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Relatos...

      

MARCOS OLIVEIRA DAMASCENO, 27 ANOS, ESCRITOR, CRONISTA, MEMORIALISTA, HISTORIADOR. NATURAL DE DOM INOCÊNCIO – PI. DOUTORANDO EM FILOSOFIA POLÍTICA, PELA INTERNATIONAL UNIVERSITY OFF CAMBRIDGE.


Assalto aos Correios

marcosdamasceno23@yahoo.com.br


       

       Essa história é recente. Já existia o município de Dom Inocêncio-PI (emancipado em 1988). Presenciei. “Dia dos velhos”, assim chamado, é o dia do pagamento dos aposentados. Com exceção de uma senhora aposentada (mas vaidosa), que não quer que chame “dia dos velhos”, pois ela não é velha. “Dia do pagamento”, sentencia. Quer que chame assim. Uma vez uma vizinha (também senhora) foi dizer que ela estava acabada, e a confusão foi grande. Depois a senhora vaidosa lamentou: “Na hora, pensei logo em brigar, me deu uma vontade de sair no tapa com ela. Mas ficava feio pra mim, uma dama (senhora não), brigar no meio da rua. Pelo menos me intriguei com ela. Porque eu não estou acabada.” Se intrigou também com seu sobrinho, que trouxe de São Paulo (capital) uma bengala de idoso para ela. Apenas uma brincadeira. Mas entendeu (a senhora vaidosa) como uma ofensa.

 

       “Dias dos velhos”, é o dia em que mais circula dinheiro na cidade. E nos dias de hoje, ainda soma-se o dinheiro dos programas sociais, do governo federal. O fato, é que corre um dinheiro alto nesse dia. Tanto que Dom Inocêncio-PI tem o segundo maior comércio da região, só perde para São Raimundo Nonato-PI. Junta na cidade, no “dia dos velhos”, muita gente. Do município e de fora.

 

       E o pagamento dos aposentados era feito, na ocasião, e ainda hoje é  assim, na agência dos correios. Uma fila enorme. Alguns idosos chegam no dia anterior, à noite, e já aguardam na fila. O grande dia (de receber a aposentadoria) é aguardado com muita ansiedade. É dia também de encontro, rever os amigos, as famílias se encontram (muitos filhos casam-se e vão morar em outras regiões do município, e esse dia serve para encontrar com os pais), de namoro (o movimento permite isso, conhecer as pessoas e quem sabe arrumar um namorado ou uma namorada, o dia é estratégico), de comercializar tudo. É comércio pra todo lado, de todo tipo, pra todos os gostos e necessidades. Vende-se de tudo.

 

       O povo vem das localidades nos carros da feira, assim chamados. Aparece carro de todo lado, de todas as regiões do município. A grande concentração de gente é na redondeza dos comércios. E na época em que a agência dos correios era bem no centro, a multidão era ainda maior. O episódio que vou contar foi nessa época, em que a agência dos correios ficava no primeiro prédio, localizado no centro.

 

       Mas tudo isso sempre trouxe um agravante: por a cidade ficar nas proximidades da divisa entre Estados (Piauí e Bahia), e por circular muito dinheiro, foi sempre visada pelos assaltantes de banco. Ocorreram vários assaltos. Mas graças a Deus nunca houve uma tragédia, além do dinheiro levado pelos assaltantes. O povo é muito civilizado, e não reage de maneira alguma. A polícia reage com inteligência e responsabilidade, não faz nenhum enfrentamento que coloque a vida das pessoas em risco. Toma outras providências mais sensatas e corretas.

 

       Vamos à história. Certa vez, houve um assalto. O primeiro da cidade, depois da emancipação do município. Sabe-se que os assaltantes ficaram dois dias (antes do assalto), acampados perto da cidade, na estrada que vai para a Bahia. E montaram toda a estratégia. E ficaram só aguardando o dia. Já tinham todas as coordenadas. Em vez de usar o carro deles, ficaram no acampamento sem carro (fala-se que o carro voltou). E na manhã do “dia dos velhos”, no horário do assalto, foram pra estrada abordar um carro para ser utilizado na operação, e pegar pessoas como reféns.

 

       Abordaram uma D-20 cheia de gente. O dono, um homem muito trabalhador e direito. E os assaltantes já foram logo dizendo o propósito, de que se tratava. E o dono do carro, também o motorista, atendeu. E disseram pra descer alguns passageiros, e pra ficar apenas cinco, contando com o motorista (um na cabine do carro e quatro na caçamba). E um dos passageiros que permaneceram no carro é um senhor (topado), muito conhecido no município, meu amigo, não tem medo de nada. Corajoso inconsequente. “Positivo até debaixo do fogo”, um dos bordões da região. E assim prosseguiu o episódio do assalto. O motorista continuou o mesmo (o dono do carro). E foram numa velocidade assustadora.

