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Perfil:

- Técnico Agrícola, com Habilitação em Agricultura, pelo CEFET/PE;

- Bacharel em Engenharia Agronômica pela UESPI/PI;

- Extensão em Desenvolvimento e Comportamento Humano, pela FACINTER/PR;

- Extensão em Gestão em Administração e Marketing, pela ESAB/ES;

- Aperfeiçoamento em Planejamento Estratégico, pelo PE/MS;

- Aperfeiçoamento em Projetos Educacionais, pelo PE/MS;

- Aperfeiçoamento em Marketing na Gestão Empresarial, pelo PE/MS;

- Aperfeiçoamento em Gestão de Equipes, pelo PE?MS;

- Aperfeiçoamento em Práticas Pedagógicas, pelo PE/MS;

- Aperfeiçoamento em Vigilância Sanitária, pelo PE/MS;

- Aperfeiçoamento em Gestão Financeira, pelo PE/MS;

- Aperfeiçoamento em Gestão de Recursos Hídricos, pelo PE/MS;

- Aperfeiçoamento em andamento em Gestão Escolar, pelo PE/MS;

- Aperfeiçoamento em andamento em Empreendedorismo, pelo PE/MS;

- MBA Profissional em andamento em Gestão Pública e Responsabilidade Fiscal, pela ESAB/ES.


Os Heróis da Resistência e a Revolução Comportamental

mascosdamasceno23@yahoo.com.br


A minha observação nesse momento se inspira em fato significativo, do ponto de vista regional. Objetiva aplaudir homens e mulheres que marcaram época, verdadeiros heróis, líderes históricos. ‘Heróis da Resistência’, assim denominado, foi um movimento que existiu na nossa região, no período de 1930 a 1951, onde objetivava protestar contra as decisões políticas, todas as mazelas existentes e cobrar providências dos governos estadual e federal. Esse movimento teve como mentor o Sr. MARCOS IDALINO, da Localidade Campestre, hoje município de Coronel José Dias, e se estendeu até o Território de Ponta da Serra, hoje localidade do município de Dom Inocêncio, sob a liderança de JOÃO DAMASCENO. Eram homens corajosos, determinados e decididos. Tinham o seguinte grito de guerra: “Nenhum de nós é mais importante do que todos nós juntos”. Essa denominação ‘Heróis da Resistência’ partiu do cearense JUAREZ TÁVORA, influente integrante do governo ditatorial de GETÚLIO VARGAS. Diga-se de passagem, teve que engolir essa movimentação, mesmo sendo um homem carrasco e impiedoso. Isso porque estavam à frente dois homens muitos conhecidos, até mesmo pelo presidente VARGAS (MARCOS IDALINO e JOÃO DAMASCENO). Conheceram-se na ‘Revolução de 30’. Quanto à amizade de MARCOS IDALINO e JOÃO DAMASCENO era tão verdadeira, que rendeu uma homenagem: meu nome (Marcos) é em sua homenagem. Tenho orgulho disso.

 

Homens autodidatas, práticos e ainda ideólogos evolucionistas. Eles lutaram uma vida pelo bem e progresso da região. E para BRECHT, pensador, há aqueles que lutam um dia, e por isso são bons; há aqueles que lutam muitos dias, e por isso são muito bons; há aqueles que lutam anos, e são melhores ainda; porém há aqueles que lutam toda a vida, esses são os imprescindíveis. São heróis de verdade, que dedicam suas vidas a causas que julgam ser necessárias às melhorias. Eram moralmente inatacáveis e geneticamente honestos. Eles tinham uma peculiaridade louvável: tudo que pensavam e faziam era com o objetivo comunitário e da justiça social. Foram heróis que viviam sua essência com simplicidade. Gente que deu certo não por ter superpoderes, mas por apostar nos talentos que moravam em seu interior. Gente que se dedicou em busca da realização do que era essencial para comunidade regional.

