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Relatos...

      

MARCOS OLIVEIRA DAMASCENO, 27 ANOS, ESCRITOR, CRONISTA, MEMORIALISTA, HISTORIADOR. NATURAL DE DOM INOCÊNCIO – PI. DOUTORANDO EM FILOSOFIA POLÍTICA, PELA INTERNATIONAL UNIVERSITY OFF CAMBRIDGE.


Ladrão de Bode

marcosdamasceno23@yahoo.com.br


      Nos anos 50 era comum na região a pecuária extensiva, em que os pecuaristas criavam os animais soltos, sem limite de áreas de terra. Os tempos eram outros. Não sumia nenhum bode, boi, ovelha etc. E quando o pecuarista sentia falta de algum animal, logo alguém dava notícia (“Está em lugar tal”) ou (“Vi modo dele em tal lugar”). Era assim. A honestidade e a boa vizinhança eram valores sagrados na convivência interiorana da época. Atualmente ainda é assim, são raros os casos que fogem dessa regra. Podia-se criar à vontade.

 

       Pois bem. Existia então, um senhor que criava muito bode. “Era tanto bode que não acabava mais”, um dos bordões do interior. Possuía grandes áreas de terras, e vários vaqueiros (os que cuidavam dos bodes – a expressão bode abrange bode, cabras, cabritos etc.). Ele tinha 3 (três) filhos (dois homens e uma mulher). A filha era a caçula de todos os filhos. Era muito conhecido na região. Principalmente como grande criador de bode. Seus 2 (dois) filhos (homens) o ajudavam na labuta cotidiana na propriedade rural. E sua filha ajudava nos afazeres de casa. A família até então era pequena (ele, a esposa e os três filhos).

 

       Alguns meses após, o filho mais velho casou-se. E como de costume, construiu sua casa num pedaço de terra do seu pai. Ao lado da sua casa. E a família começou a aumentar. Agora uma nora. E tudo continuou bem. A nora se identificava com os demais membros da família, era direita e trabalhadora. E era de família vizinha.

 

       O segundo filho seguiu o mesmo caminho, casou-se também. E construiu sua casa próximo da casa do pai. Naquela época pouco se dividia as terras (nas escrituras). Os filhos apenas construíam casas e propriedades nas terras dos pais. Ao falecer o pai, é que os filhos dividiam dentro de um entendimento. A segunda nora também se identificava com a família. E era irmã da primeira. O ‘DNA’ era o mesmo. Foi criada no mesmo sistema da irmã. A boa procedência era conhecida.

 

       E com isso, em sequência, veio o casamento da filha. O genro de longe, e de procedência desconhecida. O senhor, pai da moça, de início, vetou o casamento. Não aceitou a filha se casar com um estranho. O rapaz era amigo de um boiadeiro que passava na região. O pai da moça perguntou ao boiadeiro: “Você conhece este rapaz?” E ele respondeu: “Sim, é um rapaz de família. Se casando com ele, sua filha estará em boas mãos.” E o senhor acreditou no amigo boiadeiro. E permitiu o casamento. Naquela época, os casamentos eram encomendados, os pais eram quem escolhiam.

 

       A filha construiu sua casa também próxima do pai. O fato, é que o genro era preguiçoso e ladrão de bode. E estava a serviço de um plano do boiadeiro (roubar muitos bodes). E a convivência em família não era a mesma, alguns atritos. Os 2 (dois) irmãos, filhos do senhor, começaram a “buzinar” o seu ouvido: “Papai ele (cunhado) não faz nada, não quer trabalhar.” E a confusão aumentou quando começou a sumir bode. Aí a implicância dos irmãos com o cunhado aumentou. Nunca havia sumido nenhum bode na região, e depois da chegada do genro do criador de bode, era só sumindo bode. E dos vizinhos também.

 

       De início, botaram logo pro cunhado. Mas como não tinham provas, ficaram apenas na desconfiança. E ainda, o genro era bom de papo, cínico que era uma beleza. Pra se tornar vítima era ligeiro. E o sogro o chamou para uma conversa. Mas logo mandou a condição para aparecer ao chamado do sogro: “Só vou se minha mulher participar da conversa”. Isso porque já estava desconfiado do teor. E já havia “feito a cabeça da mulher”, orientando-a a repreender os irmãos na frente do sogro. E se necessário, ameaçar ir embora com o marido. Ela sabia que era tudo que ele (o criador de bode) não queria, era ficar distante dos filhos, queria todos morando por perto.

 

       E o senhor aceitou a condição do genro, de se apresentar acompanhado da sua mulher. E não deu outra: a família já estava toda reunida, e o assunto era o sumiço de bode na região.  Mas como não tinham provas, os irmãos tiveram que “engolir” que o cunhado era inocente. O genro perante o sogro se mostrou honrado, cheio de razão e ainda desabafou: “Se for pra continuar morando aqui sendo tratado dessa maneira, vou embora.” Com isso, a sua mulher, filha do senhor, já pulou dali: “E se ele for embora, eu vou também (com ele).” E o coração do senhor amoleceu, e os filhos se viram como vilões na história.

