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Relatos...

      

MARCOS OLIVEIRA DAMASCENO, 27 ANOS, ESCRITOR, CRONISTA, MEMORIALISTA, HISTORIADOR. NATURAL DE DOM INOCÊNCIO – PI. DOUTORANDO EM FILOSOFIA POLÍTICA, PELA INTERNATIONAL UNIVERSITY OFF CAMBRIDGE.


O primeiro show do Gilberto Dias

marcosdamasceno23@yahoo.com.br


           Essa história que vou contar aconteceu com o sanfoneiro Gilberto Dias, de saudosa memória. O sanfoneiro Waldemar (do Olício), maestro da sanfona na nossa região, “nosso Sivuca”, um dos grandes amigos do Gilberto Dias, também parceiro musical, foi quem me contou.  

Como todos nós sabemos o início da carreira profissional de qualquer pessoa é difícil, seja em qualquer profissão. Sempre surgem as dificuldades que fazem muitos desistirem. Momentos difíceis que servem também como teste, e que, se forem superados, pronto, a pessoa estará convicta da sua vocação e preparada para o embate profissional.

 

Gilberto Dias

 

Assim aconteceu com o sanfoneiro Gilberto Dias. Ele profissionalizou a música, deu visibilidade à potencialidade musical da região, abriu portas para tantos outros músicos, foi quem carregou o peso das dificuldades para buscar o espaço necessário para musicalidade da nossa terra. Assim como aconteceu com Tita Veiga, um dos grandes amigos e parceiros do Gilberto Dias. Um artista da nossa terra que tem uma história expressiva. De grande valor cultural e artístico. Representou para muitos, historicamente, e ainda representa, nos seus 50 anos de música, uma oportunidade e uma escola. Um baluarte do forró autêntico. Um “embaixador” da cultura local. Seu pai, Chico Cibele, já era músico. Tita Veiga tem uma história consagrada, mas que sofreu momentos difíceis na sua carreira musical.

 

Tita Veiga

 

O sucesso do sanfoneiro Gilberto Dias não aconteceu por acaso. Foram muitos anos de trabalho e luta. Tiveram muitas dificuldades. Sua história foi sofrida (de suor, luta, sofrimento, humilhação, decepção, aflição, constrangimento, dificuldade). E tinha sempre uma preocupação com os detalhes, com a perfeição. Sempre obstinado pela profissão. Foi um sanfoneiro orientado para desafios, quebrar paradigmas, desbravar caminhos e consolidar sonhos, ideais e anseios.

 

Com próprio rei do Baião, Luiz Gonzaga, aconteceu nessa maneira, mesmo sendo em épocas diferentes. Fala-se que uma vez estava se apresentando na Paraíba com o Sivuca, e um bêbado ficou no pé do palco (bem baixinho) atrapalhando. Como o Luiz Gonzaga não tinha segurança, teve que tolerar o bêbado por alguns minutos, esperando alguém tirá-lo dali. E prosseguiu o show fazendo de conta que não estava ouvindo o que o bêbado estava dizendo. Foi quando o bêbado começou a falar alto: “Velho corno”. Referindo-se ao Luiz Gonzaga. E a situação ficou complicada ao ponto do rei do Baião ter que parar o show, e dizer: “Minha gente, ajude este rapaz a encontrar o pai dele, que faz é hora que ele procura.” Foi quando todos riram, e o bêbado, sem graça, caiu fora.

 

Gilberto Dias era batalhador. E sonhador, tinha a convicção de que era uma fase difícil, porém, passageira. E como de fato era. Isso é normal na busca de um sonho de qualquer pessoa. Alguns pegam um caminho mais fácil, diferente em alguns fatores, uma época melhor, mas todos enfrentam dificuldades em alguns momentos da carreira profissional. Toda profissão tem seus altos e baixos. Mas foi até conhecer o Dominguinhos, o mestre de todos os sanfoneiros brasileiros na atualidade, a referência maior, o discípulo fiel do rei Luiz Gonzaga, de quem ganhou o apelido de ‘sanfoneiro danado de bom’. Mas até acontecer esse encontro o Gilberto Dias trabalhou muito, enfrentou muitas dificuldades, construiu uma história digna da atenção do mestre Dominguinhos. Seu nome já era respeitado no meio artístico. Na nação forrozeira.

 

Gilberto Dias e Dominguinhos

 

Agendou um show no povoado Salgado, hoje localidade do município de Dom Inocêncio-PI (emancipado em 1988). Lá, um festejo tradicional, de grande presença popular. Uma tradição do sanfoneiro Pituri, de longa trajetória no forró pé de serra, que até hoje mantém o evento. Todo artista musical da nossa terra sonha tocar na localidade Salgado. Uma oportunidade muito boa para uma apresentação. E com o Gilberto Dias foi dessa maneira. Já tocava nas redondezas, se apresentava em algumas oportunidades festivas. Mas um show no povoado Salgado era um sonho. Um bom começo. Uma oportunidade de se projetar na região. E vale salientar que foi o seu primeiro show contratado (com caráter empresarial). E o Gilberto Dias fez de tudo por esse show. “No Salgado toco até de graça”, sentenciou. Isso pela relevância da oportunidade.

