|
Essa história que vou contar
aconteceu com o sanfoneiro
Gilberto Dias, de saudosa
memória. O
sanfoneiro Waldemar (do
Olício), maestro da
sanfona na nossa região, “nosso
Sivuca”, um dos grandes
amigos do Gilberto Dias,
também parceiro musical, foi
quem me contou.
Como todos nós sabemos o início
da carreira profissional de
qualquer pessoa é difícil, seja
em qualquer profissão. Sempre
surgem as dificuldades que
fazem muitos desistirem.
Momentos difíceis que servem
também como teste, e que, se
forem superados, pronto, a
pessoa estará convicta da sua
vocação e preparada para o
embate profissional.

Gilberto Dias
Assim aconteceu com o
sanfoneiro Gilberto Dias.
Ele profissionalizou
a música, deu visibilidade à
potencialidade musical da
região, abriu portas para
tantos outros músicos, foi quem
carregou o peso das
dificuldades para buscar o
espaço necessário para
musicalidade da nossa terra.
Assim como aconteceu com
Tita Veiga, um dos grandes
amigos e parceiros do
Gilberto Dias. Um artista
da nossa terra que tem uma
história expressiva. De grande
valor cultural e artístico.
Representou para muitos,
historicamente, e ainda
representa, nos seus 50 anos de
música, uma oportunidade e uma
escola. Um baluarte do forró
autêntico. Um “embaixador” da
cultura local. Seu pai,
Chico Cibele, já era
músico. Tita Veiga tem
uma história consagrada, mas
que sofreu momentos difíceis na
sua carreira musical.

Tita Veiga
O sucesso do
sanfoneiro Gilberto Dias
não aconteceu por acaso. Foram
muitos anos de trabalho e luta.
Tiveram muitas dificuldades.
Sua história foi sofrida (de
suor, luta, sofrimento,
humilhação, decepção, aflição,
constrangimento, dificuldade).
E tinha
sempre uma preocupação com os
detalhes, com a perfeição.
Sempre obstinado pela
profissão. Foi um sanfoneiro
orientado para desafios,
quebrar paradigmas, desbravar
caminhos e consolidar sonhos,
ideais e anseios.
Com próprio rei do Baião,
Luiz Gonzaga, aconteceu
nessa maneira, mesmo sendo em
épocas diferentes. Fala-se que
uma vez estava se apresentando
na Paraíba com o Sivuca,
e um bêbado ficou no pé do
palco (bem baixinho)
atrapalhando. Como o Luiz
Gonzaga não tinha
segurança, teve que tolerar o
bêbado por alguns minutos,
esperando alguém tirá-lo dali.
E prosseguiu o show fazendo de
conta que não estava ouvindo o
que o bêbado estava dizendo.
Foi quando o bêbado começou a
falar alto: “Velho
corno”. Referindo-se ao
Luiz Gonzaga. E a
situação ficou complicada ao
ponto do rei do Baião ter que
parar o show, e dizer:
“Minha gente, ajude este rapaz
a encontrar o pai dele, que faz
é hora que ele procura.”
Foi quando todos riram, e o
bêbado, sem graça, caiu fora.
Gilberto Dias
era batalhador. E sonhador,
tinha a convicção de que era
uma fase difícil, porém,
passageira. E como de fato era.
Isso é normal na busca de um
sonho de qualquer pessoa.
Alguns pegam um caminho mais
fácil, diferente em alguns
fatores, uma época melhor, mas
todos enfrentam dificuldades em
alguns momentos da carreira
profissional. Toda profissão
tem seus altos e baixos. Mas
foi até conhecer o
Dominguinhos, o mestre de
todos os sanfoneiros
brasileiros na atualidade, a
referência maior, o discípulo
fiel do rei Luiz Gonzaga,
de quem ganhou o apelido de
‘sanfoneiro danado de bom’.
Mas até acontecer esse encontro
o Gilberto Dias
trabalhou muito, enfrentou
muitas dificuldades, construiu
uma história digna da atenção
do mestre Dominguinhos.
Seu nome já era respeitado no
meio artístico. Na nação
forrozeira.

