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Relatos...

      

MARCOS OLIVEIRA DAMASCENO, 27 ANOS, ESCRITOR, CRONISTA, MEMORIALISTA, HISTORIADOR. NATURAL DE DOM INOCÊNCIO – PI. DOUTORANDO EM FILOSOFIA POLÍTICA, PELA INTERNATIONAL UNIVERSITY OFF CAMBRIDGE.


Vovô Lorde

marcosdamasceno23@yahoo.com.br


No município São Raimundo Nonato-PI existia um homem muito vaidoso. Adorava quando diziam que ele estava elegante. Vestia-se bem, bem arrumadinho. Arrochadinho todo (a calça debaixo do braço, acima do umbigo). “É assim que sou. Gosto de me vestir bem, estar me sentindo bonito”, sentenciava. Todo lorde.

 

O cabelo dele era pouco, sendo mais careca do que outra coisa. E ainda tinha 3 cores: branco (grisalho) por baixo, azul no meio (pela tinta desgastada) e em cima era vermelho (a tinta era ruim, também pelos raios solares). Na época não existiam salões de beleza, que fazem tratamentos capilares com profissionalismo, nem clínicas de estética. Ele mesmo pintava seu cabelo. Tudo isso para “esconder” a idade. Um pente sempre no bolso, a cada minuto tirava-o para pentear o pouquinho de cabelo que tinha. Gostava de filosofar: “A beleza causa inveja nas pessoas. Muitos ficam apontando para os defeitos dos outros só para esconder os seus, se sentirem melhor consigo.”

 

A vaidade para ele era indispensável. Não sabia viver sem ela. Chegava a ter exagero. Queria compensar, já que estava idoso. Portanto, queria parecer mais novo. Não botava a benção de ninguém, nem aceitava a benção de nenhuma pessoa, em público. Só dos filhos, netos, sobrinhos, familiares. E era escondido. E ainda olhada para um lado e pro outro pra ver se tinha alguém olhando. A ordem era dura: “Nem pensem em me tomar benção no meio do povo!” Falava isso para seus familiares.

 

Pra completar, ficou viúvo. Meu Deus! Tudo em dobro, principalmente a vaidade. “Só andava nas pancas”, um bordão da região. Nos correios, ao tirar o dinheiro da aposentadoria, deixava as pessoas passarem à sua frente: “Já que todos nós somos idosos, os mais velhos passavam na frente.” Querendo dizer que era um “idoso mais novo”. Deixa que era mais idoso do que a maioria que estava na fila. E certo dia levou uma lapada, ao chamar uma senhora de velha: “Você assiste à televisão? Pois velho é seu preconceito. E ainda fica você querendo ser novo, sendo idoso.” O tumulto foi grande, até que apartaram a confusão.

 

O dinheiro da aposentadoria era só pra comprar roupa, tomar uma cerveja enfim. Seu caminhado era de robô, de tanta boemia. Parecia até que havia engolido uma alavanca. Ao chegar numa roda de conversa era de praxe (costume) perguntar: Como vão as cousas (coisas) meus amigos?” Dava uma olhada no seu corpo todo, uma conferida se estava tudo dentro da sua arrumação, e perguntava novamente: “Cadê as meninas?” Queria passar a imagem de galã para os outros. A dona do bar que frequentava dizia: “É só ensaio.” Era igual ao velho do terreno. Um senhor estava mijando (fazendo xixi) perto de um terreno baldio, e um rapaz que passava naquele instante por lá, perguntou: “Como o senhor está Seu Libório?” E ele: “Estou aqui meu filho, mijando no que é meu.” E o rapaz admirou: “O senhor é dono deste terreno?” E Seu Libório respondeu: “Sou dono do sapato.”

 

O “vovô lorde” arrumou uma namorada. E sofreu preconceito de todo jeito. Ela também. Eles diziam, e insistiam dizendo, que era amor. Ninguém acreditava. Principalmente sua família. Todos achavam ser conveniência financeira, isto é, a moça estava namorando ele para explorá-lo financeiramente. Ela tinha idade de ser sua neta. Um amigo próximo o constrangeu: “Amor? Eu nunca vi uma mulher bonita e nova querer um velho pobre!” Ele se isolou de todos. Foi morar com a moça numa casa que alugou. Gastava demais. “Tratava-a como uma princesa”, dizia o vizinho encrenqueiro. E ele revidava, ofendendo a mulher do vizinho: “Minha vizinha é um jaburu (não é a ave, é uma expressão usada popularmente para chamar alguém de feio). O marido dela (o vizinho encrenqueiro) tem que dar um cigarro pra ela fumar, pra saber qual é o lado da frente.” E tome picuinha: “Ela não é feia, é diferente das outras. Diz está em forma, só se for em forma de bujão. Tudo nela está cima, os peitos em cima da barriga e a barriga em cima das pernas.”