 

       No percurso, havia um homem aguardando o carro, tinha um dinheiro pra receber, e o dinheiro estava sendo trazido. E quando ouviu a zoada do carro, correu pra estrada. Foi recebido com tiros, os assaltantes atiraram no chão, perto dele, só pra assustá-lo. Fizeram um coroamento ao seu redor, de balas. E ele soltou um grito: “Meu Deus, o que é isso? O que está acontecendo? Não estou entendendo nada!” Saiu correndo, e pulou numa moita. Ele diz que não, mas seu vizinho afirma que urinou na calça na hora. Apareceu em casa todo mijado, tremendo e sem fala. Teve que ir pra garapa (água com açúcar).

 

       Os assaltantes chegaram à cidade, já atirando pra todo lado. E o motorista já foi direto para a agência dos correios. Desceram do carro com os reféns, foram na direção do local do pagamento dos aposentados, onde estava o dinheiro, e deram voz de assalto. E o tumulto do povo nas ruas foi enorme. Uma gritaria medonha. Gente correndo pra todo lado. A polícia não reagiu. Os funcionários dos correios agiram com calma, e entregaram o dinheiro. Os assaltantes pegaram-no rapidamente, e partiram de volta. Ainda levaram um dos funcionários dos correios, que foi libertado logo na saída da cidade. E prosseguiram apenas com outros reféns (e apenas quadro). Um não voltou. Não teve jeito. Confiram a loucura dele.

 

       O senhor (topado) turrou que não voltava, e pronto! E acabou ficando. Os assaltantes o sofrearam de todo jeito: “Vamos vovô, sobe no carro.” E ele: “Quem disse pra vocês que eu vou voltar. Meu destino era até aqui. Não tenho nenhum compromisso com vocês.” E revidaram: “Como é vovô? Sobe logo neste carro, senão será pior pra você!” E senhor (topado) só entrou calmamente num comércio perto da agência dos correios e sentou numa cadeira. E sentenciou: “Eu já falei pra vocês que vim foi pra feira.” E um dos assaltantes viu que aquele senhor em corajoso inconsequente (tido como louco), disse pros outros: “É melhor deixar ele aí. Até mesmo pela questão do tempo. Ele não vai de forma alguma. Não adianta insistir. E não podemos perder tempo com ele. Também não compensa matá-lo, ele não afeta em nada. Vamos deixá-lo aí.” E emendaram: “Tchau vovô corajoso.” E foram embora, sem levar o senhor (topado).

 

       Quando os assaltantes foram embora, o dono do comércio, ainda tremendo, principalmente as pernas, aloprou com o senhor (topado): “O senhor está doido!” E continuou: “Além de querer morrer, ainda quer matar os outros!” Respirou fundo e bronqueou: “De ir pra lá, vem logo pro meu comércio!” Fala-se que na hora o comerciante tirou um pulo, e ficou correndo de um lado pro outro, procurando um lugar pra se esconder, e não encontrava. E gritava: “Meu Deus!” Até que entrou numa caixa de papelão. Pense numa proteção contra tiro.

       Terminado tudo, só se via os montinhos de gente nas ruas falando sobre o episódio. Conversa de todo jeito. Várias versões. Mentira pra todo lado. E o senhor (topado) ficou “famoso” pela sua atitude considerada louca. Corajoso de mais da conta, sem limite. E inconsequente, pois colocou a vida de outras pessoas em risco, além da dele.

 

       Certa vez, conversei com ele sobre o episódio: “O senhor é corajoso!” E me falou: “Marcos, ninguém me leva pra onde eu não quero ir, e pronto! Só faço o que eu quero.” Ainda tentei explicar pra ele que essa atitude, diante de um episódio dessa natureza, não é a correta, a mais sensata, e não teve acordo.  E emendou: “Sou assim, e pronto!”

 

       O registro desse causo tem o propósito principal de mostrar que certas atitudes são erradas. Através dessa história, quero deixar uma lição. Claro, é também uma história engraçada. Porém, é essencialmente uma situação nada agradável para aqueles que a vivenciaram. O exemplo do senhor (topado) não é aconselhável. É bom lembrarmos sempre disso. Fica o registro e o exemplo. 

 

Marcos Damasceno

(pesquisador)

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Está coluna é de inteira responsabilidade do colunista Marcos Damasceno