 

Esse registro é de uma época de pessoas com um espírito de mobilização, voluntário, muito grande. Como disse GERALDO VANDRÉ, músico, na música ‘Pra Não Dizer Que Não Falei das Flores’: “Quem sabe faz a hora, não espera acontecer”. Eles fizeram a revolução política, ou administrativa, da região. Mas fizeram uma ainda mais importante, importância a longo prazo, a ‘Revolução Comportamental’. Deixaram o exemplo de ousadia, coragem, patriotismo, bravura e espírito de coletividade. Uma herança positiva para a geração atual. Nisso, vale salientar que passou –se a se levar em conta as minorias, as pessoas excluídas, massacradas pelo coronelismo. O povo passou a ter voz e vez, a partir de uma melhor consciência e de uma convicção social.  Podemos ver, com respeito e orgulho, uma nova rotulagem de comportamento social, menos passiva e mais ativa. Claro, ainda precisando melhorar muito. Porém, houve avanço. Não podemos nem comparar as dificuldades da época com as de hoje. A realidade atual com a realidade que vivenciaram. Nisso tudo iremos perceber uma coisa elementar: o valor da democracia. Democracia que ajudaram a construir.

 

JOÃO DAMASCENO, “era um homem sábio, preocupado com o progresso intelectual das pessoas, e institucional, pelo qual, passou a vida inteira em busca da verdade, da justiça, de democracia, do conhecimento e do desenvolvimento”, palavras de EDMUNDO BORGES, soldado aposentado que viveu parte dessa história. Foi também, essa a visão de JOÃO DAMASCENO, imortalizada por seu afilhado e sobrinho, o delegado de polícia JOÃO RODRIGUES (Janjão), dita alguns anos antes de morrer. JANJÃO não poupava talento literário, e elogios, ao descrever o poder de liderança e espirituosidade com que seu padrinho administrava a região, quebrando paradigmas, e construindo intelectualmente e culturalmente uma nova sociedade.  Isso através de uma ‘Revolução Comportamental’. Segundo ele, JOÃO DAMASCENO “era admirado por ser uma voz que nunca calou –se, principalmente quando sua voz era mais necessária, naqueles momentos difíceis que o povo regional enfrentava”. Tinha um oráculo pessoal, mas sintonizado com a comunicação social.

 

As dificuldades eram impostas pelo sistema coronelista sobre o povo humilde. Era uma verdadeira intimidação cultural e uma castração intelectual. As pessoas eram impedidas de pensar, mais ainda de agir. Por outro lado, surgiram homens autodidatas, estava em alta a chamada linha intelectual ‘Autodidática’. Eram pessoas sábias e abertas à aprendizagem através de experimentos práticos. Criavam teorias e utensílios que ajudassem na tentativa do desenvolvimento, saída do atraso. Eram homens práticos, que aprendiam com as dificuldades da vida. Faziam das dificuldades alternativas para as facilidades. Das fraquezas faziam suas fortalezas. Eram criativos. Uma gente determinada que sabia o que queria e lutavam por isso, de forma incansável e inabalável. Geração de pensadores. E de criadores. Pesquisadores empiristas, mas com caráter de cientistas. O sistema coronelista, para anestesiar esses impulsos revolucionários do povo, partiu para a prática da desmoralização ideológica desse movimento libertário, perseguindo seu líder, JOÂO DAMASCENO, e o mentor, MARCOS IDALINO. Não se abateram com isso, muitos menos se intimidaram. Tinham a esperança, e manteram essa chama acesa, de que podiam sonhar com uma realidade melhor e com um futuro melhor. Dirigentes corajosos e com poder de força, ficaram conhecidos pelo povo regional como os arquitetos da ‘Revolução Comportamental’, que trouxe um novo modelo de vida social para a região. Criaram uma sociedade mais socialista e democrática. Com isso, tornaram–se arquiinimigos do sistema coronelista, que até então predominava na região, e que massacrava o povo, como comprova a História.

Quanto a MARCOS IDALINO, relata BORGES: “Ele dedicou uma vida nessa causa. Decidiu fazer uma profunda reforma na estrutura política da região, com o intuito de remover todos os vestígios do autoritarismo do sistema coronelista, no qual, considerava uma aberração social”. Segundo meu avô, JOAQUIM DAMASCENO, ele era muito sábio e muito respeitado. Tinha uma personalidade muito forte. Um homem com um caráter singular. Enfrentou esse sistema político cruel, e colaborou com o desenvolvimento regional. Com esse propósito, surgiu uma ‘Revolução Comportamental’. Um novo padrão cultural para sociedade posterior.

