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O Bispo Dom Inocêncio está vivo
eternamente na lembrança do
povo da região. Trata-se de um
grande líder religioso, digno
da nossa admiração, e um dos
emancipadores da região. Homem
exemplar, honesto, honrado,
socialmente sensível e
altruísta. Era um grande
parceiro e amigo do meu bisavô
João Damasceno. É sabido dos
laços verdadeiros de amizade
entre eles. Ele foi o nosso
primeiro compromisso estético e
o nosso senso psicológico.
“DOM INOCÊNCIO LÓPEZ
SANTAMARIA, nasceu em
Sovellanos (Burgos) – Espanha
em 28 de dezembro de 1874.
Procedia da família mais pobre
daquele povoado. Até os quinze
anos foi pastor e peão braçal.
Entrou na Ordem dos Mercedários,
que se tornou Ministro Geral.
Foi nomeado Bispo de uma região
atrasadíssima do Nordeste e
grande figura do episcopado
brasileiro. Trocou todas as
mordomias religiosas das
instituições romanas pelas
selas duras e as secas
impiedosas do sertão piauiense.
Aí durante quase 30 (trinta
anos), numa austera pobreza ele
desenvolveu um trabalho humano
e religioso que vale a pena
recordá-lo. A Ordem Mercedária
(da qual foi Mestre Geral), a
Igreja (da qual foi Bispo) e o
povo da Diocese de Bom Jesus
(do qual foi Pastor) não o
esqueceu jamais e celebram
sempre sua memória como um
gratificante dom de Deus. Lêem
sua vida como a reedição de um
belo romance da fé e do amor
doação; e o seu trabalho
apostólico naquela região, como
uma epopéia do amor humilde e
da entrega sem reservas.
Durante 28 (vinte e oito anos)
no Piauí Dom Inocêncio realizou
um duro e austero trabalho
religioso, social e cultural:
inspirou e deu forma a
institutos religiosos, criou
escolas e mandou abrir
estradas, mas sobretudo
administrou,
com heróico grau de santidade,
sua ação evangelizadora naquela
imensa e atrasada região.
Sempre disposto, com entusiasmo
contagiante, pregava,
celebrava, escrevia, ensinava e
administrava tanta sorte de
serviços. Nunca estava ocupado
demais como para não cuidar de
detalhes que considerava
essenciais, como visitar os
presos e os doentes, catequizar
as crianças, falar aos jovens.
Preocupava-se com a saúde
espiritual, moral e física de
cada pessoa. E mais: tinha
sempre um sorriso para cada um
que dele se acercava, uma
palavra de conforto para cada
dor, de encorajamento para
todos. Apesar de trabalho numa
das regiões mais pobres da
terra, nunca deixou de
acreditar naquele povo que ele
amava com o coração de pai e ao
qual ele sempre se antecipava
na busca de soluções para todos
os grandes problemas que
afligiam a região”. (Revista
Mercê). São poucos os que têm a
coragem moral e cívica de
abandonar as conveniências
mesquinhas do luxo e enfrentar
um desafio social e religioso
numa região até então isolada.
Servir ao povo e a Deus. Não
tenho conhecimento de outra
pessoa, que num impressionante
ato de coragem, senso de
justiça e prontidão, combatesse
todas as mazelas sociais e
econômicas existentes no
cenário regional. Uma liderança
religiosa autêntica e
comprometida com o povo, que
num gesto de compaixão mostrou
a necessidade de se romper com
um sistema arcaico e elitista,
e se adotar uma forma de
convivência com igualdade,
liberdade e fraternidade.
Quem conheceu o caráter do
Bispo Dom Inocêncio sabe muito
bem o quanto ele ficaria feliz
em ver essa manifestação. Sua
vida foi moldada no trato
diário com a causa coletiva. É
bom lembrar da sua inestimável
importância para o
aperfeiçoamento e
fortalecimento da cultura e
educação regional, sua
identidade regionalista, seu
espírito coletivista, seu
altruísmo, seu profundo
conhecimento sobre o contexto
social regional, sua
participação marcada pela sua
integração às batalhas
populares. Um homem
catedrático.
