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Relatos...

      

MARCOS OLIVEIRA DAMASCENO, 27 ANOS, ESCRITOR, CRONISTA, MEMORIALISTA, HISTORIADOR. NATURAL DE DOM INOCÊNCIO – PI. DOUTORANDO EM FILOSOFIA POLÍTICA, PELA INTERNATIONAL UNIVERSITY OFF CAMBRIDGE.


Um político atrapalhado

marcosdamasceno23@yahoo.com.br


      Em outras épocas, eram comuns comícios em praças cívicas por essas cidades do nosso imenso Brasil, de políticos (de toda espécie, natureza e gabarito). E muitas atrapalhadas, gafes, vacilos etc. Tinha cada comportamento, posturas estranhas, discursos atrapalhados e sem nexo (não diziam coisa com coisa), estratégias loucas, enfim. Isso nos Estados e nos municípios. Ocorreu também em nível federal. 

 

       Jânio Quadros (alcoólatra assumido), então presidente da República, estava discursando, e foi indagado por uma pessoa: “Presidente, por que o senhor bebe?” E o presidente: “Porque a bebida é líquida, se fosse sólida eu comeria.” Tem até um caso de uma gafe do governador do Piauí, Lucídio Portela. Na época, uma rivalidade comercial enorme entre a Antarctica e a Brahma (duas marcas de cerveja), no Estado do Piauí. E em todo o Brasil. E ao inaugurar a Antarctica, num certo bairro da capital (Teresina), uma multidão presente, presente também o representante nacional da Antarctica, Sua Excelência fez um discurso entusiasmado. Ia tudo bem, até enxergar uns amigos embaixo, no meio do povo. De lá, do palco, direciona sua fala pros amigos: “Vocês estão aí meus amigos! Quando descer daqui, vamos tomar uma Brahma.” Sendo o evento da rival da Antarctica. Pense numa gafe. Ainda mais se tratando de um governador de Estado, pelo protocolo necessário, causou certo constrangimento. Para ambos os lados.

 

       Nesse caso, a gafe veio pelo seu temperamento agitado, totalmente sem atenção aos atos e suas consequências. Também pela falta de organização do discurso. Isso acontece nas falas improvisadas. E a palavra de um chefe de Estado é sagrada. E tem consequências e repercussões diferenciadas. De grande destaque. Falha no cerimonial. Tanto que Sua Excelência não percebeu na hora a sua gafe. Depois é que comunicaram a gravidade das suas palavras.

 

       Houve também um caso inusitado na região, a história de seu Venâncio, um homem apolítico (que não gostava de política, e não se envolvia nela de maneira alguma). Não gostava nem que falassem sobre política no seu comércio. Nem na frente, na calçada (onde rolava os babados da cidade). Dizia: “De política eu tenho é asca.” Isso pela sua ignorância. Sua visão fatalista da política. Política é coisa boa, uma atividade cívica. O ódio dele era, sim, pela politicagem (política mesquinha) praticada por muitos, que a desviam da sua verdadeira finalidade. 

 

       E certo final de semana, em época de eleição, foi marcado um comício eleitoral para a praça central, o melhor lugar da cidade para tal evento. Bem na frente da sua casa. E ele ficou doido. E naquelas épocas, eram verdadeiras festas populares, ‘showmícios’ (comícios com shows), bebida a vontade etc. E não tinha hora para parar, era até o dia amanhecer. E quando começou o comício, uma zoada danada, som altíssimo, barulho, gritaria e por aí vai. Sua família foi. E ele ficou sozinho em casa. A raiva aumentou mais ainda. Foi dormir (na verdade, deitar). Rolava de um lado pro outro na cama, e nada de conseguir dormir. Não era pra menos, o som do comício estava ecoando debaixo da sua cama, chega chiava nos seus ouvidos. E ele procurava vários meios, várias formas, e nada de conseguir dormir. Até que “explodiu” de raiva, e foi pro muro da frente da casa. Pegou um tijolo, e disse: “Diabo, posso é não dormir, mas pelo menos um eu derrubo com este tijolo.” E jogou o tijolo por cima do muro, na multidão, e correu pra casa (pra sua cama). E logo, bateram desesperadamente no portão da sua casa: “Chega Venâncio, jogaram um tijolo e pegou bem na cabeça da tua mãe. Ela está estirada no chão. Vamos atrás de um médico.”

