.:":.Portal Sanraimundense.:":. - Entretenimento e Informação.

 

.

   

Relatos...

      

MARCOS OLIVEIRA DAMASCENO, 27 ANOS, ESCRITOR, CRONISTA, MEMORIALISTA, HISTORIADOR. NATURAL DE DOM INOCÊNCIO – PI. DOUTORANDO EM FILOSOFIA POLÍTICA, PELA INTERNATIONAL UNIVERSITY OFF CAMBRIDGE.


A porta do carro

marcosdamasceno23@yahoo.com.br


       No interior do município de São Raimundo Nonato-PI, hoje município de Dom Inocêncio-PI, tinha um grande fazendeiro. Já morreu. E tudo dele era no maior zelo. Sua sela nova nenhuma outra pessoa usava. Só ele. Não emprestava pra ninguém. Seu cavalo de sela só ele montava. Sua espingarda era guardada em sete capas. E por aí vai.

 

       E certa época, ele vendeu uma boiada e comprou um carro. Uma F-75, naquele tempo um carrão. Pense num zelo. Cuidado terrível. Não deixava botar qualquer bagagem. Bode nem pensar, por causa da urina. Só levava uma quantidade mínima de gente. Além dessa quantidade, nem seu pai se tivesse pra ir também (na viagem). Sacaria teria que ser bem no meio, pra não ralar os lados da caçamba do carro. Pro bujão, que era em cima da caçamba, fez uma capa. Couro, capa e enfeites tinham em toda parte.

 

       Viagens eram poucas. O carro passava mais era parado, guardado. No inverno, por causa das lamas. Iria sujar todo. Na seca, por causa da poeira. Sujaria também. E ficava nesse lengalenga. Todos pagavam a passagem, até sua esposa. E todo o restante da família (filhos, netos, noras, genros etc.). E ele só viajava na porta. Poderia ter dez pessoas pra ir na cabine, mas o lugar da porta era dele. Tanto que a pintura da porta estava deteriorada por causa do braço grosando. E ainda o suor.

 

       Por causa desse seu capricho, é que uma vez a porta abriu, e ele caiu. Chegaram duas comadres de São Paulo (capital) e estavam em São Raimundo Nonato-PI para virem com ele, na linha que fazia pra lá. Fala-se que chegava todo importante na cidade (São Raimundo Nonato-PI), com o braço na porta. E ao voltar, as comadres teriam que vir na cabine. O dono do carro gordo, e as comadres mais ainda. Uma das comadres era tão gorda que certa vez foi se pesar numa farmácia em São Paulo (medir sua massa), numa balança digital, e em vez de aparecer o seu peso, apareceu foi uma frase: “Por favor, um de cada vez.” Pensando que havia subido um monte de gente. Voltando à história, o motorista ainda disse: “Não vai caber vocês três.” A cabine já era apertada. E o dono do carro, para fazer vantagem, e empolgado ao levar as comadres no seu carro, assegurou: “Aqui é que nem coração de mãe, sempre cabe mais um.” E foram. “Imprensados que só pinto no ovo”. E ele na porta. Todo fofo. Um charme terrível.

 

       No percurso, numa curva fechada pro lado do motorista, o peso forçou a porta demais, e a abriu. Era numa areia. E o dono do carro caiu. Quase morre, o carro ia passando por cima dele. “Enterrou a cara” na areia. Quando o pegaram, já um idoso, a boca estava cheia de areia. E não perdeu o rebolado: “Pense numa rapidez. Pensei que não tinha mais essa ligeireza toda. Ainda consegui escapar.” Mas ninguém riu. Todos ficaram assustados e preocupados com ele. Carro era uma coisa incomum na época, e um acidente de carro era algo inédito (ainda não visto).

 

       Ao levantar deram água pra ele. Ficou melhor. E disse: “Está tudo bem com vocês? E com o carro?” Como que o acidente envolvesse todos os passageiros. Ao ouvir dos demais que “estava tudo bem”, pontuou: “Então, vamos prosseguir a viagem.” Imaginem vocês onde ele foi? Na porta de novo. E ao chegar à sua casa, tomou uma atitude: colocar um ferrolho na porta, por dentro. Uma tranca. Na verdade, uma travanca. Igual àquela de porteira de curral. E botou. E ficou horrível, porém, mais seguro.

 

       E certo dia apareceu na sua casa uns “paulistas” (é assim que as pessoas do interior chamam aqueles que chegam da cidade de São Paulo, mesmo sendo da região). Pense numa moagem. Era um converseiro desenfreado. E o dono da casa, e do carro, havia morado em São Paulo (capital) em outras épocas (década de 50), onde conseguiu muita coisa trabalhando uns anos lá, no tempo em que o vapor e o trem eram os transportes, e quis contar suas experiências. Até que os “paulistas” propuseram fretar seu carro. E logo, pra fazer vantagem disse que não cobraria a viagem. E todos (da sua família) estranharam sua atitude (era conhecido na região como um homem covarde). Fazia questão apenas do gás (combustível). O filho, também motorista, ficou sem entender essa. “Vai até chover!”, sentenciou.

 

       E prepararam a viagem. Colocaram a bagagem toda. E ele no pé, conferindo. Cuidado com tudo e com todos. Debaixo de uma figueira grande, na frente da sua casa. Arrumada a bagagem, o motorista ligou o carro, e os “paulistas” (eram três - um casal e uma criança) entraram na cabine. E ao fechar a porta, o chefe da família bateu com força. E o dono do carro soltou um grito: “Meu Deus, assim não!” E perguntou: “Lá na tua casa tem geladeira?” E o “paulista” disse: “Tem.” E o dono do carro completou: “Pois aqui é do mesmo jeito.” A maneira de fechar. E partiram. Na estrada o motorista, que era filho do dono do carro, pediu desculpas aos “paulistas”. Lamentava as besteiras do seu pai. E ainda disse: “Esse sistema dele é esquisito. E é com todo mundo. Não confia em ninguém.” E o casal “paulista” respondeu: “É o jeito dele. Esse povo mais velho é assim.” Houve esse entendimento.

 

       Realmente o dono do carro sempre foi assim. Era uma pessoa incorrigível. Mas ao conhecer a sua alma, logo vinha a constatação de que se tratava de uma boa pessoa. Apenas era metódico, cheio de ciência e cuidadoso com as coisas. Principalmente, com as suas coisas. E foi por toda a sua vida.

 

Marcos Damasceno

(pesquisador)

  Página Inicial | Comente esta matéria | Imprimir | Painel de Notícias | Topo

Está coluna é de inteira responsabilidade do colunista Marcos Damasceno