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Antes de tudo, gostaria de
fazer uma justificativa. Não
sei se o que será dito aqui
interessa aos outros, se é algo
somente meu. São minhas
memórias.
Era muito jovem, tinha meus 16
anos de idade, quando por força
do destino tive que deixar a
minha cidade natal (Dom
Inocêncio - PI), para o início
de uma puxada caminhada.
Busquei o conhecimento na
universidade acadêmica, mas
tenho que admitir, e com
orgulho, que aprendi muito mais
com a ‘universidade da vida’.
Sempre valorizei
as pessoas autênticas,
transparentes, humanas. Que não
interpretam papéis, são aquilo
que são. Pessoas simples, que
realizam seus projetos de vida
com dedicação e determinação.
Sempre gostei das pessoas como
elas são, principalmente com
sinceridade, simplicidade e
humildade. Observei Vigotsky,
pensador:
“O ser humano só
se constrói nas suas relações
sociais, pois é na vivência em
sociedade que acontece a
transformação do ser biológico
para o ser humano”.
No início senti solidão, e
saudade da minha terra, da
minha família, e dos meus
amigos. E nessa empreitada
pagamos um “preço” muito alto.
Ainda mais como somos jovens. A
“conta” vem em dobro. Depois
senti angústia, não sabia como
agir. Por último senti revolta.
Com o passar do tempo, fui
entendendo tudo. Paguei um
“preço” alto, mas acabei
conseguindo o que queria.
Passei a me preocupar com as
coisas mais importantes, e não
perdi meu precioso tempo
discutindo e aborrecendo-me com
coisas mesquinhas e pequenas.
Com isso, superei a fase da
inconformação, para aceitar a
da satisfação. A partir disso,
tudo passou a ser satisfatório,
sentia a sensação de utilidade.
Por último, passei a não
reclamar de nada, a questionar
menos, fui engajando nessa nova
vida, dando o melhor de mim,
fazendo o que devia ser feito.
Tenho que me orgulhar do
conhecimento popular (e
prático) que adquiri através da
‘universidade da vida’. É nela
que aprendemos o essencial da
vida: valores, conceitos,
experiências, lições,
definições realísticas das
coisas, princípios,
conhecimentos etc. A
‘universidade da vida’ valoriza
a sabedoria popular, o
conhecimento prático. A vida é
a sala de aula. Dessa forma,
quero ressaltar o papel
relevante que a ‘universidade
da vida’ teve na minha formação
humana. E de forma acadêmica.
Sempre ouvi do meu tio-avô
Zeca Damasceno (meu Mestre
da sabedoria popular): “O
conhecimento da escola
(acadêmico) é importante, mas o
que forma homens de expressão é
o conhecimento popular.
Conhecer as histórias populares
e seus personagens. Fatos e
acontecimentos. Era assim na
Grécia Antiga. E deve ser assim
na lida com os embates da vida.
Grandes homens conhecem
profundamente suas raízes e a
história popular”.
Levei a sério seus
ensinamentos. E vejo hoje que
não teria conseguido
concretizar metas sem esse
conhecimento popular. São
verdadeiras lições de vida. São
coisas que às vezes não damos
importância, mas que na verdade
formam a essência da vida.
Basta observar os grandes
homens, são formados nessa
orientação. São detalhes. E a
vida é feita de detalhes.
Nessa orientação educacional e
disciplinar, através da
‘universidade da vida’,
conhecemos um pouco de tudo,
observamos detalhes, fazemos
reflexões, tiramos conclusões e
aprendemos a tomar decisões.
Segui a minha vida concentrado
no essencial, desprezei as
coisas fúteis, aproveitei o que
de melhor e mais útil existia
ao meu redor, muitas carências
e muitas dificuldades, mas tive
de saber conviver e trabalhar
com o pouco que estava ao meu
dispor. Cheguei à conclusão de
que tudo na vida é
aproveitável, nada é inútil.
Li uma reflexão de um grande
escritor: “Olhe para
trás, e veja os obstáculos que
você já superou, veja quanto
você já aprendeu nesta vida e
quanto já cresceu. Olhe para
frente, não fique parado,
levante-se quando tropeçar e
cair; estabeleça metas, tenha
planos e prossiga com firmeza.
Olhe para dentro, e conheça seu
coração e analise seus
projetos; mantenha puros seus
sentimentos; não deixe que o
orgulho, a vaidade e a inveja
dominem seus pensamentos e seu
coração. Olhe para o lado, e
socorra quem precisa de você;
ame o próximo e seja sensível
para perceber as necessidades
daqueles que o cercam. Olhe
para baixo, não pise em
ninguém; perceba as pequenas
coisas e aprenda a
valorizá-las. Olhe para cima,
há um Deus maior do que você,
que te ama muito e tem todas as
coisas sob seu controle. Olhe
para Deus, e perceba a
profundidade, a riqueza e o
poder da bondade divina. Sinta
esse Deus que olha por você em
todos os dias da sua vida!”.
