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Numa cidade pacata da região de
São Raimundo Nonato-PI existiam
muitos bares. Mais do que
qualquer outra coisa. Lá, bar
era o lazer das pessoas. Também
local de entretenimento,
encontro de amigos, de
confraternização. Não existia
cerveja na época, só cachaça. A
cachaça ‘Pitu’ era a bebida do
momento. De manhã (bem
cedinho), a justificativa dos
cachaceiros: “Vou ali
tomar uma (cachaça), pra ir
tomar o meu café de massa.”
Ao meio-dia, a mesma conversa:
“Vou ali tomar uma
(cachaça), pra ir almoçar.”.
À noite, também: “Vou ali
tomar uma (cachaça), pra ir
dormir. Faz bem (a cachaça)
para a circulação (sanguínea).”
Enfim, não faltava motivo (ou
desculpa) pra ir beber. E nessa
brincadeira, bebendo todo dia e
toda hora, muitas pessoas
tornaram-se alcoólatras sem
querer. É importante salientar,
que não existia nenhuma briga.
Nunca ninguém brigou.
Tudo era motivo de conversa. As
pessoas reuniam-se pra comentar
fatos e acontecimentos da
cidade. Fuxico até umas horas.
Tomavam de conta da vida dos
outros. Aquele modelo de
convivência de cidade pequena.
Rola um boato danado. Muitos
não têm nada pra fazer mesmo! E
tome futricas, picuinhas e
conversas fiadas. ‘Zezão’
era o chefe nas rodas de
conversa, o centro das
atenções. Sempre dizendo quem
era “isso e/ou aquilo”, na
cidade, e esquecendo-se da sua
vida, da sua família. E numa
manhã nublada foi para os
bares, contar o novo “babado”
da cidade, a traição da mulher
de um comerciante. Achando-se o
máximo, ao “rasgar” a vida dos
outros. E ao sair na porta do
bar, de frente pra rua, muitas
pessoas presentes, depois de
uma boa dose de cachaça, disse:
“Eita, que se desse uma
chuva pra levar todos os cornos
dessa cidade eu achava era
bom!” Na justa hora sua
mulher ia passando, e
respondeu: “Cuidado, que
tu não sabe nadar.”
Passou a maior vergonha.
‘Zezão’ era mais um corno
da cidade. Seu ‘Chiquinho do
Afonso’, um dos presentes,
desabafou: “Aí é pra você
aprender. Sua língua é grande
demais. Quando morrer, você vai
precisar de dois caixões: um
pro corpo e outro pra língua.”
E ele ficou cabisbaixo. E ainda
um dia seu filho admirou ao ver
um rádio novo em casa:
“Mamãe, foi o papai que
comprou?” E a mãe
respondeu: “Deixa de ser
besta menino, se eu fosse
esperar por teu pai nem você
teria nascido!” A
cidade toda ficou sabendo. Mas
ê! Era aquela história do
feitiço contra o feiticeiro.
‘Zezão’ ficou sumido por
alguns dias.
De repente, apareceu o homem (‘Zezão’).
Desconfiado todo. Nos bares.
Bem no dia em que seus amigos
estavam planejando o roubo de
uma galinha na casa de Seu
Antônio. Seu neto
‘Zuquinha’ no meio,
ajudando a montar o plano.
“Na casa do vovô tem cada
galinha gorda...”,
sentenciou. E os outros
emendaram: “Pois hoje nós
vamos é lá!” No plano
(era tudo planejado, estão
pensando o quê?), o ‘Zuquinha’,
ágil e bom de pulo, iria pular
o muro e pegar a galinha,
matá-la e jogar de lá, por cima
do muro. À noite, depois da
11h00min, plano em ação. Pulou
o muro, mas deu tudo errado. O
Seu Antônio, dono da
casa, estava construindo uma
caixa d’água (um reservatório),
e havia cavado um buraco
profundo (2,5 metros de
profundidade). E o ‘Zuquinha’,
ao pular o muro, caiu do outro
lado dentro do tal buraco. Foi
uma queda enorme (2 metros da
altura do muro mais 2,5 metros
da profundidade do buraco). E
os amigos, lá fora, sem
notícia, gritaram: “Cadê
Zuquinha, o que foi que
aconteceu?” E ele:
“Caí num buraco, quase não
chego ao chão.” Não
fraturou nada (nenhum osso),
mas se machucou todo. Os amigos
tiveram que jogar uma corda
para tirá-lo de lá de dentro do
buraco. Saiu todo empenado
(torto). Não deu certo o roubo
da galinha. Porém, ninguém
soube disso. Só o ‘Zuquinha’
que teve que inventar uma
desculpa para suas raladuras.
