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Trato
para o debate um tema que
sempre ocupou lugar de destaque
no noticiário, bem
familiarizado nas nossas vidas,
comum no nosso cotidiano: a
mentira. No entanto, o
interesse despertado por este
tema tem a ver com a
consciência da importância (e
da presença constante) da
mentira em nossas vidas.
Mentir é falar algo contrário à
verdade; é a expressão e
manifestação contrária ao que
alguém sabe, crê ou pensa. A
verdade é parceira da
sinceridade e da honestidade.
Está em Tiago 3.18, msg:
“Vocês podem desenvolver uma
comunidade saudável e robusta
que viva de acordo com Deus e
desfrute os resultados se
tão-somente derem conta da
árdua tarefa de se relacionarem
bem uns com os outros,
tratando-se digna e
honradamente”. Para
Rick Warren, pensador,
‘devemos ter uma grande
dedicação em falar a verdade de
forma carinhosa, mesmo quando
preferir passar por cima de um
problema ou desconsiderar um
assunto, isso requer
sinceridade. Poucas pessoas
podem contar com alguém que as
ame o suficiente para
dizer-lhes a verdade, então
continuam no caminho da
autodestruição’. O Rei
Salomão, no Mundo
Antigo, já dizia: “A
resposta sincera é sinal de uma
amizade verdadeira”. A
meu ver, amigo sincero é aquele
nos mostra nossos erros e nos
ajuda a corrigi-los, e não
aquele que nos esconde com o
objetivo de nos poupar, fazendo
com que vivamos num ambiente de
mentiras. Como dizia um
pensador: “Me magoe com a
pior verdade, mas não me iluda
com a melhor mentira”.
Penso assim. Mas isso é muito
relativo. No nosso dia-a-dia
existe o seguinte equívoco:
toda vez que uma verdade vem à
tona e pode incomodar alguém, é
rapidamente encoberta, com o
intuito de conservar uma falsa
situação de paz. Pessoas que
não dizem o que pensam e não
pensam o que dizem. O assunto
nunca é resolvido, e permanece
a mentira. Isso cria um
ambiente doentio de segredos,
onde nasce e vigora a fofoca.
Não restam dúvidas de que a
verdade é libertadora e, além
do mais, dignifica aqueles que
a valorizam.
Lamentavelmente, muitas pessoas
se destroem por falta de
verdade, de sinceridade e de
honestidade. Precisamos
amadurecer enquanto povo.
Muitas vezes vivemos num
ambiente pacífico, falta-nos,
porém, uma convivência sincera,
um meio sócio-cultural decente
e civilizado. Aquiles,
gladiador romano, dizia com
indignação: “Odeio homem
que diz uma coisa, mas esconde
outra em seu coração”.
Está na Bíblia,
em João, 8.32:
“E conhecereis a verdade,
e a verdade vos libertará”.
William Shakespeare:
“A verdade nunca perde em ser
confirmada”. Com toda a
certeza a mentira não é
indicação de inteligência, mas
um sinal característico de uma
vida sem Deus, que não
ama a verdade, é a
identificação de uma natureza
pecaminosa. Verdade é
reconhecer a mentira como
aquilo que ela é: um pecado que
nos separa de Deus. Essa
é a diferença entre a verdade e
a mentira. É vergonhoso como
hoje em dia se lida
levianamente com a mentira, de
forma natural.
Mas a mentira é um tema
complexo, e tem várias
vertentes. Tem até o lado bom,
qualidades. Vamos recorrer a
alguns pesquisadores. Em Dom
Casmurro, obra de
Machado de Assis,
Bentinho (personagem) ao
esconder da mãe o seu amor por
Capitu, disse: “A
mentira é muitas vezes tão
involuntária como a
transpiração”. Implica
dizer que mentimos o tempo
todo, muitas vezes até sem
perceber. São chamadas mentiras
inofensivas, do ponto de vista
da racionalidade de se evitar
problemas maiores, poupar as
pessoas de alguns dissabores.
Até certo ponto,
psicologicamente falando, isso
tem um real valor. Mas pode ter
consequências mais agravantes.