Ligado à causa social e
religiosa, ele gostava de ser
identificado como um Mestre, o
mais legítimo e o mais
compromissado. De uma forma tal
que, era um líder religioso
respeitado entre todos,
independente de ideologia, de
linha de pensamento. Isso era
unanimidade. Era um detabedor
experimentado, debatia os
assuntos socioeconômicos e
culturais da nossa região com
propriedade. Sua maneira de
defender o processo de
desenvolvimento para a região
era singular, com forte
instinto de educador e de
regionalismo, de um eterno
sonhador e incansável lutador
para tornar a região numa terra
mais desenvolvida, mais justa e
mais feliz.
Meu bisavô João Damasceno foi
nomeado ‘Juiz de Paz’ na região
em 1942, pelo Presidente
Getúlio Vargas e pelo
Governador Leônidas de Castro
Melo, e juntamente com o Bispo
Dom Inocêncio, nos anos 50,
então Bispo da Diocese de São
Raimundo Nonato, idealizou
trabalhos importantíssimos para
a região. Consolidaram todas as
comunidades da região,
demarcaram terras, construíram
estradas, reservas hídricas,
registraram pessoas,
registraram terras, construíram
os primeiros pólos comerciais
da região, fizeram a primeira
reforma agrária do Piauí. Mas o
que mais marcou foi a
idealização da ‘Campanha
Liberdade e Propriedade’. Havia
muitos conflitos de terras,
entre os coronéis rurais e o
povo socialmente excluído. Dom
Inocêncio justificou:
“Não haverá liberdade se
apenas um
for
colonizado em seu próprio
território. A propriedade deve
ser um direito de todos”.
Vale salientar que
registraram todas as terras e
todas as pessoas da região.
Promoveram o estado de
dignidade à nossa gente e
organizaram politicamente nossa
terra.
Morreu aos 81
anos de idade, em 1958, e está
sepultado na Catedral de São
Raimundo Nonato.
Os 50 anos da morte de
Dom Inocêncio estão sendo
lembrados a cada conquista na
região, como por exemplo a
existência deste Portal SRN.
Ele era o padrinho de tudo
isso. Este Portal segue os
ensinamentos dele, ao exercer o
papel de educador,
conscientizador, mobilizador,
instrumento de formação humana,
de massa crítica, e de
desenvolvimento sociocultural.
Trata-se de uma manifestação
espontânea, motivada pela sua
importância para a região e
pela amizade que tinha para com
meu bisavô. Isso aproxima-nos
mais dele, faz a saudade se
agudizar e nos dá uma dimensão
da história regional. Sua
história nos diz muito para
melhor entender a situação
atual. Gostaria de lembrar do
desejo do meu bisavô, em 1966,
no projeto de emancipação do
nosso município (Dom
Inocêncio), em homenagear um
amigo, um guerreiro, um
visionário, um líder, um homem
que foi importante para o
desenvolvimento da região. Dom
Inocêncio faleceu em 1958 e meu
bisavô em 1968. Mas o seu
desejo foi atendido. E somente
em 1988, foi emancipado o
município de Dom Inocêncio.
Grande parte da história
regional se confunde com a
história desse líder combativo
e humanista, desse educador de
uma importância significativa
na melhoria da região. Essa
visitação à história dá uma
idéia clara de como foi o nosso
passado, e a luta de grandes
homens como Dom Inocêncio. Como
também, nos dar a certeza de
estarmos próximo dele, que a
cada dia mais falta faz, pelos
exemplos de compromisso com a
região, pela dedicação e pelo
sentido ético e de honestidade
que dava a cada passo de sua
vida. Um visionário que buscou
fazer da sua experiência e
participação, formas de
utilizar seu conhecimento para
colaborar na construção de uma
sociedade mais desenvolvida e
melhor para todos nós.
Trata-se de um homem especial,
que buscou a paz, que promoveu
o amor, e que tornou a nossa
terra mais feliz, mais alegre,
mais fraterna e mais
desenvolvida. Escolheu ser
alguém especial, escreveu uma
história que poucos conseguem
escrever, isso porque exige
características sérias e
determinantes para tal missão.
Dom Inocêncio será sempre
lembrado pelo povo da região...
Marcos Oliveira Damasceno
(Dom Inocêncio – PI) |