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Resumidamente, temos 05 (cinco)
estruturas básicas de valores:
a família, a escola, a igreja,
a sociedade civil e a mídia. O
indivíduo tem como referência
de valores cada uma delas, em
cada etapa da sua formação
humana. Se elas fracassarem,
esse indivíduo perde o ponto
referencial de valores sadios,
benéficos ao seu
desenvolvimento sociocultural,
e educacional.
A exemplaridade é importante. A
criança tem como referência
elementar a família, em
seqüência a igreja, a escola, a
sociedade civil e a mídia, como
foram mencionadas
anteriormente. Mas nem sempre a
sequência é esta. Existem casos
em que a mídia chega antes das
demais estruturas. Isso depende
do nível de orientação
familiar. E nisso entra a
preocupação quanto às mídias
mercantis, isto é, aquelas que
são mais comerciais e menos
educativas. Normalmente, as
mídias mercantis são
sensacionalistas, sempre optam
por uma pauta em que a ordem do
dia é escandalizar; tentam
explorar o lado emocional das
pessoas. Isso é uma falsa
ilusão de sensibilidade social.
O objetivo, por trás disso
tudo, é a chamada audiência (o
conhecido IBOPE). É o comércio
midiático e seus interesses
comerciais. A qualidade do
conteúdo é sempre secundária. A
educação de um povo fica em
segundo plano. São lixos
comerciais que são jogados para
a platéia, e que as famílias,
assim como outras estruturas,
como as igrejas e as escolas,
devem trabalhar uma orientação
pessoal-social que dê preparo
espiritual e racional para as
pessoas, para ao confrontarem
com tal problemática, terem uma
opinião já formada.
A partir daí, aumenta a
responsabilidade dessas
estruturas referenciais de
valores, pois para pregar a
moralidade devem possuir moral.
Por exemplo: um pai que bebe,
não tem moral para reclamar o
filho ao beber; a igreja que
comete desvio de conduta, não
tem moral para julgar e
condenar o pecado de seus
fiéis; a escola impotente e
fragilizada, na sua essência,
não tem força para moralizar o
educando; a sociedade civil que
erra, não tem moral para
condenar o erro do indivíduo; a
mídia que patrocina a baixaria,
não tem aval para falar em
cidadania. Recorro à sabedoria
popular: “A palavra
convence, mas é o exemplo que
arrasta”. Primeiro,
devemos ensinar com o exemplo,
depois com os conceitos,
disciplinas e rótulos. A
trilogia RxRxR (respeito a si
próprio, respeito aos outros e
responsabilidade por nossos
atos), é fundamental para uma
boa convivência social. Nisso
surge a firmeza de caráter,
disciplina, força de vontade,
humildade, concórdia etc.
O indivíduo
normalmente, dentro da
racionalidade, segue o que as
referências fazem e não o que
elas falam. Em resumo, é
preciso ter em mente que
respeito não se impõe, se
conquista. Portanto, a
imposição deve ser substituída
pelo esclarecimento, pela
conversa franca e pela
exemplaridade. E o costume de
casa sempre é levado pra praça,
para a convivência social. O
conflito surge nas 03 (três)
paixões: ser, ter e poder:
“Eu sou isso, eu sou aquilo.
Eu tenho isso, eu tenho aquilo.
Eu posso isso, eu posso
aquilo”. É como se o
indivíduo tivesse que
consolidar uma dessas paixões,
ou até mesmo as três, para se
sentir numa situação
“privilegiada”, ou seja, a
sensação de “superioridade”.
Caso contrário, vem a decepção
e a depressão. Torna-se numa
pessoa vulnerável à pressão
social. Por exemplo: para
mostrar poder o ser humano
tende a dar ordem seja em quem
for, até mesmo num animal de
estimação. É o super-ego. Se
não encontra essa oportunidade
no meio social, chega em casa e
descarrega no cachorro:
“Cale a
boca totó!”.
Talvez a estrutura mais
complexa, que enfrenta a maior
parcela de responsabilidade é a
família. Família é a base de
tudo. Tudo começa por ela, e
termina por ela. A família é a
célula da sociedade. É a base
para qualquer indivíduo. É a
pedra angular do ser humano. É
a referência inicial de
valores, conceitos e normas.
