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A minha observação nesse
momento se inspira em fato
significativo, do ponto de
vista regional. Objetiva
aplaudir homens e mulheres que
marcaram época, verdadeiros
heróis, líderes históricos.
‘Heróis da Resistência’, assim
denominado, foi um movimento
que existiu na nossa região, no
período de 1930 a
1951, onde objetivava
protestar contra as decisões
políticas, todas as mazelas
existentes e cobrar
providências dos governos
estadual e federal. Esse
movimento teve como mentor o
Sr. MARCOS IDALINO, da
Localidade Campestre, hoje
município de Coronel José Dias,
e se estendeu até o Território
de Ponta da Serra, hoje
localidade do município de Dom
Inocêncio, sob a liderança de
JOÃO DAMASCENO. Eram
homens corajosos, determinados
e decididos. Tinham o seguinte
grito de guerra: “Nenhum de
nós é mais importante do que
todos nós juntos”. Essa
denominação ‘Heróis da
Resistência’ partiu do cearense
JUAREZ TÁVORA, influente
integrante do governo
ditatorial de GETÚLIO VARGAS.
Diga-se de passagem, teve que
engolir essa movimentação,
mesmo sendo um homem carrasco e
impiedoso. Isso porque estavam
à frente dois homens muitos
conhecidos, até mesmo pelo
presidente VARGAS (MARCOS
IDALINO e JOÃO
DAMASCENO). Conheceram-se
na ‘Revolução de 30’. Quanto à
amizade de MARCOS IDALINO
e JOÃO DAMASCENO era tão
verdadeira, que rendeu uma
homenagem: meu nome (Marcos) é
em sua homenagem. Tenho orgulho
disso.
Homens autodidatas, práticos e
ainda ideólogos evolucionistas.
Eles lutaram uma vida pelo bem
e progresso da região. E para
BRECHT, pensador, há
aqueles que lutam um dia, e por
isso são bons; há aqueles que
lutam muitos dias, e por isso
são muito bons; há aqueles que
lutam anos, e são melhores
ainda; porém há aqueles que
lutam toda a vida, esses são os
imprescindíveis. São heróis de
verdade, que dedicam suas vidas
a causas que julgam ser
necessárias às melhorias. Eram
moralmente inatacáveis e
geneticamente honestos. Eles
tinham uma peculiaridade
louvável: tudo que pensavam
e faziam era com o objetivo
comunitário e da justiça social.
Foram heróis que viviam sua
essência com simplicidade.
Gente que deu certo não por ter
superpoderes, mas por apostar
nos talentos que moravam em seu
interior. Gente que se dedicou
em busca da realização do que
era essencial para comunidade
regional.
Esse registro é de uma época de
pessoas com um espírito de
mobilização, voluntário, muito
grande. Como disse GERALDO
VANDRÉ, músico, na música
‘Pra Não Dizer Que Não Falei
das Flores’: “Quem sabe faz
a hora, não espera acontecer”.
Eles fizeram a revolução
política, ou administrativa, da
região. Mas fizeram uma ainda
mais importante, importância a
longo prazo, a ‘Revolução
Comportamental’. Deixaram o
exemplo de ousadia, coragem,
patriotismo, bravura e espírito
de coletividade. Uma herança
positiva para a geração atual.
Nisso, vale salientar que
passou –se a se levar em conta
as minorias, as pessoas
excluídas, massacradas pelo
coronelismo. O povo passou a
ter voz e vez, a partir de uma
melhor consciência e de uma
convicção social. Podemos ver,
com respeito e orgulho, uma
nova rotulagem de comportamento
social, menos passiva e mais
ativa. Claro, ainda precisando
melhorar muito. Porém, houve
avanço. Não podemos nem
comparar as dificuldades da
época com as de hoje. A
realidade atual com a realidade
que vivenciaram. Nisso tudo
iremos perceber uma coisa
elementar: o valor da
democracia. Democracia que
ajudaram a construir.
