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Ao registrar a história do
forró pé de serra da minha
terra (Dom Inocêncio-PI), tenho
que mencionar a personalidade
do sanfoneiro Raimundo do
Mundico, pela referência
que tem. A importância da sua
contribuição é indiscutível
para o forró pé de serra da
região. Ele é uma figura
singular, inconfundível e
inesquecível. Marcou a
História.
Aprendeu a tocar com seu pai,
Mundico, que por sua
vez, foi ensinado pelo pioneiro
Júlio Dias. Traçando um
paralelo com a história do
forró pé de serra brasileiro,
Júlio Dias representa
“Seu Januário” para o forró
pé de serra da região e
Raimundo do Mundico, o
“Luiz Gonzaga”. São mais
de 50 anos de carreira musical.
E o mais importante nessa
história é a referência que
tem, influenciou várias
gerações e consolidou vários
eventos regionais. Conhecido
por todos como mestre
Raimundo do Mundico (por
ser mestre na sanfona), foi
professor de muita gente,
notadamente de ilustres
sanfoneiros como Gilberto
Dias e Waldemar do
Olício.

(Gilberto
Dias)
(Waldemar do Olício)
Homenagear Raimundo do
Mundico é minha obrigação,
enquanto historiador e
respeitador da História. E
tenho que dizer da mobilização
dos sanfoneiros da minha terra,
para que ele fosse destacado
pela sua referência na história
do forró regional, ser
referenciado como um mestre que
é. É importante salientar aqui,
que também foi um pedido
especial dos seus dois ilustres
discípulos: Gilberto Dias
e Waldemar do Olício.
Esse sentimento é unânime por
parte daqueles que conhecem a
história do forró pé de serra.
Sem dúvida alguma, é a força da
sua história. Ao falarmos sobre
o histórico do forró regional é
inevitável a curiosidade pela
sua personalidade. E ele marcou
na vida das pessoas. O mestre
sempre foi povão. Extremamente
acessível e, por onde passa,
faz amigos, descobre talentos,
incentiva aprendizes.
Orgulhosamente diz que não
aguenta ver uma sanfona tocar,
que logo que ir pra perto. É o
sentimento que faz o sangue
correr nas veias, e une o
sanfoneiro ao instrumento
(sanfona) e ao povo. Também tem
a motivação de uma história
dedicada ao forró.
Raimundo do
Mundico
é reverenciado por sanfoneiros
em todos os cantos da região,
ao longo de sua vida extrapolou
os limites da música e ajudou a
construiu para nosso lugar a
imagem de ‘Terra dos
Sanfoneiros’. Ele tem
grande parcela de representação
nisso. Foi um sanfoneiro
convidado para consagrar
eventos, através de suas
apresentações clássicas (da
melhor qualidade), como a
tradicional ‘Festa do
Interior’ do município
de Casa Nova-BA, um dos mais
expressivos eventos de forró na
região, onde foi o primeiro
sanfoneiro a tocar lá. Sua
referência sempre foi a de um
sanfoneiro ilustre, e isso
extrapolou os limites da nossa
região, sendo conhecido e
respeitado nos Estados da
Bahia, Ceará, Pernambuco e
Maranhão. Também em outras
regiões. Teve uma época, nos
anos 60, em que o forró pé de
serra esteve em baixa, o
Luiz Gonzaga chegou a
confessar que encerraria sua
carreira. E na nossa terra o
Raimundo do Mundico,
juntamente com o Clóvis
Dias, conseguiu segurar a
bandeira do forró pé de serra
em alta.
Certa vez, ao tocar na região
de Oeiras-PI, o rei do Baião,
Luiz Gonzaga, teceu
comentários sobre o mestre
Raimundo do Mundico:
“Por essas bandas tem um
sanfoneiro que tem uma puxada
forte, o cabra é macho. Pense
num homem que tem os dedos
ligeiros. O nome dele é
Raimundo.” O
Raimundo em que se referia
o rei do Baião era o
Raimundo do Mundico, da
minha terra. Seu nome já havia
chegado ao conhecimento do
Luiz Gonzaga, por ser um
sanfoneiro de destaque. Porém,
nunca foi possível o encontro
entre os dois, muito desejado
pelo rei do Baião, mais ainda
pelo mestre Raimundo do
Mundico.
O forró da minha terra se
resume em toda sua história, a
três referências principais:
Júlio Dias é o rei, a
referência máxima, o pai de
todos os sanfoneiros, o pai do
forró da região, o primeiro
sanfoneiro. A iniciação foi em
1910. O Raimundo do Mundico
é o príncipe, a segunda
referência. Após a morte do
patriarca do forró regional
(1963), Júlio Dias, a
identidade do mestre
Raimundo do Mundico se
aprofundou, como também se
tornou motivo de idolatria,
sendo considerado um expressivo
sanfoneiro. Esse processo
aconteceu também com
Dominguinhos, que mesmo
tendo sua própria identidade
artística, teve que assumir pra
si a responsabilidade de
representar a nação forrozeira
brasileira, após a morte do rei
do Baião. Luiz Gonzaga é
o rei e Dominguinhos, o
príncipe. Da mesma forma,
Raimundo do Mundico teve a
responsabilidade de representar
o forró da minha terra, com a
morte do patriarca Júlio
Dias. O Clóvis Dias
faz parte desse histórico,
assim como muitos outros. A
terceira referência é o
sanfoneiro Gilberto Dias,
aprendiz do mestre Raimundo
do Mundico, onde está
representada toda uma geração,
como Waldemar do Olício,
o melhor sanfoneiro
instrumentalista da região, e
as gerações posteriores.

(Júlio Dias)
(Raimundo do Mundico)
(Gilberto Dias)
O legado dessas três
referências é a tradição de 100
anos de forró pé de serra
(1910-2010), onde meu município
(Dom Inocêncio-PI) é conhecido
como a ‘Terra dos
Sanfoneiros’. São mais
de 300 sanfoneiros em que se
tem notícia (entre amadores e
profissionais). A tradição, a
influência e a vocação são
muito fortes e enraizadas na
cultura local. Praticamente
toda família tem um sanfoneiro,
assim como tem um vaqueiro. E
cada geração influencia a
seguinte, já são 10 gerações.
Pra se ter uma ideia, tem o
filho, neto, bisneto, e até o
trineto sanfoneiro.
É dessa forma em que foi
construída e consolidada uma
tradição de 100 anos, de
geração em geração. E pelas
gerações presentes, tenho a
certeza de que será levada essa
tradição pro futuro. Nos
costumeiros encontros entre
sanfoneiros, principalmente nos
festivais de sanfona, podemos
perceber várias gerações
representadas.
Para o mestre Raimundo do
Mundico tiro meu chapéu,
pela história que tem, pelo seu
protagonismo no forró da minha
terra, pela contribuição que
deu para a consagração de uma
tradição, onde estão as
lembranças de dificuldades,
experiências amargas, desafios
e, sobretudo, superação e
provação. Durante um século se
carregou, e se representou com
honradez, a bandeira do forró
pé de serra regional, por
várias gerações. E nessa
história, o mestre Raimundo
do Mundico tem participação
significativa e referencial,
tem lugar de destaque. Viva o
mestre!
Marcos Damasceno
(pesquisador) |