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Relatos...

      

MARCOS OLIVEIRA DAMASCENO, 27 ANOS, ESCRITOR, CRONISTA, MEMORIALISTA, HISTORIADOR. NATURAL DE DOM INOCÊNCIO – PI. DOUTORANDO EM FILOSOFIA POLÍTICA, PELA INTERNATIONAL UNIVERSITY OFF CAMBRIDGE.


Cultura do atraso

marcosdamasceno23@yahoo.com.br


Em Dom Inocêncio, as coisas não são levadas a sério por muitos. Culpa de quem? Recorro ao saudoso bispo Dom Inocêncio, padrinho do nosso município: “Culpa da cultura do atraso”. Em minha terra vi os forasteiros sendo chamados de “meu povo”. E vi-os chamando Dom Inocêncio de “minha terra”. Fui ignorado, desprezado, humilhado, onde a maioria virou as costas para mim. Mostrei um novo caminho, mas não fui enxergado. Disse: eu estou aqui, pronto para o desafio, mas fui ouvido. Culpa de quem? Da cultura do atraso. Engajei-me, me preparei, me esforcei. Fiz a minha parte. E demagogicamente, muitos ainda diziam: “Você está certo”. Mas preferiram o errado. Assumi responsabilidade, em que cobrou de mim um peso histórico, proveniente de uma covardia, omissão, fraqueza e fragilidade de espírito. Sem falsa modéstia, o exemplo de coragem e de prontidão foi deixado. Preguei um novo rumo. Plantei a semente do progresso.

 

Como se diz no linguajar jurídico: “O poder emana do povo”. A culpa não é minha, é de quem escolheu esse caminho. Faço política com ideal, seriedade e propostas. Compartilhei do pensamento de Petrônio Portela: “Ninguém muda nada de fora”.  Entrei com o propósito elementar de mudar, melhorar, organizar, inovar, desenvolver, unir. Não fui escolhido. Arrependimentos? Na pior hipótese, é demagogo. E na melhor hipótese, é incompleto. Tem que existir a correção dos erros (a grandeza de reconhecer o erro e a atitude de corrigi-lo). William Shakespeare exclamou: “O ser grande não é empenhar-se em grandes causas: grande é quem luta até por uma palha, quando a honra está em jogo”. E quem deve corrigir o erro? Quem errou. A hipocrisia de se jogar a culpa para quem não tem deve ser banida.

 

“Ser pedra é fácil, difícil é vidraça”, afirma um filósofo. Criticar, mostrar defeitos, apontar falhas é fácil. Difícil é assumir responsabilidades. Muitos só querem o bônus da vida, nada de ônus. Se servirem do município, e não servirem ao município. Entra o egoísmo e o individualismo. A política é um jogo de interesses. E é nela que é representada os anseios da sociedade. E é o instrumento de solucionamento dos problemas da sociedade. E junto com isso, surgem os defeitos e qualidades dos representados, a partir dos representantes escolhidos. E deu no que deu. E por que o povo não protesta? Faço minhas, as palavras de Martin Luther King, líder do movimento negro: "O que mais preocupa não é nem o grito dos violentos, dos corruptos, dos desonestos, dos sem caráter, dos sem ética. O que mais preocupa é o silêncio dos bons". Resta os bons acreditarem no seu potencial de luta. Como diz Roberto Shinyashiki, médico psiquiatra, escritor renomado: “Tentar, sempre; vencer, talvez; desistir, nunca”.  Não podemos admitir, de forma alguma, a forma característica de um município acovardado, comodista, orgulhoso de sua desilusão e, sobretudo, ignorante. Ignorante do papel decisivo, na originalidade coletiva, onde falta sempre atitude. É a inércia. O colonialismo mental. O conformismo cultural. A aceitação de uma realidade inconfortável, simplesmente pelo fato de não existir nenhum impulso revolucionário, de nenhuma reprovação ou indignação.

 

Isso vem de longe, a cultura do atraso. Foi implantada por um forasteiro garimpeiro. E a forma com que o município foi adminstrado por ele, pode ser caracterizada como uma sociopatia do poder, ou seja, uma doença compulsiva destinada a obrigar, a forçar as coisas. Na perseguição de seus ideais é autoritário, mandão e incontrolável que manda em tudo e de nada precisa. Decidido e desconfiado, ele fiscaliza tudo dentro de seus limites de liderança, para que ninguém cresça politicamente, de modo a vir incomodá-lo. Amigos, só os que concordam com ele dentro de seu padrão de vida pessoal e política, estando pronto para perseguir os seus dissidentes. Quem quiser tornar-se seu inimigo, basta discordar de suas idéias ou fazer censura em relação ao seu modo de administrar. Em matéria de comunicação, é péssimo ouvinte e ótimo falante, isto é, só quer falar, mas não quer ouvir ninguém. O que mais interessa para ele, é o que ele próprio pensa e nunca o que os outros dizem. Sua vontade dominadora, certa ou errada, tem de prevalecer, atropelando o que surge pela frente. Jeito autoritário e mandão sempre querendo bitolar o povo, governar as pessoas conforme seus princípios políticos. Ele é um ditador nato. E está há um bom tempo na cena do poder. Um grupinho incompetente, despreparado e prepotente, mas que se agarra, a todo custo, no timão do mando. Para tanto, buscam qualquer caminho, recorrem a todos os recursos disponíveis, tais como clientelismo, paternalismo e outras práticas politiqueiras.

