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Relatos...

      

MARCOS OLIVEIRA DAMASCENO, 27 ANOS, ESCRITOR, CRONISTA, MEMORIALISTA, HISTORIADOR. NATURAL DE DOM INOCÊNCIO – PI. DOUTORANDO EM FILOSOFIA POLÍTICA, PELA INTERNATIONAL UNIVERSITY OFF CAMBRIDGE.


Universidade da vida

marcosdamasceno23@yahoo.com.br


Antes de tudo, gostaria de fazer uma justificativa. Não sei se o que será dito aqui interessa aos outros, se é algo somente meu. São minhas memórias.

 

Era muito jovem, tinha meus 16 anos de idade, quando por força do destino tive que deixar a minha cidade natal (Dom Inocêncio - PI), para o início de uma puxada caminhada. Busquei o conhecimento na universidade acadêmica, mas tenho que admitir, e com orgulho, que aprendi muito mais com a ‘universidade da vida’.

 

Sempre valorizei as pessoas autênticas, transparentes, humanas. Que não interpretam papéis, são aquilo que são. Pessoas simples, que realizam seus projetos de vida com dedicação e determinação. Sempre gostei das pessoas como elas são, principalmente com sinceridade, simplicidade e humildade. Observei Vigotsky, pensador: “O ser humano só se constrói nas suas relações sociais, pois é na vivência em sociedade que acontece a transformação do ser biológico para o ser humano”.

 

No início senti solidão, e saudade da minha terra, da minha família, e dos meus amigos. E nessa empreitada pagamos um “preço” muito alto. Ainda mais como somos jovens. A “conta” vem em dobro. Depois senti angústia, não sabia como agir. Por último senti revolta. Com o passar do tempo, fui entendendo tudo. Paguei um “preço” alto, mas acabei conseguindo o que queria. Passei a me preocupar com as coisas mais importantes, e não perdi meu precioso tempo discutindo e aborrecendo-me com coisas mesquinhas e pequenas. Com isso, superei a fase da inconformação, para aceitar a da satisfação. A partir disso, tudo passou a ser satisfatório, sentia a sensação de utilidade. Por último, passei a não reclamar de nada, a questionar menos, fui engajando nessa nova vida, dando o melhor de mim, fazendo o que devia ser feito.

 

Tenho que me orgulhar do conhecimento popular (e prático) que adquiri através da ‘universidade da vida’. É nela que aprendemos o essencial da vida: valores, conceitos, experiências, lições, definições realísticas das coisas, princípios, conhecimentos etc. A ‘universidade da vida’ valoriza a sabedoria popular, o conhecimento prático. A vida é a sala de aula. Dessa forma, quero ressaltar o papel relevante que a ‘universidade da vida’ teve na minha formação humana. E de forma acadêmica. Sempre ouvi do meu tio-avô Zeca Damasceno (meu Mestre da sabedoria popular): “O conhecimento da escola (acadêmico) é importante, mas o que forma homens de expressão é o conhecimento popular. Conhecer as histórias populares e seus personagens. Fatos e acontecimentos. Era assim na Grécia Antiga. E deve ser assim na lida com os embates da vida. Grandes homens conhecem profundamente suas raízes e a história popular”. Levei a sério seus ensinamentos. E vejo hoje que não teria conseguido concretizar metas sem esse conhecimento popular. São verdadeiras lições de vida. São coisas que às vezes não damos importância, mas que na verdade formam a essência da vida. Basta observar os grandes homens, são formados nessa orientação. São detalhes. E a vida é feita de detalhes.

 

Nessa orientação educacional e disciplinar, através da ‘universidade da vida’, conhecemos um pouco de tudo, observamos detalhes, fazemos reflexões, tiramos conclusões e aprendemos a tomar decisões. Segui a minha vida concentrado no essencial, desprezei as coisas fúteis, aproveitei o que de melhor e mais útil existia ao meu redor, muitas carências e muitas dificuldades, mas tive de saber conviver e trabalhar com o pouco que estava ao meu dispor. Cheguei à conclusão de que tudo na vida é aproveitável, nada é inútil.

