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No
interior do município de São
Raimundo Nonato-PI, hoje
município de Dom Inocêncio-PI,
tinha um grande fazendeiro.
Já morreu. E tudo dele era no
maior zelo. Sua sela nova
nenhuma outra pessoa usava. Só
ele. Não emprestava pra
ninguém. Seu cavalo de sela só
ele montava. Sua espingarda era
guardada em sete capas. E por
aí vai.
E certa época, ele
vendeu uma boiada e comprou um
carro. Uma F-75, naquele tempo
um carrão. Pense num zelo.
Cuidado terrível. Não deixava
botar qualquer bagagem. Bode
nem pensar, por causa da urina.
Só levava uma quantidade mínima
de gente. Além dessa
quantidade, nem seu pai se
tivesse pra ir também (na
viagem). Sacaria teria que ser
bem no meio, pra não ralar os
lados da caçamba do carro. Pro
bujão, que era em cima da
caçamba, fez uma capa. Couro,
capa e enfeites tinham em toda
parte.
Viagens eram poucas. O
carro passava mais era parado,
guardado. No inverno, por causa
das lamas. Iria sujar todo. Na
seca, por causa da poeira.
Sujaria também. E ficava nesse
lengalenga. Todos pagavam a
passagem, até sua esposa. E
todo o restante da família
(filhos, netos, noras, genros
etc.). E ele só viajava
na porta. Poderia ter dez
pessoas pra ir na cabine, mas o
lugar da porta era dele. Tanto
que a pintura da porta estava
deteriorada por causa do braço
grosando. E ainda o suor.
Por causa desse seu
capricho, é que uma vez a porta
abriu, e ele caiu.
Chegaram duas comadres
de São Paulo (capital) e
estavam em São Raimundo
Nonato-PI para virem com ele,
na linha que fazia pra lá.
Fala-se que chegava todo
importante na cidade (São
Raimundo Nonato-PI), com o
braço na porta. E ao voltar, as
comadres teriam que vir
na cabine. O dono do carro
gordo, e as comadres
mais ainda. Uma das comadres
era tão gorda que certa vez foi
se pesar numa farmácia em São
Paulo (medir sua massa), numa
balança digital, e em vez de
aparecer o seu peso, apareceu
foi uma frase: “Por
favor, um de cada vez.”
Pensando que havia subido um
monte de gente. Voltando à
história, o motorista
ainda disse: “Não vai
caber vocês três.” A
cabine já era apertada. E o
dono do carro, para fazer
vantagem, e empolgado ao levar
as comadres no seu
carro, assegurou: “Aqui é
que nem coração de mãe, sempre
cabe mais um.” E foram.
“Imprensados que só pinto
no ovo”. E ele
na porta. Todo fofo. Um charme
terrível.
No percurso, numa curva
fechada pro lado do
motorista, o peso forçou a
porta demais, e a abriu. Era
numa areia. E o dono do
carro caiu. Quase morre, o
carro ia passando por cima
dele. “Enterrou a cara” na
areia. Quando o pegaram, já um
idoso, a boca estava cheia de
areia. E não perdeu o rebolado:
“Pense numa rapidez.
Pensei que não tinha mais essa
ligeireza toda. Ainda consegui
escapar.” Mas ninguém
riu. Todos ficaram assustados e
preocupados com ele.
Carro era uma coisa incomum na
época, e um acidente de carro
era algo inédito (ainda não
visto).
Ao levantar deram água
pra ele. Ficou melhor. E
disse: “Está tudo bem com
vocês? E com o carro?”
Como que o acidente envolvesse
todos os passageiros. Ao ouvir
dos demais que “estava
tudo bem”, pontuou:
“Então, vamos prosseguir a
viagem.” Imaginem vocês
onde ele foi? Na porta
de novo. E ao chegar à sua
casa, tomou uma atitude:
colocar um ferrolho na porta,
por dentro. Uma tranca. Na
verdade, uma travanca. Igual
àquela de porteira de curral. E
botou. E ficou horrível, porém,
mais seguro.
E certo dia apareceu na
sua casa uns “paulistas”
(é assim que as pessoas do
interior chamam aqueles que
chegam da cidade de São Paulo,
mesmo sendo da região). Pense
numa moagem. Era um converseiro
desenfreado. E o dono da
casa, e do carro, havia
morado em São Paulo (capital)
em outras épocas (década de
50), onde conseguiu muita coisa
trabalhando uns anos lá, no
tempo em que o vapor e o trem
eram os transportes, e quis
contar suas experiências. Até
que os “paulistas”
propuseram fretar seu carro. E
logo, pra fazer vantagem disse
que não cobraria a viagem. E
todos (da sua família)
estranharam sua atitude (era
conhecido na região como um
homem covarde). Fazia questão
apenas do gás (combustível). O
filho, também motorista,
ficou sem entender essa.
“Vai até chover!”,
sentenciou.
E prepararam a viagem.
Colocaram a bagagem toda. E
ele no pé, conferindo.
Cuidado com tudo e com todos.
Debaixo de uma figueira grande,
na frente da sua casa. Arrumada
a bagagem, o motorista
ligou o carro, e os
“paulistas” (eram três - um
casal e uma criança) entraram
na cabine. E ao fechar a porta,
o chefe da família bateu com
força. E o dono do carro
soltou um grito: “Meu
Deus, assim não!” E
perguntou: “Lá na tua
casa tem geladeira?” E
o “paulista” disse:
“Tem.” E o dono
do carro completou:
“Pois aqui é do mesmo jeito.”
A maneira de fechar. E
partiram. Na estrada o
motorista, que era filho do
dono do carro, pediu desculpas
aos “paulistas”.
Lamentava as besteiras do seu
pai. E ainda disse: “Esse
sistema dele é esquisito. E é
com todo mundo. Não confia em
ninguém.” E o casal
“paulista” respondeu:
“É o jeito dele. Esse povo
mais velho é assim.”
Houve esse entendimento.
Realmente o dono do
carro sempre foi assim. Era
uma pessoa incorrigível. Mas ao
conhecer a sua alma, logo vinha
a constatação de que se tratava
de uma boa pessoa. Apenas era
metódico, cheio de ciência e
cuidadoso com as coisas.
Principalmente, com as suas
coisas. E foi por toda a sua
vida.
Marcos Damasceno
(pesquisador) |