 

Certa vez Ulysses Guimarães desabafou: “Não é o poder que corrompe o homem. O homem é que corrompe o poder. A compra de votos favorece o agravamento da pobreza, visto que o enriquecimento ilícito dos que exercem o poder à base desse comportamento absolutamente condenável absorve o dinheiro público e desmoraliza a democracia. Repetem a velha fórmula que vem dando certo em sucessivas eleições. Uma vez eleitos, geralmente se escondem, e o povo que se dane: os votos foram mesmo comprados, portanto, até logo, até o próximo embate eleitoral". Os resultados são os dramas sociais que se agravam, o atraso socioeconômico e cultural. A comunidade incidente a este processo político maquiavélico não evolui, não cresce, não produz, não gera riqueza ao seu povo.

 

E surgiu agora o filhote da ditadura. E no momento, o município de Dom Inocêncio caracteriza-se com o descrédito e arrependimento político. Por todas as localidades percebemos a revolta e a tristeza por parte do povo. De quem é a culpa? Da cultura do atraso. Presenciamos um município negligenciado, desordenado, sem perspectivas de progresso. Aquele que se apresentou como solução, não está solucionando nada. O povo de Dom Inocêncio não merece o governante municipal atual, que nada condiz com a realidade. Mas o escolheu. E ser um município caracterizado pelo atraso, pelo descaso administrativo, não deve ser motivo de orgulho para ninguém. Não acredito que o nosso povo se sinta confortável diante de tal situação. E ficamos de luto. Luto pelas crianças abandonadas, pelas famílias marginalizadas, pelos pais humilhados, pelas mães desrespeitadas, pelas práticas administrativas e políticas mal-intencionadas.

 

Por isso é que é preciso mudar. Principalmente, a mentalidade social.  Chega! É preciso que se tenha um governante que seja alçado ao poder maior do município, estribado em um programa de governo que não só apresente um arranjo de palavras sobre um papel, mas expresse, seguramente, a experiência de quem conhece os problemas de Dom Inocêncio em todas as suas facetas socioeconômicas. Precisamos de um administrador municipalista, com visão descortinada, sem os antolhos costumeiros daqueles que só enxergam esse ou aquele ponto isolado, incapazes de visualizarem o contexto amplo e maior do município. Porém, é essencial novas cabeças, novas mentalidades, novos métodos administrativos e políticos, decisões compartilhadas, descentralização do poder, gerenciamento participativo. Ser um objeto da causa da mudança política municipal. Em Romanos 12.1-2, está escrito uma grande mensagem motivacional, onde diz o seguinte: “Transformai-vos pela renovação da vossa mente”. Conclui-se, porém, que a mudança de vida só ocorrerá com a mudança de atitude. Estamos, enquanto grupo, na caminhada política há 91 anos (1918-2009). E queremos continuar, com o mesmo compromisso e com a mesma proposta (desenvolver Dom Inocêncio). Em toda a minha empreitada fui sincero, objetivo e transparente. Não plantei ilusão, mas esperança. Esperança de um filho que sonha em ver sua terra desenvolvida, com seu povo tendo uma melhor qualidade de vida. “Me magoe com a pior verdade, mas não me iluda com a melhor mentira”. Mas sempre existe um número muito maior de pessoas sem ética e sem respeito pelo próximo, que pensam só em si mesmas. A sociedade inocentina, em regra, aceita e de certa forma até convalida a situação, o que torna o combate difícil.

 

Para que o município se construa e alcance o desenvolvimento que quer, dentro da racionalidade, da estabilidade, e principalmente da humanidade, com personalidade própria, precisamos superar o que tem sido nossa maior fraqueza: a mentalidade. É a falta de visão, de informação e de discernimento suficientes para sairmos desse atraso sociocultural que permite essa cultura predominante, em regra, da destruição. Primordialmente, necessita-se de pessoas visionárias e municipalistas, que conheçam a identidade real, e a realidade socioeconômica e cultural, do nosso município. É chegado a hora de se fazer uma reflexão dos pós e dos contras, das qualidades e dos defeitos, dos fatores positivos e dos fatores negativos, das questões construtivas e das questões destrutivas, das situações confortáveis e das situações desconfortáveis, do que está certo e do que está errado, dos pontos significantes e dos pontos insignificantes, e diante disso, efetivar uma reciclagem cultural, no nosso núcleo social, de toda essa problemática e adotar parâmetros necessários para o desenvolvimento municipal. Nunca se reuniram, como agora, tantas condições favoráveis à vitória dessa tese, na instância municipal, acalentada pela maioria do povo inocentino.

 

Quem abraça como suficiente essa mediocridade trai o município de Dom Inocêncio, e demonstra não ter compromisso com o seu desenvolvimento cultural. Que seja esse o momento em nossa história em que decidamos partir para outra situação melhor, outro caminho, da prosperidade. Quem é do lado do município de Dom Inocêncio prega a doutrina da prosperidade e quem é do lado da ala forasteira aceita e prega a cultura do atraso. O povo inocentino não pode ser intelectualmente desmoralizado. Enquanto isso, o município fervilha, espera e exige.

 

Marcos Damasceno

(pesquisador)

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Está coluna é de inteira responsabilidade do colunista Marcos Damasceno