 

       E a confusão só aumentava a cada dia. Até que o senhor faleceu. E sem dar solução ao problema. E os filhos continuaram morando próximos à mãe, a viúva do criador de bode. E o filho mais velho, como manda a tradição do interior, o código de honra, assumiu o lugar de chefe da família. E se viu com o mesmo problema em suas mãos. E pensou: “Se eu não der fim a essa confusão, a situação vai piorar cada vez mais. Tenho que descobrir quem é o verdadeiro ladrão de bode.”

 

       E de repente, o cunhado, suspeito de roubar bode, comprou um cachorro. Caríssimo. E logo foi indagado por que o cachorro valeria tanto? E disse: “Este cachorro é bom pra campear (pegar boi), é treinado pra tocar o gado, bom de caititu, onça. Tatu? Não deixa escapar um.” Ele era metido a vaqueiro e a caçador, por isso essa desculpa. E o chefe da família aumentou a desconfiança, e as perspectivas de provar que o cunhado era o ladrão de bode. Estava perto disso. Bastava um plano.

 

       E o sumiço de bode aumentou mais ainda. E os vizinhos começaram a se queixar. Foi quando os irmãos juntamente com os vizinhos montaram um plano: chamar o suspeito de roubar bode para irem uma caçada. E assim fizeram. E ele: “Não vai dá, tenho uma vaca pra pegar amanhã cedo.” Já desconfiado, e ciente que fosse (a caçada) iriam descobrir que o cachorro era bom mesmo era de bode, e não, para outras finalidades como dizia. E ainda questionou: “Mas por que querem caçar, vocês nem gostam?” E aí responderam: “É porque precisamos mandar um tatu pra São Paulo (capital), pra um amigo.” E um dos vizinhos se prontificou a pegar a vaca. Diziam que faziam questão que fosse, porque era bom caçador. Assim, pegariam mais fácil um tatu.

 

       Fez volta pra não ir, mas não teve jeito. Foi! E já foi dizendo pra mulher, da complicação: “Seus irmãos querem que eu vá caçar com eles e os vizinhos. Acho que estão querendo descobrir alguma coisa.” Ela já sabia que era ele quem roubava os bodes. De início, não gostava porque estava roubando do seu pai, mas depois não estava nem aí, queria estar em vantagem aos irmãos. E o suposto ladrão de bode comentou com a mulher: “Só falta agora aparecer alguma criação (bode ou cabra) na hora que estivermos caçando.” Isso porque o cachorro, automaticamente, como era treinado a pegar bode, iria correr atrás de bodes e pegar.

 

       Saíram às 19:00 (dezenove) horas. A Lua clara. O cachorro amarrado e guiado por uma corda pelo seu dono, pra soltá-lo só mais perto do ponto da caçada. Uma inquietação. Doidinho pra correr atrás de um bode. E os outros cachorros também (tinha mais 2 cachorros). E os irmãos e os vizinhos pensando: “É hoje que vamos descobrir toda a verdade, quem é o ladrão de bode.” E o suspeito: “Meus Deus, será se ainda tem alguma criação (cabra ou bode) por aí? Só falta isso pra complicar minha vida.” Quando deu 23:30 (vinte e três e trinta) horas soltaram os cachorros. E ficaram aguardando. Até que ouviram o latido do cachorro grande, do suspeito de roubar bode. E correram todos no rumo. Isso já era 02:00 (duas) horas da manhã, do dia seguinte.

 

       De longe, ouviram o berro de uma cabra. Isso para a felicidade dos irmãos e dos vizinhos: “Agora queremos ver se ele vai negar, vamos ver qual é a desculpa dele.” E ao chegarem ao local (irmãos, vizinhos e o cunhado), o cachorro estava com uma cabra pega pelo pescoço, demonstrando sua prática em pegar bode. E o dono do cachorro, suspeito, já foi logo pegando a cabra e dando uma surra. E os outros revidaram: “Oxente, você bate é a cabra?” O certo, de acordo com o costume do interior é bater o cachorro. É a atitude comum. E ele respondeu: “Isso é hora de cabra está no mato, é pra está é no chiqueiro (estábulo)!” Querendo dizer que a culpa era da cabra.

 

       E o problema chegou ao fim. Não quiseram envolver a polícia, resolveram a questão em família. A sua mulher se separou dele, mesmo já sabendo que era o tal ladrão de bode, ficou envergonhada e tomou a atitude de se separar. E comunicou ao irmão mais velho. E o rapaz teve que ir embora. Mas ainda levou um monte de coisas, que roubou. Mesmo assim, prejuízo por prejuízo, ainda foi um final bom. E o cunhado, o chefe da família, ainda o intimidou, talvez por necessidade, com medo de ele voltar pra se vingar: “Se voltar, já sabe o que tem pra você!” E mostrou para um rifle 44 e para uma máquina de castrar boi.

 

       Com isso, o ladrão de bode foi embora, e jamais pensou em voltar. Saiu praticamente correndo. E a sua mulher, casou-se novamente com um irmão das duas noras do senhor criador de bode. E a família prosseguiu em paz, entre membros e com os vizinhos. Confirmando a integridade moral que historicamente teve na região. 

 

Marcos Damasceno

(pesquisador)

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Está coluna é de inteira responsabilidade do colunista Marcos Damasceno