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Quando
criança convivi com pessoas
históricas da minha terra,
foram meus amigos de infância (Zeca
Damasceno, dona Bila,
Celerino, Joaquim
Damasceno, Janjão
etc.). Foram meus amigos de
roda de conversa (apenas meu
avô Joaquim Damasceno
está vivo). E tenho que lembrar
ainda o meu tio Zé Caldeirão,
ainda vivo, com 103 anos de
idade. Aprendi com essas
pessoas a ter apreço e
interesse pela história
popular. E passei a encontrar o
elemento que unifica as obras,
as passagens históricas e os
personagens. Foi o principal
trunfo, pois me permitiu montar
o “quebra cabeça” da História.
Aprendi com meu tio Zeca
Damasceno as facetas de
historiador (contar histórias,
ouvir histórias e escrever
histórias). “O historiador
primeiro tem que ser
memorialista”, sentenciava.
São minhas memórias.
E passaram-me a missão de escrever a
história regional (da minha
região), história esta, que
também ajudaram a construir.
Eles formaram a segunda
geração. A primeira geração foi
a do meu bisavô João
Damasceno, Alexandre
Oliveira (meu bisavô),
Hermógenes Dias, Júlio
Dias, Antônio Martins,
Benedito Marques e
Marcos Idalino. A missão se
aproximava de uma utopia
(projeto irrealizável).
De início, necessitei de
experiência. Como era uma
pessoa inexperiente (tinha
apenas 16 anos de idade), tive
que me valer da experiência dos
outros. Isso foi crucial.
Naquele momento, por sinal
complexo, não tinha um rumo já
projetado. E na missão de criar
um, vinha a insegurança. A
aflição da expectativa do
acerto ou do erro, do sucesso
ou do fracasso. Tanta coisa
envolvida com prazos resulta
numa convivência sob pressão,
que faz o tempo jogar contra.
Mas percebi que os obstáculos
são vencidos nos detalhes. É
uma missão com bastante
desgaste, requer uma motivação
muito forte. Onde somos
constantemente desafiados
intelectualmente.
Li uma reflexão de um grande
escritor: “Olhe para trás, e
veja os obstáculos que você já
superou, veja quanto você já
aprendeu nesta vida e quanto já
cresceu. Olhe para frente, não
fique parado, levante-se quando
tropeçar e cair; estabeleça
metas, tenha planos e prossiga
com firmeza. Olhe para dentro,
e conheça seu coração e analise
seus projetos; mantenha puros
seus sentimentos; não deixe que
o orgulho, a vaidade e a inveja
dominem seus pensamentos e seu
coração (...). Olhe para cima,
há um Deus maior do que você,
que te ama muito e tem todas as
coisas sob seu controle. Olhe
para Deus, e perceba a
profundidade, a riqueza e o
poder da bondade divina. Sinta
esse Deus que olha por você em
todos os dias da sua vida!”.
Reforcei com as palavras
do Roberto Shinyashiki,
escritor: “Tenha mais
problemas reais e menos
problemas imaginários”. No
entanto, não é um meio
infalível, uma vez que podemos
deixar escapar algumas
oportunidades ou tropeçar por
engano. A interpretação dos
fatos pode errar. Os indícios
podem apontar na direção
errada. O processo decisório
pode ser racional e ainda assim
deixar de alcançar o objetivo
traçado. A decisão
provavelmente será melhor
quanto mais indícios reunirmos
e quanto mais tempo
deliberarmos. Aprendi a
acreditar mais na utilidade de
um sincero desafio, um convite
à lucidez, do que em palavras
piegas.
Conversei com o professor
Irailton Marques, meu
amigo, bisneto do Benedito
Marques: “É hora de
viajarmos na máquina do tempo.
Temos sempre que buscar a lição
na História, para não
cometermos erros no presente.
