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Um
senhor do interior do
município de Dom Inocêncio-PI
(esta história é recente) tem
uma propriedade muito boa, cria
muito bode (caprino), boi
(bovino) e ovelha (ovino). E
também, uma área de terra
grande, com boa pastagem e uma
fauna rica. Muita caça (tatu,
caititu, veado etc.). E
ecologicamente correto, muito
direito.
Mas arrumou um genro
desmantelado. Quando anda
na sua casa é um terror. Falta
é acabar com tudo. Quer fazer
tudo ao mesmo tempo. Detalhe:
nada é relevante para o
sogro. Só pensa em coisas
erradas para a concepção do
sogro. Quando vai à sua
casa, leva logo um monte de
amigos, entope a casa de
gente (folgada), um isopor com
cerveja, uma churrasqueira e um
violão. E uma espingarda, para
quando o sogro descuidar
ir uma caçada. Nada de futuro
para a visão do sogro.
Quando chega, já faz
logo a sogra matar um
monte de galinhas caipiras. E o
sogro fica doido.
Inventa um almoço. Depois um
churrasco. E aí é folga pra
todos os lados. E o sogro
fica por conta. Mas sem
poder fazer nada. A filha
(esposa do genro) ainda chega a
interferir: “Deixa de
folga, o papai não gosta dessas
coisas.” E ele
responde: “É nada! Não é
sogrão? Ele adora nossa
brincadeira.” E o
sogro dá um sorriso
forçado, mas rangendo os dentes
de raiva. Mesmo a filha
freando as invenções do marido
(o genro folgado) ele
ainda consegue inventar um
monte de coisas. De futebol no
terreiro da casa, churrasco,
festa e ao resto, tudo ele
inventa.
Num certo final de
semana surpreendeu à mulher (filha
do dono da casa) quando
disse que iria chamar uns
amigos pra caçar uns
caititus na propriedade do
sogro. E ela ainda
perguntou: “Você pediu ao
papai?” E ele: “Que
nada, não precisa. Ele vai
deixar.” Deixa que o
sogro não permitia ninguém
caçar na sua propriedade. Certa
vez quase vai aos revólveres
com o vizinho porque
matou uma ema dentro da sua
gleba. Seus caititus? Esses é
que eram intocáveis. E o
genro aprontou mais essa.
Chamou um monte de amigos
(folgados e cachaceiros) e
foram.
Levou toda a família.
Quando chegou, o sogro
já desconfiou. Armas e mais
armas, um cachorro, lanterna
etc. E o genro disse na
maior cara de pau:
“Sogrão, vamos dar umas voltas
atrás de uns caititus.”
E ele foi duro: “Nem
pensar! Meus caititus não.”
A filha ficou do lado do
pai. Os amigos
calados. Mas de repente, a
sogra disse: “Pode
caçar. Não tem nada.” E
olhou pro marido, e pontuou:
“E você deixe de besteira.
Nossas coisas são da nossa
família. Não vem aqui proibir
nada.” E o genro
sorriu por dentro: “Ô
beleza!” E o sogro
acabou concordando. Forçado.
Aí começaram a aparecer
com as armas. Facão, espingarda
de todo jeito, rifle, revólver,
faca etc. E o sogro:
“Meus Deus, vieram foi
pra uma guerra. Vão acabar com
tudo.” E repente, uma
espingarda calibre 12. E
pediram mais um cachorro. E o
dono da casa ainda
murmurou: “Até meu
cachorro!” Foram pro
ponto dos caititus. Uma bagagem
danada. Até a moringa de água
era diferente. A estrutura era
enorme. Parecia até os
norte-americanos numa guerra.
Ao chegar ao local,
prepararam o acampamento. E o
caçador bom, dono da
espingarda calibre 12, foi dar
uma volta. E num carreiro
avistou uma manada de caititus.
E preparou um tiro, com um
cartucho preparado já de
fábrica. E atirou. Pense num
tiro... Foi escutado de longe,
por toda a redondeza. Um pipoco
medonho. E o dono da
propriedade escutou de
casa, e foi à loucura:
“Meus caititus...” Com
esse tiro derrubou dois
caititus, e ainda atingiu uma
cabra que estava do lado.