JOÃO DAMASCENO,
“era um homem sábio,
preocupado com o progresso
intelectual das pessoas, e
institucional, pelo qual,
passou a vida inteira em busca
da verdade, da justiça, de
democracia, do conhecimento e
do desenvolvimento”,
palavras de EDMUNDO BORGES,
soldado aposentado que viveu
parte dessa história. Foi
também, essa a visão de JOÃO
DAMASCENO, imortalizada por
seu afilhado e sobrinho, o
delegado de polícia JOÃO
RODRIGUES (Janjão), dita
alguns anos antes de morrer.
JANJÃO não poupava talento
literário, e elogios, ao
descrever o poder de liderança
e espirituosidade com que seu
padrinho administrava a região,
quebrando paradigmas, e
construindo intelectualmente e
culturalmente uma nova
sociedade. Isso através de uma
‘Revolução Comportamental’.
Segundo ele, JOÃO DAMASCENO
“era admirado por ser uma
voz que nunca calou –se,
principalmente quando sua voz
era mais necessária, naqueles
momentos difíceis que o povo
regional enfrentava”. Tinha
um oráculo pessoal, mas
sintonizado com a comunicação
social.
As dificuldades eram impostas
pelo sistema coronelista sobre
o povo humilde. Era uma
verdadeira intimidação cultural
e uma castração intelectual. As
pessoas eram impedidas de
pensar, mais ainda de agir. Por
outro lado, surgiram homens
autodidatas, estava em alta a
chamada linha intelectual ‘Autodidática’.
Eram pessoas sábias e abertas à
aprendizagem através de
experimentos práticos. Criavam
teorias e utensílios que
ajudassem na tentativa do
desenvolvimento, saída do
atraso. Eram homens práticos,
que aprendiam com as
dificuldades da vida. Faziam
das dificuldades alternativas
para as facilidades. Das
fraquezas faziam suas
fortalezas. Eram criativos. Uma
gente determinada que sabia o
que queria e lutavam por isso,
de forma incansável e
inabalável. Geração de
pensadores. E de criadores.
Pesquisadores empiristas, mas
com caráter de cientistas. O
sistema coronelista, para
anestesiar esses impulsos
revolucionários do povo, partiu
para a prática da
desmoralização ideológica desse
movimento libertário,
perseguindo seu líder, JOÂO
DAMASCENO, e o mentor,
MARCOS IDALINO. Não se
abateram com isso, muitos menos
se intimidaram. Tinham a
esperança, e manteram essa
chama acesa, de que podiam
sonhar com uma realidade melhor
e com um futuro melhor.
Dirigentes corajosos e com
poder de força, ficaram
conhecidos pelo povo regional
como os arquitetos da
‘Revolução Comportamental’, que
trouxe um novo modelo de vida
social para a região. Criaram
uma sociedade mais socialista e
democrática. Com isso,
tornaram–se arquiinimigos do
sistema coronelista, que até
então predominava na região, e
que massacrava o povo, como
comprova a História.
Quanto a MARCOS IDALINO,
relata BORGES: “Ele
dedicou uma vida nessa causa.
Decidiu fazer uma profunda
reforma na estrutura política
da região, com o intuito de
remover todos os vestígios do
autoritarismo do sistema
coronelista, no qual,
considerava uma aberração
social”. Segundo meu avô,
JOAQUIM DAMASCENO, ele
era muito sábio e muito
respeitado. Tinha uma
personalidade muito forte. Um
homem com um caráter singular.
Enfrentou esse sistema político
cruel, e colaborou com o
desenvolvimento regional. Com
esse propósito, surgiu uma
‘Revolução Comportamental’. Um
novo padrão cultural para
sociedade posterior.
No entanto, isso causou um
conflito intelectual e político
– representativo na região,
entre o ‘Movimento Heróis da
Resistência’ e o regime
político coronelista. Essa
linha de pensamento libertário,
disseminada por esse movimento
desmoralizava e desautorizava a
política coronelista, que não
gostou nem um pouco disso. O
líder desse movimento, JOÂO
DAMASCENO, dizia naquele
momento difícil, de acordo com
as palavras de BORGES:
“Não esperava que isso
pudesse acontecer. Dediquei,
juntamente com vocês, toda a
minha vida à libertação da
região. E justamente agora não
podemos nos acovardar”. E a
tensão acabou dando lugar ao
conflito. Foi designada por
JUAREZ TÁVORA (carece de
informações), uma volante do
Ceará, para acabar com esse
movimento regional. E os
‘Heróis da Resistência’
resistiram. Heróis que
resistiram. Daí a denominação.
