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Ao
adentrar neste tema, quero
ressaltar que uma análise
profunda do assunto é coisa
para especialista na área, o
que não sou. Mas isso não me
impede de externar minha visão
sobre a temática, como cidadão
envolvido no contexto social,
até mesmo como vítima.
Acompanhamos sempre ao
noticiário. E vemos o drama
social do tráfico de drogas
(narcotráfico). Isso já virou
rotina. Mortes, sequestros,
tiroteios, violência pra todo
lado. Todos os dias as
manchetes dos jornais (mídia em
geral) trazem matérias sobre
esse drama social. E o problema
só aumenta. Alguns analistas
afirmam que a situação pode ser
comparada a uma guerra civil. É
o ‘Poder Paralelo’. O tráfico
de drogas é uma espécie de
‘Estado Paralelo’.
Alguns especialistas lançam o
bordão: “O nosso maior
problema é o tráfico, não o
consumo”. Discordo
disso. O tráfico só existe
porque existe um mercado
consumidor. Ninguém montará um
comércio, e irá pra frente, sem
clientela. Claro que o consumo
é incentivado por um sistema
organizado do narcotráfico.
Mesmo assim não justifica. Isso
repete aquela velha máxima, por
sinal errônea, de deixar as
causas de lado e trabalhar
apenas as consequências. É a
velha história: “Matar o
boi para não ter que curar o
carrapato”. Chamo
atenção para a questão da
corrupção que assola nosso
País. Quando se denomina o
narcotráfico de ‘Poder
Paralelo’ é porque existe uma
grande rede que dá sustentação
ao esquema. Policiais
corruptos, população conivente,
políticos patrocinados pelo
narcotráfico, Justiça muitas
vezes inoperante e omissa, e
governantes com vocação de
heróis (salvadores da Pátria).
O problema é complexo. E requer
um profundo conhecimento das
causas e consequências. São
pessoas identificadas como
cúmplices do crime organizado.
Ou que cometem erro de causa.
Têm vínculo com o narcotráfico.
Denota-se que são apenas
pessoas e não estruturas. Não
podemos generalizar.
Os danos à saúde e à ordem
social são reconhecidos. As
conclusões seguem a lógica dos
números (estatística). O
narcotráfico movimenta, segundo
a Comissão Latino-Americana
sobre Drogas e Democracia,
bilhões em todo o mundo. A
Colômbia é a sede de cartéis do
narcotráfico. O mapa está
traçado. Entra no Brasil pelas
fronteiras da Região Norte, até
chegar aos grandes mercados
consumidores, notadamente a
cidade do Rio de Janeiro – RJ.
Não tenham dúvidas, em todo
esse trajeto existem os
facilitadores.
O problema é global. Portanto,
a solução requer a mesma
dimensão. “Há 200 milhões
de usuários regulares de drogas
no mundo. Desses, 160 milhões
fumam maconha. A erva é antiga
– seus registros na China datam
de 2723 a. C. -, mas apenas em
1960 a ONU (Organização das
Nações Unidas) recomendou sua
proibição em todo o mundo. O
mercado global de drogas
ilegais é estimado em US$ 322
bilhões. A revista científica
britânica The Lancet publicou,
em 2007, uma pesquisa liderada
pelo professor David Nutt, da
Universidade de Bristol. O
estudo classificava as drogas
de acordo com três fatores:
dano físico ao usuário,
potencial de vício e impacto na
sociedade”. (Revista Época,
Sociedade/Drogas, Ruth de
Aquino, 16 de fevereiro de
2009). Nisso surgem
duas convicções. A primeira é
que fracassou a política da
repressão policial. E a segunda
é que somente através da
prevenção e de campanhas de
saúde pública, pode reduzir o
consumo. Isso de forma
localizada. Exemplo: o problema
do Rio de Janeiro demanda de
uma ação federal, nas causas e
consequências. Bloquear a
entrada de drogas pelas
fronteiras do País, através das
Forças Armadas é como fechar o
tubo de oxigênio desse esquema
(narcotráfico). Depois vem a
questão localizada de cada
região.
O que mais incomoda nisso tudo
é ver as famílias descuidadas,
a começar pela própria
estrutura familiar. Os pais
delegam muitas vezes as
atividades de cuidados dos
filhos a outras pessoas. Assim,
quem forma vínculo com essas
crianças? O desnorteio é comum.
A sabedoria indiana diz que
‘a violência no lar promove
a violência social’.
Imaginem aquelas crianças que
estão em zona de risco,
proximidades do tráfico de
drogas. O mundo que estão
inseridas podem induzi-las a
experiências desastrosas, como
por exemplo, a possibilidade de
consumir drogas. Claro, cada
pessoa escolherá o certo e o
errado de acordo com sua
formação humana, educação ou
religião. Mas quando existe um
descuido por parte dessas
estruturas de valores, cria-se
uma vulnerabilidade ao crime.
Porém, isso não é automático.
Mas é comum. Dá-se dessa
maneira. Isso pela influência
de amizades indevidas e meios
sociais que as induzem a tal
caminho. Entra também a questão
social. Um Estado ausente
socialmente, permite a
consolidação do tráfico de
drogas. E isso acaba muitas
vezes criando vínculos com a
população, que torna cúmplice
do próprio crime. Daí a maior
dificuldade de solução. Eles
pensam assim: “Neste País
não temos direito algum. Então,
não teremos dever algum para
com o País”. Surge
então, o desrespeito à
legislação brasileira. A
ilicitude torna-se cada vez
mais presente.
Os adolescentes são induzidos
pela curiosidade e pelas
influências sociais. Começam
como experimentadores.
Ocasionais consumidores. Depois
vem a dependência química, e
tornam-se usuários frequentes
de entorpecentes. Existem
também os fornecedores.
César Fernandes, diretor da
ONG Viva Rio, assegura que
‘a rapaziada começa a
comprar de amigos e vê que pode
ficar rico comprando e
revendendo entra no crime sem
se dar conta. Porque não há
conversa, informação,
prevenção’. É um
reflexo. E neste caso, os
adolescentes são tomados por
uma perspectiva de melhoria de
vida. Que é falsa.
A solução para o problema do
tráfico de drogas, como se vê,
não é só um assunto do Poder
Público. É de todos. Na
prevenção e no combate. É
também uma questão global,
extrapola as fronteiras do
nosso País. Requer uma ação
conjunta entre países com uma
situação similar a nossa. Devem
existir políticas públicas de
Estado, e não apenas de
governos. De início, precisamos
de debates honestos e francos.
De caráter técnico. A
responsabilidade é de todos.
Das famílias, das escolas, das
igrejas, das instituições, de
todos os segmentos sociais.
Visto desse ângulo, a política
de repressão pode ser suicida
(um fracasso). Já é homicida
(mata muita gente, inclusive
inocentes). Agita mais do que
soluciona. Como diz um bordão:
“Violência só gera
violência”. Precisamos
de visões e ações inteligentes.
Chega de violência, a sociedade
não aguenta mais.
Marcos Damasceno
(pesquisador) |