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Em
outras épocas, eram comuns
comícios em praças cívicas por
essas cidades do nosso imenso
Brasil, de políticos (de toda
espécie, natureza e gabarito).
E muitas atrapalhadas, gafes,
vacilos etc. Tinha cada
comportamento, posturas
estranhas, discursos
atrapalhados e sem nexo (não
diziam coisa com coisa),
estratégias loucas, enfim. Isso
nos Estados e nos municípios.
Ocorreu também em nível
federal.
Jânio Quadros
(alcoólatra assumido), então
presidente da República, estava
discursando, e foi indagado por
uma pessoa: “Presidente,
por que o senhor bebe?”
E o presidente:
“Porque a bebida é líquida, se
fosse sólida eu comeria.”
Tem até um caso de uma gafe
do governador do Piauí,
Lucídio Portela. Na época,
uma rivalidade comercial enorme
entre a Antarctica e a
Brahma (duas marcas de
cerveja), no Estado do Piauí. E
em todo o Brasil. E ao
inaugurar a Antarctica,
num certo bairro da capital
(Teresina), uma multidão
presente, presente também o
representante nacional da
Antarctica, Sua
Excelência fez um discurso
entusiasmado. Ia tudo bem, até
enxergar uns amigos embaixo, no
meio do povo. De lá, do palco,
direciona sua fala pros amigos:
“Vocês estão aí meus
amigos! Quando descer daqui,
vamos tomar uma Brahma.”
Sendo o evento da rival da
Antarctica. Pense numa
gafe. Ainda mais se tratando de
um governador de Estado, pelo
protocolo necessário, causou
certo constrangimento. Para
ambos os lados.
Nesse caso, a gafe veio
pelo seu temperamento agitado,
totalmente sem atenção aos atos
e suas consequências. Também
pela falta de organização do
discurso. Isso acontece nas
falas improvisadas. E a palavra
de um chefe de Estado é
sagrada. E tem consequências e
repercussões diferenciadas. De
grande destaque. Falha no
cerimonial. Tanto que Sua
Excelência não percebeu na
hora a sua gafe. Depois é que
comunicaram a gravidade das
suas palavras.
Houve também um caso
inusitado na região, a história
de seu Venâncio, um
homem apolítico (que não
gostava de política, e não se
envolvia nela de maneira
alguma). Não gostava nem que
falassem sobre política no seu
comércio. Nem na frente, na
calçada (onde rolava os babados
da cidade). Dizia: “De
política eu tenho é asca.”
Isso pela sua ignorância. Sua
visão fatalista da política.
Política é coisa boa, uma
atividade cívica. O ódio dele
era, sim, pela politicagem
(política mesquinha) praticada
por muitos, que a desviam da
sua verdadeira finalidade.
E certo final de semana,
em época de eleição, foi
marcado um comício eleitoral
para a praça central, o melhor
lugar da cidade para tal
evento. Bem na frente da sua
casa. E ele ficou doido.
E naquelas épocas, eram
verdadeiras festas populares,
‘showmícios’ (comícios com
shows), bebida a vontade etc. E
não tinha hora para parar, era
até o dia amanhecer. E quando
começou o comício, uma zoada
danada, som altíssimo, barulho,
gritaria e por aí vai. Sua
família foi. E ele ficou
sozinho em casa. A raiva
aumentou mais ainda. Foi dormir
(na verdade, deitar). Rolava de
um lado pro outro na cama, e
nada de conseguir dormir. Não
era pra menos, o som do comício
estava ecoando debaixo da sua
cama, chega chiava nos seus
ouvidos. E ele procurava
vários meios, várias formas, e
nada de conseguir dormir. Até
que “explodiu” de raiva, e foi
pro muro da frente da casa.
Pegou um tijolo, e disse:
“Diabo, posso é não dormir,
mas pelo menos um eu derrubo
com este tijolo.” E
jogou o tijolo por cima do
muro, na multidão, e correu pra
casa (pra sua cama). E logo,
bateram desesperadamente no
portão da sua casa:
“Chega Venâncio, jogaram um
tijolo e pegou bem na cabeça da
tua mãe. Ela está estirada no
chão. Vamos atrás de um
médico.”
E o Venâncio
ficou preocupado, com
sentimento de culpa, mas mesmo
assim, não disse jamais que foi
ele. E ainda aproveitou
pra dar um sermão em toda a sua
família: “Estão vendo pra
que serve política. Se
estivessem em casa não teria
acontecido isso.”
