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Relatos...

      

MARCOS OLIVEIRA DAMASCENO, 27 ANOS, ESCRITOR, CRONISTA, MEMORIALISTA, HISTORIADOR. NATURAL DE DOM INOCÊNCIO – PI. DOUTORANDO EM FILOSOFIA POLÍTICA, PELA INTERNATIONAL UNIVERSITY OFF CAMBRIDGE.


A lavada de rosto

marcosdamasceno23@yahoo.com.br


No final dos anos 60 para início da década de 70, várias pessoas da minha terra foram pra São Paulo (capital). A época de maior incidência de gente da região partindo pra região Sudeste do país, em que se tem notícia. Essas pessoas eram motivadas sempre pelo desejo de uma melhoria de vida. Viam lá uma perspectiva para isso. E muitos foram nesse intuito. A maioria conseguiu esse objetivo. Naquela época era melhor. Exigia-se pouca escolaridade, os empregos eram melhores, as condições de trabalho eram mais dignas, a oferta de emprego também era boa, enfim.

 

Vale fazer aqui um registro: nos anos 60, baseado em pesquisa, boa parte dessas pessoas tinha o seguinte perfil: eram pais de família, na faixa etária de 30 (trinta) anos de idade. Ainda era o tempo daquele sofrido trajeto (cavalo até o embarque do vapor no rio São Francisco, de lá até o Sul da Bahia, a partir daí pegava-se o trem no norte de Minas Gerais, até São Paulo (capital). Já a partir da década de 70, a situação era diferente. Já existia ônibus a partir de Petrolina-PE, direto pra São Paulo (capital). Também já existiam carros na região. As pessoas da minha terra iam de jeep (do Celerino) até Ouricuri, povoado do município de Casa Nova-BA, onde existia um comércio forte. De lá, pegava-se um caminhão (“pau de arara”) para Petrolina-PE. E finalmente, o ônibus. A rodoviária, que hoje é no centro da cidade, na época, era periferia. Petrolina-PE era ainda uma cidade pequena. Hoje é uma metrópole. E as pessoas dessa época tinham um perfil diferente da década de 60: quase todos que iam pra São Paulo (capital) eram jovens e solteiros.

 

Pois bem. Vamos à história. Em 1971, partiram vários jovens da região rumo à terra da garoa. E seguiram aquele trajeto costumeiro da década de 70. Mas antes de partir, comeram um pintado (comida típica da culinária local) na casa do dono do carro, Seu Celerino. E saíram cedo. Logo na estrada vomitaram muito. Isso porque o pintado é uma comida forte, e nunca haviam andado de carro. Na época, essas pessoas eram chamadas de “barriga verde” (aqueles que nunca haviam saído da região pra outro lugar). E chegaram lá em Ouricuri pela manhã.

 

O grupo tinha um líder. Por ter já andado em São Paulo (capital), era o enfrentante da viagem. O encarregado pelos jovens. O responsável por todos. A quem os pais dos tais jovens haviam confiado. Já era um senhor. No perfil daqueles da década de 60, época em que foi a primeira vez. E ao voltar, convidou mais pessoas para irem à busca de um futuro melhor. Hora do almoço. Nenhum quis comer. Primeiro, porque estavam se sentindo mal, por causa da viagem. E também, porque começaram a sentir saudade de casa e da família. A tristeza tomou de conta do coração deles, junta com a ansiedade e a incerteza.

 

O embarque do caminhão (“pau de arara”) era às 14:00 (quatorze) horas. Ficaram esse tempo todo aguardando. Foram conhecer a famosa feira do Ouricuri. Lá um dos jovens começou a chorar, ao ver uma sela. Lembrou logo do seu pai. Os outros acompanharam no choro. Alguns pensaram em desistir da viagem. Isso vem a compreensão: nos dias de hoje sofremos ao partir da nossa terra para outros lugares, imagine naquela época. Mas foram. Tenho que registrar algo: esse que chorou chegou a dizer: “Só vou ficar lá (em São Paulo) uns dias. Não vou demorar muito. Não aguento ficar longe de casa, dos meus pais e dos meus irmãos. Longe da minha terra.” E até hoje nunca voltou. Nem pra passear. Não sei qual a explicação.

