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No final dos anos 60 para
início da década de 70, várias
pessoas da minha terra foram
pra São Paulo (capital). A
época de maior incidência de
gente da região partindo pra
região Sudeste do país, em que
se tem notícia. Essas pessoas
eram motivadas sempre pelo
desejo de uma melhoria de vida.
Viam lá uma perspectiva para
isso. E muitos foram nesse
intuito. A maioria conseguiu
esse objetivo. Naquela época
era melhor. Exigia-se pouca
escolaridade, os empregos eram
melhores, as condições de
trabalho eram mais dignas, a
oferta de emprego também era
boa, enfim.
Vale fazer aqui um registro:
nos anos 60, baseado em
pesquisa, boa parte dessas
pessoas tinha o seguinte
perfil: eram pais de família,
na faixa etária de 30 (trinta)
anos de idade. Ainda era o
tempo daquele sofrido trajeto
(cavalo até o embarque do vapor
no rio São Francisco, de lá até
o Sul da Bahia, a partir daí
pegava-se o trem no norte de
Minas Gerais, até São Paulo
(capital). Já a partir da
década de 70, a situação era
diferente. Já existia ônibus a
partir de Petrolina-PE, direto
pra São Paulo (capital). Também
já existiam carros na região.
As pessoas da minha terra iam
de jeep (do Celerino)
até Ouricuri, povoado do
município de Casa Nova-BA, onde
existia um comércio forte. De
lá, pegava-se um caminhão (“pau
de arara”) para
Petrolina-PE. E finalmente, o
ônibus. A rodoviária, que hoje
é no centro da cidade, na
época, era periferia.
Petrolina-PE era ainda uma
cidade pequena. Hoje é uma
metrópole. E as pessoas dessa
época tinham um perfil
diferente da década de 60:
quase todos que iam pra São
Paulo (capital) eram jovens e
solteiros.
Pois bem. Vamos à história. Em
1971, partiram vários jovens
da região rumo à terra da
garoa. E seguiram aquele
trajeto costumeiro da década de
70. Mas antes de partir,
comeram um pintado (comida
típica da culinária local) na
casa do dono do carro, Seu
Celerino. E saíram cedo.
Logo na estrada vomitaram
muito. Isso porque o pintado é
uma comida forte, e nunca
haviam andado de carro. Na
época, essas pessoas eram
chamadas de “barriga
verde” (aqueles que
nunca haviam saído da região
pra outro lugar). E chegaram lá
em Ouricuri pela manhã.
O grupo tinha um líder.
Por ter já andado em São Paulo
(capital), era o enfrentante da
viagem. O encarregado pelos
jovens. O responsável por
todos. A quem os pais dos tais
jovens haviam confiado.
Já era um senhor. No perfil
daqueles da década de 60, época
em que foi a primeira vez. E ao
voltar, convidou mais pessoas
para irem à busca de um futuro
melhor. Hora do almoço. Nenhum
quis comer. Primeiro, porque
estavam se sentindo mal, por
causa da viagem. E também,
porque começaram a sentir
saudade de casa e da família. A
tristeza tomou de conta do
coração deles, junta com a
ansiedade e a incerteza.
O embarque do caminhão (“pau
de arara”) era às 14:00
(quatorze) horas. Ficaram esse
tempo todo aguardando. Foram
conhecer a famosa feira do
Ouricuri. Lá um dos jovens
começou a chorar, ao ver uma
sela. Lembrou logo do seu pai.
Os outros acompanharam no
choro. Alguns pensaram em
desistir da viagem. Isso vem a
compreensão: nos dias de hoje
sofremos ao partir da nossa
terra para outros lugares,
imagine naquela época. Mas
foram. Tenho que registrar
algo: esse que chorou chegou a
dizer: “Só vou ficar lá
(em São Paulo) uns dias. Não
vou demorar muito. Não aguento
ficar longe de casa, dos meus
pais e dos meus irmãos. Longe
da minha terra.” E até
hoje nunca voltou. Nem pra
passear. Não sei qual a
explicação.
