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No município São Raimundo
Nonato-PI existia um homem
muito vaidoso. Adorava quando
diziam que ele estava elegante.
Vestia-se bem, bem arrumadinho.
Arrochadinho todo (a calça
debaixo do braço, acima do
umbigo). “É assim que
sou. Gosto de me vestir bem,
estar me sentindo bonito”,
sentenciava. Todo lorde.
O cabelo dele
era pouco, sendo mais careca do
que outra coisa. E ainda tinha
3 cores: branco (grisalho) por
baixo, azul no meio (pela tinta
desgastada) e em cima era
vermelho (a tinta era ruim,
também pelos raios solares). Na
época não existiam salões de
beleza, que fazem tratamentos
capilares com profissionalismo,
nem clínicas de estética. Ele
mesmo pintava seu cabelo. Tudo
isso para “esconder” a idade.
Um pente sempre no bolso, a
cada minuto tirava-o para
pentear o pouquinho de cabelo
que tinha. Gostava de
filosofar:
“A beleza causa
inveja nas pessoas. Muitos
ficam apontando para os
defeitos dos outros só para
esconder os seus, se sentirem
melhor consigo.”
A vaidade para ele era
indispensável. Não sabia viver
sem ela. Chegava a ter exagero.
Queria compensar, já que estava
idoso. Portanto, queria parecer
mais novo. Não botava a benção
de ninguém, nem aceitava a
benção de nenhuma pessoa, em
público. Só dos filhos, netos,
sobrinhos, familiares. E era
escondido. E ainda olhada para
um lado e pro outro pra ver se
tinha alguém olhando. A ordem
era dura: “Nem pensem em me
tomar benção no meio do povo!”
Falava isso para seus
familiares.
Pra completar, ficou viúvo. Meu
Deus! Tudo em dobro,
principalmente a vaidade.
“Só andava nas pancas”,
um bordão da região. Nos
correios, ao tirar o dinheiro
da aposentadoria, deixava as
pessoas passarem à sua frente:
“Já que todos nós somos
idosos, os mais velhos passavam
na frente.” Querendo
dizer que era um “idoso mais
novo”. Deixa que era mais idoso
do que a maioria que estava na
fila. E certo dia levou uma
lapada, ao chamar uma senhora
de velha: “Você assiste à
televisão? Pois velho é seu
preconceito. E ainda fica você
querendo ser novo, sendo
idoso.” O tumulto foi
grande, até que apartaram a
confusão.
O dinheiro da
aposentadoria era só pra
comprar roupa, tomar uma
cerveja enfim. Seu caminhado
era de robô, de tanta boemia.
Parecia até que havia engolido
uma alavanca. Ao chegar numa
roda de conversa era de praxe
(costume) perguntar: “Como
vão as cousas (coisas) meus
amigos?” Dava uma
olhada no seu corpo todo, uma
conferida se estava tudo dentro
da sua arrumação, e perguntava
novamente: “Cadê as
meninas?” Queria passar
a imagem de galã para os
outros. A dona do bar que
frequentava dizia: “É só
ensaio.” Era igual ao
velho do terreno. Um senhor
estava mijando (fazendo xixi)
perto de um terreno baldio, e
um rapaz que passava naquele
instante por lá, perguntou:
“Como o senhor está Seu
Libório?” E ele:
“Estou aqui meu filho, mijando
no que é meu.” E o
rapaz admirou: “O senhor
é dono deste terreno?”
E Seu Libório respondeu:
“Sou dono do sapato.”
O “vovô lorde”
arrumou uma namorada. E sofreu
preconceito de todo jeito. Ela
também. Eles diziam, e
insistiam dizendo, que era
amor. Ninguém acreditava.
Principalmente sua família.
Todos achavam ser conveniência
financeira, isto é, a moça
estava namorando ele para
explorá-lo financeiramente. Ela
tinha idade de ser sua neta. Um
amigo próximo o constrangeu:
“Amor? Eu nunca vi uma
mulher bonita e nova querer um
velho pobre!” Ele se
isolou de todos. Foi morar com
a moça numa casa que alugou.
Gastava demais.
“Tratava-a como uma princesa”,
dizia o vizinho encrenqueiro. E
ele revidava, ofendendo a
mulher do vizinho: “Minha
vizinha é um jaburu (não é a
ave, é uma expressão usada
popularmente para chamar alguém
de feio). O marido dela (o
vizinho encrenqueiro) tem que
dar um cigarro pra ela fumar,
pra saber qual é o lado da
frente.” E tome
picuinha:
“Ela não é feia,
é diferente das outras. Diz
está em forma, só se for em
forma de bujão. Tudo nela está
cima, os peitos em cima da
barriga e a barriga em cima das
pernas.”
