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Relatos...

      

MARCOS OLIVEIRA DAMASCENO, 27 ANOS, ESCRITOR, CRONISTA, MEMORIALISTA, HISTORIADOR. NATURAL DE DOM INOCÊNCIO – PI. DOUTORANDO EM FILOSOFIA POLÍTICA, PELA INTERNATIONAL UNIVERSITY OFF CAMBRIDGE.


Televisão Brasileira

marcosdamasceno23@yahoo.com.br


A grande verdade, pra início de conversa, é que o Brasil tornou-se o país da televisão, já são 170 milhões de telespectadores. Uma quantidade significativa. Porém, isso tem influência no quesito qualidade, pois a televisão determina padrões estéticos, modifica linguagem popular (e local), dita comportamento, oferece vida fácil e, no fundo, não quer ser nada mais do que uma vitrine mercantil. Isso em regra, existem as exceções. Como negar o poder que ela tem na vida das pessoas.

 

Essa visão extremamente crítica, adotada por muitos especialistas nas áreas da Educação e Cultura, faz todo sentido. Esses profissionais a serviço da pesquisa fazem um balanço sobre o passado, o presente e o futuro da televisão brasileira. Desde quando a televisão passou a funcionar no Brasil, no início da década de 50, no tempo da TV Tupi, foi prometido um salto de qualidade no conteúdo. Nisso envolve, inevitavelmente, a ‘Ética’, a ‘Linguagem’ e a ‘Guerra de Audiência’. Confiram os depoimentos de pessoas que fazem e vivem o dia a dia da televisão brasileira.

 

Sílvio de Abreu (autor de novelas):

 

“Existe hoje um grande acréscimo de qualidade na televisão brasileira em termos de produção, mas um decréscimo em relação aos temas e às abordagens da dramaturgia televisiva de um modo geral. Não culpo os que fazem a televisão por isso, acho que é um reflexo da sociedade na qual vivemos, onde valores morais, éticos, estéticos e culturais passam por uma enorme crise. No Brasil, com ensino cada vez mais deficiente, estamos formando gerações que não se interessam por Cultura e que desaprendam a pensar. O desafio maior é mudar esse quadro sem perder a audiência.”

 

A televisão é um sistema representativo, segue o caminho da sociedade, representa os defeitos e as qualidades da população. Sempre foi a maior vitrine, maior do que um quadro negro de uma sala de aula, do que o palco de um teatro (dentre outros). A tela de um televisor é poderosa. E envolve todos os públicos, de todas as gerações e regiões. A qualidade do conteúdo passa a ser relativa, pois pra mim pode ser baixaria pra outro já não é; certa programação pode ser desinteressante pra mim, pra outro já é o contrário etc.

 

Nelson Hoineff (diretor de televisão e criador do Instituto de Estudos de Televisão):

 

“Houve um momento da televisão brasileira em que se explorava de forma mais ampla suas possibilidades de expressão. Do ponto de vista da linguagem, observa-se uma involução, porque a televisão brasileira historicamente optou pela banalidade. Foram poucas as exceções.”

 

A guerra de audiência entre as emissoras não é pela qualidade, mas pela própria possibilidade de audiência. E o repertório se torna limitado.  

 

Vladimir Safatle (filósofo e professor da USP):

 

“Seria fácil levantar aqui casos inumeráveis de invasão de privacidade, falso moralismo, uso comercial de crianças etc. No entanto, a verdadeira questão que envolve toda a ética da comunicação de massa diz respeito à proposta comercial.”

 

Os temas não são tratados na programação de maneira séria e responsável. Normalmente se envolve o sensacionalismo.

 

Eugênio Bucci ((jornalista, escritor e ex-presidente da Radiobrás):

 

“É preciso cuidado na discussão em torno da ética na televisão. Facilmente ela descamba para o falso moralismo. O que é um programa ético? Atender aos anunciantes é uma preocupação ética. Por que criar cortinas de fumaça, alegando haver censura onde não existe censura- podem existir erros e desajustes, mas nunca censura. Não há programação ideal no sentido da ética. Isso é resultado da dinâmica linguística, da dinâmica da cultura, da dinâmica dos costumes e da própria política pública que assiste o mundo televisivo. Também deve haver uma combinação de autorregulação e classificações indicativas vindas de entidades independentes para se avaliar a qualidade dos programas da televisão brasileira.”

 

Pode-se dizer que ético é aquele programa que respeita os direitos da minoria, que não agride a dignidade das pessoas, que se abre ao diálogo. Mas quem exatamente quer isso? A minoria, segundo pesquisas. A discussão sobre a qualidade é indispensável, seja qual for a nossa concepção de televisão.

 

Segundo a jornalista Alzimar Ramalho, “embora se tratando de um bem público, a implantação da televisão brasileira trilhou o caminho inverso ao dos modelos europeu e norte-americano. Começou privada, e somente depois de quase 20 anos, o telespectador brasileiro passou a ter acesso ao modelo de TV pública, com a criação da TV Cultura.” E é preciso se lembrar sempre que a televisão brasileira influi nas conversas, na decoração das casas, na vida cotidiana, na informação, na educação e no lazer do povo brasileiro. Para Marília Franco, “a TV exerce, inclusive, grande influência na formação do senso de unidade nacional, em qualquer lugar do Brasil se comentarmos sobre a novela das oito, somos compreendidos.”

