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Essa
história é recente. Já existia
o município de Dom Inocêncio-PI
(emancipado em 1988).
Presenciei. “Dia dos
velhos”, assim chamado,
é o dia do pagamento dos
aposentados. Com exceção de uma
senhora aposentada (mas
vaidosa), que não quer que
chame “dia dos velhos”,
pois ela não é velha.
“Dia do pagamento”,
sentencia. Quer que chame
assim. Uma vez uma vizinha
(também senhora) foi dizer que
ela estava acabada, e a
confusão foi grande. Depois a
senhora vaidosa lamentou:
“Na hora, pensei logo em
brigar, me deu uma vontade de
sair no tapa com ela. Mas
ficava feio pra mim, uma dama
(senhora não), brigar no meio
da rua. Pelo menos me intriguei
com ela. Porque eu não estou
acabada.” Se intrigou
também com seu sobrinho, que
trouxe de São Paulo (capital)
uma bengala de idoso para ela.
Apenas uma brincadeira. Mas
entendeu (a senhora vaidosa)
como uma ofensa.
“Dias dos velhos”,
é o dia em que mais circula
dinheiro na cidade. E nos dias
de hoje, ainda soma-se o
dinheiro dos programas sociais,
do governo federal. O fato, é
que corre um dinheiro alto
nesse dia. Tanto que Dom
Inocêncio-PI tem o segundo
maior comércio da região, só
perde para São Raimundo
Nonato-PI. Junta na cidade, no
“dia dos velhos”,
muita gente. Do município e de
fora.
E o pagamento dos
aposentados era feito, na
ocasião, e ainda hoje é assim,
na agência dos correios.
Uma fila enorme. Alguns idosos
chegam no dia anterior, à
noite, e já aguardam na fila. O
grande dia (de receber a
aposentadoria) é aguardado com
muita ansiedade. É dia também
de encontro, rever os amigos,
as famílias se encontram
(muitos filhos casam-se e vão
morar em outras regiões do
município, e esse dia serve
para encontrar com os pais), de
namoro (o movimento permite
isso, conhecer as pessoas e
quem sabe arrumar um namorado
ou uma namorada, o dia é
estratégico), de comercializar
tudo. É comércio pra todo lado,
de todo tipo, pra todos os
gostos e necessidades. Vende-se
de tudo.
O povo vem das
localidades nos carros da
feira, assim chamados. Aparece
carro de todo lado, de todas as
regiões do município. A grande
concentração de gente é na
redondeza dos comércios. E na
época em que a agência dos
correios era bem no centro,
a multidão era ainda maior. O
episódio que vou contar foi
nessa época, em que a
agência dos correios ficava
no primeiro prédio, localizado
no centro.
Mas tudo isso sempre
trouxe um agravante: por a
cidade ficar nas proximidades
da divisa entre Estados
(Piauí e Bahia), e por circular
muito dinheiro, foi sempre
visada pelos assaltantes de
banco. Ocorreram vários
assaltos. Mas graças a Deus
nunca houve uma tragédia, além
do dinheiro levado pelos
assaltantes. O povo é muito
civilizado, e não reage de
maneira alguma. A polícia
reage com inteligência e
responsabilidade, não
faz nenhum enfrentamento que
coloque a vida das pessoas em
risco. Toma outras providências
mais sensatas e corretas.
Vamos à história. Certa
vez, houve um assalto. O
primeiro da cidade, depois da
emancipação do município.
Sabe-se que os assaltantes
ficaram dois dias (antes do
assalto), acampados perto da
cidade, na estrada que vai para
a Bahia. E montaram toda a
estratégia. E ficaram só
aguardando o dia. Já tinham
todas as coordenadas. Em vez de
usar o carro deles, ficaram no
acampamento sem carro (fala-se
que o carro voltou). E na manhã
do “dia dos velhos”,
no horário do assalto, foram
pra estrada abordar um carro
para ser utilizado na operação,
e pegar pessoas como reféns.
Abordaram uma D-20 cheia
de gente. O dono, um homem
muito trabalhador e direito. E
os assaltantes já foram
logo dizendo o propósito, de
que se tratava. E o dono do
carro, também o motorista,
atendeu. E disseram pra descer
alguns passageiros, e pra ficar
apenas cinco, contando com o
motorista (um na cabine do
carro e quatro na caçamba). E
um dos passageiros que
permaneceram no carro é um
senhor (topado), muito
conhecido no município, meu
amigo, não tem medo de nada.
Corajoso inconsequente.
“Positivo até debaixo do fogo”,
um dos bordões da região. E
assim prosseguiu o episódio do
assalto. O motorista continuou
o mesmo (o dono do carro). E
foram numa velocidade
assustadora.
