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Trago
este assunto para a arena dos
debates, mesmo sendo ignorado
por muitos, mas que traz
consequências desastrosas para
a coletividade. A discussão se
fundamenta na observação e
conclusão de que o tema passa
do ofício individual para uma
tarefa coletiva. Social. Isso
na maioria dos casos. Temos a
exceção. No entanto, a
‘Frouxidão Moral’ nunca foi de
caráter localizado. A nossa
colonização, enquanto País,
sempre foi pautada na cultura
da exploração (contrário de
emancipação), fundada na
‘Frouxidão Moral’. Ausência de
ética e decência. A moralidade
sempre por parte da minoria e a
imoralidade da maioria. É
preciso ter coragem para se
dizer isso. É a realidade dos
fatos.
Mas o pior disso tudo é a
demagogia. Existem pessoas
imorais, que ainda querem a
caricatura de honestas,
decentes e morais. Na concepção
maquiavélica (de má fé) o
desvio de conduta só é cometido
pelos outros. Muitas vezes até
mesmo os honestos e éticos são
taxados como imorais. A
demagogia é tamanha e quase
generalizada. Isso porque a
formação moral da sociedade
brasileira (em regra) sempre
foi assim, propícia à
‘Frouxidão Moral’. O que mudou
do Brasil - Colônia para a
contemporaneidade foi a forma
como se apresenta o
comportamento coletivo. A
embalagem. O conteúdo é o
mesmo. Onde se banalizam os
fatores importantes, aqueles
que ajustam e disciplinam o
comportamento do ser humano
A ‘Frouxidão Moral’ anda lado a
lado com a corrupção (deriva
do
latim
corruptus que, numa
primeira acepção, significa
quebrado em pedaços e numa
segunda acepção, apodrecido,
pútrido).
No Brasil existem pessoas
honestas, mas há também um
número muito maior de pessoas
sem ética e sem respeito pelo
próximo, egocêntricas
(egoístas) e individualistas.
Existe um sistema de corrupção
tão forte aqui que, as faltas
de cumprimentos de leis, e a
falta de valores humanos estão
exterminando os valores éticos
brasileiros, fazendo com que
muitas pessoas não pensem no
bem da coletividade. E isso tem
suas bases no período colonial,
tempo em tudo era das
“famílias” ou da “burocracia
estatal”. Daí a nossa cultura
permitir a prática da
‘Frouxidão Moral’. É uma
decorrência trágica, e natural,
desse traço cultural. Um
problema de colonização.
Implica dizer que, a corrupção
está no nosso ‘DNA’, às vezes
recessivo, às vezes dominante.
O fato é que o nosso sistema
sociocultural é corruptor,
irresponsável e inconsequente.
A sociedade, em regra, aceita e
de certa forma até convalida a
situação, o que torna o combate
difícil. Assistir à corrupção
faz com que o cidadão passe a
descrer da capacidade do País
de coibir erros. Daí, quem age
certo começa a se questionar se
vale a pena andar dentro da
Lei. Para existir uma Justiça
eficiente, no ponto de vista do
exemplo e da escolha pelo
justo, é preciso uma revisão
mais abrangente, profunda e
democrática. E rápida. Penso
assim. E tenho em mente que se
existe um corrupto, existe
também um corruptor.
Infelizmente a luta social no
Brasil, em regra, nunca foi
limpa. Há pessoas que tentam
corromper outras, infringem as
regras, lançam mão de golpes
baixos, para conquistar o que
desejam. Isso a qualquer custo
e por qualquer caminho.
Querem ser malandras e enganar
aos outros. Tem sempre alguém
que fica o tempo todo
imaginando de que forma
ludibriar ao próximo. E aí
surge a preocupação:
“Será que os outros vão fazer
comigo o que eu faço com
eles?”. E o Brasil
entra no lamaçal da
imoralidade. E os éticos
geralmente perdem. “A
ética é um valor que, para
funcionar, precisa ser vivido
totalmente. Tem de ser um
princípio, não admite dúvidas.
Pessoas éticas criam uma
carreira honrada, uma vida
referencial aos outros.
Confiáveis e confiantes, com um
coração limpo e uma fé
inabalável, bem –
intencionadas, constroem um
caminho mais seguro e mais
rentável a todos. A honestidade
deveria ser requisito
elementar, uma obrigação, na
convivência social”. (Roberto
Shinyashiki, médico
psiquiatra e escritor
renomado). Não sei se consigo
acrescentar alguma coisa
significativa nesta afirmação.
