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As eleições nas épocas antigas
eram animadas, verdadeiras
festas populares. E as disputas
eleitorais eram acirradas. Era
o tempo da política dos dois
lados (A e B). E cada lado, uma
verdadeira torcida organizada.
Fanatismo total. Uma paixão
eterna.
E quando tinha
participando do pleito um
político muito carismático e
popular, o fanatismo e a paixão
eram maiores ainda. Abraços e
mais abraços, conversa no
ouvido, enfim. Todos queriam
chegar perto, pegar na sua mão,
dizer algo, expressar a
satisfação, a alegria ou a
esperança. E era uma política
sadia, familiar e respeitosa.
Isso num primeiro momento
(até os anos 50). Depois disso,
passou a ser mais violenta e
sem respeito, atacando a honra
das pessoas. Isso na nossa
região.
E no município de São
Raimundo Nonato-PI (na época
enorme em extensão
territorial), existiu um grande
homem, carismático, muito
querido pelo povo. Era o
prefeito Bitoso Silva (in
memorian), o homem que por
mais tempo administrou aquele
município. Era aclamado
“prefeito do povo”.
Dispunha de altos índices de
popularidade. Na época, o maior
líder político da região, e um
dos mais influentes do Sul do
Piauí. A história não deixa
dúvidas quanto a isso. É o pai
do tão conhecido na região,
Antônio Macedo (o amigo do
povo).
Cito trechos mencionados
no livro ‘SÃO RAIMUNDO
NONATO, DE DISTRITO-FREGUESIA A
VILA’ (160 pg., Gráfica
Expansão: 2001), de autoria do
escritor e magistrado
aposentado William Palha
Dias (Caracol - PI, 1918):
“Todavia, como a força do
desejo rompe obstáculos, aqui
estão, como resultado de
incessante busca, os traços
biográficos de um dos ilustres
filhos de São Raimundo Nonato.
(...). Trata-se de Francisco
Antônio da Silva, mais
conhecido como Bitoso, o
político que mais tempo
interrupto governou seu
município, sua cidade”.
Fundamentado em texto
publicado no jornal ‘Raízes do
Piauí’, nº 06, de dezembro de
1993, editado na região Sudeste
do Piauí, Palha Dias
assim continua: “Era um
homem simples, identificado com
o povo e de coração magnífico.
Nasceu no dia 10 de maio de
1895 e aos 22 anos de idade
ingressou na política ao lado
de seu tio Newton Rubem de
Macedo e de outros políticos da
época. Foi eleito prefeito de
São Raimundo Nonato – PI pela
primeira vez em 1928,
disputando o cargo com o Cel.
José Dias. (...). Nesse longo
período sempre atendeu as
necessidades do povo, sem
jamais se prevalecer do poder.
A prefeitura e sua residência
estavam sempre abertas ao povo,
principalmente aos pobres.
Enfrentou muitas crises e
secas, procurando dar trabalho
a cada pai de família e
ajudando-os em suas
necessidades, por isso muitos
lhe chamavam de ‘pai’”.
E ainda acrescenta: “Em
1952 foi eleito pela segunda
vez, disputando a prefeitura
com outra figura muito
simpática e popular, o Sr.
Manoel Agostinho de Castro.
Enfrentando os desafios de
administrar uma prefeitura
quando ainda não havia o FPM
nem recursos dos impostos
arrecadados nos dias de hoje,
construiu alguns prédios
escolares no município e nomeou
professores para diversas
localidades; perfurou poços
tubulares movidos a bomba
manual, procurando amenizar o
problema de água; construiu um
grande mercado municipal
(posteriormente demolido para a
construção de um hospital);
iniciou o calçamento no centro
da cidade e construiu a praça
do ‘o’ (hoje profº Júlio
Paixão). Bitoso Silva faleceu a
16 de março de 1960, antes de
completar 65 anos de idade.”
E por fim, Palha Dias
conclui sobre Bitoso Silva:
“Deixou como patrimônio
para seus filhos e esposa o
exemplo de cidadão honesto e o
respeito de todos que o
conheceram. Nos dias de hoje, a
falta de um homem público com o
caráter do Bitoso traz
gravíssimas consequências para
a política local.”
Bitoso Silva
ainda contava com eleitores
empolgados, que ultrapassavam o
limite. Faziam cada coisa. O
prefeito era povão, se sentia
bem à vontade no meio do povo.
Dispensava qualquer protocolo.
Nas suas andanças pelas
localidades do imenso
município, se sentia em casa.
Cada casa que chegava era a
extensão da sua casa. Ficava
bem acomodado. O povo gostava
muito dele.
E o Tilô (in
memorian), um senhor da
localidade Traíras, interior do
município (hoje localidade do
município de Dom Inocêncio-PI),
era um desses eleitores
fanáticos pelo Bitoso Silva,
fiel até a morte. Eterno
eleitor. Era capaz de fazer
qualquer coisa pelo prefeito.
