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Nos anos 50 era comum na região
a pecuária extensiva, em que os
pecuaristas criavam os animais
soltos, sem limite de áreas de
terra. Os tempos eram outros.
Não sumia nenhum bode, boi,
ovelha etc. E quando o
pecuarista sentia falta de
algum animal, logo alguém dava
notícia (“Está em lugar
tal”) ou (“Vi
modo dele em tal lugar”).
Era assim. A honestidade e a
boa vizinhança eram valores
sagrados na convivência
interiorana da época.
Atualmente ainda é assim, são
raros os casos que fogem dessa
regra. Podia-se criar à
vontade.
Pois bem. Existia então,
um senhor que criava
muito bode. “Era tanto
bode que não acabava mais”,
um dos bordões do interior.
Possuía grandes áreas de
terras, e vários vaqueiros (os
que cuidavam dos bodes – a
expressão bode abrange bode,
cabras, cabritos etc.). Ele
tinha 3 (três) filhos (dois
homens e uma mulher). A
filha era a caçula de todos
os filhos. Era muito conhecido
na região. Principalmente como
grande criador de bode. Seus 2
(dois) filhos (homens) o
ajudavam na labuta cotidiana na
propriedade rural. E sua
filha ajudava nos afazeres
de casa. A família até então
era pequena (ele, a esposa e os
três filhos).
Alguns meses após, o
filho mais velho casou-se.
E como de costume, construiu
sua casa num pedaço de terra do
seu pai. Ao lado da sua
casa. E a família começou a
aumentar. Agora uma nora.
E tudo continuou bem. A nora
se identificava com os demais
membros da família, era direita
e trabalhadora. E era de
família vizinha.
O segundo filho
seguiu o mesmo caminho,
casou-se também. E construiu
sua casa próximo da casa do
pai. Naquela época pouco se
dividia as terras (nas
escrituras). Os filhos apenas
construíam casas e propriedades
nas terras dos pais. Ao falecer
o pai, é que os filhos dividiam
dentro de um entendimento. A
segunda nora também se
identificava com a família. E
era irmã da primeira. O ‘DNA’
era o mesmo. Foi criada no
mesmo sistema da irmã. A boa
procedência era conhecida.
E com isso, em sequência,
veio o casamento da filha.
O genro de longe, e de
procedência desconhecida. O
senhor, pai da moça, de
início, vetou o casamento. Não
aceitou a filha se casar
com um estranho. O rapaz
era amigo de um boiadeiro que
passava na região. O pai
da moça perguntou ao boiadeiro:
“Você conhece este
rapaz?” E ele
respondeu: “Sim, é um
rapaz de família. Se casando
com ele, sua filha estará em
boas mãos.” E o
senhor acreditou no amigo
boiadeiro. E permitiu o
casamento. Naquela época, os
casamentos eram encomendados,
os pais eram quem escolhiam.
A filha construiu
sua casa também próxima do
pai. O fato, é que o
genro era preguiçoso e
ladrão de bode. E estava a
serviço de um plano do
boiadeiro (roubar muitos
bodes). E a convivência em
família não era a mesma, alguns
atritos. Os 2 (dois) irmãos,
filhos do senhor, começaram
a “buzinar” o seu ouvido:
“Papai ele (cunhado) não faz
nada, não quer trabalhar.”
E a confusão aumentou
quando começou a sumir bode. Aí
a implicância dos irmãos com o
cunhado aumentou. Nunca
havia sumido nenhum bode na
região, e depois da chegada do
genro do criador de
bode, era só sumindo bode. E
dos vizinhos também.
De início, botaram logo
pro cunhado. Mas como
não tinham provas, ficaram
apenas na desconfiança. E
ainda, o genro era bom
de papo, cínico que era uma
beleza. Pra se tornar vítima
era ligeiro. E o sogro o
chamou para uma conversa. Mas
logo mandou a condição para
aparecer ao chamado do sogro:
“Só vou se minha mulher
participar da conversa”.
Isso porque já estava
desconfiado do teor. E
já havia “feito a cabeça da
mulher”, orientando-a a
repreender os irmãos na
frente do sogro. E se
necessário, ameaçar ir embora
com o marido. Ela sabia
que era tudo que ele (o
criador de bode) não
queria, era ficar distante dos
filhos, queria todos morando
por perto.
E o senhor
aceitou a condição do genro,
de se apresentar acompanhado da
sua mulher. E não deu
outra: a família já estava toda
reunida, e o assunto era o
sumiço de bode na região. Mas
como não tinham provas, os
irmãos tiveram que
“engolir” que o cunhado era
inocente. O genro
perante o sogro se
mostrou honrado, cheio de razão
e ainda desabafou: “Se
for pra continuar morando aqui
sendo tratado dessa maneira,
vou embora.” Com isso,
a sua mulher, filha do
senhor, já pulou dali:
“E se ele for embora, eu vou
também (com ele).” E o
coração do senhor
amoleceu, e os filhos se viram
como vilões na história.
E a
confusão só aumentava a cada
dia. Até que o senhor
faleceu. E sem dar solução ao
problema. E os filhos
continuaram morando próximos à
mãe, a viúva do
criador de bode. E o
filho mais velho, como
manda a tradição do interior, o
código de honra, assumiu o
lugar de chefe da família. E se
viu com o mesmo problema em
suas mãos. E pensou:
“Se eu não
der fim a essa confusão, a
situação vai piorar cada vez
mais. Tenho que descobrir quem
é o verdadeiro ladrão de bode.”