Imaginem o dono: o sogro.
O caçador bom veio até o
acampamento pedir ajuda para
trazer (os caititus e a cabra).
E o genro ficou aflito:
“Uma cabra também?”
E o responsável pelo tiro se
explicou: “Foi sem
querer, eu não estava vendo (a
cabra). O tiro atravessou pro
outro lado.” E o
primeiro falou: “E agora?
Como vamos aparecer lá com essa
cabra? Deixar aqui também não
podemos, senão meu sogro vai
acabar encontrando depois. E é
pior.” E pensou um
pouco e disse: “Vamos
levar, é o jeito.” E o
atirador perguntou:
“Continuo? Ou já está bom?”
E o genro exclamou:
“Vamos continuar, mas agora
será com os cachorros numa
toca. E vamos matá-los (os
caititus) com as foices e os
facões.” Já era à
noite. Saíram de casa à
tardinha.
E foram pras tocas.
Perto montaram um plano. Dois
caçadores ficaram com as foices
na passagem da toca, e os
demais foram com os cachorros
espantar de lá os caititus. O
cachorro do sogro tinha
um valor sentimental enorme
para ele. E os caçadores (que
estavam espantando os caititus)
gritaram de lá: “Estão
indo, podem preparar as
foices!” E os cachorros
atrás. Uma escuridão enorme (“De
meter o dedo no olho”).
E um dos caçadores, dos que
estavam com as foices, era
novato e demonstrava certo
nervosismo. “Tremia mais
do que vara verde”, um
dos bordões do interior. E
prepararam as foices. E os
caititus indo rumo à passagem,
só tinha essa passagem. E os
cachorros atrás.
E os caçadores que
estavam com as foices, bem na
hora em que iam passando os
caititus (juntos com os
cachorros) arrocharam dando
foiçadas. A primeira pegou logo
no cachorro do sogro.
Bem no pescoço. Morreu logo em
seguida. E conseguiram matar
mais dois caititus. Totalizando
quatro. E mais a cabra. E um
cachorro morto. Pense num
prejuízo... Numa caçada de
sucesso... “E agora?”,
perguntou um dos caçadores. E o
genro respondeu:
“Vamos parar, já está bom.”
Falou com a consciência um
pouco tardia. A hora de parar
já tinha passado fazia era
tempo.
E pra levar os caititus
e a cabra? Tiveram que mandar
um dos caçadores até a casa do
sogro buscar um jumento
com uma cangaia. Já era
04h00min (quatro horas) - de
madrugada. Chegado lá, às
05h00min (cinco horas) - de
manhã-, o sogro quase
fica doido: “Quatro
caititus, uma cabra das minhas,
e ainda meu cachorro? Ah
moleque (o genro) safado!”
E foi pra garapa de açúcar.
Passou mal. E mandou o jumento,
e junto um recado pro genro:
“Diga a ele que venha
preparado para me dar
explicações.” No
acampamento arrumaram a carga,
dois caititus de um lado, dois
do outro, e a cabra no meio. E
voltaram. O genro
preocupado. Tinha passado do
limite.
Ao chegar à casa a
confusão foi grande. O sogro
quis avançar no genro,
e não deixaram. As mulheres que
apartaram (a filha e a
esposa). E os amigos
calados. A questão era em
família. O genro era o
responsável por tudo. E o
sogro: “Fique sabendo
que nas minhas terras você não
caça mais. E quanto mais
demorar andar aqui, melhor.”
E o genro ficou calado.
Na hora quis ir embora, a
sogra não deixou. Era só
fazendo charme. E o sogro
ficou zangado, sem dizer nada.
Uma raiva... Também, não era
pra menos. E ficou uns tempos
intrigado do genro. Até
a situação melhorar um pouco, a
raiva passar mais.
Mas tudo isso deixou uma
lição: o genro ficou com
medo, e passou a ser comportado
na casa do sogro. Pense
numa civilidade... Correto que
era uma beleza. Trabalhador,
até cerca de roça fez. Queria
agradar ao sogro, fazer
as pazes. E conseguiu. Suas
idas à sua casa mudaram muito.
E como mudou... E hoje, são
mais amigos do antes.
Marcos Damasceno
(pesquisador) |