Compartilhando como esse mesmo
pensamento e orientação assim
resume Roberto Shinyashiki,
escritor: “Tenha mais
problemas reais e menos
problemas imaginários”.
Isso me ajudou a encontrar a
minha legitimidade, a partir
daí adquiri maturidade
psicológica.
Aprendi a acreditar mais na
utilidade de um sincero
desafio, um convite à lucidez,
do que em palavras piegas
visando a consolar. Tive, por
fim, uma visão melhor de
psicologia da vida, com as
palavras do professor
Hermógenes, que concluiu:
“A realidade não tem
nenhuma obrigação de ser-nos
agradável, de ser conforme o
que gostaríamos que fosse. Nós,
se quisermos não sofrer muito,
não outra solução que não seja
aprender a aceitá-la, acatar o
que ela nos dá e como se
apresenta. Somente quando nos
libertamos da ilusão de que a
realidade tem que ser
agradável, é que começamos a
ganhar a capacidade de amar, de
criar, de sermos felizes. Em
resumo: tome o sofrimento como
desafio, e não como um motivo
de abatimento e lamúria”.
Segui em frente a minha luta. E
reforcei esta concepção com a
seguinte afirmação de um
pensador: “Os problemas
são inevitáveis, mas ser
derrotado por eles é opcional”.
Minha vontade de
chegar lá era maior do que
tudo. Aprendi a conviver com os
problemas, a driblar as
dificuldades, adotei a seguinte
teoria: as dificuldades
existem, mas se encaramo-las de
forma corajosa e criativa,
conseguimos transformá-las em
oportunidades. Foi preciso
saber esperar, principalmente
quando as coisas estavam
difíceis, quando pareciam não
ter mais soluções. Pois muitas
vezes sofri a dor e a angústia
da espera, mas valeu a pena,
foram fundamentais para meu
amadurecimento. Quanto maior
era a dor, maior era o alívio
de superá-la, e mais ainda, o
gosto da vitória. Mas conheci,
nessa passagem da minha vida, a
minha própria força. E que o
tempo é o senhor da razão.
“O
tempo é mudo e surdo, mas sem
dizer nada, diz tudo”.
Tenho falado muito sobre a
nossa terra, sobre nossa gente.
Confesso que nem sempre consigo
me expressar como desejaria,
nem sempre encontro as
palavras, mas digo o que
gostaria de dizer, o importante
de minhas palavras as pessoas
entendem: o fundamento e a
sinceridade. As palavras, sejam
escritas ou orais, têm um
grande poder de transformação,
muitas vezes não sabemos a
importância que elas têm e
concedem

(Marcos Damasceno, no
lançamento dos seus cinco
livros
sobre a história popular do
Piauí – 2009)
A literatura é a arma que me
resta, a ferramenta com que
nasci, o recurso que o destino
colocou a meu dispor para
divulgar nossa terra, nossa
gente, nossa história. Foi a
maneira mais adequada que
encontrei. Nossa história não
pode ser anulada. A história da
nossa brava gente. Construída
com muita luta, suor, sangue e
dedicação. Este legado ninguém
nos tira. O legado de uma brava
gente, patriótica, que foi
protagonista de missões que
colaboraram na emancipação do
Brasil. Nós somos uma brava
gente brasileira, com cultura
própria, com nossas
particularidades, com
personalidade. E com muito
valor moral, cultural e
histórico.
Somos um povo de história, mas
com pouca memória. E quem
despreza sua memória, está
desprezando também suas raízes,
sua história. E o valor do
humano está na história. Temos
que recorrer mais à
‘universidade da vida’.
Aprendermos mais sobre a
história popular, nela está
nosso maior patrimônio: a nossa
história enquanto região,
enquanto povo. Também nossa
herança cultural. Isso se
confirma com a sabedoria
popular: “Morre o homem,
fica o nome”. A força
do homem está na alma. É a
força da alma que nos leva a
algum lugar. E o patrimônio de
um povo, seu bem comum, é a
história. Portanto, temos que
entrar com a proposta da
memória. Ser um povo conhecedor
da sua própria história, para
com isso, ter identidade
cultural, e sua história viva
na memória popular.
Por último, dizer que a minha
região será sempre minha causa.
E que viver uma vida difícil, é
um grande privilégio para
aqueles que querem aprender e
fazer transformações. Mãos à
obra.
Marcos Damasceno
(pesquisador) |