E de repente, o
cunhado, suspeito de roubar
bode, comprou um cachorro.
Caríssimo. E logo foi indagado
por que o cachorro valeria
tanto? E disse: “Este
cachorro é bom pra campear
(pegar boi), é treinado pra
tocar o gado, bom de caititu,
onça. Tatu? Não deixa escapar
um.” Ele era metido a
vaqueiro e a caçador, por isso
essa desculpa. E o
chefe da família aumentou a
desconfiança, e as perspectivas
de provar que o cunhado
era o ladrão de bode. Estava
perto disso. Bastava um plano.
E o sumiço de bode
aumentou mais ainda. E os
vizinhos começaram a se
queixar. Foi quando os
irmãos juntamente com os
vizinhos montaram um plano:
chamar o suspeito de roubar
bode para irem uma caçada. E
assim fizeram. E ele:
“Não vai dá, tenho uma vaca pra
pegar amanhã cedo.” Já
desconfiado, e ciente que fosse
(a caçada) iriam descobrir que
o cachorro era bom mesmo era de
bode, e não, para outras
finalidades como dizia. E ainda
questionou: “Mas por que
querem caçar, vocês nem
gostam?” E aí
responderam: “É porque
precisamos mandar um tatu pra
São Paulo (capital), pra um
amigo.” E um dos
vizinhos se prontificou a
pegar a vaca. Diziam que faziam
questão que fosse, porque era
bom caçador. Assim, pegariam
mais fácil um tatu.
Fez volta pra não ir,
mas não teve jeito. Foi! E
já foi dizendo pra mulher,
da complicação: “Seus
irmãos querem que eu vá caçar
com eles e os vizinhos. Acho
que estão querendo descobrir
alguma coisa.” Ela já
sabia que era ele quem roubava
os bodes. De início, não
gostava porque estava roubando
do seu pai, mas depois
não estava nem aí, queria estar
em vantagem aos irmãos.
E o suposto ladrão de bode
comentou com a mulher:
“Só falta agora aparecer
alguma criação (bode ou cabra)
na hora que estivermos
caçando.” Isso porque o
cachorro, automaticamente, como
era treinado a pegar bode, iria
correr atrás de bodes e pegar.
Saíram às 19:00
(dezenove) horas. A Lua clara.
O cachorro amarrado e guiado
por uma corda pelo seu dono,
pra soltá-lo só mais perto do
ponto da caçada. Uma
inquietação. Doidinho pra
correr atrás de um bode. E os
outros cachorros também (tinha
mais 2 cachorros). E os
irmãos e os vizinhos
pensando: “É hoje que
vamos descobrir toda a verdade,
quem é o ladrão de bode.”
E o suspeito: “Meus Deus,
será se ainda tem alguma
criação (cabra ou bode) por aí?
Só falta isso pra complicar
minha vida.” Quando deu
23:30 (vinte e três e trinta)
horas soltaram os cachorros. E
ficaram aguardando. Até que
ouviram o latido do cachorro
grande, do suspeito de roubar
bode. E correram todos no rumo.
Isso já era 02:00 (duas) horas
da manhã, do dia seguinte.
De longe, ouviram o
berro de uma cabra. Isso para a
felicidade dos irmãos e
dos vizinhos:
“Agora queremos ver se ele vai
negar, vamos ver qual é a
desculpa dele.” E ao
chegarem ao local (irmãos,
vizinhos e o cunhado), o
cachorro estava com uma cabra
pega pelo pescoço, demonstrando
sua prática em pegar bode. E o
dono do cachorro, suspeito,
já foi logo pegando a cabra e
dando uma surra. E os outros
revidaram: “Oxente, você
bate é a cabra?” O
certo, de acordo com o costume
do interior é bater o cachorro.
É a atitude comum. E ele
respondeu: “Isso é hora
de cabra está no mato, é pra
está é no chiqueiro
(estábulo)!” Querendo
dizer que a culpa era da cabra.
E o problema chegou ao
fim. Não quiseram envolver a
polícia, resolveram a
questão em família. A sua
mulher se separou dele,
mesmo já sabendo que era o tal
ladrão de bode, ficou
envergonhada e tomou a atitude
de se separar. E comunicou ao
irmão mais velho. E o
rapaz teve que ir embora.
Mas ainda levou um monte de
coisas, que roubou. Mesmo
assim, prejuízo por prejuízo,
ainda foi um final bom. E o
cunhado, o chefe da família,
ainda o intimidou, talvez por
necessidade, com medo de ele
voltar pra se vingar: “Se
voltar, já sabe o que tem pra
você!” E mostrou para
um rifle 44 e para uma máquina
de castrar boi.
Com isso, o ladrão de
bode foi embora, e jamais
pensou em voltar. Saiu
praticamente correndo. E a sua
mulher, casou-se
novamente com um irmão
das duas noras do
senhor criador de bode. E a
família prosseguiu em paz,
entre membros e com os
vizinhos. Confirmando a
integridade moral que
historicamente teve na região.
Marcos Damasceno
(pesquisador) |