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Na década de 70, chegou à
região a primeira bolacha
(biscoito): a bolacha “Lili”.
Era uma novidade tremenda. A
criançada adorava. Poucos
comércios na região. Quando os
pais iam à feira (para as
cidades fazer compra), era o
pedido principal dos filhos
(trazer bolacha “Lili”).
Fora isso, aqui e acolá, vez
por outra, o pedido de uma
baladeira (estilingue) para
matar passarinhos.
Lembro quando eu era criança, e
morava no interior, nos anos
80, era um apaixonado pela
bolacha “Lili”. Com
leite, principalmente. Meu pai
(Adelson Damasceno) toda
vez que ia à feira, tinha um
caminhão de linha (aqueles
carros que têm um dia e um
roteiro certos para uma viagem
de um lugar para outro), trazia
uma caixa de bolacha “Lili”.
Isso era sagrado. Não poderia
faltar de forma alguma, a cada
viagem que fazia. Lembro
também, já em outras épocas,
que surgiu a bolacha
“Rosquinha”. Já a bolacha
“Recheada” é atual.
Mesmo tendo 27 anos de idade,
participei da época de sucesso
das três, dos três tipos de
bolacha. Cada uma teve sua
importância para uma época.
Então, vamos à história. Tinha
um senhor que morava
numa localidade (não posso
citar o nome) do então
município de São Raimundo
Nonato - PI (hoje do município
de Dom Inocêncio - PI), próxima
ao município de São João do
Piauí - PI, que ia toda semana
à feira do município vizinho
(São João do Piauí - PI). Não
falhava uma semana. E a cada
viagem o seu filho (de
11 anos de idade) pedia pra
trazer bolacha “Lili”. E
o pai trazia. Filho único.
Carinho ainda maior.
Pois bem. Certo dia, o
senhor saiu de casa para a
feira, de madrugada. Num carro
de linha. Certo de trazer a
bolacha “Lili” para o
filho. Só que, pela manhã,
o filho desmaiou. E
somente ele e sua mãe estavam
em casa. Logo, sua mãe passou a
pensar que havia morrido. Deu-o
como morto. E passou horas e
horas sem voltar ao normal. Foi
quando correu pra casa do
vizinho, uns 500 metros de
distância, pedindo socorro.
Naquela época não existia
médico por perto. E todos (ela
e os vizinhos) chegaram à
seguinte conclusão naquele
momento: o menino havia
morrido. Como o marido (o
senhor) estava viajando, o
que restava àquela desconsolada
mãe era aguardar o retorno do
caminhão da linha, à noite. Já
chorando muito. E os vizinhos
presentes, se solidarizando.
Os vizinhos providenciaram o
velório. O sepulto (enterro,
como se diz no interior) só no
dia seguinte, pois teriam que
aguardar o pai do menino (o
senhor) chegar de São João
do Piauí - PI. O vizinho mais
próximo era carpinteiro, fez
logo o caixão. De umburana. As
mulheres prepararam o
defunto (deram um banho
nele, vestiram outra roupa, e
arrumaram algodão com uma
senhora, também vizinha, pra
colocar no nariz). Defunto
todo pronto. Era 17h00min. Todo
o povo da redondeza já estava
presente, aguardando a chegada
do pai (o senhor), para
no dia seguinte fazer o
sepulto. Até a sepultura já
estava aberta. A mãe, sem
condição emocional de dar
atenção ao povo presente. Os
próprios vizinhos se
encarregaram disso.
Solidariedade é a
característica principal da
nossa gente. Nosso povo é muito
solidário. Historicamente foi
assim. Desde os primórdios
(origem) até hoje.
A expectativa toda era para a
chegada do pai do
menino. “Vem chegando!”,
avisou um dos vizinhos
presentes, ao ouvir a zoada do
carro. Ao chegar, o pai
do menino, já desconfiado pelas
pessoas reunidas na sua casa,
estranhou: “Aconteceu alguma
coisa aqui em casa!”.
Também, ao descer da carroceria
do carro, viu um clima ruim. O
próprio olhar das pessoas já
denunciava algum acontecimento
desagradável. E ao entrar na
casa, sofreu um choque
emocional muito grande. Ficou
tão abalado, que não conseguia
nem falar direito. Não era pra
menos. Uma comoção imensa.
“Meu filho, meu único filho”,
dizia penosamente. Todo o povo
que estava no carro (da linha)
desceu pra ver o defunto.
E alguns passageiros ainda
lamentaram: “Como são as
coisas, passamos aqui de
madrugada, e este menino estava
bonzinho. E de repente, morre.”
