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A grande verdade, pra início de
conversa, é que o Brasil
tornou-se o país da televisão,
já são 170 milhões de
telespectadores. Uma quantidade
significativa. Porém, isso tem
influência no quesito
qualidade, pois a televisão
determina padrões estéticos,
modifica linguagem popular (e
local), dita comportamento,
oferece vida fácil e, no fundo,
não quer ser nada mais do que
uma vitrine mercantil. Isso em
regra, existem as exceções.
Como negar o poder que ela tem
na vida das pessoas.
Essa visão extremamente
crítica, adotada por muitos
especialistas nas áreas da
Educação e Cultura, faz todo
sentido. Esses profissionais a
serviço da pesquisa fazem um
balanço sobre o passado, o
presente e o futuro da
televisão brasileira. Desde
quando a televisão passou a
funcionar no Brasil, no início
da década de 50, no tempo da TV
Tupi, foi prometido um salto de
qualidade no conteúdo. Nisso
envolve, inevitavelmente, a
‘Ética’, a ‘Linguagem’ e a
‘Guerra de Audiência’. Confiram
os depoimentos de pessoas que
fazem e vivem o dia a dia da
televisão brasileira.
Sílvio de Abreu
(autor de novelas):
“Existe hoje um grande
acréscimo de qualidade na
televisão brasileira em termos
de produção, mas um decréscimo
em relação aos temas e às
abordagens da dramaturgia
televisiva de um modo geral.
Não culpo os que fazem a
televisão por isso, acho que é
um reflexo da sociedade na qual
vivemos, onde valores morais,
éticos, estéticos e culturais
passam por uma enorme crise. No
Brasil, com ensino cada vez
mais deficiente, estamos
formando gerações que não se
interessam por Cultura e que
desaprendam a pensar. O desafio
maior é mudar esse quadro sem
perder a audiência.”
A televisão é um sistema
representativo, segue o caminho
da sociedade, representa os
defeitos e as qualidades da
população. Sempre foi a maior
vitrine, maior do que um quadro
negro de uma sala de aula, do
que o palco de um teatro
(dentre outros). A tela de um
televisor é poderosa. E envolve
todos os públicos, de todas as
gerações e regiões. A qualidade
do conteúdo passa a ser
relativa, pois pra mim pode ser
baixaria pra outro já não é;
certa programação pode ser
desinteressante pra mim, pra
outro já é o contrário etc.
Nelson Hoineff
(diretor de televisão e criador
do Instituto de Estudos de
Televisão):
“Houve um momento da televisão
brasileira em que se explorava
de forma mais ampla suas
possibilidades de expressão. Do
ponto de vista da linguagem,
observa-se uma involução,
porque a televisão brasileira
historicamente optou pela
banalidade. Foram poucas as
exceções.”
A guerra de audiência entre as
emissoras não é pela qualidade,
mas pela própria possibilidade
de audiência. E o repertório se
torna limitado.
Vladimir Safatle
(filósofo e professor da USP):
“Seria fácil levantar aqui
casos inumeráveis de invasão de
privacidade, falso moralismo,
uso comercial de crianças etc.
No entanto, a verdadeira
questão que envolve toda a
ética da comunicação de massa
diz respeito à proposta
comercial.”
Os temas não são tratados na
programação de maneira séria e
responsável. Normalmente se
envolve o sensacionalismo.
Eugênio Bucci
((jornalista, escritor e
ex-presidente da Radiobrás):
“É preciso cuidado na discussão
em torno da ética na televisão.
Facilmente ela descamba para o
falso moralismo. O que é um
programa ético? Atender aos
anunciantes é uma preocupação
ética. Por que criar cortinas
de fumaça, alegando haver
censura onde não existe
censura- podem existir erros e
desajustes, mas nunca censura.
Não há programação ideal no
sentido da ética. Isso é
resultado da dinâmica
linguística, da dinâmica da
cultura, da dinâmica dos
costumes e da própria política
pública que assiste o mundo
televisivo. Também deve haver
uma combinação de
autorregulação e classificações
indicativas vindas de entidades
independentes para se avaliar a
qualidade dos programas da
televisão brasileira.”
Pode-se dizer que ético é
aquele programa que respeita os
direitos da minoria, que não
agride a dignidade das pessoas,
que se abre ao diálogo. Mas
quem exatamente quer isso? A
minoria, segundo pesquisas. A
discussão sobre a qualidade é
indispensável, seja qual for a
nossa concepção de televisão.
Segundo a
jornalista Alzimar Ramalho,
“embora se tratando de um
bem público, a implantação da
televisão brasileira trilhou o
caminho inverso ao dos modelos
europeu e norte-americano.
Começou privada, e somente
depois de quase 20 anos, o
telespectador brasileiro passou
a ter acesso ao modelo de TV
pública, com a criação da TV
Cultura.” E é preciso
se lembrar sempre que a
televisão brasileira influi nas
conversas, na decoração das
casas, na vida cotidiana, na
informação, na educação e no
lazer do povo brasileiro. Para
Marília Franco,
“a TV
exerce, inclusive, grande
influência na formação do senso
de unidade nacional, em
qualquer lugar do Brasil se
comentarmos sobre a novela das
oito, somos compreendidos.”
Arlindo Machado
assegura que o fato que
justifica a televisão
brasileira está na própria
economia do país: “A
produção audiovisual
brasileira, especialmente o
cinema e a teledramaturgia, tem
sido responsável pela
divulgação da cultura
brasileira para outros países.
