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Celerino
Antônio de Sousa
é um daqueles personagens que
marcam a História. Figura
ilustre da nossa terra. Pela
expressão social na região.
Diga-se de passagem, um homem
com um Q.I. (quociente de
inteligência) muito elevado. A
meu ver, uma das pessoas mais
inteligentes já existentes na
nossa região. Faleceu em 2007,
aos 85 anos de idade. Era irmão
da minha avó paterna (Arcanja
Maria de Jesus), e genro do
meu bisavô João Rodrigues
Damasceno. Conhecido pelo
povo regional como um
cientista. Era um homem prático
e autodidata. Também
polivalente. Mexia com muita
coisa.
Sanfoneiro desde o tempo do Seu
Januário, pai do Luiz
Gonzaga (rei do Baião),
ainda criança, na década de 20.
Aprendeu sozinho. E ainda era
instrumentalista. Ferreiro
desde jovem, profissão que
aprendeu com seu pai (José
de Sousa – “Zé Barrinha”),
meu bisavô. Fazia coisas que
eram “impossíveis” para a
realidade estrutural da região,
na época. Isso é fato. Há 60
anos já era fotógrafo. Muitas
das fotos da época foram
tiradas por ele. Foi
subdelegado nos anos 50, onde
desenvolveu muitos trabalhos de
conciliação em litígios
existentes na região,
notadamente envolvendo questões
de terras, juntamente com seu
sogro (João Rodrigues
Damasceno), meu bisavô, que
na época era Juiz de Direito.
Dentista prático há mais de 50
anos. Extraía dentes, fazia
prótese etc. Atendia toda a
região, desde Itaueira - PI,
Oeiras - PI, Paulistana - PI,
Canto do Buriti - PI, São João
do Piauí - PI, Bom Jesus do
Gurguéia - PI, Caracol - PI,
Remanso - BA, Casa Nova - BA, e
parte do Estado do Pernambuco.
Num raio de 500 km ele era
procurado. Foi importante nessa
profissão, a História confirma
isso. Pela necessidade da
região passou a ser, nos
últimos 40 anos, cirurgião
prático. Isso depois da morte
do extraordinário Júlio Dias,
que exercia essa função. Serviu
a muita gente. Vale ressaltar a
coragem que teve em atuar, de
forma empírica, numa área
difícil, principalmente para
época. Fazia serviços
eletrônicos, principalmente em
rádios, instrumento de grande
relevância histórica para a
comunicação regional. Teve
também notável passagem pela
política, por influência do seu
sogro, meu bisavô João
Rodrigues Damasceno. A
prova disso é a sua permanência
na memória coletiva. Isso
porque deixou muito de positivo
a favor da emancipação do nosso
povo e da nossa terra.
Tenho curiosidade pela
História, notadamente pela
história popular. E foi assim
que me tornei um amigo do Seu
Celerino (eu criança e
ele já idoso). Considerava-me
um neto, e eu o considerava um
avô. Esse vínculo afetivo não
se deu pelo grau de parentesco
somente. Nossa afinidade, que
se tornou em amizade, se
enveredava pela apreciação à
história popular, eu um simples
aprendiz e ele um mestre.
Sempre recorri a ele, com o
intuito de saber algo sobre a
história regional
(acontecimentos, fatos,
informações etc.). Aprendi com
ele o sentimento de uma amizade
verdadeira, a ter lealdade
pelas pessoas, ser solidário,
ser útil socialmente. Aprendi a
ter convicção, firmeza de
caráter e personalidade. Certa
ocasião, quando conversávamos,
juntamente com meu tio-avô
Zeca Damasceno, ele me
disse que a primeira regra para
ser alguém ou conseguir algo é
ter convicção. Ainda pontuou:
“Se você não acredita em
você (na sua capacidade) tudo
fica mais difícil. E convicção
é isso. É ter firmeza no que
falamos e queremos conseguir”.