 

Li uma reflexão de um grande escritor: “Olhe para trás, e veja os obstáculos que você já superou, veja quanto você já aprendeu nesta vida e quanto já cresceu. Olhe para frente, não fique parado, levante-se quando tropeçar e cair; estabeleça metas, tenha planos e prossiga com firmeza. Olhe para dentro, e conheça seu coração e analise seus projetos; mantenha puros seus sentimentos; não deixe que o orgulho, a vaidade e a inveja dominem seus pensamentos e seu coração. Olhe para o lado, e socorra quem precisa de você; ame o próximo e seja sensível para perceber as necessidades daqueles que o cercam. Olhe para baixo, não pise em ninguém; perceba as pequenas coisas e aprenda a valorizá-las. Olhe para cima, há um Deus maior do que você,  que te ama muito e tem todas as coisas sob seu controle. Olhe para Deus, e perceba a profundidade, a riqueza e o poder da bondade divina. Sinta esse Deus que olha por você em todos os dias da sua vida!”. Compartilhando como esse mesmo pensamento e orientação assim resume Roberto Shinyashiki, escritor: “Tenha mais problemas reais e menos problemas imaginários”. Isso me ajudou a encontrar a minha legitimidade, a partir daí adquiri maturidade psicológica.

 

Aprendi a acreditar mais na utilidade de um sincero desafio, um convite à lucidez, do que em palavras piegas visando a consolar. Tive, por fim, uma visão melhor de psicologia da vida, com as palavras do professor Hermógenes, que concluiu: “A realidade não tem nenhuma obrigação de ser-nos agradável, de ser conforme o que gostaríamos que fosse. Nós, se quisermos não sofrer muito, não outra solução que não seja aprender a aceitá-la, acatar o que ela nos dá e como se apresenta. Somente quando nos libertamos da ilusão de que a realidade tem que ser agradável, é que começamos a ganhar a capacidade de amar, de criar, de sermos felizes. Em resumo: tome o sofrimento como desafio, e não como um motivo de abatimento e lamúria”. Segui em frente a minha luta. E reforcei esta concepção com a seguinte afirmação de um pensador: “Os problemas são inevitáveis, mas ser derrotado por eles é opcional”.

 

Minha vontade de chegar lá era maior do que tudo. Aprendi a conviver com os problemas, a driblar as dificuldades, adotei a seguinte teoria: as dificuldades existem, mas se encaramo-las de forma corajosa e criativa, conseguimos transformá-las em oportunidades. Foi preciso saber esperar, principalmente quando as coisas estavam difíceis, quando pareciam não ter mais soluções. Pois muitas vezes sofri a dor e a angústia da espera, mas valeu a pena, foram fundamentais para meu amadurecimento. Quanto maior era a dor, maior era o alívio de superá-la, e mais ainda, o gosto da vitória. Mas conheci, nessa passagem da minha vida, a minha própria força. E que o tempo é o senhor da razão. “O tempo é mudo e surdo, mas sem dizer nada, diz tudo”.

 

Tenho falado muito sobre a nossa terra, sobre nossa gente. Confesso que nem sempre consigo me expressar como desejaria, nem sempre encontro as palavras, mas digo o que gostaria de dizer, o importante de minhas palavras as pessoas entendem: o fundamento e a sinceridade. As palavras, sejam escritas ou orais, têm um grande poder de transformação, muitas vezes não sabemos a importância que elas têm e concedem

 

(Marcos Damasceno, no lançamento dos seus cinco livros

sobre a história popular do Piauí – 2009)

 

A literatura é a arma que me resta, a ferramenta com que nasci, o recurso que o destino colocou a meu dispor para divulgar nossa terra, nossa gente, nossa história. Foi a maneira mais adequada que encontrei. Nossa história não pode ser anulada. A história da nossa brava gente. Construída com muita luta, suor, sangue e dedicação. Este legado ninguém nos tira. O legado de uma brava gente, patriótica, que foi protagonista de missões que colaboraram na emancipação do Brasil. Nós somos uma brava gente brasileira, com cultura própria, com nossas particularidades, com personalidade. E com muito valor moral, cultural e histórico.

 

         Somos um povo de história, mas com pouca memória. E quem despreza sua memória, está desprezando também suas raízes, sua história. E o valor do humano está na história. Temos que recorrer mais à ‘universidade da vida’. Aprendermos mais sobre a história popular, nela está nosso maior patrimônio: a nossa história enquanto região, enquanto povo. Também nossa herança cultural. Isso se confirma com a sabedoria popular: “Morre o homem, fica o nome”. A força do homem está na alma. É a força da alma que nos leva a algum lugar. E o patrimônio de um povo, seu bem comum, é a história. Portanto, temos que entrar com a proposta da memória. Ser um povo conhecedor da sua própria história, para com isso, ter identidade cultural, e sua história viva na memória popular.

 

          Por último, dizer que a minha região será sempre minha causa. E que viver uma vida difícil, é um grande privilégio para aqueles que querem aprender e fazer transformações. Mãos à obra.

Marcos Damasceno

(pesquisador)

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Está coluna é de inteira responsabilidade do colunista Marcos Damasceno