é isso?” E ela: “É a bosta que o senhor pediu.” E o médico se irritou: “Mas desse jeito?” A lata ainda estava suja. E bronqueou-a: “A senhora poderia ter colocado pelo menos ‘bosta da Maria do Zuquinha’ (nome da paciente)!” E ela, talvez pela inocência, ainda perguntou: “Este tanto dá? Aí tem 1 kg de bosta.” E o médico pensou consigo: “Desisto!”

 

       Isso tudo demonstra o quanto é difícil atuar na medicina. Uma profissão delicada. 

 

Marcos Damasceno

(pesquisador)

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Está coluna é de inteira responsabilidade do colunista Marcos Damasceno