Mais uma história. Nicolau
era um cidadão de bem. Não
frequentava um bar por nada
nesse mundo. Sua vida era ir
pro trabalho (era pedreiro) e
pra casa. E nos finais de
semana, pra roça. Muito caseiro
e reservado. Até seu caminhado
era correto. E seu irmão montou
um bar. Mais um na cidade. E
ele se viu obrigado a ir para a
inauguração. Chegou lá todo
errado, todo desconfiado. Seu
irmão, dono do bar, serviu um
refrigerante para ele, no
balcão mesmo. E ele ali
tranquilo, tomando seu
refrigerante numa boa. De
repente, chega o ‘Zezão’
com sua turma (“Cambada
de bêbados.”). E tome
indaga no balcão. ‘Zezão’,
sem perceber (ou percebendo),
pisou no pé do Nicolau e
ficou por um bom tempo pisado.
E Nicolau, muito
direito, odiava confusão,
aguentou calado. E pensou
consigo mesmo: “Isso aí é
pra você aprender, e nunca vir
para um bar.” E foi
embora sem terminar de beber o
refrigerante, e sem explicar
pra seu irmão o motivo da sua
ida.
Voltando à vida do ‘Zezão’,
estava tumultuada. Sua esposa
recorreu a muita gente para
aconselhá-lo a parar de beber.
Um amigo assegurou: “Não
é ele, é ela (a cachaça); é o
vício, a dependência.”
Foi bronqueado por sua mãe, que
morava no interior do
município: “Acabe com
essas cachaças meu filho.”
E ele respondeu na maior “cara
de pau”: “Não tem como
mamãe, quando eu tome um litro
fabricam dez.” Sua
esposa o reclamou:
“Respeita tua mãe!” E a
mãe insistiu: “A bebida
mata aos poucos, a gente nem
percebe e ela vai matando-nos
devagarzinho.” E o
‘Zezão’ mais uma vez:
“Melhor ainda, não tenho
pressa em morrer.” E
emendou: “Se eu quisesse
ficar bom, tomaria era remédio.
Bebo cachaça porque quero é
passar mal.” E a mãe
desistiu dele, de consertar o
filho. Ele já estava
dependente.
‘Zezão’
entrou em depressão. Passou a
beber mais ainda. Mas foi por
pouco tempo, logo recebeu uma
notícia boa. Seu tio, ‘João
das Éguas’ (assim
conhecido), um grande
fazendeiro da região, não tinha
filho, já viúvo, o procurou pra
comunicar que lhe deixaria toda
a sua herança. Pulou de
alegria. E foi comemorar com os
amigos. “Agora sou um
homem rico”,
gritava de felicidade.
Pouco tempo depois de passar a
herança pro sobrinho, Seu
‘João das Éguas’ morreu.
Até chegaram a desconfiar dele
(‘Zezão’). Ele revidou:
“Meu tio morreu foi de
morte morrida, e não de morte
matada (querendo dizer que não
foi assassinado). Eu não tenho
nada a ver com isso.” E
foi desfrutar do patrimônio
deixado pelo tio. Na verdade,
fez foi acabar com tudo. No
meio da herança, tinha um
jeep (da marca Willys).
Um dos poucos na região. Logo
aprendeu a dirigir com
‘Chico da Boléia’, o
motorista do seu tio. Depois
disso, a primeira providência
foi demitir o histórico
motorista. E tome desmantelo.
Os amigos aumentaram. Todos
querendo “serrar” bebida do
endinheirado ‘Zezão’. E
mão aberta, gastador que era
uma beleza. O bar do ‘Manoelito’,
o maior da cidade, era ponto
certo deles. Tinha até mesa
especial para o novo rico da
cidade. Fez logo um discurso:
“Meus amigos, a partir de
hoje nós temos dinheiro pra
beber até umas horas. Estamos
juntos nessa diversão (cachaçada).
Beber é uma missão daqueles que
querem celebrar as coisas boas
e ruins da vida (virou até
filósofo). Estamos juntos.