Por exemplo, ‘A escrava
Isaura’, de 1976, é um ícone
desse sucesso internacional de
produções brasileiras, tendo
sido exibida em mais de 70
países, entre eles a China,
Cuba e os Estados Unidos.
Coberturas esportivas são
destaque da televisão
brasileira, cujas cotas de
patrocínio superam, em
rentabilidade para os clubes, a
própria venda de ingressos.”
Alzimar Ramalho,
jornalista, relembra também que
“os movimentos musicais
encontraram acolhida na TV,
especialmente a partir dos
festivais organizados pela
Excelsior, Record e Globo, a
partir de 1965. Durante dez
anos foram revelados jovens
artistas que retratavam a
realidade brasileira de modo
bastante combativo, mesmo
diante da força da censura.”
Era o tempo da ditadura
militar. A explicação era
sempre a seguinte:
“Ofensa à
moral, à ordem pública e aos
bons costumes, bem como
achincalhe à Igreja.”
Ainda Alzimar
Ramalho,
“na ditadura
militar a televisão brasileira
sofreu o acirramento da
censura. O fato que marcou tal
situação foi a morte do diretor
de jornalismo da TV Cultura de
São Paulo, Vladimir Herzog. Na
telenovela houve muitos fatos
relacionados à censura, e o
mais bizarro ocorreu em 1976,
em O Casarão, veiculada pela
Rede Globo. Por causa da Lei
Falcão, que proibia qualquer
aparição de candidatos a cargos
públicos nas redes de
televisão. Saiu do ar por uns
tempos. De 1985, com o retorno
dos civis ao governo, até a
promulgação da Constituição de
1988, as emissoras se valeram
de filmes anteriormente
proibidos e as novelas diárias
utilizaram o erotismo e a
sensualidade para aumentar a
audiência.”
Inimá Simões,
jornalista e ensaísta,
preocupa-se quanto ao poder da
TV na formação dos “corações e
mentes” dada a sua importância
exacerbada no país. E
sentencia:
“A televisão
brasileira alcança todo o
território nacional e para a
maioria da população só ganha
existência real aquilo que é
exibido na TV. Existem hoje no
Brasil mais de 40 milhões de
lares com televisores, o que
facilita que um participante
medíocre de um reality-show
qualquer se torne uma
celebridade instantânea,
convidada a todos os eventos!
Costuma-se dizer que o Brasil
passou de uma cultura
pré-literária para uma cultura
de imagens, pós-literária, sem
passar pela mediação
tradicional dos livros, do
teatro, do jornal, da
revista.Uma pesquisa
patrocinada pela CBL (Câmara
Brasileira do Livro) em 2001,
revelou que o brasileiro lê, em
média, 1,8 livro por ano.
Publicam-se cerca de três
revistas por habitante/ano, e
todos os jornais diários
somados não tem uma vendagem
superior a oito milhões de
exemplares/dia. A população
brasileira entronizou a
televisão como sua principal
referência cultural e esse é um
desafio ainda pouco
enfrentado.”
Ainda Inimá
Simões:
“Nesse momento, duas questões
prioritárias tomam espaço na
pauta televisiva: a TV digital
e a TV pública. Sejamos
razoáveis: a tecnologia digital
é inevitável e espera-se no
mínimo que haja bom senso na
sua instalação e na escolha de
modelos e padrões. Quanto à TV
pública nacional, espera-se que
configure um contraponto à TV
comercial, quer seja adotada de
formas de controle social e que
ofereça uma programação
diferenciada.”
O país viveu a ditadura
militar, que perseguiu,
censurou, torturou (mentalmente
e fisicamente) e escabreou o
povo brasileiro. O retorno à
normalidade democrática, em
1985, trouxe um alento especial
à sociedade brasileira com a
expectativa elementar da
liberdade total. Porém, a
situação pulou de “8 pra
80”, a televisão
brasileira emergiu da ditadura
militar poderosa, pela
sensibilidade em que passava a
nação. E isso foi o suficiente
para se estabelecer como
protagonista suprema, ficando
acima dos controles
institucionais, administrando
suas próprias necessidades e
atendendo aos próprios
interesses. Houve
significamente apenas duas
medidas reguladoras nos últimos
anos: a classificação
indicativa (advertência da
programação imprópria para
horário tal) e a
classificação etária
(advertência da programação
imprópria para faixa etária
tal). E quando se fala num
controle social, controle de
qualidade, muitos já
radicalizam dizendo que é
censura na programação, nos
moldes utilizados durante a
ditadura militar.
Alguns pontos
são questionados: a televisão
brasileira ainda é muito
centralizada no eixo Rio - São
Paulo, deixando muitas vezes de
contemplar as pautas de outras
regiões do país; sua proposta
ainda é exageradamente
comercial, poderia ter uma
programação maior para pautas
culturais e educativas; gera um
conflito de valores em cada
população ou comunidade; a
promoção da cultura local de
cada região é prejudicada por
uma pauta televisiva que
empurra goela abaixo no povo
brasileiro uma programação que
interessa uma camada da
sociedade.
Finalizo com
Fernando Barbosa Lima,
criador de tantos programas de
televisão bons, mais de 50 anos
de carreira:
“Sou muito feliz
quando penso nos meus sonhos e
na minha capacidade de
realizá-los. Assim é a vida.”
Marcos Damasceno
(pesquisador) |