 

Combinado tudo, começou a preparar a estrutura sonora. Conferir tudo. O show seria às 20h00min, num dia de sábado. E ele seria a atração principal. Tocaria no dia principal dos festejos. “Pense numa ansiedade e expectativa”, dizia naquele momento. A empolgação era tamanha, que saiu logo à tarde.  E pela preocupação em chegar muito antes do horário. O único carro que conseguiu fretar foi um toyota. Antigo. E o sanfoneiro Gilberto Dias, o próprio motorista. Detalhe: o carro não pegava na partida, tinha que empurrar toda vez. A estrutura da banda ainda era pequena. Tanto que deu pra levar algumas pessoas que não faziam parte da banda. Rapidamente arrumaram as coisas. E partiram rumo ao povoado Salgado. Nos primeiros quilômetros (Km) o carro furou o pneu oito vezes. Os músicos serviram de borracheiros. “A bomba de encher os pneus era a academia de malhação”, dizia o Gilberto Dias. Atrasaram muito, mas ainda em tempo de chegar no horário combinado.

 

Uma sede danada. Seguiram viagem. E numa casa, pararam pra tomar água. Secaram os potes da mulher, ao ponto do Gilberto Dias fazer questão de enchê-los de novo. E tome balde d’água. E o cansaço era só aumentando. A água de boa qualidade, e tudo bem limpo. Isso é um costume nosso, na região. Diferente de outra região do Brasil (não posso dizer qual) em que o ‘Agente de Saúde’, que faz o serviço social do município, função vinculada ao PSF (Programa Saúde da Família), passou por uma situação complicada. Por sinal, um trabalho social, notadamente de prevenção, muito importante para a sociedade. Tem significativos, e positivos, resultados na saúde pública. Vamos à história. O ‘Agente de Saúde’ chegou à casa de uma senhora, família enorme (filhos, noras, genros, netos). Todos morando na mesma casa. E perguntou à dona da casa: “A senhora lava constantemente estes potes?” E ela respondeu com firmeza: “Todo dia!” E a nora ainda emendou: “E deixa bem limpinho, chega brilha.” E nisso, a senhora estava procurando a sandália do seu neto, que havia sumido há mais de uma semana. E o ‘Agente de Saúde’ pediu água pra beber. E quando a nora enfiou o caneco no pote, veio junto a sandália do menino. E o ‘Agente de Saúde’ não quis mais a água.

 

Prosseguiram a viagem. De uma só vez, o carro furou o pneu e desmantelou o freio. O atraso começou a preocupar o Gilberto Dias. Fizeram uma manutenção no pneu e uma gambiarra no freio, de forma, que deu pra seguir viagem. E escureceu. Já era 18h00min. Logo, alguns metros depois, um dos faróis do carro deixou de funcionar. “Agora ficou igual ao Lampião”, sentenciou o Gilberto Dias.  Sempre foi brincalhão. Referia-se ao fato de que o Lampião só enxergava através de um olho.  E mesmo apenas com um farol, seguiram viagem. Bastava ir devagar e aumentar o cuidado. A viagem se tornou tão lenta que os músicos dormiam, e quando acordavam estavam quase no mesmo lugar.  

De repente, um jumento (preto) no meio da estrada. De difícil percepção, por causa da escuridão. E jumento não sai fácil da estrada. Estava perto da local do show. O carro não tinha buzina. E o freio ruim, praticamente não tinha. Mas conseguiu parar o carro. E ninguém queria descer pra tanger o jumento, por causa da lama. Era no inverno. E ainda mais indo pra uma festa, ninguém queria se sujar. E o Gilberto Dias resolveu, então, tanger o jumento com o carro. Botou a primeira marcha e foi bem devagarzinho, até espantar o jumento.  Foi quando o animal deu um coice, que pegou bem no outro farol do carro, e saiu correndo. Ficaram no escuro. E no prejuízo.

 

E um dos músicos indagou: “E agora Gilberto?” E ele respondeu: “Alguém tem alguma lanterna?” E um dos passageiros disse: “Eu tenho.” E o Gilberto Dias apresentou a solução: “Então, tu vai no gigante da carroceria focalizando a estrada com a lanterna.”  E ainda brincou: “Podem deixar, quando eu ver três estradas pego a estrada do meio. Dou um desconto dos dois lados.” E foram. Conseguiram chegar. Foram recebidos por uma multidão. E pelo sanfoneiro Pituri, responsável pela festa. E justificou o atraso. Bêbado, já tinha aos montes. E tome festa. Chega a poeira cobria e o forró comia por conta. O Gilberto Dias botou pra lascar, tocou sem parar, num rojão só, do começo ao fim. 

 

Gilberto Dias no então povoado Salgado

 

Tocaram até 08h00min (da manhã). Terminado o show, recebeu o cachê, e partiu de volta. Feliz pela oportunidade, e pela bela apresentação que conseguiu fazer. Mesmo com dificuldade na viagem, deu tudo certo no show. E o sanfoneiro Pituri, responsável pelo evento, feliz da vida pelo faturamento, mais ainda, pela presença do Gilberto Dias, era só alegria e satisfação. Ao descer do palco, muitos (bêbados) agarraram no pescoço do Gilberto Dias, querendo falar sobre a emoção em ter a sua presença na comunidade. E tome moagem. E ao sair, foi aplaudido, e quase não o deixam ir embora. E se tornou, durante anos, presença garantida nos festejos do Salgado.

 

Voltou com o carro carregado de bêbado, com exceção dele e dos músicos da banda. E sobrou pros bêbados. Foram “escravizados” na viagem. Tudo eram eles que faziam (empurrar o carro, fazer a manutenção dos pneus etc.). Gilberto Dias tinha um grande sonho: possuir uma sanfona da marca ‘Leticce’. E conseguiu realizar seu sonho.

 

Gilberto Dias com sua sanfona

 

Marcos Damasceno

(pesquisador)

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