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Relatos...

      

MARCOS OLIVEIRA DAMASCENO, 27 ANOS, ESCRITOR, CRONISTA, MEMORIALISTA, HISTORIADOR. NATURAL DE DOM INOCÊNCIO – PI. DOUTORANDO EM FILOSOFIA POLÍTICA, PELA INTERNATIONAL UNIVERSITY OFF CAMBRIDGE.


O Cavalo do Jorge

marcosdamasceno23@yahoo.com.br


      Datados os anos 40, praticamente não existiam cavalos de sela na região, eram para poucos. Apenas aqueles grandes fazendeiros. Ou então, os chefes de família, mas seus filhos e suas esposas não tinham esse privilégio. E esses cavalos de sela eram intocáveis, só os donos montavam neles.

 

       A maioria das pessoas andava montado em burro ou jumento. Ou a pé. Até  certo ponto era confortável. Burro e jumento eram “carrões”. Com o passar do tempo, o cavalo de sela, assim chamado já na época, passou a ser acessível e comum na região. E a todas as pessoas. Qualquer pessoa podia comprar um. Isso porque se tornou mais barato.

 

       Francisco Rodrigues, irmão do meu bisavô João Damasceno, sempre teve o seu cavalo de sela, como mandava a tradição. Mas seus filhos não tinham o mesmo prazer. Seguia a regra mencionada anteriormente. Mas com o processo de modernização na região, pela via do comércio de animais, principalmente da Bahia e do Pernambuco, a coisa mudou.

 

       Francisco Rodrigues, que morava na localidade Cajueiro, comprou um cavalo de sela para o Jorge, um dos seus filhos. E ainda, tinha outro filho que adorava andar montado: Zulmiro. Como Jorge e Zulmiro eram unidos, tinham uma boa relação, Zulmiro foi permitido também a andar no cavalo. E pronto! Foi um reboliço danado. Jorge e Zulmiro eram só inventando viagem. Jumento e burro ninguém queria saber mais, fazia parte do passado. Os meninos ficavam inquietos com esse cavalo.

 

       Pra acabar de completar, conheceram umas mulheres: Zulmiro, na localidade Sítio do Badu, as netas do Antônio Badu, e o Jorge na localidade Lagoa do Alegre, interior da Bahia. O rojão era grande, o vai e vem era uma coisa de louco. E tome viagens. Um ia pra lá, e o outro pra cá. Quando menos se esperava, já estavam com uma viagem marcada. Trabalhar? Ninguém tinha mais cabeça para isso. Só pensavam nas mulheres.

 

       De maneira, que quando o Jorge chegava de uma viagem, muitas vezes longa e cansativa, para ele e também pro cavalo, o Zulmiro já estava esperando. O Jorge tirava a sela do cavalo, e ia colocá-lo na roça. Quando estava voltando, o Zulmiro já ia encontrar pra pegar o cabresto, pra ir sua viagem. E quando o Zulmiro chegava, o Jorge fazia a mesma coisa. O cavalo não tinha tempo nem pra espojar. Imagine pra comer alguma coisa. E a coisa piorou. E o rojão aumentou cada vez mais.

 

       E o Francisco Rodrigues pensou consigo mesmo: “Esse negócio não vai dar certo. Esses meninos só pensam agora em viajar. Esse cavalo vai acabar morrendo. E não vai demorar muito.” E não deu outra: certo dia o Zulmiro chegou a casa com os arreios (sela e brida) nas mãos. Cansado! E logo pensaram: “Aconteceu alguma coisa com o cavalo.” O Jorge imaginou tudo, menos que o cavalo tivesse morrido. De início, imaginou que tivesse ido embora.

 

       E o seu pai Francisco Rodrigues já foi dizendo: “Eu sabia. Esse cavalo não ia aguentar, ia acabar morrendo.” E o Jorge já aflito, perguntou: “O que aconteceu com meu cavalo maninho? Diga logo.” E o Zulmiro calado e triste. E o Jorge já desesperado disse: “Diga logo!”

 

       Até  que Zulmiro tomou coragem e disse: “Quando fui sair (da casa do sogro) ele estava estirado no chão. Morto. Talvez tenha sido uma cobra.” E o Jorge compreensivo, questionou: “Será?” E o Zulmiro continuou: “E o pior foi a vergonha. E ainda ter que vir de pé de lá até aqui (8 Km).” E o Jorge ainda se solidarizou: “E por que não pediu um animal pra vir montado?” E o Zulmiro foi taxativo: “Nem pensar. Quis mostrar (pra namorada e pro futuro sogro) que sou corajoso.” Mas veio à noite numa carreira só, foi só sair do terreiro da casa do futuro sogro, morrendo de medo de tudo, principalmente de alma, disparou correndo o percurso todo (8 Km). Essa foi a conversa amigável dos dois irmãos, no terreiro da casa, um pouco afastado. Solidariedade total. União acima de tudo.

 

       Mas foi só entrar em casa, a conversa endureceu. Francisco Rodrigues já foi duro: “Eu sei qual foi a cobra! Agora vocês dois (Jorge e Zulmiro) vão trabalhar pra comprar outro cavalo. Ou melhor, dois cavalos, um pra cada um. Se quiserem visitar essas namoradas de vocês.” E ainda perguntou com raiva: “Estamos entendidos?” E responderam: “Sim, senhor.”

 

       E os irmãos, Jorge e Zulmiro, trabalharam bastante, pro próprio pai e pros de fora, para comprar os cavalos. Pensem numa labuta braba. O que mulher não faz, deixa o homem doido. Encaravam tudo, todo tipo de trabalho. Todos passaram a admirar a força de vontade deles. Pensem nuns meninos trabalhadores.

 

       Deu certa a primeira parte do projeto, comprar os cavalos. Mas a segunda parte, não. Chegaram tarde. As mulheres já estavam casadas. Pense numa tristeza. Mas logo partiram pra outra. O Jorge, sempre mais habilidoso pra mulher disse: “Pode deixar maninho, vamos arrumar outras (namoradas).” E o Zulmiro: “Tomara que sim.”

 

       E não é que conseguiram. E com elas casaram, e foram felizes a vida toda. E construíram famílias grandes e unidas. São as voltas que o mundo dá. As voltas da vida. 

 

Marcos Damasceno

(pesquisador)

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Está coluna é de inteira responsabilidade do colunista Marcos Damasceno