Demoraram pouco tempo (os
passageiros do carro da linha).
Despediram-se de todos os
presentes, consolaram os pais
do menino, e partiram. Seguiram
viagem.
Os vizinhos, já pelas 21h00min,
providenciaram um café para os
presentes. E abriram a caixa de
bolacha “Lili” (do
menino). E fizeram a
distribuição. A casa pequena. O
povo impressado. Os pais ao
lado do caixão. E o defunto
(que na verdade não estava
morto, apenas desmaiado)
começou a voltar ao normal,
depois de muitas horas. E
ouvindo falar em bolacha “Lili”,
que gostava muito,
imediatamente lembrou-se da
caixa que seu pai ficou
de trazer da feira. De repente,
levantou-se do caixa de uma
vez, e bradou: “Vocês
estão comendo minha bolacha!”
Nisso, o algodão do nariz voou
longe. Não ficou ninguém dentro
da casa. O pai foi o
primeiro que correu, e disparou
correndo no rumo de uma roça. A
casa (de taipa) quase cai no
tumulto do povo saindo
(desesperadamente). A cerca ao
lado da casa (que na época era
só entrançada, não tinha arame)
ficou toda no chão.
“Levamos (a cerca) nos peitos”,
disse-me um dos que correram. E
disparou gente correndo pra
todo lado. Tinha até um
portador de necessidades
especiais (fisicamente
falando), que se locomovia com
dificuldade por causa de um
problema na perna. Na carreira
rumo à casa vizinha, uns 500
metros de distância, correndo
com medo do defunto, foi
o primeiro que chegou. E é bom
que se diga: todos ainda
tremendo de medo, uns olhavam
para os outros, sem entender
nada.
Isso nunca havia
acontecido na região (um caso
inédito). Mas até então, todos
achando que (o menino)
era uma assombração. Até os
pais pensavam isso, naquele
instante. Ninguém quis voltar
pra casa no mesmo dia (à
noite). Só no dia seguinte,
pela manhã, é que foram tomando
chegada, e perceberam que o
menino estava vivo (de
verdade). Aí tudo mudou. O
choro de todos, notadamente dos
pais, passou a ser de emoção,
de alegria, pela volta do
menino. E alguns vizinhos
foram entupir a sepultura. Um
dos tais (vizinhos) não perdeu
a oportunidade, e disse:
“Moço de
Deus, andou perto de ser
enterrado (sepultado) vivo”.
A notícia correu a região.
Alguns chegaram a levantar a
hipótese do milagre da
ressurreição. Até que um médico
de São Raimundo Nonato - PI
esclareceu tudo, numa linguagem
acessível, fácil de
compreender: “Milagre da
ressurreição só para Jesus
Cristo. Esse menino sofreu foi
um desmaio, de um tipo que a
pessoa passa algumas horas para
voltar ao normal.” E
ainda alertou: “É sempre
bom esperar 24 horas para
sepultar uma pessoa. Pode ser
um caso igual a esse.”
Tal alerta para a
época era procedente. Muito
importante.
Isso tudo nos traz uma
reflexão: muitas pessoas podem
ter sido sepultadas vivas na
nossa região, em casos
semelhantes ao desse menino.
Cito um exemplo ocorrido no
nosso município: numa
localidade resolveram mudar o
cemitério de local, e ao
retirarem os restos mortais,
muitos cadáveres estavam
emborcados, onde se levanta a
hipótese de terem sido
sepultadas vivas, essas
pessoas, e morreram depois (na
sepultura). E tenho que contar
aqui uma presepada. Não posso
perder o gancho. Tenho um amigo
(maldoso), que não gosta da sua
sogra. E disse-me que quando
ela morrer, por via das dúvidas
(pode está viva), pedirá para
os coveiros que a sepulte com a
tampa do caixão para baixo.
Perguntei-o qual o motivo desse
pedido. E explicou-me:
“Pode ser que ela (a sogra) não
tenha morrido de verdade,
esteja só desmaiada. E ao
voltar ao normal (do desmaio),
a primeira providência que
tomará (no sufoco) será a
tentativa de sair da sepultura.
Irá cavar pra sair. Com isso,
cavará para baixo, afundou-se
mais ainda”. Tanta
maldade...
Por fim, essa observação (de
pessoas sepultadas vivas) é
interessante, e dura de
acreditar. Porém, com reais
probabilidades de muitos casos
(na região) terem ocorridos
dessa forma. Fica a
experiência.
Marcos Damasceno
(pesquisador) |