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Relatos...

      

MARCOS OLIVEIRA DAMASCENO, 27 ANOS, ESCRITOR, CRONISTA, MEMORIALISTA, HISTORIADOR. NATURAL DE DOM INOCÊNCIO – PI. DOUTORANDO EM FILOSOFIA POLÍTICA, PELA INTERNATIONAL UNIVERSITY OFF CAMBRIDGE.


Compadre folgado

marcosdamasceno23@yahoo.com.br


      No interior do município de São Raimundo Nonato-PI, hoje município de Dom Inocêncio-PI, morava um senhor (não posso citar o nome) socialmente e ecologicamente correto. Não fazia mal a ninguém. Era totalmente do bem. E gostava das coisas bem resolvidas, odiava gente enrolada. E folgada.

 

       E seu compadre era um carga torta”, como se diz no interior, de pessoas desmanteladas. Morava na época na sede do município de São Raimundo Nonato-PI (e mora até hoje). Esse era totalmente o contrário: gostava de beber (só passava mais era bêbado), adorava um churrasco (dos bodes dos outros), uma galinha caipira (do terreiro dos outros), a vida era caçar (botava mesmo era pra acabar com os tatus), ruim de trato que era uma beleza. Folgado como ele não tinha igual. Mentia até dizer chega. Mentiroso “cara de pau”. E ainda, contava uma mentira e ninguém podia duvidar, senão era confusão, briga na certa.

 

       De vez em quando o compadre da cidade mandava o recado: “(Tal dia) estarei aí na sua casa, pra passar uns dias com vocês”. Isso pra desespero do compadre do interior. De início, já imaginava seus bodes que teria que matar, a caçada que teria que proibir, enfim. Preocupação total. E pensava: “Meu Deus, já imagino ter que receber esse homem aqui.”

 

       E chegou o compadre da cidade. Ao chegar um falso cumprimento: “Quanto tempo, estava com saudades do meu compadre.” E o dono da casa pensando: “Tranqueira, queria mesmo tu era bem longe daqui.” E a imaginação estendia: “Nem avisa pra gente esconder as coisas de valor.” E era exigente. Logo já queria saber o que teria de bom. Chegado a uma coalhada, doce, requeijão, etc. E venha comida pra esse homem. Uma despesa enorme. E o dono da casa imaginando: “Um compadre deste só pode ser castigo. Ninguém merece.”

 

       De manhã, uma fartura enorme pro compadre. Meio dia, outra vez. E à noite, também. Um prejuízo medonho. E chegava o dia do carro da feira (transporte até a cidade), o caminhão do meu pai Adelson Damasceno e do meu tio Marinho Damasceno, e nada do compadre ir embora. E o dono da casa já não aguentava mais. E a comadre na cidade achando um alívio do bêbado e folgado lá. Nessas horas é bom ter o pavio curto, soltar logo o verbo.

 

       Pra acabar de completar, além do prejuízo de galinha, bode, coalhada, requeijão ao resto, inventou de caçar. E o dono da casa não caçava e não permitia ninguém caçar na sua propriedade rural. E já foi logo dizendo: “Isso não! Não aceito ninguém caçar nas minhas terras.” E o compadre insistiu: “É só um tatu.” E reforçou o dono da casa: “De maneira alguma.”

 

       Como o dono da casa viu que o compadre da cidade não iria embora sem levar um tatu, acabou permitindo. Só pra se ver livre dele. Mas já foi dizendo: “É só um. E meu filho vai com você (isso pelo medo dele pegar mais de um).” E foi a caçada (com o filho do dono da casa) prometendo cumprir o combinado (pegar só um tatu, e voltar por cima do rastro). No percurso, um bar. Tomaram todas. O filho do dono da casa bebia também. E como. Não tinha nada a ver com o pai. Puxou com o tio. Depois de várias doses de cachaça, foram. Logo combinaram: “Vamos nos separar, cada um pra um lado. E na hora que os cachorros latirem, pronto. Vamos até o local.” Mas como era à noite, e estavam bêbados, ficaram perdidos nos carreiros, só se encontrando e dando boa noite um pro outro. Até que um percebeu: “Oxe, é tu!”

 

       Com isso, partiram juntos. E logo o cachorro acuou um tatu. Pegaram. Mas não mataram nem amarraram. E o compadre só botou debaixo do braço (o tatu). E vieram de volta a casa. Uma distância longa, e ainda estavam em cima de uma serra. Teriam que descê-la. E desceram serra abaixo. Conversando, uma alegria enorme. O compadre até assobiando. O filho do dono da casa já foi falando: “Minha parte eu quero em caldo. Gosto assim.” E o compadre emendou: “A minha parte eu prefiro assada. Acho melhor assada. Ainda mais que o bicho (tatu) está gordinho.”

 

       Vinham bem tranquilos, e quando estavam chegando a casa, houve um descuido e o tatu escapou. E num pulo só correu e sumiu na mata. O dia estava amanhecendo. E cadê a coragem para voltar em busca de outro. Subir aquela serra enorme novamente, nem pensar! E a ressaca também. O fato, é que ficaram sem saborear o tatu. Viva a natureza! E o compadre da cidade ainda afirmou: “Foi praga do seu pai (compadre do interior).”

 

       E felizmente, resolveu ir embora. Isso para a felicidade do dono da casa. Pense num alívio, num descarrego. A satisfação era tamanha ao ouvir do compadre que iria embora, que o dono da casa até a passagem pagou. E o compadre embarcou rumo a São Raimundo Nonato-PI. Ao sair, disse ao dono da casa: “Obrigado compadre por tudo. E me desculpe pelo incômodo.” E o dono da casa foi gentil: “Que nada compadre, a minha casa estará sempre de portas abertas para você.” E no fundo, pensando: “Vai-te embora desmantelo do mundo todo.”

 

       O cuidado com o embarque do compadre era tão grande, que fez questão de acordá-lo, para não perder o horário do caminhão da feira, da linha. Passava de madrugada. E até que enfim foi se embora.  

 

Marcos Damasceno

(pesquisador)

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Está coluna é de inteira responsabilidade do colunista Marcos Damasceno