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Essa denominação de
‘Menestrel’ não se
fundamenta na cartilha
acadêmica, é uma expressão
usada nos tempos da
autodidática. Pronunciada
popularmente ‘Mestre’.
Era uma forma de prestigiar
aquelas pessoas de notável
sabedoria. Sabedoria popular,
aquela adquirida através do
cotidiano da vida, da
experiência. Homens e mulheres
intelectuais, letrados, com
embasamento empírico, porém,
pensamentos científicos.
Explico! A teoria que existe na
atualidade tem como base de
pesquisa o empirismo construído
por essas pessoas. Por essas
experiências.
É relevante dizer que se
valorizava muito a sabedoria
popular, o conhecimento
prático. Tinha-se a vida como
escola. Homens e mulheres
estudiosos e observadores.
Pesquisadores natos e com
grande habilidade comunicativa.
E isso era tradição. Em
qualquer meio social tinha
sempre o “Sócrates” da
comunidade. Aquela pessoa tida
como conselheiro. Um verdadeiro
‘Mestre’. Alguém que
sempre podia ser consultado com
a certeza de um rumo mostrado.
E esse conhecimento e o pôster
eram passados de geração para
geração.
Dessa forma, quero ressaltar o
papel intelectual relevante que
o meu tio-avô José Rodrigues
Damasceno, conhecido
popularmente como Zeca
Damasceno, teve no meu meio
social, como um ‘Menestrel’
da sabedoria popular. Foi meu
amigo de infância (eu criança e
ele idoso). Já é falecido. Se
fosse vivo, completaria neste
mês de junho de 2009, 82 anos
de idade. E quanto a minha
formação humana, literalmente
devo tudo que sei sobre a
sabedoria popular a ele. Foi
ele quem me ensinou o valor do
conhecimento popular, da
história popular, da sabedoria
popular. Era da geração do
Ariano Suassuna, Chico
Anysio, Patativa do
Assaré, Luiz Gonzaga,
em que a cultura popular tinha
forte atenção, e ocupava um
lugar sagrado na formação moral
das pessoas. Cada um numa área
diferente (humor, música,
literatura, teatro etc), mas
como fundo de pesquisa sempre a
cultura popular.
Aprendi a gostar da sabedoria
popular através da sua
influência intelectual.
Tinha-me como seu sucessor.
Porém, nunca aceitei esse
pôster. Acho-me muito novo pra
tal posição. Apenas sou um
discípulo seu. Um defensor e
apreciador da história popular.
História do povo, notadamente
sertanejo. Histórias das nossas
raízes familiares. Sempre me
dizia com convicção: “O
conhecimento da escola
(acadêmico) é importante, mas o
que forma homens de expressão é
o conhecimento popular.
Conhecer as histórias populares
e seus personagens. Fatos e
acontecimentos. Era assim na
Grécia Antiga. E deve ser assim
na lida com os embates da vida.
Grandes homens conhecem
profundamente suas raízes e a
história popular”.
Levei a sério seus
ensinamentos. E vejo hoje que
não teria conseguido
concretizar metas sem esse
conhecimento popular. São
verdadeiras lições de vida. E
meu tio-avô Zeca Damasceno
era um verdadeiro
‘Menestrel’ nisso. Ele
sempre teve o interesse e a
preocupação em me passar as
histórias que conhecia. Talvez,
como mandava a tradição: passar
esse conhecimento de geração
para geração. Ainda cheguei a
catalogar mais de 1.200
histórias. Porém, perdi o
controle. É um campo literário
muito vasto. Sei boa parte
delas.

(Foto/Zeca Damasceno)
Quantas vezes entramos na noite
conversando sobre fatos e
acontecimentos. Eu criança e
ele já idoso. São coisas que às
vezes não damos importância,
mas que na verdade são a
essência da vida. Basta
observar os grandes homens, são
formados nessa orientação. São
detalhes. E a vida é feita de
detalhes. Na época, eu dava
importância, preciso confessar
isso, por curiosidade de
criança. E hoje, vejo o quanto
isso foi importante para mim.
Conhecer a experiência dos
outros. Isso me deu maturidade.
Ele era meu “Ariano Suassuna”.
Até hoje nunca conheci ninguém
que conhecesse melhor sobre a
história popular da nossa
região do que ele. Gostava de
conversar, transmitir
conhecimento e assimilar
conhecimento. Sempre me dizia:
“Converse sempre com as
pessoas. Isso é oportunidade de
aprendizagem. Observe sempre as
coisas e a conversa das
pessoas. E nas rodas de
conversas, nunca seja fanático
ou radical. Seja diplomático e
moderado. Respeite as
diferenças. Sempre aprendemos
alguma coisa. Toda pessoa tem
algo a ensinar. E a aprender”.
Percebe-se que esse título
de ‘Menestrel’, dado
pela sabedoria popular,
demandava de certa habilidade
de comunicação e observação.
Não é qualquer pessoa que tem
essa habilidade. Isso não é
comum. Até mesmo porque é uma
vocação. É preciso gostar. Ter
um bom diálogo e interesse pela
atenção das pessoas.
Então, diante desses
esclarecimentos não poderia
deixar de mencionar o
‘Menestrel’ Zeca
Damasceno. Era uma
verdadeira enciclopédia.
Sonhamos juntos com muita
coisa. No entanto, o destino da
vida nos colocou em caminhos
diferentes. Mas ele está no céu
ao lado do meu bisavô João
Damasceno. Estão me
ajudando, como força
espiritual, a realizar minhas
metas no campo literário.

(Foto/João Damasceno)
Essa é a principal lembrança
que tenho da minha infância.
Lembrança do ‘Menestrel’
da sabedoria popular Zeca
Damasceno. Lembrança da
nossa amizade. Era minha
âncora. Meu ‘Mestre’.
Dava-me alegrias. E muito
conhecimento. Em resume, foi
minha escola de cidadania e de
formação humana. Sua presença
física se foi, mas
espiritualmente continuamos
juntos. Em vida, me orientou.
Agora do céu, me motiva a
continuar a caminhada da
história popular. Ao
‘Menestrel’ da sabedoria
popular, com emoção.
Marcos Damasceno
(pesquisador) |