Podem contar comigo, dinheiro
pra nós bebermos não vai
faltar.” Como se diz na
gíria: “Bebiam todas.”
Na alegria, bebiam para
comemorar algo; na tristeza,
para desabafar alguma mágoa; no
verão, por causa do calor; no
inverno, por causa do frio; os
casados, porque tinham mulher
(e problema); os solteiros,
porque não tinham mulher. A
confusão era grande. Muitos
(dos cachaceiros) quase nem
andavam mais em casa. Onde o
‘Zezão’ estava, via-se uma
multidão de bêbados. E o
dinheiro “subiu pra cabeça”
dele. Passou a ser o valentão
da cidade, não se contentou em
ser só o mais o rico. Parece
que ele queria desabafar, ou
até se vingar, das humilhações
que sofreu quando não tinha
dinheiro. Até o delegado da
cidade estava com receio em
mexer com a turma do ‘Zezão’.
E o valentão ainda mandava
recado pro delegado, através de
seus discípulos cachaceiros:
“Quando falaram o nome do
senhor no bar do ‘Manoelito’, o
‘Zezão’ cuspiu no chão, três
vezes.” Falavam assim,
os cachaceiros emissários do
seu recado. Naquela época,
cuspir no chão quando se falava
o nome de alguém era sinal de
muito ódio. Imagine cuspir três
vezes. E o delegado
preocupava-se: “Foi
mesmo?”. O efetivo
policial da cidade era composto
de um delegado e um soldado
apenas. E a moral do ‘Zezão’
só aumentava.
Naquele tempo, ter a fama de
valente era sinônimo de
status.
Chegou o dia do aniversário do
‘Zezão’. Os cachaceiros
lembraram. Nem ele não
lembrava. Amanheceram na porta
da sua casa, gritando:
“Zezão, cadê você? Viemos aqui
só pra beber.” Ele
apareceu: “Estou aqui
meus amigos.” E eles:
“Zezão, Zezão...”
O aniversariante, empolgado com
tamanha atenção por parte dos
amigos, disse: “Hoje vai
faltar bebida na cidade pra
nós.” Um dos
cachaceiros gritou:
“Muito bem, Zezão!” E
saíram em carreata pela cidade.
Alguns no jeep, outros
correndo atrás. E tome cachaça.
Foram pro bar do ‘Manoelito’.
Lá, ‘Zezão’ comprou
todas as bebidas da prateleira,
e mandou distribuir para todos
os presentes.
A alegria era
imensa, por parte dos
cachaceiros. Fartura (de
cachaça) muito grande. Tinha
até debate. E qualificado.
‘Geraldinho da Júlia’,
preconceituoso e prepotente,
analisando as coisas do mundo,
resolveu falar sobre o
homossexualismo:
“Primeiro era proibido
(ilegal). Depois passou a ser
permitido (legal). Agora já é
normal.” Tomou mais uma
dose (de cachaça) e sentenciou:
“Estou com medo de que
daqui uns tempos seja
obrigatório.” Todos
sorriram. A alegria era
tamanha, que estavam sorrindo à
toa. ‘Everaldo do
Manoelzinho’,
apaixonado pela ‘Mariinha
da Zefinha’, ao virar
mais um copo de cachaça “goela
abaixo”, filosofou: “Bebo
não é por vício nem é por nada.
Bebo porque vejo no fundo do
copo o rosto da Mariinha, minha
futura namorada.” Mais
uma comemoração. Tudo era só
alegria. Lembro aqui as
palavras do cantor Zeca
Pagodinho, sobre cachaça:
“A
cerveja e a cachaça são os
piores inimigos do homem. Mas o
homem que foge dos seus
inimigos é um covarde.”
Acabaram-se as bebidas do bar
do ‘Manoelito’. E olhe
que era um bar enorme, muito
estruturado. Acredite, é
verdade! Também não era pra
menos. E o ‘Zezão’,
diante do comunicado do dono do
bar, de que as bebidas haviam
acabado, fez mais discurso:
“Meus amigos, o que acabou
foi a bebida daqui, não nossa
comemoração. Vamos continuar na
volta da raposa.” Era
um bar numa localidade próxima,
pertencente ao município
vizinho. E partiram de viagem.