“Isso era necessário. Não
haveria liberdade e
desenvolvimento sem o
enfrentamento ao regime
coronelista”, assegura
BORGES. Pelos relatos da
época, percebe-se que esse
movimento levara em conta suas
convicções, ideologias e
potencialidades. Podemos
registrar como característica
peculiar a teimosia inabalável.
De acordo com BORGES,
“Estavam convencidos de que só
seria possível chegar ao
desenvolvimento com o
enfrentamento e
descentralização das decisões
políticas das mãos dos coronéis
rurais”. Mostraram –se
duros na queda e ousaram
defender, na prática, suas
convicções diante da repressão
coronelista. Sofrearam muita
tortura mental, e física, era
então uma terra sem Lei, ou
melhor, o coronelismo político
tinha sua própria Lei. Mas,
historicamente, derrotaram esse
regime que massacrava o povo, e
deram liberdade à região. Isso
foi o começo do fim do
coronelismo político.
Esse movimento abraçou o
ativismo político, no qual,
para a época, tal comportamento
era considerado anormal, ou até
mesmo radical. O comum era a
resignação (contrário da
indignação). O inimigo desse
movimento era o autoritarismo
coronelista. Com isso, veio o
consenso: “Esse sistema
precisa ser derrubado. A região
precisa se libertar disso”.
Vale salientar que, quando me
refiro, no caso, à região,
abrange desde Bom Jesus do
Gurguéia, Caracol, Canto do
Buriti, São João do Piauí,
Oeiras, Paulistana, enfim,
literalmente, a toda região sul
do Estado do Piauí. Foi
um movimento regional, mas que,
sendo considerado a nível
nacional como um movimento
estadual. Pela sua
importância e justificativa.
Não foi um movimento
qualquer, incomodou ao
presidente Vargas, que com sua
sapiência reconheceu sua
legitimidade. Com isso,
chegou-se a uma situação
complexa. A oposição pacífica
não era mais viável, e partiram
para a guerrilha, o
enfrentamento propriamente
dito.
Vale frisar também, que os
desafios ao regime coronelista
tinham uma cara institucional:
a do Bispo DOM INOCÊNCIO
(chegou à região em 18 de
fevereiro de 1931, e permaneceu
até seu falecimento em 08 de
março de 1958 – faleceu em
Salvador/BA, mas foi sepultado
em São Raimundo Nonato). Foi o
primeiro Bispo da Diocese de
São Raimundo Nonato, e sua
presença na região teve
impacto, pelo caráter
institucional. Vale ressaltar
que, foi o protetor dessa
empreitada, pelo respeito do
Estado para com sua pessoa. A
partir do momento em que se
envolveu diretamente nas causas
e batalhas populares, deu muita
legitimidade oficial.
Segundo BORGES,
“DOM INOCÊNCIO criticou em
termos duros a repressão ao
movimento de oposição ao
coronelismo político. A partir
daí, começou uma longa história
de amizade entre DOM INOCÊNCIO,
MARCOS IDALINO e JOÂO
DAMASCENO”.
O Bispo deu uma contribuição
moral e intelectual
significativa nessa missão
cívica.
Em resposta, o sistema
coronelista aprisionou JOÂO
DAMASCENO dentro da Igreja
da Localidade Ponta da Serra,
“a capitalzinha da região”, e o
manteve refém por algumas
horas. Isso foi até o povo
reagir. A reação veio rápida e
com uma força muito grande. E
começou ali o maior conflito da
região. Teve reforço de Oeiras,
Canto do Buriti, São João do
Piauí e de outras regiões de
São Raimundo Nonato. Não dá
para precisar, mas segundo
pessoas que viveram o momento,
como meu avô JOAQUIM
DAMASCENO, filho do JOÂO
DAMASCENO, asseguram mais
de 500 (quinhentas) pessoas em
defesa da nossa região, e com o
intuito de salvar o líder
JOÂO DAMASCENO. Para
BORGES, “a partir
daquele momento, os coronéis
sentiram a diferença
comportamental do povo. Não
mais a mesma, aquela da
obediência civil. As mudanças
estavam surgindo, o povo estava
se libertando, em busca de dias
melhores”. Com a
chegada do povo, convocado por
MARCOS IDALINO, grande
amigo do JOÂO DAMASCENO,
amigo fiel, para resgatar o
grande líder, a volante fugiu,
correu com medo da multidão.