 

E a aposentadoria não dava mais para as despesas. Era só vendendo coisas para sustentar essa mulher. Passou a fazer empréstimo. Acumulou dívidas. Segundo um amigo, ‘ele devia tanto que nem podia chamar a mulher de meu bem, senão o banco tomava’. Pense num amigo.

 

A moça o abandonou, deixando mais ainda suspeita do seu amor, do seu real interesse, por ele. Só foi o “vovô lorde” ficar sem dinheiro, ela não o quis mais. Entrou em depressão. Seu filho o consolou: “Papai, não fique triste, mas feliz por estar livre de um casamento malfeito.” E ainda descobriu que estava com câncer de próstata. Seu filho o levou pra casa. “Família é família”, assegura minha avó. Pelo menos não fez como o vovô de um filme que assisti. Ao ser comunicado que estava com câncer de próstata, saiu fazendo dívida pra todo lado. Ia morrer mesmo. Não queria deixar seus bens pra família. E deixando um monte de dívidas, seus familiares teriam que pagar, e ficariam, portanto, sem o seu patrimônio. E poucos dias depois, já todo endividado, dívida pra todo lado, o médico chamou-o para comunicar que ele não estava com câncer de próstata, que seu exame havia sido trocado. E ele ficou doido com isso.

 

A família do “vovô lorde” foi orientada pelo médico a falar coisas boas para ele. Não existia psicólogo na época, na região. E alertou ao seu filho: “Cuidado com as visitas. Não deixe os visitantes falarem coisas ruins pra ele.” E de repente, a visita do seu compadre. Amigo das antigas. E seu filho achou que a presença do compadre faria bem a ele (ao vovô lorde), já que se tratava de uma pessoa muito importante na sua vida. E o compadre: “Moço de Deus, o compadre está é mal!” E ele penosamente respondeu: “É verdade compadre, estou aqui nesta cama só esperando o dia de morrer.” E o compadre arrochou falando coisas ruins: “Estou vendo mesmo que o senhor está ruim, na sua situação a morte está por perto.” Como diz o linguajar popular: “Está com um pé na cova.” E ele passou mal, sofreu uma recaída. Chegou a entortar a boca pra morrer. Ainda arregalou os olhos. E seu filho meteu um empurrão no compadre (visitante) e tirou-o do quarto em que estava seu pai. O “vovô lorde” ficou só observando tudo. A voz quase nem saía mais.

 

Foram ao médico. Ele novamente disse ao seu filho: “Cuidado com as visitas. Não deixe isso mais acontecer. Se possível, traga para visitá-lo alguém bem próximo, que o coloque para cima, que levante seu astral. Seu pai precisa se conformar, de certo modo, com a situação. Senão, será pior.” E seu filho lembrou: “Já sei de uma pessoa: Seu Zeferino rezador.” E foi atrás do Seu Zeferino. Veio na hora. E começou a tentativa da conformação: “O senhor está bem. Falaram-me que estava pior.” E o “vovô lorde”: “Estou nada Zeferino. Já estou sentindo o cheiro da morte.” E Seu Zeferino revidou: “A morte é uma coisa boa. Vista de outro ângulo é algo bom.” E continuou sua teoria: “Quem morre tem descanso eterno; vai para um lugar bom; tem paz, sossego espiritual e ficará no Reino dos Céus.” E por fim, assegurou: “Não há lugar melhor do que está no Reino dos Céus, descansando eternamente.” E o “vovô lorde” seguramente afirmou: “Mas aqui em São Raimundo (São Raimundo Nonato-PI) é tão bonzinho...”

 

Vale salientar, que dias depois o “vovô lorde” faleceu. E essa história nos deixa algumas lições. Primeiro, a obsessão pela vaidade. Ou querer-se evitar a velhice. O ser humano tem essa trajetória, deixada por Deus (infância, adolescência, fase adulta e velhice). Todas essas fases são divinas. E cada uma delas tem sua importância para a humanidade. Depois, vem a questão de muitos idosos serem descuidados pelos familiares, outros até abandonados. Também, casos de idosos sendo explorados, por familiares e por terceiros. E por fim, muitos idosos trocam a família, até chegam a brigar com ela, por certas aventuras amorosas. E sorte das vezes que se tem um final bom. Normalmente nesses casos o final é trágico, arruína a vida dessas pessoas. Isso acontece nos dias de hoje também. É um problema atual. Fica o alerta para todos.

 

Marcos Damasceno

(pesquisador)

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Está coluna é de inteira responsabilidade do colunista Marcos Damasceno