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Historicamente no Brasil
constatamos uma linha de
atuação na área da educação de
forma demagógica. O debate é
sempre quantitativo. São
números e mais números. É a
pura estatística. E a realidade
“in loco” sempre é diferente
dessa matemática. E além disso,
o critério da qualidade não é
apreciado, muito menos
trabalhado. Isso no contexto
geral, e estamos falando de
‘Educação Pública’, pela
complexidade e dimensão é de
difícil planejamento. O
contexto geral é muito amplo e
complexo. E cada região, cada
caso, tem suas
particularidades. Então, a
tarefa de planejar é difícil.
Porém, é necessária.
No entanto, não quero culpar
setor “A” ou “B”, Poder Público
ou profissionais da educação,
pais enfim; os pecadores não
vêm ao caso. Prefiro falar
sobre o pecado, tratar o
contexto geral do assunto.
Dentre os fatores, a falta de
didática e de metas de
aprendizagem. Ao longo dos
anos, a defasagem do currículo
e dos conteúdos, a falta de
relação com a realidade e uma
série de outros fatores tiveram
reflexos na não – aprendizagem.
Mas a raiz de toda a
problemática, creio eu, é o
desprestígio que sempre sofreu
a educação no nosso País.
Claro, sempre temos avanços
aqui e acolá. Mas o contexto
geral sofre pouca
transformação. A bem da
verdade, não é prioridade.
Temos o exemplo do Japão que
foi totalmente destruído em
1945 na 2ª Guerra Mundial, e
que hoje é a segunda maior
potência do planeta. Isso
porque investiu todos os
esforços e recursos na educação
do seu povo. Outro exemplo é a
Austrália, que ficou sem
estrada, sem saúde etc, para
investir todos os recursos na
educação. Hoje é um país
desenvolvido. Enfim, os
investimentos no Brasil são
pífios para nossa demanda e
potencialidade.
Quer um exemplo? Conheço
funcionários públicos em
Brasília-DF, capital federal,
são meus amigos, que ganham
salários exorbitantes para
passar o dia tomando café,
falando da vida alheia e
conversando “abóbora”. Enquanto
nossos professores enfrentam as
piores dificuldades pelo Brasil
a dentro (sol, chuva, acessos
difíceis, falta de estrutura de
trabalho, violência física na
escola etc) e ganham menos do
que 10% disso. Já fiz a conta.
Onde está o exemplo. E o
principal: a justiça. Pode ser
legal, mas é imoral. E por aí
vai. De onde vem então a
motivação para educar e formar
cidadãos? Sim, porque o
Magistério é a profissão-mãe,
forma todas as outras. Eu não
acredito num sistema
educacional com professores
ganhando mal, com estruturas de
trabalho normalmente
deficitárias, inexistência de
incentivos de qualificação,
dentre outros. Enquanto
continuar esse discurso da
“embalagem” e pouco “conteúdo”,
muito discurso e pouco
resultado, por parte de quem
tem poder sobre as políticas
públicas e a definição dos
rumos da educação, eu não
acredito em transformação.
Avanços? Existem, e muitos! Mas cada avanço leva anos para ocorrer, de
maneira que quando vem chegar
já está quase ultrapassado.
RUI BARBOSA, há mais de 80
anos, já falava em
algumas reformas para educação,
e só agora surgiram. A
produtividade é muito baixa. As
reformas demoram demais. O
sistema funciona devagar para
nossa necessidade. Para a
urgência do desenvolvimento. E
sem educação universalizada e
de qualidade, jamais haverá
desenvolvimento.
Para tanto, é
necessário integridade
(administrativa e
profissional). Não estou nem
falando de perfeição. É de
praxe (costume) no Brasil
louvar qualquer melhora. As
grandes transformações são
desprezadas. Isso é pensar
pequeno. É “apequenar” a
importância da educação para o
desenvolvimento. Não estou
falando de governos, mas de um
sistema. Somos todos culpados
disso. Ser íntegro é fazer
autocobrança, autocrítica. É
dizer: “Eu errei aqui,
acertei ali, preciso melhorar
acolá”. Isso é
planejamento. Administrar as
metas e gerir os resultados.
Integridade traz compromisso.
Muitas vezes não existem
compromissos, porque não existe
integridade. E não existe
integridade porque existe um
sistema de escolha e
representatividade com uma
orientação, em regra, que
desprestigia a educação.
“Qualquer avanço está bom”.
Não é culpa só de gestor
público. Como dizia RUI
BARBOSA: “É o
sistema”. É preciso ter
a coragem de se dizer que quem
defende uma educação de
qualidade é minoria neste País.
