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Relatos...

      

MARCOS OLIVEIRA DAMASCENO, 27 ANOS, ESCRITOR, CRONISTA, MEMORIALISTA, HISTORIADOR. NATURAL DE DOM INOCÊNCIO – PI. DOUTORANDO EM FILOSOFIA POLÍTICA, PELA INTERNATIONAL UNIVERSITY OFF CAMBRIDGE.


O sucesso da bolacha Lili

marcosdamasceno23@yahoo.com.br


Na década de 70, chegou à região a primeira bolacha (biscoito): a bolacha “Lili”. Era uma novidade tremenda. A criançada adorava. Poucos comércios na região. Quando os pais iam à feira (para as cidades fazer compra), era o pedido principal dos filhos (trazer bolacha “Lili”). Fora isso, aqui e acolá, vez por outra, o pedido de uma baladeira (estilingue) para matar passarinhos.

 

Lembro quando eu era criança, e morava no interior, nos anos 80, era um apaixonado pela bolacha “Lili”. Com leite, principalmente. Meu pai (Adelson Damasceno) toda vez que ia à feira, tinha um caminhão de linha (aqueles carros que têm um dia e um roteiro certos para uma viagem de um lugar para outro), trazia uma caixa de bolacha “Lili”. Isso era sagrado. Não poderia faltar de forma alguma, a cada viagem que fazia. Lembro também, já em outras épocas, que surgiu a bolacha “Rosquinha”. Já a bolacha “Recheada” é atual. Mesmo tendo 27 anos de idade, participei da época de sucesso das três, dos três tipos de bolacha. Cada uma teve sua importância para uma época.

 

Então, vamos à história. Tinha um senhor que morava numa localidade (não posso citar o nome) do então município de São Raimundo Nonato - PI (hoje do município de Dom Inocêncio - PI), próxima ao município de São João do Piauí - PI, que ia toda semana à feira do município vizinho (São João do Piauí - PI). Não falhava uma semana. E a cada viagem o seu filho (de 11 anos de idade) pedia pra trazer bolacha “Lili”. E o pai trazia. Filho único. Carinho ainda maior.

Pois bem. Certo dia, o senhor saiu de casa para a feira, de madrugada. Num carro de linha. Certo de trazer a bolacha “Lili” para o filho. Só que, pela manhã, o filho desmaiou. E somente ele e sua mãe estavam em casa. Logo, sua mãe passou a pensar que havia morrido. Deu-o como morto. E passou horas e horas sem voltar ao normal. Foi quando correu pra casa do vizinho, uns 500 metros de distância, pedindo socorro. Naquela época não existia médico por perto. E todos (ela e os vizinhos) chegaram à seguinte conclusão naquele momento: o menino havia morrido. Como o marido (o senhor) estava viajando, o que restava àquela desconsolada mãe era aguardar o retorno do caminhão da linha, à noite. Já chorando muito. E os vizinhos presentes, se solidarizando.

 

Os vizinhos providenciaram o velório. O sepulto (enterro, como se diz no interior) só no dia seguinte, pois teriam que aguardar o pai do menino (o senhor) chegar de São João do Piauí - PI. O vizinho mais próximo era carpinteiro, fez logo o caixão. De umburana. As mulheres prepararam o defunto (deram um banho nele, vestiram outra roupa, e arrumaram algodão com uma senhora, também vizinha, pra colocar no nariz). Defunto todo pronto. Era 17h00min. Todo o povo da redondeza já estava presente, aguardando a chegada do pai (o senhor), para no dia seguinte fazer o sepulto. Até a sepultura já estava aberta. A mãe, sem condição emocional de dar atenção ao povo presente. Os próprios vizinhos se encarregaram disso. Solidariedade é a característica principal da nossa gente. Nosso povo é muito solidário. Historicamente foi assim. Desde os primórdios (origem) até hoje.

 

A expectativa toda era para a chegada do pai do menino. “Vem chegando!”, avisou um dos vizinhos presentes, ao ouvir a zoada do carro. Ao chegar, o pai do menino, já desconfiado pelas pessoas reunidas na sua casa, estranhou: “Aconteceu alguma coisa aqui em casa!”. Também, ao descer da carroceria do carro, viu um clima ruim. O próprio olhar das pessoas já denunciava algum acontecimento desagradável. E ao entrar na casa, sofreu um choque emocional muito grande. Ficou tão abalado, que não conseguia nem falar direito. Não era pra menos. Uma comoção imensa. “Meu filho, meu único filho”, dizia penosamente. Todo o povo que estava no carro (da linha) desceu pra ver o defunto. E alguns passageiros ainda lamentaram: “Como são as coisas, passamos aqui de madrugada, e este menino estava bonzinho. E de repente, morre.” Demoraram pouco tempo (os passageiros do carro da linha). Despediram-se de todos os presentes, consolaram os pais do menino, e partiram. Seguiram viagem.