Chegado a Petrolina-PE, foram
direto pra pensão, em frente ao
terminal rodoviário. Era o
local onde ficava o povo da
nossa região, quando ia pra São
Paulo (capital). O dono era Seu
Gonzalino. O chefe
da viagem foi comprar as
passagens. O embarque seria às
20:00 (vinte) horas. Às 18:00
(dezoito) seria a hora do
banho. Nenhum dos jovens
conhecia um banheiro (chuveiro,
vaso sanitário, torneira
enfim). Só o líder do
grupo. Como integrantes do
grupo, havia duas mulheres.
Teriam que usar o banheiro
feminino. E todos jovens
(homens) acompanharam o
líder para o banheiro
masculino. Lá o chefe da
viagem explicou tudo. Deu tudo
certo. Mas já as mulheres
tiveram que ir sozinhas pro
banheiro feminino. E lá ficaram
sem ver água. No costume só de
cacimba, a fonte hídrica (de
água) comum na época na nossa
região. Bateram-se até que
acharam água. Lavaram o rosto,
tomaram banho, enfim. Na época
não se escovava os dentes. E
saíram do banheiro se achando o
máximo.
E o líder exclamou:
“Todo mundo banhado. Que
beleza. Agora é só o embarque!”
E de repente, olhou
para as mulheres, e
lembrou-se da situação delas. E
quis saber se havia dado certo
lá no banheiro feminino, já que
não podia acompanhá-las. E
elas: “Banhamos. Mas
a água estava pouca. Mesmo
assim, ainda sobrou.” E
o líder questionou:
“Como assim?” E elas
passaram a contar. E ele
chegou à conclusão: “Meu
Deus, não é possível. Elas
lavaram o rosto, tomaram banho,
na água do vaso sanitário”.
E ele abafou o caso. E
partiram para São Paulo
(capital).
Certa vez, o líder da
viagem, hoje idoso, meu amigo
de conversas, me confessou:
“Marcos, não era pra menos.
Elas nunca haviam viajado. Não
conheciam nada dessas coisas. E
ainda foram sozinhas pro
banheiro. E lá foi a única água
que viram. E pensaram: é aqui
mesmo.” Ele
conta que nunca havia contado
essa história pra ninguém. E
foi contar logo pra mim. Agora
está no meu livro. É um causo
dos bons. Mas prometi que não
revelaria os nomes das pessoas.
O essencial é apenas a
história, como lição de vida. E
reflexão, para percebermos como
eram difíceis aquelas épocas. E
o quanto as pessoas sofriam.
As mulheres,
hoje, são professoras
aposentadas. Moram no município
de Dom Inocêncio-PI.
Concordaram com a história no
meu livro. A primeira disse:
“Nossa Marcos, que bom. Essa
sua atenção para com as
experiências de vida, sofridas
e vividas, por pessoas simples
como eu. Não sinto vergonha
jamais desse episódio. Todos
nós sofremos situações
delicadas. E esse acontecimento
foi uma passagem marcante na
minha vida. Faz parte das
minhas memórias. Falo isso todo
dia para meus filhos, o quanto
eu sofri para dar um futuro
melhor para eles.” A
segunda, mais cismada, ainda
quis negar: “Eu? Não foi
comigo.” Depois sorriu
e falou: “Este Marcos é
terrível. Sabe tudo o que se
passou na nossa terra. Uma
história antiga dessa, que nem
eu lembrava mais.” E
preocupadamente indagou:
“Mas tu não vai citar meu
nome?” E falei que não.
E ela concordou também.
Na verdade, são todos meus
amigos. E sabem da minha
intenção nesta obra. Isso tudo
representa uma lição de vida
para todos nós. São causos que
mostram nossa evolução
social/estrutural, força de
vontade, sofrimentos,
tristezas, alegrias, perdas,
conquistas, e acima de tudo,
experiência de vida. E o
progresso da nossa terra veio
junto com o progresso dessa
gente. Não tenha dúvidas quanto
a isso. Essas pessoas sofreram,
mas foram guerreiras naquela
ocasião. E engrandeceram nossa
terra. Daí, minha atenção para
com estes causos, fortalece-nos
historicamente, e torna-nos um
povo espiritualmente forte.
Essa é a essência desta obra.
Marcos Damasceno
(pesquisador) |