Isso nos dar um entendimento
porque ele era um homem
destemido. Sua formação moral
era um patrimônio da relação
social de uma época, da sua
geração. São valores culturais,
conceitos morais, princípios
éticos e normas comportamentais
sagrados na sua concepção
humana.
Celerino
pertenceu a uma geração de
criadores. Autodidatas que
tinham curiosidade em aprender
algo que seria útil à demanda
local e tomavam a iniciativa. E
foi nesta necessidade e
percepção que Seu Celerino
aprendeu de tudo um pouco.
Atuou em várias áreas. Era um
homem polivalente. Mas o mais
relevante, como referência, foi
sua representação para a
emancipação da região. Sua
utilidade social. Se
percorrermos os quatro cantos
do nosso município, um pouco
mais de 11.000 (onze mil)
habitantes, iremos perceber o
quanto ele foi importante nas
vidas das pessoas. Todas as
famílias do nosso município,
sem nenhuma exceção, foram
ajudadas por ele. Seus serviços
prestados são de um significado
grandioso, de uma relevância
incontestável. E isso se
estende por toda a região, além
dos limites geográficos do
município. Sua identidade ficou
marcada na memória popular.
Eu confesso que quando lembro o
Seu Celerino recordo
também da nossa amizade. Do
quanto eu gostava de conversar
com ele e vice-versa. Recordo
da nossa afinidade, muita coisa
que ele gostava eu também
gostava. Em especial, conversar
e contar histórias (e também
estórias). E sempre me dizia:
“Meu filho você é o único
jovem que conheço que gosta de
conversar com velho”.
Contava-me tudo. Sua infância
sofrida, seus sonhos,
sofrimentos, lutas e
conquistas. Lembro que uma vez
ele desabafou comigo:
“Tinha o sonho em ser médico
para cuidar das pessoas. Não
estudei, mas cuidei das
pessoas”. Ele atuou
como “médico” prático durante
uma vida. E eu tive que
pontuar: “O senhor não
teve a oportunidade de estudar,
mas dá uma lição em muitos que
estudaram e que não tem o
conhecimento prático, a visão
profissional e a
responsabilidade social que
tem. Sua escola foi a vida. E
sua vida é uma escola para
minha geração”. E ele
olhou por cima dos óculos e
disse: “Esperei 70 anos
para ouvir isso”. Mas
na verdade ele não tinha crise
existencial, quis apenas
testar, através de mim, a
concepção da minha geração
sobre sua pessoa e seu
trabalho.
Ele pertenceu a
uma geração em quer não se
esperava por oportunidade, se
representava essa oportunidade.
Criava as alternativas. Uma
geração que não reclamava da
situação, lutava para
melhorá-la. Uma geração que
tinha uma força de vontade, uma
coragem, uma disposição pouco
vista nos dias atuais. Hoje, a
modernidade nos traz muita
acomodação. Seu Celerino
dizia: “Meu filho, o povo
de hoje é do Paraguai. Até pra
acordar dá trabalho”.
Sua afirmação era baseada no
fato de que a minha geração não
tem o destemor, a determinação
e a disposição que a dele teve.
“Não tem coragem pra
nada”, sentenciou. A
época dele foi mais difícil,
porém o povo era mais lutador.
Uma geração criativa, que sabia
fazer das dificuldades,
oportunidades. Dizia a primeira
regra:
“O homem
(humanidade) tem que acordar
primeiro do que sol”.
Sou tomado pela emoção quando
me lembro dele. O seu valor
humano é imensurável, de uma
dimensão enorme. Sua presença
era algo contagiante e
marcante. Mas também, me vem a
alegria de ser um familiar
dele, de ter tido o privilégio
de ser seu amigo. Nossa amizade
era verdadeira. O respeito que
tinha por ele, e ainda tenho
por sua memória, é algo
inegociável, incondicional.
Minha consideração por ele é
sagrada. Passo por cima de
qualquer coisa para honrar a
confiança de sua amizade. E
digo com muita convicção: um
homem extraordinário como o
Celerino Antônio de Sousa
não nasce todo dia. Em cada
século surge um.
Marcos Damasceno
(pesquisador) |