Isso pela atenção
administrativa que tinha à sua
localidade, pelo relevante
serviço prestado sempre nas
suas gestões. Vale frisar aqui,
que Bitoso Silva era um
gestor responsável, de grande
sensibilidade social, e muito
visionário para a época. Não
administrava do gabinete como
muitos, fazia questão de
percorrer as localidades, e ver
a situação in loco. E
fazia sempre o seu
planejamento. Muito correto,
cumpria religiosamente os seus
compromissos. Tanto, que era
tão bom com o povo, que chegava
a ser ruim com ele próprio.
E certa vez, teve um
comício em São Raimundo
Nonato-PI, em 1928, para as
eleições municipais, na qual o
Bitoso Silva era
candidato a prefeito (o
favorito), e convidou todos os
líderes políticos, e amigos, da
região. Meu bisavô João
Damasceno (in memorian)
e o Júlio Dias foram uns
dos convidados. E o Tilô
não podia faltar, era um
convidado especial. O Bitoso
Silva tinha essa atenção
com os amigos, sempre
correspondia às amizades. E no
comício, o Tilô, um
homem muito grande e forte,
começou a pular na euforia e
agitação em cima do palanque.
Passou logo o braço no pescoço
do Bitoso Silva, e os
dois davam cada pulo.
Terminado o comício, o
prefeito agradeceu a todos pelo
comparecimento e se
compromissou com a ‘Carta de
São Raimundo Nonato-PI’ que
recebeu das lideranças, com
reivindicações. Houve uma
oficina, e foi elaborada uma
carta como plano de governo.
Naquela época era assim. Ficou
conhecida como a ‘Carta de
28’. Foi eleito (e bem
votado, com um percentual
altíssimo). E o Tilô foi
um eleitor fiel, e ainda
liderou na sua localidade a
votação para o seu prefeito do
coração.
E o Bitoso Silva
cumpriu uma por uma. Era muito
determinado, coerente e
compromissado. E o município
conquistou muitos avanços
(estruturais/sociais). E se
criou na região uma visão
holística (de se ver o todo) de
administração pública. Segundo
meu avô Joaquim Damasceno,
‘toda a base estrutural e
social no antigo município de
São Raimundo Nonato-PI foi
construída pelo Bitoso Silva,
foi quem projetou tudo’.
E politicamente, quebrou todos
os paradigmas (modelos), ao se
comportar como um homem público
simples e andador (andava todas
as localidades montado a
cavalos). Não existiam recursos
públicos (FPM, ICMS e outros
repasses). O gestor público
contava só com a boa vontade,
dele e dos colaboradores
(existiam muitos).
E quando o Bitoso
Silva faleceu o povo ficou
órfão. Orfandade
político-administrativa. E
muitos eleitores apaixonados e
fiéis continuavam votando nele
para prefeito, quando tinha uma
eleição. O Tilô era dos
tais. Não falhava uma votação.
E não era protesto. Era
fanatismo e paixão. Era a força
de uma história de sucesso,
progresso e amizade. Bitoso
Silva, enquanto vivo, foi
eleito duas vezes prefeito. E
todos os candidatos que apoiou
ganharam.
O Tilô votava na
urna do Curral Novo (hoje sede
do município de Dom
Inocêncio-PI). O voto era em
cédula e nominal (botava-se o
nome do candidato). E toda
eleição apareciam vários votos
para o Bitoso Silva,
mesmo já falecido. E
descobriram que eram os votos
do povo do Tilô. E de
muita gente da região. Foi
então, que escalaram o
Janjão (delegado e amigo do
Tilô) para botar ordem
(organizar) a votação.
Janjão, muito
valente, já veio por cima de
tudo: “Ora viu! Tilô, o
Bitoso Silva já morreu e você e
seu povo ficam votando nele. E
tantos outros. E os votos são
sempre anulados. Votem nos
verdadeiros candidatos.”
E o Tilô, um homem
forte e valente também,
revidou: “Meu voto e do
meu povo serão dele, sempre! E
não tem quem empate nós
votarmos nele.” E ainda
acrescentou: “E quando eu
morrer, chegar ao céu, e tiver
eleição, e o Bitoso Silva for
candidato, vou continuar
votando nele!”
E o Janjão ficou
calado. E não pôde fazer nada.
E o Tilô continuou
votando nele, sempre! Foi um
eterno eleitor do Bitoso
Silva. E eterna também é a
história daquele que era
considerado o “prefeito
do povo.” Eternamente
estará na memória popular. E na
personalidade do seu filho,
Antônio Macedo, podemos
constatar a magnitude dessa
amizade com o povo da região.
Marcos Damasceno
(pesquisador) |