Temos que conversar com algumas
pessoas. Aprendermos com a
experiência delas. Depois
disso, começarmos a imaginar e
a planejar o futuro. E isso
deve ser feito no presente. É
hora de fazer com que o
presente melhore o futuro. Isso
será fundamental”. E ele me
disse: “Sempre viajamos na
máquina do tempo. Quem nunca
viajou? Ou para trás (relembrar
o passado) ou para frente
(imaginar o futuro). A história
popular normalmente não é
registrada de forma literária,
através da Literatura. Fica
apenas nas mentes daqueles que
a viveram e guardam-na nas suas
memórias”. Não
existia até então, nenhum
registro escrito. É uma
história complexa, não é
simples para se encontrar o
modo de apresentá-la de forma
correta e verídica, na íntegra,
como realmente aconteceu. A
autonomia de pensamento é a
receita para tal situação. E
ela se fundamenta em 4 (quatro)
pilares: ser (é a nossa
espiritualidade, nossa
psicologia), conhecer (é
o estudo, a pesquisa, a
ciência), saber (é o
conhecimento adquirido, a
filosofia de vida) e fazer
(é a ação, a arte, a prática).
Tive, por fim, uma visão melhor
de psicologia da vida, com as
palavras do professor
Hermógenes, que concluiu:
“A realidade não tem nenhuma
obrigação de ser-nos agradável,
de ser conforme o que
gostaríamos que fosse. Nós, se
quisermos não sofrer muito, não
outra solução que não seja
aprender a aceitá-la, acatar o
que ela nos dá e como se
apresenta. Somente quando nos
libertamos da ilusão de que a
realidade tem que ser
agradável, é que começamos a
ganhar a capacidade de amar, de
criar, de sermos felizes. Em
resumo: tome o sofrimento como
desafio, e não como um motivo
de abatimento e lamúria”.
Segui em frente a minha
luta. Lembrei-me, naquele
momento, de um pensador que
dizia: “Os problemas são
inevitáveis, mas ser derrotado
por eles é opcional”. A
pressão social é uma coisa
muito forte.
Não escrevo por
acaso. Escrevo somente com o
intuito de usar a Literatura
como meio para o fim da
valorização da história
popular. Heróis anônimos que
não são sequer lembrados pela
História (tradicional). Então,
o caminho literário é uma
alternativa segura e eficiente
nessa empreitada. As palavras,
sejam escritas ou orais, têm um
grande poder de transformação,
muitas vezes não sabemos a
importância que elas têm e
concedem. Lembro-me de um
trecho do artigo ‘O que é
literatura de testemunho’,
do pesquisador Fabrício
Flores Fernandes, Doutor em
Teoria e História Literária,
publicado em Sapiência
(Informativo Científico da
FAPEPI - Fundação de Amparo à
Pesquisa do Estado do Piauí):
“A
literatura de testemunho, por
extensão, é aquela em que o
autor estabelece um pacto de
veracidade com o leitor,
reivindicando estatuto de
verdade - em contraponto com a
ficção – para seu relato.
(...). Assumindo o dever de não
deixar o que ocorreu cair no
esquecimento, o autor do
testemunho sabe que seu relato
tem importante função social.
(...)”.
Existiram grandes projetistas
por trás de toda nossa
história. Existiram grandes
acontecimentos que contribuíram
para nosso desenvolvimento. Não
é resultado de um acaso
fortuito, destino ou sorte.
Existiram batalhas, lutas,
guerras, sangue, suor e muito
trabalho. A história dessas
pessoas não pode morrer. É
nosso patrimônio. Somos o que
somos graças a essa gente, que
se dedicou e se empenhou. Que
construiu nossa base. Isso
serve como referência para
nossa geração, é a nossa
bússola para sabermos sempre a
direção, o conselho a que
devemos dar ouvidos para tomar
decisões sábias, e o parâmetro
que temos que utilizar para
avaliar todos os fatos e
acontecimentos que nos
envolvem. Entendo assim. O
conteúdo da história popular
traz a participação e as ações
dos personagens da nossa terra.
O protagonismo de homens e
mulheres emancipadores. A
contribuição das nossas
famílias.
Aprendi que, se batalharmos, e
não sairmos da retidão do
trajeto necessário para suas
realizações, nossos sonhos
podem virar realidade. A
continuidade de etapas é o
truque central, já que os
sonhos não se realizam
imediatamente. Essa concepção
eu adquiri. A concepção de que
nada é impossível, de que
utopia pode se tornar em
realidade. Pode até ser
difícil, mas não é impossível.
Pode até não ser a regra, mas a
exceção já abre um precedente
da esperança e do otimismo. E
qualquer brecha, por menor que
seja, é o bastante para
propiciar essa possibilidade.
Marcos Damasceno
(pesquisador) |