O fato é que a mentira é
condenada pela sociedade, por
nós mesmos. Mas é preciso ter a
sinceridade de se dizer que
(isso é definição realística da
problemática) existem situações
em que a mentira chega a ser
necessária. Na convivência
social principalmente. É usada
como meio de preservar os
vínculos afetivos, a
privacidade ou até mesmo a
civilidade. Dependendo da
situação isso tem relevância, é
justificável. Na maioria das
situações trocamos a
sinceridade (a verdade nua e
crua), ou a franqueza, por
mentira inofensiva (meia
verdade). Não sei se esse termo
existe na teoria, mas na
prática sim. São tidas como
mentiras benéficas, se é que
existe. E o psicólogo Jeff
Hancock, professor da
Universidade Cornell, nos EUA,
confirma isso. E diz que os
humanos mentem o tempo todo,
mentem até para tornar a vida
mais fácil. Platão, na
Grécia Antiga, já dizia:
“Mentir de forma consciente e
voluntária tem mais valor do
que dizer a verdade de forma
involuntária”. A
filósofa italiana Maria
Bettetini, autora do livro
Breve storia della bugia: da
Ulisse a Pinocchio (Breve
história da mentira: de
Ulisses a Pinocchio)
disse que esse tipo de mentira
deliberada pelo o homem tem
impulso criativo. Isso tudo
implica dizer que o homem
recorre à mentira como
estratégia, creio eu, de evitar
desastres. Isso traz a
lembrança de um regime
ditatorial, em que se mente
para salvar vidas ou poupar
torturas físicas ou mentais.
Existem outros casos similares.
São situações que mentir é mais
conveniente do que dizer a
verdade. E até mais humano.
Mais plausível.
Agora, temos que lembrar as
mentiras patológicas
(produzidas pela natureza e
modificações no organismo do
ser humano). São farsas criadas
pela imaginação de pessoas que
praticam a patologia (que tem
desordem mental). Construção de
realidades fantasiosas. Pessoas
que criam estórias para chamar
atenção (se aparecer),
despertar a atenção dos outros.
Ou até mesmo a admiração. No
Brasil isso é comum. Mentiras
patológicas são comuns e
rotineiras. São atitudes que
trazem consequências
desastrosas. Inventam mentiras
de forma inconsequente, e
irresponsável, para conseguir
algo, sem nenhuma preocupação
com as consequências disso, sem
nenhum respeito por si próprio
e pelos outros. São pessoas que
possuem personalidades
imaturas. São infantis e sem
escrúpulos. E
muitas vezes a mentira se torna
em verdade. De tanto se
repetir, acaba se transformando
numa verdade. Isso porque é
dita, em muitos casos, por
pessoas que possuem certa
credibilidade na sociedade, ou
ocupam algum cargo de impacto
social, e colocam o selo de
verdade. E funciona. Mas vem a
“conta” depois. E o pior
malefício de uma mentira é que
o mentiroso será sempre incapaz
de crer ou confiar nas pessoas,
pois a sua paranóia diz que são
todas mentirosas, assim como
ele.
Diante de tantas colocações e
de tantas concepções, creio que
só a verdade constrói. Só se
chega a Deus através da
verdade. Exceto, em casos em
que a mentira salva uma vida ou
evita um sofrimento maior. Caso
contrário, a verdade sempre é o
melhor caminho. Uma conversa
franca. Miguel de Cervantes,
educador, diz que ‘a
verdade alivia mais do que
magoa, e estará sempre acima de
qualquer falsidade’.
Porém, isso tudo depende da
formação humana, e moral, de
cada pessoa ou família; dos
valores dos convívios familiar
e social em que estamos
inseridos; depende também do
caráter e da personalidade de
cada um. Como disse no início,
o assunto é complexo. Quanto
mais se pesquisa sobre o tema,
mais se descobre que está
arraigado as nossas vidas. Isso
ao longo da história humana,
desde o princípio. O que nos
resta é conviver com ela no
nosso meio, no nosso dia-a-dia.
Cada um, sob a sua ótica
(visão), e de acordo com seu
senso crítico, adota a postura
que achar mais sensata sobre o
tema/ação. No entanto, devemos
está atentos às suas
conseqüências. Isso deve sempre
ser medido, refletido.
Marcos Damasceno
(pesquisador) |