 

No entanto, isso causou um conflito intelectual e político – representativo na região, entre o ‘Movimento Heróis da Resistência’ e o regime político coronelista. Essa linha de pensamento libertário, disseminada por esse movimento desmoralizava e desautorizava a política coronelista, que não gostou nem um pouco disso. O líder desse movimento, JOÂO DAMASCENO, dizia naquele momento difícil, de acordo com as palavras de BORGES: “Não esperava que isso pudesse acontecer. Dediquei, juntamente com vocês, toda a minha vida à libertação da região. E justamente agora não podemos nos acovardar”. E a tensão acabou dando lugar ao conflito. Foi designada por JUAREZ TÁVORA (carece de informações), uma volante do Ceará, para acabar com esse movimento regional. E os ‘Heróis da Resistência’ resistiram. Heróis que resistiram. Daí a denominação. “Isso era necessário. Não haveria liberdade e desenvolvimento sem o enfrentamento ao regime coronelista”, assegura BORGES. Pelos relatos da época, percebe-se que esse movimento levara em conta suas convicções, ideologias e potencialidades. Podemos registrar como característica peculiar a teimosia inabalável. De acordo com BORGES, “Estavam convencidos de que só seria possível chegar ao desenvolvimento com o enfrentamento e descentralização das decisões políticas das mãos dos coronéis rurais”. Mostraram –se duros na queda e ousaram defender, na prática, suas convicções diante da repressão coronelista. Sofrearam muita tortura mental, e física, era então uma terra sem Lei, ou melhor, o coronelismo político tinha sua própria Lei. Mas, historicamente, derrotaram esse regime que massacrava o povo, e deram liberdade à região. Isso foi o começo do fim do coronelismo político.

 

Esse movimento abraçou o ativismo político, no qual, para a época, tal comportamento era considerado anormal, ou até mesmo radical. O comum era a resignação (contrário da indignação). O inimigo desse movimento era o autoritarismo coronelista. Com isso, veio o consenso: “Esse sistema precisa ser derrubado. A região precisa se libertar disso”. Vale salientar que, quando me refiro, no caso, à região, abrange desde Bom Jesus do Gurguéia, Caracol, Canto do Buriti, São João do Piauí, Oeiras, Paulistana, enfim, literalmente, a toda região sul do Estado do Piauí. Foi um movimento regional, mas que, sendo considerado a nível nacional como um movimento estadual. Pela sua importância e justificativa. Não foi um movimento qualquer, incomodou ao presidente Vargas, que com sua sapiência reconheceu sua legitimidade. Com isso, chegou-se a uma situação complexa. A oposição pacífica não era mais viável, e partiram para a guerrilha, o enfrentamento propriamente dito.

 

Vale frisar também, que os desafios ao regime coronelista tinham uma cara institucional: a do Bispo DOM INOCÊNCIO (chegou à região em 18 de fevereiro de 1931, e permaneceu até seu falecimento em 08 de março de 1958 – faleceu em Salvador/BA, mas foi sepultado em São Raimundo Nonato). Foi o primeiro Bispo da Diocese de São Raimundo Nonato, e sua presença na região teve impacto, pelo caráter institucional. Vale ressaltar que, foi o protetor dessa empreitada, pelo respeito do Estado para com sua pessoa. A partir do momento em que se envolveu diretamente nas causas e batalhas populares, deu muita legitimidade oficial. Segundo BORGES, “DOM INOCÊNCIO criticou em termos duros a repressão ao movimento de oposição ao coronelismo político. A partir daí, começou uma longa história de amizade entre DOM INOCÊNCIO, MARCOS IDALINO e JOÂO DAMASCENO”. O Bispo deu uma contribuição moral e intelectual significativa nessa missão cívica.