BORGES conclama: “A
coisa foi séria. Nunca vi nada
igual na região. Fora mais de
400 homens montados em cavalos,
e vinham numa rapidez tremenda,
e já atirando de longe”. E
JOÂO DAMASCENO foi
resgatado com grande festa e
comemoração. E diziam com
orgulho, segundo BORGES:
“Salvamos a esperança”.
Com isso, começou um novo
tempo. O movimento ganhou força
e o líder JOÂO DAMASCENO
adquiriu prestígio regional. A
liberdade e a prosperidade
regional surgiram a partir daí.
E acabou virando um modelo de
luta e libertação para outras
regiões. É sabido que JOÂO
DAMASCENO e MARCOS
IDALINO foram procurados
pelos irmãos Capitão
DEOCLIDES OLIVEIRA (meu
trisavô materno) e Capitão
GERVÁSIO OLIVEIRA, com a
pretensão de adquirir
informações sobre esse projeto
de libertação e emancipação.
Fizeram isso na região de São
João do Piauí, precisamente no
hoje município de Capitão
Gervásio Oliveira. Isso rendeu
até uma homenagem: o município
de Capitão Gervásio Oliveira,
Estado do Piauí. Isso é fato.
Tudo isso custou caro a essa
geração. Pessoas corajosas com
um sentimento regionalista
raro. Tinham um bordão que
usavam nas batalhas, conflitos
regionais: “Homem por homem,
vida por vida”. Isso valia
tanto para os homens como para
as mulheres, que participavam
dessas lutas populares. Não se
assustem! Eram os anos sombrios
da República Velha. Não existia
diplomacia. Nem democracia.
Como diz no linguajar do
sertanejo: “A coisa era na
brutalidade”. Isso era
necessário, não havia outra
saída, outro caminho. Sem
sombra de dúvidas, de acordo
com relatos da época, foi uma
geração que sacudiu a região, e
melhorou muita coisa. Eles eram
empolgados com a perspectiva
fundamentada na herança
sagrada: patriotismo,
coragem, estrutura familiar e
social, lealdade ideológica e
principalmente legados
culturais. Hoje vivemos em
pleno berço da democracia e
liberdade de expressão graças a
essa geração brava. Para
BORGES, “se tivesse que
escolher um único fator que
influenciou essa geração e
mobilizou a região, seria o
poder de liderança de JOÂO
DAMASCENO e MARCOS IDALINO, que
passavam segurança, eficiência,
exemplaridade e visão de futuro
para o povo regional. Eram
portadores de esperança”.
Segundo relatos de
contemporâneos, eles davam
sentido prático a tudo que
verbalizavam. Eram coerentes e
compromissados.
BORGES
garante ainda, que “a
geração atual se beneficiou da
prosperidade socioeconômica e
cultural construída por eles,
tornou–se numa geração mais
desenvolvida, com um padrão de
vida melhor”. E afirma que
“a morte deles foi um colapso
terrível para a região. Eram
pessoas com um sentimento de
regionalismo muito forte,
indiscutivelmente líderes
influentes. A morte deles
causou danos incalculáveis às
esperanças do povo em ver
tempos melhores”, assegura
BORGES. Era uma época em
que a classe social menos
favorecida institucionalmente
por parte do Poder Público, era
proibida até de sonhar.
Imaginem de lutar. Como era
difícil viver em tempos
assim... Certamente, pode – se
afirmar que essa geração serviu
de inspiração para mudanças
sociais e culturais na região.
Forçados a desistir, provaram o
contrário: o do resistir, do
enfrentar e do vencer.
Homens de mentes brilhantes,
líderes populares, na procura
pela fórmula da libertação e do
desenvolvimento regional.
Dignos da admiração popular.
Tudo isso foi cívico, heróico,
e mais ainda produtivo para a
região, e para nós na
atualidade. Devemos reconhecer
isso.
Marcos
Oliveira Damasceno
(pesquisador) |