Muita coisa funciona da boca
pra fora. E essa minoria está
acima da média no quesito
qualidade.
Sempre tem alguém à frente da
pasta da educação para fazer
espetáculo, como é de costume,
se aparecer, e logo ser
candidato a alguma coisa. O
cargo é só para holofote e
poder. É sempre assim.
MACHADO DE ASSIS nunca foi
Ministro de Estado da Educação.
FLORESTAN FERNANDES,
DARCY RIBEIRO, ANÍSIO
TEIXEIRA, RUBEM ALVES
também não. CRISTOVAM
BUARQUE foi, mas acabou
sendo derrubado pelo sistema.
Como dizia JÂNIO QUADROS,
pelas forças ocultas. Sistema
dos vícios, do fisiologismo,
que não traz transformação.
Isso é só para efeito de
comparação. Países
desenvolvidos, que têm a
educação como prioridade,
escolhem as maiores autoridades
na área para a execução de
planos de grande envergadura. O
fato é que a educação é um tema
usado com certa demagogia no
Brasil. “Todo mundo é a
favor de melhorar, mas poucos
fazem alguma coisa para que
isso aconteça”, ouvi
isso do próprio CRISTOVAM
BUARQUE, símbolo da tese da
transformação real da educação
para patamares melhores, no
nosso País. As maiores
conquistas na área têm sua
participação. O que existe é
muita conversa fiada. A pasta é
tratada como uma coisa comum, e
não como um instrumento de
desenvolvimento. A maioria dos
gestores públicos está na
média, só faz o dever de casa,
na marra. Porém, existe uma
exceção que projeta metas mais
ousadas. Pra se ter uma ideia,
pegando nossa região como
referência, quantos municípios
possuem bibliotecas públicas,
teatros, cinemas, escolas de
música e de dança, estruturas
de esporte etc.? São
ferramentas essenciais para a
transformação, e que fazem
parte do conjunto de metas
ousadas. No entanto, tenho que
lembrar mais uma vez: a
distância entre o desejável e o
possível. Tem que ter recursos
para isso, e para ter recursos
tem existir o interesse, ser
prioridade.
A responsabilidade é de todos.
Basta lembrar-se da
participação das famílias no
planejamento e execução de
metas para a educação. Está em
jogo a informação e formação
dos seus filhos. Cito um fato:
na década de 60 um jovem tinha
uma informação pior do que o
jovem de hoje, ma por outro
lado, tinha uma melhor
formação. O miolo disso tudo, a
causa principal, é um quase
generalizado descuido por parte
das estruturas de formação do
indivíduo (família, igreja,
escola, sociedade e mídia).
Existe um descompasso muito
grande entre estas estruturas.
Pouca coisa está afinada.
Chegam a existir conflitos de
ideias e de valores. Sempre se
evidencia aquele costume
corriqueiro de se achar que a
culpa é sempre dos outros. E
“eu” sempre estou isento de
parcela de responsabilidade.
Muitos só querem o bônus, o
ônus são poucos que aceitam.
Essa é que é a verdade. Basta
lembrar-se dos pais de alunos:
muitos sequer pisam na escola
para saber da situação do seu
filho, não acompanham a sua
educação, e depois querem jogar
a culpa toda nos professores ou
na escola. Nesse caso, quer que
a escola faça o papel da
família, o papel que eles
(pais) não cumprem.
A sociedade como um todo tem
que aparecer como gerenciadora
da realidade do Magistério.
Mais participação. Chamar pra
si a responsabilidade. E depois
cobrar tudo e de todos. Ser
amiga dos professores (e de
todos que fazem parte do
processo da educação) e
participar no cotidiano
escolar, e nas demais
estruturas de formação. Esse
acompanhamento por parte dos
pais ou responsáveis pelo
educando é de suma importância.
Chega a ser imprescindível. E o
País não pode aparecer só como
empregador, mas administrar
metas e resultados. A escola
não se resume à relação
professor/aluno. Um sistema
educativo deve ser entendido
como a articulação de três
subsistemas: o familiar, o
escolar e o sócio-cultural. E
quero lembrar, que as escolas
perdem o sentido se não
conseguem alfabetizar nem dar
significado ao aprendizado.
Diante disso, é necessário se
rever o projeto pedagógico, e
aperfeiçoar os métodos. Só
haverá comprometimento se
houver envolvimento. Temos que
envolver todos nessa causa
cívica.
Marcos Damasceno
(pesquisador) |