Tempos depois descobriram que
foi ele que jogou o
tijolo. Mas isso ficou só em
suposição. Seu Venâncio
negava até morrer. E quem
tocasse no assunto na sua
presença, era briga na certa.
Agora podemos botar pra ele,
já é falecido.
E na nossa região tinha
um desses políticos
atrapalhados (não posso dizer o
nome). Tantas histórias sobre
ele. Tanto que ficou
famoso pelas suas gafes e
vacilos. Virou até lenda. Não
sabia falar correto, falava
tudo errado. Erros grotescos.
Porém, era bom de roteiro de
discurso. E ainda tinha uma
postura desenvolvida, era
disposto. Não enganchava em
discurso nenhum. Não tinha medo
de falar em lugar nenhum. E
tinha uma voz de locutor de
rodeio.
Certa vez, foi fazer um
tratamento estomacal (no
estômago) em Juazeiro-BA. Lá o
médico passou pra ele
tomar leite pasteurizado
durante uns dias (esterilizado
pelo calor, aquecimento, e
esfriado rapidamente), já vem
pasteurizado de fábrica. E
pediu para retornar lá, para
monitorar (acompanhar) o
tratamento. E foi quando
comprou um fardo de leite, e
todo dia ia comprar pastel na
pastelaria próxima da sua casa,
para tomar junto com o leite.
Pensando ele, leite
pasteurizado. E quando
retornou, o problema
continuava. Sem nenhuma
melhora. E o médico questionou:
“Você não tomou o leite
pasteurizado que receitei?”
E ele: “Tomei
sim.” E passou a
relatar. E o médico logo
percebeu que estava tendo um
engano, não sabia o que era
leite pasteurizado. E passou a
explicar.
Foi candidato a prefeito
da sua cidade. E ganhou
disparado. Comício marcado,
para o coroamento da campanha
eleitoral. Seria o último.
Lá vai. Uma multidão. Bêbado
pra todo lado. E falava cada
palavra errada... E seu
filho, professor, já
envergonhado (e que até certo
ponto estava errado, o pai não
teve oportunidade de estudar),
se aproximou dele e
começou a soar no seu ouvido:
“Pai, emprega o verbo.”
Pra ele falar correto. E
ele achava que era pra
prometer emprego. E no final,
já ia esquecendo: “Ah,
antes de terminar, quero dizer
que o verbo, e a família toda,
já estão empregados.” E
todos os presentes,
principalmente os bêbados:
“Muito bem! Este é nosso
prefeito!” E saiu
carregado pelo povo. Nos braços
dos eleitores.
Numa outra disputa
eleitoral, em que foi
derrotado, se organizou melhor.
Aceitou a orientação dos
filhos. E talvez isso o
fez perder ponto, pois ficou
muito parecido com um robô. Só
fazia o que os outros mandavam
(os coordenadores da campanha).
E perdeu seu brilho, seu estilo
(atrapalhado) que o povo já
estava acostumado. Discurso
escrito num papel, apenas pra
ler. E já estava acertado que
no final, pularia de cima do
palanque e o povo levá-lo-ia
nos braços (já tinha uns homens
pagos, só pra isso). Mas a
organização fez foi piorar,
atrapalhou sua vida. Na hora de
lê-lo, enganchou. E o filho
(professor) falou de perto:
“Pula.” Pra ele
pular aquele trecho que
enganchou. E o candidato
achava que já era a hora de
pular do palanque. E pulou lá
de cima. E os homens pagos não
estavam esperando (ainda não
era a hora combinada). Pense
num tombo. Caiu no chão, se
ralou todo. Um amigo contou-me:
“Foram tantas as
raladuras, que o álcool foi
passado com uma broxa.”
De lá para cá, ganhou
várias eleições. E perdeu
várias. Só nunca perdeu foi o
rebolado (mesmo perdendo, nunca
ficou por baixo), o nome na
região e a amizade do povo. Uma
história construída, mesmo com
turbulência e atrapalhada. É
gente boa. É meu amigo (ainda
bem). Eu nunca o vi com raiva,
é sempre bem humorado e
otimista. Este registro, que
tem sua permissão, é também uma
homenagem. Pois foi através das
suas atrapalhadas que fez sua
terra progredir. Lá ele
teve seus altos e baixos, mas
acima de tudo, é querido e
respeitado. É um político
atrapalhado, mas do bem e
bem-intencionado. Com vontade
de acertar. Isso é o mais
importante.
Marcos Damasceno
(pesquisador) |