Porém, posso assegurar que
historicamente tivemos uma
democracia “monetária” no
Brasil. Isso é fato. E existem
muitos brasileiros corruptos
exigindo, de forma hipócrita e
demagoga, ética e moral no
Brasil. E quando estão numa
agência bancária querem cortar
a fila, quando vão à uma
repartição pública querem levar
vantagem etc.. Enfim, isso é o
espelho da sociedade
brasileira, na sua maioria. E o
mais grave nisso tudo é que no
Brasil, a corrupção não
incomoda ao senso comum da
maioria dos brasileiros. A
sociedade está corrompida, e o
maior corruptor é a ideologia
vigente. Isso se deve àquelas
imperfeições inerentes aos
seres humanos na nossa origem
enquanto colônia. Isso vem se
arrastando há mais de 500
(quinhentos) anos. Ideais de
justiça, igualdade e liberdade
são sempre esquecidos quando o
que existe são interesses
cristalizados (permanentes, sem
mudança) na busca por
privilégios. Por vantagens.
São
valores formados dentro do seio
familiar, e posteriormente no
meio social. E no final, a
formação disso tudo (o conjunto
de valores) gera a sociedade
que vemos. Rui Barbosa
(Rui Barbosa de Oliveira,
1849-1923/Bahia) dizia com
convicção que se chegaria uma
época em as pessoas teriam
vergonha de ser honestas.
"De
tanto ver triunfar as
nulidades, de tanto ver
prosperar a desonra, de tanto
ver crescer a injustiça, de
tanto ver agigantarem-se os
poderes nas mãos dos maus, o
homem chega a desanimar da
virtude, a rir-se da honra, a
ter vergonha de ser honesto"
(Rui
Barbosa).
Estamos
próximos. E tenho minhas
dúvidas se já não estamos nela
(época) há muito tempo. E o
reflexo disso é são os
ofensores sendo admirados, os
princípios se acabando e
prevalecendo só o oportunismo,
quando tudo entra no caminho da
imoralidade, mas a maioria fica
quieta porque tem uma fatia à
espera. A corrupção existe no
mundo todo, isso é da natureza
humana. Não é uma
particularidade do Brasil. Mas
a impunidade (falta de punição)
é algo bem brasileiro.
Enraizado na formação moral
constituída desde o Brasil –
Colônia. E como dizia o médium
Chico Xavier, ‘ambiente
limpo não é o que mais se
limpa, e sim o que menos se
suja’. Pegando o gancho
da confirmação dessa
problemática, vale salientar
que a parcela maior é originada
do perfil do povo brasileiro:
existem os brasileiros que
fazem acontecer (minoria), os
que esperam acontecer - esperam
o mundo mudar para mudar a si
próprio - (grande parcela), e
os que não sabem o que está
acontecendo (maioria).
O problema é praticamente sem
solução. Primeiro, porque quase
ninguém tem culpa e está
errado. A culpa e o erro são
sempre dos outros. “Todo mundo
é honesto”. Isso me vem à
lembrança de um caso da Justiça
japonesa, envolvendo uma
brasileira. No começo da
audiência ela (brasileira) se
dizia honesta, não tinha culpa
de nada, negava os fatos
(“contra fatos não há
argumentos”). Mas até aí tudo
bem. A defesa é um direito do
cidadão. Mas o que chamou a
atenção do juiz de Direito que
julgava o caso foi a iniciativa
daquela mulher em
“santificar-se”. Pensava que
estava no Brasil, sendo julgada
pela nossa Justiça, que em
regra é injustiça e deficiente.
Que muitas vezes reproduz
injustiças. E o juiz de
Direito, ao término da primeira
audiência, e ao anunciar a
segunda, disse àquela
brasileira (trazendo para a
Língua Portuguesa): “Da
próxima vez venha com defeitos”.
Este caso é um reflexo da
demagogia, do maquiavelismo e
da hipocrisia existentes na
nossa formação moral. Para o
‘Código de Honra do Japão’ tal
atitude por parte da brasileira
era sinônimo de desrespeito e
achar que a Justiça japonesa
era frouxa moralmente, como a
nossa. Lá a formação moral é
outra. Certa vez, um Ministro
de Estado se suicidou porque
foi descoberto um roubo que
cometeu nas finanças públicas,
onde ficou com tanta vergonha
(pela pressão social do ‘Código
de Honra’). Aqui no Brasil quem
rouba é herói, louvado em praça
pública. A indignação parte
somente de uma minoria de
brasileiros. Honra,
honestidade, ética e decência
são virtudes dos imbecis. É
assim que é praticado nosso
‘Código de Honra’. Heróis são
os espertalhões da Pátria.