No percurso, havia um
homem aguardando o carro, tinha
um dinheiro pra receber, e o
dinheiro estava sendo trazido.
E quando ouviu a zoada do
carro, correu pra estrada. Foi
recebido com tiros, os
assaltantes atiraram no
chão, perto dele, só pra
assustá-lo. Fizeram um
coroamento ao seu redor, de
balas. E ele soltou um grito:
“Meu Deus, o que é isso?
O que está acontecendo? Não
estou entendendo nada!”
Saiu correndo, e pulou numa
moita. Ele diz que não, mas seu
vizinho afirma que urinou na
calça na hora. Apareceu em casa
todo mijado, tremendo e sem
fala. Teve que ir pra garapa
(água com açúcar).
Os assaltantes
chegaram à cidade, já atirando
pra todo lado. E o motorista já
foi direto para a agência
dos correios. Desceram do
carro com os reféns, foram na
direção do local do pagamento
dos aposentados, onde estava o
dinheiro, e deram voz de
assalto. E o tumulto do povo
nas ruas foi enorme. Uma
gritaria medonha. Gente
correndo pra todo lado. A
polícia não reagiu. Os
funcionários dos correios
agiram com calma, e entregaram
o dinheiro. Os assaltantes
pegaram-no rapidamente, e
partiram de volta. Ainda
levaram um dos funcionários dos
correios, que foi libertado
logo na saída da cidade. E
prosseguiram apenas com outros
reféns (e apenas quadro). Um
não voltou. Não teve jeito.
Confiram a loucura dele.
O senhor (topado)
turrou que não voltava, e
pronto! E acabou ficando. Os
assaltantes o sofrearam de
todo jeito: “Vamos vovô,
sobe no carro.” E
ele: “Quem disse pra
vocês que eu vou voltar. Meu
destino era até aqui. Não tenho
nenhum compromisso com vocês.”
E revidaram: “Como é
vovô? Sobe logo neste carro,
senão será pior pra você!”
E senhor (topado) só
entrou calmamente num comércio
perto da agência dos
correios e sentou numa
cadeira. E sentenciou:
“Eu já falei pra vocês que vim
foi pra feira.” E um
dos assaltantes viu que
aquele senhor em
corajoso inconsequente (tido
como louco), disse pros outros:
“É melhor deixar ele aí.
Até mesmo pela questão do
tempo. Ele não vai de forma
alguma. Não adianta insistir. E
não podemos perder tempo com
ele. Também não compensa
matá-lo, ele não afeta em nada.
Vamos deixá-lo aí.” E
emendaram: “Tchau vovô
corajoso.” E foram
embora, sem levar o senhor
(topado).
Quando os assaltantes
foram embora, o dono do
comércio, ainda tremendo,
principalmente as pernas,
aloprou com o senhor
(topado): “O senhor
está doido!” E
continuou: “Além de
querer morrer, ainda quer matar
os outros!” Respirou
fundo e bronqueou: “De ir
pra lá, vem logo pro meu
comércio!” Fala-se que
na hora o comerciante tirou um
pulo, e ficou correndo de um
lado pro outro, procurando um
lugar pra se esconder, e não
encontrava. E gritava:
“Meu Deus!” Até que
entrou numa caixa de papelão.
Pense numa proteção contra
tiro.
Terminado tudo, só se
via os montinhos de gente nas
ruas falando sobre o episódio.
Conversa de todo jeito. Várias
versões. Mentira pra todo lado.
E o senhor (topado)
ficou “famoso” pela sua atitude
considerada louca. Corajoso de
mais da conta, sem limite. E
inconsequente, pois colocou a
vida de outras pessoas em
risco, além da dele.
Certa vez, conversei com
ele sobre o episódio:
“O senhor é corajoso!”
E me falou: “Marcos,
ninguém me leva pra onde eu não
quero ir, e pronto! Só faço o
que eu quero.” Ainda
tentei explicar pra ele
que essa atitude, diante de um
episódio dessa natureza, não é
a correta, a mais sensata, e
não teve acordo. E emendou:
“Sou assim, e pronto!”
O registro desse causo
tem o propósito principal de
mostrar que certas atitudes são
erradas. Através dessa
história, quero deixar uma
lição. Claro, é também uma
história engraçada. Porém,
é essencialmente uma situação
nada agradável para aqueles que
a vivenciaram. O exemplo do
senhor (topado) não é
aconselhável. É bom lembrarmos
sempre disso. Fica o registro e
o exemplo.
Marcos Damasceno
(pesquisador) |