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Datados os anos 40,
praticamente não existiam
cavalos de sela na região, eram
para poucos. Apenas aqueles
grandes fazendeiros. Ou então,
os chefes de família, mas seus
filhos e suas esposas não
tinham esse privilégio. E esses
cavalos de sela eram
intocáveis, só os donos
montavam neles.
A maioria das pessoas
andava montado em burro ou
jumento. Ou a pé. Até certo
ponto era confortável. Burro e
jumento eram “carrões”. Com o
passar do tempo, o cavalo de
sela, assim chamado já na
época, passou a ser acessível e
comum na região. E a todas as
pessoas. Qualquer pessoa podia
comprar um. Isso porque se
tornou mais barato.
Francisco
Rodrigues,
irmão do meu bisavô João
Damasceno, sempre teve o
seu cavalo de sela, como
mandava a tradição. Mas seus
filhos não tinham o mesmo
prazer. Seguia a regra
mencionada anteriormente. Mas
com o processo de modernização
na região, pela via do comércio
de animais, principalmente da
Bahia e do Pernambuco, a coisa
mudou.
Francisco
Rodrigues,
que morava na localidade
Cajueiro, comprou um cavalo de
sela para o Jorge, um
dos seus filhos. E ainda, tinha
outro filho que adorava andar
montado: Zulmiro. Como
Jorge e Zulmiro
eram unidos, tinham uma boa
relação, Zulmiro foi
permitido também a andar no
cavalo. E pronto! Foi um
reboliço danado. Jorge e
Zulmiro eram só
inventando viagem. Jumento e
burro ninguém queria saber
mais, fazia parte do passado.
Os meninos ficavam inquietos
com esse cavalo.
Pra acabar de completar,
conheceram umas mulheres:
Zulmiro, na localidade
Sítio do Badu, as netas do
Antônio Badu, e o Jorge
na localidade Lagoa do Alegre,
interior da Bahia. O rojão era
grande, o vai e vem era uma
coisa de louco. E tome viagens.
Um ia pra lá, e o outro pra cá.
Quando menos se esperava, já
estavam com uma viagem marcada.
Trabalhar? Ninguém tinha mais
cabeça para isso. Só pensavam
nas mulheres.
De maneira, que quando o
Jorge chegava de uma
viagem, muitas vezes longa e
cansativa, para ele e também
pro cavalo, o Zulmiro já
estava esperando. O Jorge
tirava a sela do cavalo, e ia
colocá-lo na roça. Quando
estava voltando, o Zulmiro
já ia encontrar pra pegar o
cabresto, pra ir sua viagem. E
quando o Zulmiro
chegava, o Jorge fazia a
mesma coisa. O cavalo não tinha
tempo nem pra espojar. Imagine
pra comer alguma coisa. E a
coisa piorou. E o rojão
aumentou cada vez mais.
E o Francisco
Rodrigues pensou consigo
mesmo: “Esse negócio não
vai dar certo. Esses meninos só
pensam agora em viajar. Esse
cavalo vai acabar morrendo. E
não vai demorar muito.”
E não deu outra: certo dia o
Zulmiro chegou a casa com
os arreios (sela e brida) nas
mãos. Cansado! E logo pensaram:
“Aconteceu alguma coisa
com o cavalo.” O
Jorge imaginou tudo, menos
que o cavalo tivesse morrido.
De início, imaginou que tivesse
ido embora.
E o seu
pai Francisco Rodrigues
já foi dizendo: “Eu
sabia. Esse cavalo não ia
aguentar, ia acabar morrendo.”
E o Jorge já
aflito, perguntou: “O que
aconteceu com meu cavalo
maninho? Diga logo.” E
o Zulmiro calado e
triste. E o Jorge já
desesperado disse:
“Diga logo!”
Até que Zulmiro
tomou coragem e disse:
“Quando fui sair (da casa do
sogro) ele estava estirado no
chão. Morto. Talvez tenha sido
uma cobra.” E o
Jorge compreensivo,
questionou: “Será?”
E o Zulmiro
continuou: “E o pior foi
a vergonha. E ainda ter que vir
de pé de lá até aqui (8 Km).”
E o Jorge ainda se
solidarizou: “E por que
não pediu um animal pra vir
montado?” E o
Zulmiro foi taxativo:
“Nem pensar. Quis mostrar (pra
namorada e pro futuro sogro)
que sou corajoso.” Mas
veio à noite numa carreira só,
foi só sair do terreiro da casa
do futuro sogro, morrendo de
medo de tudo, principalmente de
alma, disparou correndo o
percurso todo (8 Km). Essa foi
a conversa amigável dos dois
irmãos, no terreiro da casa, um
pouco afastado. Solidariedade
total. União acima de tudo.
Mas foi
só entrar em casa, a conversa
endureceu. Francisco
Rodrigues já foi duro:
“Eu sei qual foi a cobra!
Agora vocês dois (Jorge e
Zulmiro) vão trabalhar pra
comprar outro cavalo. Ou
melhor, dois cavalos, um pra
cada um. Se quiserem visitar
essas namoradas de vocês.”
E ainda perguntou com raiva:
“Estamos entendidos?”
E responderam: “Sim,
senhor.”
E os irmãos, Jorge
e Zulmiro, trabalharam
bastante, pro próprio pai e
pros de fora, para comprar os
cavalos. Pensem numa labuta
braba. O que mulher não faz,
deixa o homem doido. Encaravam
tudo, todo tipo de trabalho.
Todos passaram a admirar a
força de vontade deles. Pensem
nuns meninos trabalhadores.
Deu certa
a primeira parte do projeto,
comprar os cavalos. Mas a
segunda parte, não. Chegaram
tarde. As mulheres já estavam
casadas. Pense numa tristeza.
Mas logo partiram pra outra. O
Jorge, sempre mais
habilidoso pra mulher disse:
“Pode deixar maninho, vamos
arrumar outras (namoradas).”
E o Zulmiro:
“Tomara que sim.”
E não é que conseguiram.
E com elas casaram, e foram
felizes a vida toda. E
construíram famílias grandes e
unidas. São as voltas que o
mundo dá. As voltas da vida.
Marcos Damasceno
(pesquisador) |