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Relatos...

      

MARCOS OLIVEIRA DAMASCENO, 27 ANOS, ESCRITOR, CRONISTA, MEMORIALISTA, HISTORIADOR. NATURAL DE DOM INOCÊNCIO – PI. DOUTORANDO EM FILOSOFIA POLÍTICA, PELA INTERNATIONAL UNIVERSITY OFF CAMBRIDGE.


O eterno eleitor do Bitoso Silva

marcosdamasceno23@yahoo.com.br


      As eleições nas épocas antigas eram animadas, verdadeiras festas populares. E as disputas eleitorais eram acirradas. Era o tempo da política dos dois lados (A e B). E cada lado, uma verdadeira torcida organizada. Fanatismo total. Uma paixão eterna.

 

       E quando tinha participando do pleito um político muito carismático e popular, o fanatismo e a paixão eram maiores ainda. Abraços e mais abraços, conversa no ouvido, enfim. Todos queriam chegar perto, pegar na sua mão, dizer algo, expressar a satisfação, a alegria ou a esperança. E era uma política sadia, familiar e respeitosa. Isso num primeiro momento (até os anos 50). Depois disso, passou a ser mais violenta e sem respeito, atacando a honra das pessoas. Isso na nossa região.

 

       E no município de São Raimundo Nonato-PI (na época enorme em extensão territorial), existiu um grande homem, carismático, muito querido pelo povo. Era o prefeito Bitoso Silva (in memorian), o homem que por mais tempo administrou aquele município. Era aclamado “prefeito do povo”. Dispunha de altos índices de popularidade. Na época, o maior líder político da região, e um dos mais influentes do Sul do Piauí. A história não deixa dúvidas quanto a isso. É o pai do tão conhecido na região, Antônio Macedo (o amigo do povo).

 

       Cito trechos mencionados no livro ‘SÃO RAIMUNDO NONATO, DE DISTRITO-FREGUESIA A VILA’ (160 pg., Gráfica Expansão: 2001), de autoria do escritor e magistrado aposentado William Palha Dias (Caracol - PI, 1918): “Todavia, como a força do desejo rompe obstáculos, aqui estão, como resultado de incessante busca, os traços biográficos de um dos ilustres filhos de São Raimundo Nonato. (...). Trata-se de Francisco Antônio da Silva, mais conhecido como Bitoso, o político que mais tempo interrupto governou seu município, sua cidade”.

 

       Fundamentado em texto publicado no jornal ‘Raízes do Piauí’, nº 06, de dezembro de 1993, editado na região Sudeste do Piauí, Palha Dias assim continua: “Era um homem simples, identificado com o povo e de coração magnífico. Nasceu no dia 10 de maio de 1895 e aos 22 anos de idade ingressou na política ao lado de seu tio Newton Rubem de Macedo e de outros políticos da época. Foi eleito prefeito de São Raimundo Nonato – PI pela primeira vez em 1928, disputando o cargo com o Cel. José Dias. (...). Nesse longo período sempre atendeu as necessidades do povo, sem jamais se prevalecer do poder. A prefeitura e sua residência estavam sempre abertas ao povo, principalmente aos pobres. Enfrentou muitas crises e secas, procurando dar trabalho a cada pai de família e ajudando-os em suas necessidades, por isso muitos lhe chamavam de ‘pai’”. E ainda acrescenta: “Em 1952 foi eleito pela segunda vez, disputando a prefeitura com outra figura muito simpática e popular, o Sr. Manoel Agostinho de Castro. Enfrentando os desafios de administrar uma prefeitura quando ainda não havia o FPM nem recursos dos impostos arrecadados nos dias de hoje, construiu alguns prédios escolares no município e nomeou professores para diversas localidades; perfurou poços tubulares movidos a bomba manual, procurando amenizar o problema de água; construiu um grande mercado municipal (posteriormente demolido para a construção de um hospital); iniciou o calçamento no centro da cidade e construiu a praça do ‘o’ (hoje profº Júlio Paixão). Bitoso Silva faleceu a 16 de março de 1960, antes de completar 65 anos de idade.”

 

       E por fim, Palha Dias conclui sobre Bitoso Silva: “Deixou como patrimônio para seus filhos e esposa o exemplo de cidadão honesto e o respeito de todos que o conheceram. Nos dias de hoje, a falta de um homem público com o caráter do Bitoso traz gravíssimas consequências para a política local.”

 

       Bitoso Silva ainda contava com eleitores empolgados, que ultrapassavam o limite. Faziam cada coisa. O prefeito era povão, se sentia bem à vontade no meio do povo. Dispensava qualquer protocolo. Nas suas andanças pelas localidades do imenso município, se sentia em casa. Cada casa que chegava era a extensão da sua casa. Ficava bem acomodado. O povo gostava muito dele.

