|
Ao longo da História, surgem
figuras que a memória coletiva
jamais esquece. São seres
humanos atuantes, fiéis à causa
coletiva e com grande
importância sociocultural. É
nesta concepção que defino o
Sr. Júlio Dias da Silva,
conhecido popularmente como
Júlio Dias.
Nasceu no final do século XIX,
sem muita precisão ao ano, na
localidade Curral Novo, hoje
sede do município de Dom
Inocêncio - PI. Filho do Sr.
Hermógenes Dias da Silva, o
maior educador cívico já
existente na região, e Dona
Vitalina Dias da Silva. Sua
história de vida é uma
referência para toda região. Já
cresci ouvindo meu avô paterno
(Joaquim Damasceno)
falar sobre o Júlio Dias,
já ensinado pelo seu pai, meu
bisavô paterno (João
Damasceno). Meu avô dizia
que foram contemporâneos.
Segundo populares, ele foi um
dos mais expressivos da
história regional. Sua história
de vida forma um livro. E dos
bons. Foi um homem polivalente:
médico prático, ferreiro,
joalheiro, tabelião, Juiz de
Paz, professor, músico,
fotógrafo, marceneiro, político
e cientista. Destacou – se na
medicina prática, na época
tinha uma demanda ainda maior
do que hoje e com desafios
maiores. Era uma espécie de
rábula, pessoa que exercia a
profissão sem diploma. Um
autodidata. Foi o “médico” do
povo. E segundo relatos, nunca
errou um diagnóstico. Fazia
partos, cirurgias, consultas
médicas, receitava remédios, no
qual, ele mesmo fabricava.
Muito antes de se descobrir o
soro antiofídico, ele já havia
descoberto uma receita que
funcionava como ímã na remoção
do veneno da cobra. Isso
através de uma pedra quente e
chifre de veado (animal da
fauna local). Fabricava esse
produto e aplicava em pessoas
picadas de cobra. E dava certo,
eram salvas. Era um gênio.
Exerceu essa profissão como
voluntário, nunca cobrou nada
por isso. Viajava grandes
distâncias para atender uma
pessoa enferma, montado a
cavalos. “Isso para ele era um
prazer”, relata seu genro (Valter
Gomes). Na opção pela
bondade estava a força do seu
pensamento altruísta. Estava
também a receita da própria
felicidade pessoal.

Júlio Dias como médico
De acordo com sua biografia,
feita pela Escolinha Júlio
Dias, como joalheiro fazia
verdadeiras obras de arte
(peixes de ouro, jóias etc).
Como ferreiro, fez uma agulha
de injeção, feita de ouro, para
aplicação de medicamentos.
Ainda sobre sua atuação nessa
profissão, meu avô materno (Manoel
Oliveira) conta que seu
pai, meu bisavô materno (Alexandre
Oliveira), certa vez o
procurou para o conserto de um
rifle (calibre 44). E o
Júlio Dias o consertou
muito bem e ainda se atreveu a
fabricar suas balas (munição).
Mas pediu alguns dias,
precisava primeiro fazer a
máquina própria para carregar o
cartucho. E ainda descobriu a
receita para fabricar a
pólvora, através de uma
substância retirada de uma
árvore da flora local. Era um
homem de uma inteligência
incomum. Foi também um amante
da música: tocava sanfona
(pé-de-bode), violão,
clarinete, cavaquinho e
realejo. Fala-se que foi a
referência para musicalidade
regional. A inspiração. Ele foi
quem descobriu esses
instrumentos musicais para a
região, e os socializou.
Gostava também de fotografar, e
ainda montou um laboratório
para revelar as fotos na sua
própria casa. As fotos mais
antigas na região, em que se
conhece, foram tiradas por ele.
Era um cientista.
Foi professor, uma
espécie de vocação hereditária.
Herdou a profissão do seu pai
Hermógenes Dias, dito
como o maior educador cívico da
região. Foi a sua grande
escola, ele próprio. Era o
tempo da chamada autodidática.
Nessa tarefa foi importante na
educação de crianças, jovens e
adultos. Deu uma contribuição
educacional para a geração dos
meus avós. Foi ainda tabelião,
onde participou de muitas
missões tabelionais ocorridas
na região, lideradas pelo Bispo
Dom Inocêncio. Depois
foi promovido a Juiz de Paz.
Nesse cargo, lutou em defesa
dos que não tinham voz. Não
fechou os olhos como muitos,
diante de uma realidade cruel e
cheia de injustiças sociais.
Lutou do começo ao fim por um
ideal de paz, concórdia e
fraternidade. Não aceitava
nenhum tipo de conflito, de
guerra. Era um cidadão de todos
os povos. Um homem simples que
pertencia ao povo. Estava
sempre à sua disposição. Muito
acessível. Os valores mais
altos da dignificação do povo
foram defendidos.
Exerceu a política. Foi
vereador pelo município de São
Raimundo Nonato, Estado do
Piauí. Exerceu o cargo com
muita dignidade e compromisso
social. Meu avô paterno (Joaquim
Damasceno) conta que o
Júlio Dias era muito
admirado e respeitado pela sua
maneira cívica, e civilizada,
de atuação política. Deixou o
exemplo. E muitas obras. Tanto
que foi perseguido por
políticos da linha da sujeira,
representantes do atraso, por
que não fazia parte desse
esquema, em que não existia o
cívico, o interesse público.
Meu bisavô paterno (João
Damasceno) tinha no
Júlio Dias uma referência
da política do bem e de
resultados sociais. Era um
regionalista autêntico. Homem
de personalidade fortíssima,
nunca se sentiu intimidado, nem
desalentado, mesmo tendo que
enfrentar o coronelismo
político existente na época.

Júlio Dias como
vereador
Faleceu no dia 18 de novembro
de 1963. Com a força de quem
dignifica os ditames da sua
consciência, Júlio Dias
sempre trabalhou, inventou,
criou, solucionou, serviu,
colaborou, com a esperança de
que não seria em vão a sua
luta. Foi um homem em sintonia
com a vida, e com a região, um
exemplo de humildade e de
sabedoria. Era um homem
popular, gentil e humanitário.
Deu uma contribuição histórica
no campo social, cultural e
intelectual na região.
Se existe alguém na
nossa terra que merece todas as
honrarias, esse homem é
Júlio Dias. Vale registrar,
que foi homenageado na gestão
do prefeito Luiz de Sousa
Santos (Luiz da Benta),
em Dom Inocêncio – PI, onde o
Posto Municipal de Saúde
recebeu seu nome: Posto
Júlio Dias. Em referência à
sua atuação como médico
prático. Também tem seu nome
memorizado na Escolinha
Júlio Dias, no nosso
município (Dom Inocêncio – PI).
A esse homem devemos muita
coisa.
Marcos Damasceno
(pesquisador) |