 

Arlindo Machado assegura que o fato que justifica a televisão brasileira está na própria economia do país: “A produção audiovisual brasileira, especialmente o cinema e a teledramaturgia, tem sido responsável pela divulgação da cultura brasileira para outros países. Por exemplo, ‘A escrava Isaura’, de 1976, é um ícone desse sucesso internacional de produções brasileiras, tendo sido exibida em mais de 70 países, entre eles a China, Cuba e os Estados Unidos. Coberturas esportivas são destaque da televisão brasileira, cujas cotas de patrocínio superam, em rentabilidade para os clubes, a própria venda de ingressos.” Alzimar Ramalho, jornalista, relembra também que “os movimentos musicais encontraram acolhida na TV, especialmente a partir dos festivais organizados pela Excelsior, Record e Globo, a partir de 1965. Durante dez anos foram revelados jovens artistas que retratavam a realidade brasileira de modo bastante combativo, mesmo diante da força da censura.” Era o tempo da ditadura militar. A explicação era sempre a seguinte: “Ofensa à moral, à ordem pública e aos bons costumes, bem como achincalhe à Igreja.”

 

Ainda Alzimar Ramalho, “na ditadura militar a televisão brasileira sofreu o acirramento da censura. O fato que marcou tal situação foi a morte do diretor de jornalismo da TV Cultura de São Paulo, Vladimir Herzog. Na telenovela houve muitos fatos relacionados à censura, e o mais bizarro ocorreu em 1976, em O Casarão, veiculada pela Rede Globo. Por causa da Lei Falcão, que proibia qualquer aparição de candidatos a cargos públicos nas redes de televisão. Saiu do ar por uns tempos. De 1985, com o retorno dos civis ao governo, até a promulgação da Constituição de 1988, as emissoras se valeram de filmes anteriormente proibidos e as novelas diárias utilizaram o erotismo e a sensualidade para aumentar a audiência.”

 

Inimá Simões, jornalista e ensaísta, preocupa-se quanto ao poder da TV na formação dos “corações e mentes” dada a sua importância exacerbada no país. E sentencia: “A televisão brasileira alcança todo o território nacional e para a maioria da população só ganha existência real aquilo que é exibido na TV. Existem hoje no Brasil mais de 40 milhões de lares com televisores, o que facilita que um participante medíocre de um reality-show qualquer se torne uma celebridade instantânea, convidada a todos os eventos! Costuma-se dizer que o Brasil passou de uma cultura pré-literária para uma cultura de imagens, pós-literária, sem passar pela mediação tradicional dos livros, do teatro, do jornal, da revista.Uma pesquisa patrocinada pela CBL (Câmara Brasileira do Livro) em 2001, revelou que o brasileiro lê, em média, 1,8 livro por ano. Publicam-se cerca de três revistas por habitante/ano, e todos os jornais diários somados não tem uma vendagem superior a oito milhões de exemplares/dia. A população brasileira entronizou a televisão como sua principal referência cultural e esse é um desafio ainda pouco enfrentado.”

 

Ainda Inimá Simões: “Nesse momento, duas questões prioritárias tomam espaço na pauta televisiva: a TV digital e a TV pública. Sejamos razoáveis: a tecnologia digital é inevitável e espera-se no mínimo que haja bom senso na sua instalação e na escolha de modelos e padrões. Quanto à TV pública nacional, espera-se que configure um contraponto à TV comercial, quer seja adotada de formas de controle social e que ofereça uma programação diferenciada.”

 

O país viveu a ditadura militar, que perseguiu, censurou, torturou (mentalmente e fisicamente) e escabreou o povo brasileiro. O retorno à normalidade democrática, em 1985, trouxe um alento especial à sociedade brasileira com a expectativa elementar da liberdade total. Porém, a situação pulou de “8 pra 80”, a televisão brasileira emergiu da ditadura militar poderosa, pela sensibilidade em que passava a nação. E isso foi o suficiente para se estabelecer como protagonista suprema, ficando acima dos controles institucionais, administrando suas próprias necessidades e atendendo aos próprios interesses. Houve significamente apenas duas medidas reguladoras nos últimos anos: a classificação indicativa (advertência da programação imprópria para horário tal) e a classificação etária (advertência da programação imprópria para faixa etária tal). E quando se fala num controle social, controle de qualidade, muitos já radicalizam dizendo que é censura na programação, nos moldes utilizados durante a ditadura militar.

 

Alguns pontos são questionados: a televisão brasileira ainda é muito centralizada no eixo Rio - São Paulo, deixando muitas vezes de contemplar as pautas de outras regiões do país; sua proposta ainda é exageradamente comercial, poderia ter uma programação maior para pautas culturais e educativas; gera um conflito de valores em cada população ou comunidade; a promoção da cultura local de cada região é prejudicada por uma pauta televisiva que empurra goela abaixo no povo brasileiro uma programação que interessa uma camada da sociedade.

 

Finalizo com Fernando Barbosa Lima, criador de tantos programas de televisão bons, mais de 50 anos de carreira: “Sou muito feliz quando penso nos meus sonhos e na minha capacidade de realizá-los. Assim é a vida.”

 

Marcos Damasceno

(pesquisador)

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Está coluna é de inteira responsabilidade do colunista Marcos Damasceno