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No
interior do município de São
Raimundo Nonato-PI, hoje
município de Dom Inocêncio-PI,
morava um senhor (não
posso citar o nome) socialmente
e ecologicamente correto. Não
fazia mal a ninguém. Era
totalmente do bem. E gostava
das coisas bem resolvidas,
odiava gente enrolada. E
folgada.
E seu compadre
era um “carga torta”,
como se diz no interior, de
pessoas desmanteladas. Morava
na época na sede do município
de São Raimundo Nonato-PI (e
mora até hoje). Esse era
totalmente o contrário: gostava
de beber (só passava mais era
bêbado), adorava um churrasco
(dos bodes dos outros), uma
galinha caipira (do terreiro
dos outros), a vida era caçar
(botava mesmo era pra acabar
com os tatus), ruim de trato
que era uma beleza. Folgado
como ele não tinha igual.
Mentia até dizer chega.
Mentiroso “cara de pau”.
E ainda, contava uma mentira e
ninguém podia duvidar, senão
era confusão, briga na certa.
De vez em
quando o compadre da
cidade mandava o recado:
“(Tal dia) estarei aí na sua
casa, pra passar uns dias com
vocês”. Isso pra
desespero do compadre do
interior. De início, já
imaginava seus bodes que teria
que matar, a caçada que teria
que proibir, enfim. Preocupação
total. E pensava:
“Meu Deus, já
imagino ter que receber esse
homem aqui.”
E chegou
o compadre da cidade. Ao
chegar um falso cumprimento:
“Quanto tempo, estava com
saudades do meu compadre.”
E o dono da casa
pensando: “Tranqueira,
queria mesmo tu era bem longe
daqui.” E a imaginação
estendia: “Nem avisa pra
gente esconder as coisas de
valor.” E era exigente.
Logo já queria saber o que
teria de bom. Chegado a uma
coalhada, doce, requeijão, etc.
E venha comida pra esse
homem. Uma despesa enorme.
E o dono da casa
imaginando:
“Um compadre
deste só pode ser castigo.
Ninguém merece.”
De manhã, uma fartura
enorme pro compadre.
Meio dia, outra vez. E à noite,
também. Um prejuízo medonho. E
chegava o dia do carro da feira
(transporte até a cidade), o
caminhão do meu pai Adelson
Damasceno e do meu tio
Marinho Damasceno, e nada
do compadre ir embora. E
o dono da casa já não
aguentava mais. E a comadre
na cidade achando um
alívio do bêbado e folgado lá.
Nessas horas é bom ter o pavio
curto, soltar logo o verbo.
Pra
acabar de completar, além do
prejuízo de galinha, bode,
coalhada, requeijão ao resto,
inventou de caçar. E o dono
da casa não caçava e não
permitia ninguém caçar na sua
propriedade rural. E já foi
logo dizendo: “Isso não!
Não aceito ninguém caçar nas
minhas terras.” E o
compadre insistiu: “É
só um tatu.” E reforçou
o dono da casa:
“De maneira
alguma.”
Como o
dono da casa viu que
o compadre da cidade não
iria embora sem levar um tatu,
acabou permitindo. Só pra se
ver livre dele. Mas já foi
dizendo: “É só um. E meu
filho vai com você (isso pelo
medo dele pegar mais de um).”
E foi a caçada (com o
filho do dono da casa)
prometendo cumprir o combinado
(pegar só um tatu, e voltar por
cima do rastro). No percurso,
um bar. Tomaram todas. O
filho do dono da casa bebia
também. E como. Não tinha nada
a ver com o pai. Puxou
com o tio. Depois de
várias doses de cachaça, foram.
Logo combinaram: “Vamos
nos separar, cada um pra um
lado. E na hora que os
cachorros latirem, pronto.
Vamos até o local.” Mas
como era à noite, e estavam
bêbados, ficaram perdidos nos
carreiros, só se encontrando e
dando boa noite um pro outro.
Até que um percebeu:
“Oxe, é tu!”
Com isso, partiram
juntos. E logo o cachorro acuou
um tatu. Pegaram. Mas não
mataram nem amarraram. E o
compadre só botou debaixo
do braço (o tatu). E vieram de
volta a casa. Uma distância
longa, e ainda estavam em cima
de uma serra. Teriam que
descê-la. E desceram serra
abaixo. Conversando, uma
alegria enorme. O compadre
até assobiando. O filho do
dono da casa já foi
falando: “Minha parte eu
quero em caldo. Gosto assim.”
E o compadre emendou:
“A minha parte eu prefiro
assada. Acho melhor assada.
Ainda mais que o bicho (tatu)
está gordinho.”
Vinham
bem tranquilos, e quando
estavam chegando a casa, houve
um descuido e o tatu escapou. E
num pulo só correu e sumiu na
mata. O dia estava amanhecendo.
E cadê a coragem para voltar em
busca de outro. Subir aquela
serra enorme novamente, nem
pensar! E a ressaca também. O
fato, é que ficaram sem
saborear o tatu. Viva a
natureza! E o compadre da
cidade ainda afirmou:
“Foi praga do seu pai (compadre
do interior).”
E
felizmente, resolveu ir embora.
Isso para a felicidade do
dono da casa. Pense num
alívio, num descarrego. A
satisfação era tamanha ao ouvir
do compadre que iria
embora, que o dono da casa
até a passagem pagou. E o
compadre embarcou rumo a
São Raimundo Nonato-PI. Ao
sair, disse ao dono da casa:
“Obrigado compadre por
tudo. E me desculpe pelo
incômodo.” E o dono
da casa foi gentil:
“Que nada compadre, a minha
casa estará sempre de portas
abertas para você.” E
no fundo, pensando:
“Vai-te
embora desmantelo do mundo
todo.”
O cuidado com o embarque
do compadre era tão
grande, que fez questão de
acordá-lo, para não perder o
horário do caminhão da feira,
da linha. Passava de madrugada.
E até que enfim foi se embora.
Marcos Damasceno
(pesquisador) |