 

Os vizinhos, já pelas 21h00min, providenciaram um café para os presentes. E abriram a caixa de bolacha “Lili” (do menino). E fizeram a distribuição. A casa pequena. O povo impressado. Os pais ao lado do caixão. E o defunto (que na verdade não estava morto, apenas desmaiado) começou a voltar ao normal, depois de muitas horas. E ouvindo falar em bolacha “Lili”, que gostava muito, imediatamente lembrou-se da caixa que seu pai ficou de trazer da feira. De repente, levantou-se do caixa de uma vez, e bradou: “Vocês estão comendo minha bolacha!” Nisso, o algodão do nariz voou longe. Não ficou ninguém dentro da casa. O pai foi o primeiro que correu, e disparou correndo no rumo de uma roça. A casa (de taipa) quase cai no tumulto do povo saindo (desesperadamente). A cerca ao lado da casa (que na época era só entrançada, não tinha arame) ficou toda no chão. “Levamos (a cerca) nos peitos”, disse-me um dos que correram. E disparou gente correndo pra todo lado. Tinha até um portador de necessidades especiais (fisicamente falando), que se locomovia com dificuldade por causa de um problema na perna. Na carreira rumo à casa vizinha, uns 500 metros de distância, correndo com medo do defunto, foi o primeiro que chegou. E é bom que se diga: todos ainda tremendo de medo, uns olhavam para os outros, sem entender nada.

 

Isso nunca havia acontecido na região (um caso inédito). Mas até então, todos achando que (o menino) era uma assombração. Até os pais pensavam isso, naquele instante. Ninguém quis voltar pra casa no mesmo dia (à noite). Só no dia seguinte, pela manhã, é que foram tomando chegada, e perceberam que o menino estava vivo (de verdade). Aí tudo mudou. O choro de todos, notadamente dos pais, passou a ser de emoção, de alegria, pela volta do menino. E alguns vizinhos foram entupir a sepultura. Um dos tais (vizinhos) não perdeu a oportunidade, e disse: “Moço de Deus, andou perto de ser enterrado (sepultado) vivo”.

 

A notícia correu a região. Alguns chegaram a levantar a hipótese do milagre da ressurreição. Até que um médico de São Raimundo Nonato - PI esclareceu tudo, numa linguagem acessível, fácil de compreender: “Milagre da ressurreição só para Jesus Cristo. Esse menino sofreu foi um desmaio, de um tipo que a pessoa passa algumas horas para voltar ao normal.” E ainda alertou: “É sempre bom esperar 24 horas para sepultar uma pessoa. Pode ser um caso igual a esse.” Tal alerta para a época era procedente. Muito importante.

 

Isso tudo nos traz uma reflexão: muitas pessoas podem ter sido sepultadas vivas na nossa região, em casos semelhantes ao desse menino. Cito um exemplo ocorrido no nosso município: numa localidade resolveram mudar o cemitério de local, e ao retirarem os restos mortais, muitos cadáveres estavam emborcados, onde se levanta a hipótese de terem sido sepultadas vivas, essas pessoas, e morreram depois (na sepultura). E tenho que contar aqui uma presepada. Não posso perder o gancho. Tenho um amigo (maldoso), que não gosta da sua sogra. E disse-me que quando ela morrer, por via das dúvidas (pode está viva), pedirá para os coveiros que a sepulte com a tampa do caixão para baixo. Perguntei-o qual o motivo desse pedido. E explicou-me: “Pode ser que ela (a sogra) não tenha morrido de verdade, esteja só desmaiada. E ao voltar ao normal (do desmaio), a primeira providência que tomará (no sufoco) será a tentativa de sair da sepultura. Irá cavar pra sair. Com isso, cavará para baixo, afundou-se mais ainda”. Tanta maldade...

 

Por fim, essa observação (de pessoas sepultadas vivas) é interessante, e dura de acreditar. Porém, com reais probabilidades de muitos casos (na região) terem ocorridos dessa forma. Fica a experiência.

 

Marcos Damasceno

(pesquisador)

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Está coluna é de inteira responsabilidade do colunista Marcos Damasceno