Segundo a Constituição Federal,
a nossa Carta Magna, ‘a
família é a base da sociedade e
seu dever, compartilhando com a
sociedade e o Estado, é amparar
as pessoas assegurando sua
participação na comunidade,
defendendo sua dignidade e seu
bem-estar e garantindo-lhes o
direito à vida’. Sendo
assim, os membros da família
devem conservar essa estrutura
familiar, seus processos de
vida, manter suas posições
junto ao grupo familiar e à
sociedade. No entanto, fazendo
uma paráfrase ao consultor
Amarildo Georg, ‘a
família passou a entrar em
crise, principalmente de
valores, é o vazio existencial
promovido por uma educação
familiar em que tornou os
membros mais preocupados em ter
do que em ser’. E ele
alerta para o risco desse
relaxamento normativo, na
estrutura familiar: “Os
lares não são mais aquele ninho
familiar onde se compartilhava
os sonhos, onde se praticava o
afeto e o carinho, pois o
núcleo era forte e inabalável.
Hoje, a família não mais se
reconhece. Amanhã, por
conseqüência, será uma
sociedade confusa e perdida”.
Como fatores
consequentes, podemos citar a
violência física (agressão
física, homicídios, suicídios
etc), a emocional (agressão
verbal sistemática, humilhação
constante, insultos, privação
de informação e isolamento
social intencional), a
econômica (furtos e roubos nos
lares por próprios membros), e
a negligência (falta de
cuidados, monitoramento dos
atos dos membros da família,
filhos abandonados). É
necessário, no entanto, a
compreensão das transformações
sociais e culturais que vêm
acontecendo nos últimos anos.
Porém, a família deve continuar
sendo a referência básica, o
núcleo sagrado, para os
indivíduos. Isso porque,
certamente, não
automaticamente, o bom filho
será um bom católico ou um bom
evangélico, um bom estudante,
um bom telespectador, e um bom
cidadão. Há a necessidade de se
manter o vínculo afetivo, mais
ainda, entre os membros e a
família. Isso passa pela
transferência de atenção e
carinho.
Não adianta censurar o pecador
e o pecado permanecer. Zita
Lago, grande personalidade
na temática, PhD (Pós-doutora)
em Gestão e Políticas
Educacionais, foi minha
professora, defende a ‘Tese das
Micro-éticas’, pequenas normas,
para disciplinar as crianças,
separando o que é desejo do que
é necessidade. Colocar limites.
Pitágoras aconselhava:
“Eduquem as crianças e
não será necessário castigar os
homens”. É ter coragem
de dizer não. De desagradar.
Isso tudo na certeza de que
assim será melhor para a
educação desse indivíduo.
Segundo um psicólogo, ‘a
língua é o chicote da
alma’. Nisso entra
também a transição cultural, o
conflito entre a globalização e
a identidade cultural de cada
região. Até onde a globalização
é benéfica? E quando passa a
ser prejudicial ou dispensável?
Qual a vantagem de se manter as
características regionais, no
contexto sociocultural? A
passividade é outro fator
preocupante. Ter o conhecimento
não basta, precisa-se ter
atitude. Deixar de ser um
portador de direitos para ser
um lutador pelo direito.
Encontrar formas de lidar com
esse conflito cultural, dosando
a influência de cada parte, a
globalização e a identidade
regional. Só quebra paradigma
quem tem conhecimento, como
também, só perde as raízes quem
não tem conhecimento.
A sociedade civil deu um salto
qualitativo (a sociedade do
conhecimento), ao seguir a
trilha da informação e
conscientização. A onda de
mudanças sempre chega,
independente das vontades
individuais. E atinge tudo e a
todos. Agora, é preciso
cuidado. Seletividade. Não
podemos aceitar tudo. No meio
disso tudo existem coisas
ruins, maléficas à formação
humana das pessoas. Existe um
bordão que diz: “Não
existe bom sem defeito, nem
ruim sem qualidade”.
Então, nessa decisão é preciso
muita cautela, muito controle e
muita observação. Por fim, cada
indivíduo, cada núcleo social,
deve controlar essa avalanche,
assimilando apenas aquele
conhecimento que servirá como
instrumento de melhoria de
vida. Os lixos culturais devem
ser excluídos. Devemos lembrar
sempre que a cidadania é o
valor elementar na sociedade.
Marcos Damasceno
(pesquisador) |