Tiradentes
(Joaquim José da Silva Xavier,
1746-1792/Minas Gerais), líder
da ‘Conjuração Mineira’-
conjuração: conspiração contra
autoridade estabelecida-, já
dizia na época do Brasil –
Colônia que enquanto no Brasil
‘Ordem e Progresso’ significar
‘ordem para os pobres e
progresso para os ricos’,
continuar a desigualdade social
e a falta de justiça (ou
existir uma justiça injusta)
continuará sendo um país –
colônia. Nunca terá o respeito
e a roupagem de uma nação, de
uma república federativa.
Recordo Tiradentes como
um exemplo da hipocrisia do
Brasil. Ele foi o herói que
defendeu nosso País como um
verdadeiro estadista, contra a
exploração irracional da Coroa
Portuguesa (notadamente contra
os impostos), e foi julgado
como o imoral, que cometeu
desvio de conduta, alguém que
desrespeitou a “Lei”. Foi
executado em praça pública como
exemplo de “cumprimento da
Lei”. Lei da hipocrisia, da
injustiça, da demagogia. A meu
ver, o exemplo deixado foi
este.
Isso traz um agravante: se não
mudamos a nós mesmos (nossos
hábitos, métodos, atitudes,
valores culturais, conceitos
morais, princípios éticos e
normas comportamentais) como é
que vamos mudar a coletividade?
Segundo, vem a falta de
exemplaridade. Se a geração
atual não deixa nada como
proposta de mudança para a
vindoura, como é que vamos
mudar? Ou pelo menos melhorar?
Claro, a formação moral nem
sempre é formada pelo convívio
familiar-social. É também algo
pessoal. Mas temos que admitir
que a pressão social (para o
bem ou para o mal) influencia
muito. Os principais culpados
somos nós mesmos. Só
lamentamos, como se não
houvesse nada a ser feito.
Sempre esperamos pelo próximo,
e não tomamos nossa atitude,
não assumimos nossa parcela de
responsabilidade. É o reino da
hipocrisia (fingimento).
Não tenho a pretensão de
consertar o Brasil. Muito menos
o mundo. Isso é praticamente
impossível. Pra não dizer
impossível. Pra ser possível
depende do impossível. Tempo?
Não somente. Depende da mudança
na formação moral da sociedade.
E essa estrutura moral é muito
complexa. Agora, quero sim,
privilegiar a qualidade deste
artigo, sua relação com a
cultura (dos éticos, honestos,
honrados, decentes), de tal
maneira que se socialize a
informação da necessidade de
uma boa formação moral. E isso
começa pelo gosto intelectual
de cada um. O pensamento
coletivo é formado pelo
pensamento pessoal. Está na
Bíblia, em Romanos
12.1-2: “Transformai-vos
pela renovação da vossa mente”.
Qualquer atitude que se torne
injusta aos olhos do povo deve
ser denunciada, qualquer
repartição pública que provoque
injustiça deve ser antipatizada
e ter reprovação popular,
porque isso causa prejuízo
sentimental à sociedade, pois
consome nossas energias, nosso
tempo e nossas riquezas. Cada
brasileiro tem dois ouvidos e
uma boca, basta que os use de
acordo.
Esperem um pouco! Vocês que
fazem parte da trincheira da
minoria (da ética, honra,
moralidade e decência) não se
“joguem ao mar”. Precisamos
apenas de uma nova arrumação
social. E cultural. Isso será
possível a partir do momento em
que a sociedade tomar para si a
sede pela justiça, bem como
formalizar uma concepção em que
surjam normas de convivência
social para a obtenção de outro
padrão de comportamento. E as
normas não podem continuar
decorrendo (e o pior é que da
maioria) de pessoas que se
julgam detentoras da
manifestação da vontade de todo
o conjunto da sociedade. O
debate não foi feito ainda na
dimensão ideal. Desde já, as
contribuições intelectuais e
morais serão bem-vindas. Não
podemos abrir mão deste
conceito. A conduta humana é o
vetor básico para a formação do
meio social. É preciso ter uma
margem da sociedade engajada na
coordenação desse projeto. Não
dá para se conviver com uma
atrocidade dessa dimensão, com
uma vida culturalmente
desconfortável. Precisamos de
exemplaridade (de bons
conceitos, bons exemplos, boas
referências e reservas morais),
precisamos de justiça. Sendo
assim, todos sairão ganhando.
Marcos Damasceno
(pesquisador) |