Gilberto Dias e Dominguinhos
Agendou um show no povoado
Salgado, hoje localidade do
município de Dom Inocêncio-PI
(emancipado em 1988). Lá, um
festejo tradicional, de grande
presença popular. Uma tradição
do sanfoneiro Pituri, de
longa trajetória no forró pé de
serra, que até hoje mantém o
evento. Todo artista musical da
nossa terra sonha tocar na
localidade Salgado. Uma
oportunidade muito boa para uma
apresentação. E com o
Gilberto Dias foi dessa
maneira. Já tocava nas
redondezas, se apresentava em
algumas oportunidades festivas.
Mas um show no povoado Salgado
era um sonho. Um bom começo.
Uma oportunidade de se projetar
na região. E vale salientar que
foi o seu primeiro show
contratado (com caráter
empresarial). E o Gilberto
Dias fez de tudo por esse
show. “No Salgado toco
até de graça”,
sentenciou. Isso pela
relevância da oportunidade.
Combinado tudo, começou a
preparar a estrutura sonora.
Conferir tudo. O show seria às
20h00min, num dia de sábado. E
ele seria a atração principal.
Tocaria no dia principal dos
festejos. “Pense numa
ansiedade e expectativa”,
dizia naquele momento. A
empolgação era tamanha, que
saiu logo à tarde. E pela
preocupação em chegar muito
antes do horário. O único carro
que conseguiu fretar foi um
toyota. Antigo. E o sanfoneiro
Gilberto Dias, o próprio
motorista. Detalhe: o carro não
pegava na partida, tinha que
empurrar toda vez. A estrutura
da banda ainda era pequena.
Tanto que deu pra levar algumas
pessoas que não faziam parte da
banda. Rapidamente arrumaram as
coisas. E partiram rumo ao
povoado Salgado. Nos primeiros
quilômetros (Km) o carro furou
o pneu oito vezes. Os músicos
serviram de borracheiros.
“A bomba de encher os pneus
era a academia de malhação”,
dizia o Gilberto Dias.
Atrasaram muito, mas ainda em
tempo de chegar no horário
combinado.
Uma sede danada. Seguiram
viagem. E numa casa, pararam
pra tomar água. Secaram os
potes da mulher, ao ponto do
Gilberto Dias fazer questão
de enchê-los de novo. E tome
balde d’água. E o cansaço era
só aumentando. A água de boa
qualidade, e tudo bem limpo.
Isso é um costume nosso, na
região. Diferente de outra
região do Brasil (não posso
dizer qual) em que o ‘Agente de
Saúde’, que faz o serviço
social do município, função
vinculada ao PSF (Programa
Saúde da Família), passou por
uma situação complicada. Por
sinal, um trabalho social,
notadamente de prevenção, muito
importante para a sociedade.
Tem significativos, e
positivos, resultados na saúde
pública. Vamos à história. O
‘Agente de Saúde’ chegou à casa
de uma senhora, família enorme
(filhos, noras, genros, netos).
Todos morando na mesma casa. E
perguntou à dona da casa:
“A senhora lava
constantemente estes potes?”
E ela respondeu com firmeza:
“Todo dia!” E a nora
ainda emendou: “E deixa
bem limpinho, chega brilha.”
E nisso, a senhora
estava procurando a sandália do
seu neto, que havia sumido há
mais de uma semana. E o ‘Agente
de Saúde’ pediu água pra beber.
E quando a nora enfiou o caneco
no pote, veio junto a sandália
do menino. E o ‘Agente de
Saúde’ não quis mais a água.
Prosseguiram a viagem. De uma
só vez, o carro furou o pneu e
desmantelou o freio. O atraso
começou a preocupar o
Gilberto Dias. Fizeram uma
manutenção no pneu e uma
gambiarra no freio, de forma,
que deu pra seguir viagem. E
escureceu. Já era 18h00min.
Logo, alguns metros depois, um
dos faróis do carro deixou de
funcionar. “Agora ficou
igual ao Lampião”,
sentenciou o Gilberto Dias.
Sempre foi brincalhão.
Referia-se ao fato de que o
Lampião só enxergava
através de um olho. E mesmo
apenas com um farol, seguiram
viagem. Bastava ir devagar e
aumentar o cuidado. A viagem se
tornou tão lenta que os músicos
dormiam, e quando acordavam
estavam quase no mesmo lugar.
De repente, um jumento (preto)
no meio da estrada. De difícil
percepção, por causa da
escuridão. E jumento não sai
fácil da estrada. Estava perto
da local do show. O carro não
tinha buzina. E o freio ruim,
praticamente não tinha. Mas
conseguiu parar o carro. E
ninguém queria descer pra
tanger o jumento, por causa da
lama. Era no inverno. E ainda
mais indo pra uma festa,
ninguém queria se sujar. E o
Gilberto Dias resolveu,
então, tanger o jumento com o
carro. Botou a primeira marcha
e foi bem devagarzinho, até
espantar o jumento. Foi quando
o animal deu um coice, que
pegou bem no outro farol do
carro, e saiu correndo. Ficaram
no escuro. E no prejuízo.
E um dos músicos indagou:
“E agora Gilberto?”
E ele respondeu: “Alguém
tem alguma lanterna?” E
um dos passageiros disse:
“Eu tenho.” E o
Gilberto Dias apresentou a
solução: “Então, tu vai
no gigante da carroceria
focalizando a estrada com a
lanterna.” E ainda
brincou: “Podem deixar,
quando eu ver três estradas
pego a estrada do meio. Dou um
desconto dos dois lados.”
E foram. Conseguiram
chegar. Foram recebidos por uma
multidão. E pelo sanfoneiro
Pituri, responsável pela
festa. E justificou o atraso.
Bêbado, já tinha aos montes. E
tome festa. Chega a poeira
cobria e o forró comia por
conta. O Gilberto Dias
botou pra lascar, tocou sem
parar, num rojão só, do começo
ao fim.

Gilberto Dias no então povoado
Salgado
Tocaram até 08h00min (da
manhã). Terminado o show,
recebeu o cachê, e partiu de
volta. Feliz pela oportunidade,
e pela bela apresentação que
conseguiu fazer. Mesmo com
dificuldade na viagem, deu tudo
certo no show. E o sanfoneiro
Pituri, responsável pelo
evento, feliz da vida pelo
faturamento, mais ainda, pela
presença do Gilberto Dias,
era só alegria e satisfação. Ao
descer do palco, muitos
(bêbados) agarraram no pescoço
do Gilberto Dias,
querendo falar sobre a emoção
em ter a sua presença na
comunidade. E tome moagem. E ao
sair, foi aplaudido, e quase
não o deixam ir embora. E se
tornou, durante anos, presença
garantida nos festejos do
Salgado.
Voltou com o carro carregado de
bêbado, com exceção dele e dos
músicos da banda. E sobrou pros
bêbados. Foram “escravizados”
na viagem. Tudo eram eles que
faziam (empurrar o carro, fazer
a manutenção dos pneus etc.).
Gilberto Dias tinha um
grande sonho: possuir uma
sanfona da marca ‘Leticce’.
E conseguiu realizar seu sonho.

Gilberto Dias com sua sanfona
Marcos Damasceno
(pesquisador) |