 

Em resposta, o sistema coronelista aprisionou JOÂO DAMASCENO dentro da Igreja da Localidade Ponta da Serra, “a capitalzinha da região”, e o manteve refém por algumas horas. Isso foi até o povo reagir. A reação veio rápida e com uma força muito grande. E começou ali o maior conflito da região. Teve reforço de Oeiras, Canto do Buriti, São João do Piauí e de outras regiões de São Raimundo Nonato. Não dá para precisar, mas segundo pessoas que viveram o momento, como meu avô JOAQUIM DAMASCENO, filho do JOÂO DAMASCENO, asseguram mais de 500 (quinhentas) pessoas em defesa da nossa região, e com o intuito de salvar o líder JOÂO DAMASCENO. Para BORGES, “a partir daquele momento, os coronéis sentiram a diferença comportamental do povo. Não mais a mesma, aquela da obediência civil. As mudanças estavam surgindo, o povo estava se libertando, em busca de dias melhores”. Com a chegada do povo, convocado por MARCOS IDALINO, grande amigo do JOÂO DAMASCENO, amigo fiel, para resgatar o grande líder, a volante fugiu, correu com medo da multidão. BORGES conclama: “A coisa foi séria. Nunca vi nada igual na região. Fora mais de 400 homens montados em cavalos, e vinham numa rapidez tremenda, e já atirando de longe”. E JOÂO DAMASCENO foi resgatado com grande festa e comemoração. E diziam com orgulho, segundo BORGES: “Salvamos a esperança”. Com isso, começou um novo tempo. O movimento ganhou força e o líder JOÂO DAMASCENO adquiriu prestígio regional. A liberdade e a prosperidade regional surgiram a partir daí. E acabou virando um modelo de luta e libertação para outras regiões. É sabido que JOÂO DAMASCENO e MARCOS IDALINO foram procurados pelos irmãos Capitão DEOCLIDES OLIVEIRA (meu trisavô materno) e Capitão GERVÁSIO OLIVEIRA, com a pretensão de adquirir informações sobre esse projeto de libertação e emancipação. Fizeram isso na região de São João do Piauí, precisamente no hoje município de Capitão Gervásio Oliveira. Isso rendeu até uma homenagem: o município de Capitão Gervásio Oliveira, Estado do Piauí. Isso é fato.

 

Tudo isso custou caro a essa geração. Pessoas corajosas com um sentimento regionalista raro. Tinham um bordão que usavam nas batalhas, conflitos regionais: “Homem por homem, vida por vida”. Isso valia tanto para os homens como para as mulheres, que participavam dessas lutas populares. Não se assustem! Eram os anos sombrios da República Velha. Não existia diplomacia. Nem democracia. Como diz no linguajar do sertanejo: “A coisa era na brutalidade”. Isso era necessário, não havia outra saída, outro caminho. Sem sombra de dúvidas, de acordo com relatos da época, foi uma geração que sacudiu a região, e melhorou muita coisa. Eles eram empolgados com a perspectiva fundamentada na herança sagrada: patriotismo, coragem, estrutura familiar e social, lealdade ideológica e principalmente legados culturais. Hoje vivemos em pleno berço da democracia e liberdade de expressão graças a essa geração brava. Para BORGES, “se tivesse que escolher um único fator que influenciou essa geração e mobilizou a região, seria o poder de liderança de JOÂO DAMASCENO e MARCOS IDALINO, que passavam segurança, eficiência, exemplaridade e visão de futuro para o povo regional. Eram portadores de esperança”. Segundo relatos de contemporâneos, eles davam sentido prático a tudo que verbalizavam. Eram coerentes e compromissados.

 

BORGES garante ainda, que “a geração atual se beneficiou da prosperidade socioeconômica e cultural construída por eles, tornou–se numa geração mais desenvolvida, com um padrão de vida melhor”. E afirma que “a morte deles foi um colapso terrível para a região. Eram pessoas com um sentimento de regionalismo muito forte, indiscutivelmente líderes influentes. A morte deles causou danos incalculáveis às esperanças do povo em ver tempos melhores”, assegura BORGES. Era uma época em que a classe social menos favorecida institucionalmente por parte do Poder Público, era proibida até de sonhar. Imaginem de lutar. Como era difícil viver em tempos assim... Certamente, pode – se afirmar que essa geração serviu de inspiração para mudanças sociais e culturais na região. Forçados a desistir, provaram o contrário: o do resistir, do enfrentar e do vencer. Homens de mentes brilhantes, líderes populares, na procura pela fórmula da libertação e do desenvolvimento regional. Dignos da admiração popular. Tudo isso foi cívico, heróico, e mais ainda produtivo para a região, e para nós na atualidade. Devemos reconhecer isso.

 

Marcos Oliveira Damasceno

(pesquisador)

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