 

Chegado a Petrolina-PE, foram direto pra pensão, em frente ao terminal rodoviário. Era o local onde ficava o povo da nossa região, quando ia pra São Paulo (capital). O dono era Seu Gonzalino. O chefe da viagem foi comprar as passagens. O embarque seria às 20:00 (vinte) horas. Às 18:00 (dezoito) seria a hora do banho. Nenhum dos jovens conhecia um banheiro (chuveiro, vaso sanitário, torneira enfim). Só o líder do grupo. Como integrantes do grupo, havia duas mulheres. Teriam que usar o banheiro feminino. E todos jovens (homens) acompanharam o líder para o banheiro masculino. Lá o chefe da viagem explicou tudo. Deu tudo certo. Mas já as mulheres tiveram que ir sozinhas pro banheiro feminino. E lá ficaram sem ver água. No costume só de cacimba, a fonte hídrica (de água) comum na época na nossa região. Bateram-se até que acharam água. Lavaram o rosto, tomaram banho, enfim. Na época não se escovava os dentes. E saíram do banheiro se achando o máximo.

 

E o líder exclamou: “Todo mundo banhado. Que beleza. Agora é só o embarque!” E de repente, olhou para as mulheres, e lembrou-se da situação delas. E quis saber se havia dado certo lá no banheiro feminino, já que não podia acompanhá-las. E elas: “Banhamos. Mas a água estava pouca. Mesmo assim, ainda sobrou.” E o líder questionou: “Como assim?” E elas passaram a contar. E ele chegou à conclusão: “Meu Deus, não é possível. Elas lavaram o rosto, tomaram banho, na água do vaso sanitário”. E ele abafou o caso. E partiram para São Paulo (capital).

 

Certa vez, o líder da viagem, hoje idoso, meu amigo de conversas, me confessou: “Marcos, não era pra menos. Elas nunca haviam viajado. Não conheciam nada dessas coisas. E ainda foram sozinhas pro banheiro. E lá foi a única água que viram. E pensaram: é aqui mesmo.” Ele conta que nunca havia contado essa história pra ninguém. E foi contar logo pra mim. Agora está no meu livro. É um causo dos bons. Mas prometi que não revelaria os nomes das pessoas. O essencial é apenas a história, como lição de vida. E reflexão, para percebermos como eram difíceis aquelas épocas. E o quanto as pessoas sofriam.

 

As mulheres, hoje, são professoras aposentadas. Moram no município de Dom Inocêncio-PI. Concordaram com a história no meu livro. A primeira disse: “Nossa Marcos, que bom. Essa sua atenção para com as experiências de vida, sofridas e vividas, por pessoas simples como eu. Não sinto vergonha jamais desse episódio. Todos nós sofremos situações delicadas. E esse acontecimento foi uma passagem marcante na minha vida. Faz parte das minhas memórias. Falo isso todo dia para meus filhos, o quanto eu sofri para dar um futuro melhor para eles.” A segunda, mais cismada, ainda quis negar: “Eu? Não foi comigo.” Depois sorriu e falou: “Este Marcos é terrível. Sabe tudo o que se passou na nossa terra. Uma história antiga dessa, que nem eu lembrava mais.” E preocupadamente indagou: “Mas tu não vai citar meu nome?” E falei que não. E ela concordou também.

 

Na verdade, são todos meus amigos. E sabem da minha intenção nesta obra. Isso tudo representa uma lição de vida para todos nós. São causos que mostram nossa evolução social/estrutural, força de vontade, sofrimentos, tristezas, alegrias, perdas, conquistas, e acima de tudo, experiência de vida. E o progresso da nossa terra veio junto com o progresso dessa gente. Não tenha dúvidas quanto a isso. Essas pessoas sofreram, mas foram guerreiras naquela ocasião. E engrandeceram nossa terra. Daí, minha atenção para com estes causos, fortalece-nos historicamente, e torna-nos um povo espiritualmente forte. Essa é a essência desta obra.

 

Marcos Damasceno

(pesquisador)

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Está coluna é de inteira responsabilidade do colunista Marcos Damasceno