Todos já bastante bêbados. E o
aniversariante resolveu levar
todos no seu jeep. Não
cabiam todos, de forma alguma.
O espaço era pequeno e para ir,
um magote de gente. Ficou gente
pendurada de todo jeito. O
motorista (‘Zezão’) deu
uma arrancada na saída. Nessa
hora caíram dois bêbados. Os
outros passageiros nem
perceberam (que dois haviam
caído). E tome carreira. Ainda
bem que o jeep só tem
três marchas (pra frente).
‘Zé Nunes’, que ia a seu
lado, disse: “Bota a
segunda (marcha) que já vai
saindo fogo aqui.” Na
frente, uma curva. Do jeito que
vinha (veloz) o motorista
entrou na curva, os demais
bêbados que estavam na parte de
trás do carro, caíram todos.
Fez foi despejar mesmo. Só
ficou o passageiro da frente (‘Zé
Nunes’), porque estava
agarrado naquele gancho que tem
o jeep. E claro, o
‘Zezão’ que era o
motorista. O carro não tinha
porta nem capota. Rápida foi a
queda dos bêbados, mas ainda a
velocidade com que
levantaram-se do chão (mesmo
ralados e acidentados) para
correr atrás do carro,
gritando, preocupados em ir
também. O que cachaça não faz.
Também, confirma-se aquele
bordão popular: “Bêbado
tem sorte.” Não
sofreram nenhuma fratura, nada
grave. Só raladuras. O
‘Zezão’ parou lá na frente.
E seguiram viagem (todos,
juntos e unidos).
Chegaram. Lá, o “filósofo”
‘Everaldo do Manoelzinho’,
o apaixonado pela ‘Mariinha
da Zefinha’, disse:
“Não bebo mais.” Aí os
demais bêbados repudiaram-no:
“O que é isso Everaldo?
Não diga uma besteira dessas.”
E ele completou sua frase:
“Nem menos. Bebo do mesmo
tanto ainda.” Tome
aplausos. E o ‘Zezão’,
contando muita vantagem, falou
sobre sua velocidade:
“Pense numa carreira...”
Isso para impressionar as
pessoas da localidade. Naquele
tempo carro “era coisa de outro
mundo.” De novo o ‘Everaldo
do Manoelzinho’: “A
carreira foi tão grande que nas
curvas dava até pra ver a placa
(traseira).”
Estava indo tudo bem, até
baixar o espírito do Lampião
(da valentia) no ‘João da
Helena’, um dos amigos do
‘Zezão’. Começou a
encrencar com todos,
notadamente com os mais fracos
(fisicamente). De valente não
tinha era nada, era só zoada. E
o valentão avistou
‘Pedrinho’, um rapaz
pequeno (miudinho) que estava
ali sozinho numa mesa, triste,
diante de um copo de cachaça,
parecendo está buscando coragem
para virá-lo “goela abaixo”. E
‘João da Helena’,
atrevidamente, pegou o copo de
cachaça do triste rapaz e
bebeu. E para procurar
encrenca, perguntou:
“Achou ruim?” E
‘Pedrinho’, com sua voz
serena, respondeu: “Não.
Achei foi bom. Tinha botado um
veneno nessa cachaça pra eu
morrer, por causa de uns
problemas lá em casa, e depois
que você bebeu é que vi a
besteira que ia fazendo. Você
foi quem se lascou.”
Nisso, veio a mangação por
parte das pessoas daquele
município (vizinho),
incomodadas com a bagunça da
turma do ‘Zezão’, e a
preocupação por parte dos seus
amigos.
Só não morreu
porque rapidamente foi
socorrido com alguns
procedimentos, parece-me que,
principalmente, ingeriu uma
grande quantidade de leite. Mas
sofreu sequelas. De acordo com
os especialistas,
‘leite ou água
diluem o agente que provoca a
intoxicação e retardam sua
absorção. Mas se ainda estiver
no estômago. O leite neutraliza
os sucos digestivos, tudo o que
estiver no estômago demorará
mais para ser absorvido, dando
mais tempo para o socorro.
Porém, isto é apenas paliativo.
Deve-se levar a pessoa ao
hospital o mais rápido
possível’.
As cachaçadas do
‘Zezão’ foram longe
demais. Como diz a sabedoria
popular:
“Quem procura,
um dia acha.”
Marcos Damasceno
(pesquisador) |