 

       E o Tilô (in memorian), um senhor da localidade Traíras, interior do município (hoje localidade do município de Dom Inocêncio-PI), era um desses eleitores fanáticos pelo Bitoso Silva, fiel até a morte. Eterno eleitor. Era capaz de fazer qualquer coisa pelo prefeito. Isso pela atenção administrativa que tinha à sua localidade, pelo relevante serviço prestado sempre nas suas gestões. Vale frisar aqui, que Bitoso Silva era um gestor responsável, de grande sensibilidade social, e muito visionário para a época. Não administrava do gabinete como muitos, fazia questão de percorrer as localidades, e ver a situação in loco. E fazia sempre o seu planejamento. Muito correto, cumpria religiosamente os seus compromissos. Tanto, que era tão bom com o povo, que chegava a ser ruim com ele próprio.

 

       E certa vez, teve um comício em São Raimundo Nonato-PI, em 1928, para as eleições municipais, na qual o Bitoso Silva era candidato a prefeito (o favorito), e convidou todos os líderes políticos, e amigos, da região. Meu bisavô João Damasceno (in memorian) e o Júlio Dias foram uns dos convidados. E o Tilô não podia faltar, era um convidado especial. O Bitoso Silva tinha essa atenção com os amigos, sempre correspondia às amizades. E no comício, o Tilô, um homem muito grande e forte, começou a pular na euforia e agitação em cima do palanque. Passou logo o braço no pescoço do Bitoso Silva, e os dois davam cada pulo.

 

       Terminado o comício, o prefeito agradeceu a todos pelo comparecimento e se compromissou com a ‘Carta de São Raimundo Nonato-PI’ que recebeu das lideranças, com reivindicações. Houve uma oficina, e foi elaborada uma carta como plano de governo. Naquela época era assim. Ficou conhecida como a ‘Carta de 28’. Foi eleito (e bem votado, com um percentual altíssimo). E o Tilô foi um eleitor fiel, e ainda liderou na sua localidade a votação para o seu prefeito do coração.

 

       E o Bitoso Silva cumpriu uma por uma. Era muito determinado, coerente e compromissado. E o município conquistou muitos avanços (estruturais/sociais). E se criou na região uma visão holística (de se ver o todo) de administração pública. Segundo meu avô Joaquim Damasceno, ‘toda a base estrutural e social no antigo município de São Raimundo Nonato-PI foi construída pelo Bitoso Silva, foi quem projetou tudo’. E politicamente, quebrou todos os paradigmas (modelos), ao se comportar como um homem público simples e andador (andava todas as localidades montado a cavalos). Não existiam recursos públicos (FPM, ICMS e outros repasses). O gestor público contava só com a boa vontade, dele e dos colaboradores (existiam muitos).

 

       E quando o Bitoso Silva faleceu o povo ficou órfão. Orfandade político-administrativa. E muitos eleitores apaixonados e fiéis continuavam votando nele para prefeito, quando tinha uma eleição. O Tilô era dos tais. Não falhava uma votação. E não era protesto. Era fanatismo e paixão. Era a força de uma história de sucesso, progresso e amizade. Bitoso Silva, enquanto vivo, foi eleito duas vezes prefeito. E todos os candidatos que apoiou ganharam.

 

       O Tilô votava na urna do Curral Novo (hoje sede do município de Dom Inocêncio-PI). O voto era em cédula e nominal (botava-se o nome do candidato). E toda eleição apareciam vários votos para o Bitoso Silva, mesmo já falecido. E descobriram que eram os votos do povo do Tilô. E de muita gente da região. Foi então, que escalaram o Janjão (delegado e amigo do Tilô) para botar ordem (organizar) a votação.

 

       Janjão, muito valente, já veio por cima de tudo: “Ora viu! Tilô, o Bitoso Silva já morreu e você e seu povo ficam votando nele. E tantos outros. E os votos são sempre anulados. Votem nos verdadeiros candidatos.” E o Tilô, um homem forte e valente também, revidou: “Meu voto e do meu povo serão dele, sempre! E não tem quem empate nós votarmos nele.” E ainda acrescentou: “E quando eu morrer, chegar ao céu, e tiver eleição, e o Bitoso Silva for candidato, vou continuar votando nele!”

 

       E o Janjão ficou calado. E não pôde fazer nada. E o Tilô continuou votando nele, sempre! Foi um eterno eleitor do Bitoso Silva. E eterna também é a história daquele que era considerado o “prefeito do povo.” Eternamente estará na memória popular. E na personalidade do seu filho, Antônio Macedo, podemos constatar a magnitude dessa amizade com o povo da região.  
 

Marcos Damasceno

(pesquisador)

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Está coluna é de inteira responsabilidade do colunista Marcos Damasceno