 

       E o Venâncio ficou preocupado, com sentimento de culpa, mas mesmo assim, não disse jamais que foi ele. E ainda aproveitou pra dar um sermão em toda a sua família: “Estão vendo pra que serve política. Se estivessem em casa não teria acontecido isso.” Tempos depois descobriram que foi ele que jogou o tijolo. Mas isso ficou só em suposição. Seu Venâncio negava até morrer. E quem tocasse no assunto na sua presença, era briga na certa. Agora podemos botar pra ele, já é falecido.

 

       E na nossa região tinha um desses políticos atrapalhados (não posso dizer o nome). Tantas histórias sobre ele. Tanto que ficou famoso pelas suas gafes e vacilos. Virou até lenda. Não sabia falar correto, falava tudo errado. Erros grotescos. Porém, era bom de roteiro de discurso. E ainda tinha uma postura desenvolvida, era disposto. Não enganchava em discurso nenhum. Não tinha medo de falar em lugar nenhum. E tinha uma voz de locutor de rodeio.

 

       Certa vez, foi fazer um tratamento estomacal (no estômago) em Juazeiro-BA. Lá o médico passou pra ele tomar leite pasteurizado durante uns dias (esterilizado pelo calor, aquecimento, e esfriado rapidamente), já vem pasteurizado de fábrica. E pediu para retornar lá, para monitorar (acompanhar) o tratamento. E foi quando comprou um fardo de leite, e todo dia ia comprar pastel na pastelaria próxima da sua casa, para tomar junto com o leite. Pensando ele, leite pasteurizado. E quando retornou, o problema continuava. Sem nenhuma melhora. E o médico questionou: “Você não tomou o leite pasteurizado que receitei?” E ele: “Tomei sim.” E passou a relatar. E o médico logo percebeu que estava tendo um engano, não sabia o que era leite pasteurizado. E passou a explicar.

 

       Foi candidato a prefeito da sua cidade. E ganhou disparado. Comício marcado, para o coroamento da campanha eleitoral. Seria o último. Lá vai. Uma multidão. Bêbado pra todo lado. E falava cada palavra errada... E seu filho, professor, já envergonhado (e que até certo ponto estava errado, o pai não teve oportunidade de estudar), se aproximou dele e começou a soar no seu ouvido: “Pai, emprega o verbo.” Pra ele falar correto. E ele achava que era pra prometer emprego. E no final, já ia esquecendo: “Ah, antes de terminar, quero dizer que o verbo, e a família toda, já estão empregados.” E todos os presentes, principalmente os bêbados: “Muito bem! Este é nosso prefeito!” E saiu carregado pelo povo. Nos braços dos eleitores.

 

       Numa outra disputa eleitoral, em que foi derrotado, se organizou melhor. Aceitou a orientação dos filhos. E talvez isso o fez perder ponto, pois ficou muito parecido com um robô. Só fazia o que os outros mandavam (os coordenadores da campanha). E perdeu seu brilho, seu estilo (atrapalhado) que o povo já estava acostumado. Discurso escrito num papel, apenas pra ler. E já estava acertado que no final, pularia de cima do palanque e o povo levá-lo-ia nos braços (já tinha uns homens pagos, só pra isso). Mas a organização fez foi piorar, atrapalhou sua vida. Na hora de lê-lo, enganchou. E o filho (professor) falou de perto: “Pula.” Pra ele pular aquele trecho que enganchou. E o candidato achava que já era a hora de pular do palanque. E pulou lá de cima. E os homens pagos não estavam esperando (ainda não era a hora combinada). Pense num tombo. Caiu no chão, se ralou todo. Um amigo contou-me: “Foram tantas as raladuras, que o álcool foi passado com uma broxa.”

 

       De lá para cá, ganhou várias eleições. E perdeu várias. Só nunca perdeu foi o rebolado (mesmo perdendo, nunca ficou por baixo), o nome na região e a amizade do povo. Uma história construída, mesmo com turbulência e atrapalhada. É gente boa. É meu amigo (ainda bem). Eu nunca o vi com raiva, é sempre bem humorado e otimista. Este registro, que tem sua permissão, é também uma homenagem. Pois foi através das suas atrapalhadas que fez sua terra progredir. Lá ele teve seus altos e baixos, mas acima de tudo, é querido e respeitado. É um político atrapalhado, mas do bem e bem-intencionado. Com vontade de acertar. Isso é o mais importante.

 

Marcos Damasceno

(pesquisador)

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Está coluna é de inteira responsabilidade do colunista Marcos Damasceno