E a aposentadoria não dava mais
para as despesas. Era só
vendendo coisas para sustentar
essa mulher. Passou a fazer
empréstimo. Acumulou dívidas.
Segundo um amigo, ‘ele
devia tanto que nem podia
chamar a mulher de meu bem,
senão o banco tomava’.
Pense num amigo.
A moça o abandonou, deixando
mais ainda suspeita do seu
amor, do seu real interesse,
por ele. Só foi o “vovô
lorde” ficar sem dinheiro, ela
não o quis mais. Entrou em
depressão. Seu filho o
consolou: “Papai, não
fique triste, mas feliz por
estar livre de um casamento
malfeito.” E ainda
descobriu que estava com câncer
de próstata. Seu filho o
levou pra casa. “Família
é família”, assegura
minha avó. Pelo menos não fez
como o vovô de um filme que
assisti. Ao ser comunicado que
estava com câncer de próstata,
saiu fazendo dívida pra todo
lado. Ia morrer mesmo. Não
queria deixar seus bens pra
família. E deixando um monte de
dívidas, seus familiares teriam
que pagar, e ficariam,
portanto, sem o seu patrimônio.
E poucos dias depois, já todo
endividado, dívida pra todo
lado, o médico chamou-o para
comunicar que ele não estava
com câncer de próstata, que seu
exame havia sido trocado. E ele
ficou doido com isso.
A família do “vovô lorde” foi
orientada pelo médico a falar
coisas boas para ele. Não
existia psicólogo na época, na
região. E alertou ao seu filho:
“Cuidado com as visitas.
Não deixe os visitantes falarem
coisas ruins pra ele.”
E de repente, a visita do seu
compadre. Amigo das antigas. E
seu filho achou que a presença
do compadre faria bem a ele (ao
vovô lorde), já que se tratava
de uma pessoa muito importante
na sua vida. E o compadre:
“Moço de Deus, o compadre
está é mal!” E ele
penosamente respondeu: “É
verdade compadre, estou aqui
nesta cama só esperando o dia
de morrer.” E o
compadre arrochou falando
coisas ruins: “Estou
vendo mesmo que o senhor está
ruim, na sua situação a morte
está por perto.” Como
diz o linguajar popular:
“Está com um pé na cova.”
E ele passou mal, sofreu
uma recaída. Chegou a entortar
a boca pra morrer. Ainda
arregalou os olhos. E seu filho
meteu um empurrão no compadre
(visitante) e tirou-o do quarto
em que estava seu pai. O “vovô
lorde” ficou só observando
tudo. A voz quase nem saía
mais.
Foram ao médico.
Ele novamente disse ao seu
filho: “Cuidado com as
visitas. Não deixe isso mais
acontecer. Se possível, traga
para visitá-lo alguém bem
próximo, que o coloque para
cima, que levante seu astral.
Seu pai precisa se conformar,
de certo modo, com a situação.
Senão, será pior.” E
seu filho lembrou: “Já
sei de uma pessoa: Seu Zeferino
rezador.” E foi atrás
do Seu Zeferino. Veio na
hora. E começou a tentativa da
conformação: “O senhor
está bem. Falaram-me que estava
pior.” E o “vovô
lorde”: “Estou nada
Zeferino. Já estou sentindo o
cheiro da morte.” E
Seu Zeferino revidou:
“A morte é uma coisa boa.
Vista de outro ângulo é algo
bom.” E continuou sua
teoria: “Quem morre tem
descanso eterno; vai para um
lugar bom; tem paz, sossego
espiritual e ficará no Reino
dos Céus.” E por fim,
assegurou: “Não há lugar
melhor do que está no Reino dos
Céus, descansando eternamente.”
E o “vovô lorde”
seguramente afirmou:
“Mas aqui
em São Raimundo
(São Raimundo Nonato-PI) é tão
bonzinho...”
Vale salientar, que dias depois
o “vovô lorde” faleceu. E essa
história nos deixa algumas
lições. Primeiro, a obsessão
pela vaidade. Ou querer-se
evitar a velhice. O ser humano
tem essa trajetória, deixada
por Deus (infância,
adolescência, fase adulta e
velhice). Todas essas fases são
divinas. E cada uma delas tem
sua importância para a
humanidade. Depois, vem a
questão de muitos idosos serem
descuidados pelos familiares,
outros até abandonados. Também,
casos de idosos sendo
explorados, por familiares e
por terceiros. E por fim,
muitos idosos trocam a família,
até chegam a brigar com ela,
por certas aventuras amorosas.
E sorte das vezes que se tem um
final bom. Normalmente nesses
casos o final é trágico,
arruína a vida dessas pessoas.
Isso acontece nos dias de hoje
também. É um problema atual.
Fica o alerta para todos.
Marcos Damasceno
(pesquisador) |