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Esse pretenso herói de Dom
Inocêncio é apenas um homem
dotado de um acentuado senso
psicológico, que levaria-o a
compreender até os mais
blindados sentimentos do povo
inocentino, a ponto de
explorá-lo em benefício de seus
interesses pessoais, que eram
os de transformar o município
de Dom Inocêncio em sede do seu
refúgio, e dominar
religiosamente e politicamente
toda a nossa região. Resolvi
escrever porque fiquei
indignado quando percebi que
esse homem era um “herói” sem
nenhum caráter, nem moral nem
psicológico, era um apóstata,
um corrupto da fé.
Ninguém melhor do que esse
homem para anestesiar os
impulsos revolucionários das
massas populares. Depois, para
o heroísmo, não restaria mais
nenhum obstáculo. Assim,
controlando a alma, o corpo e
os sentimentos amorosos do povo
inocentino, caminharia para o
privilégio de ser considerado
um “santo”. Observando as
atitudes e realizações desse
homem, vejo um pouco de
merecimento e até tenho
reconhecimento. Mas, por outro
lado, muito aproveitamento,
muita exploração. Estimulava a
esmola, a caridade entre a
população humilde, a fim de
torná-la cada vez mais
dependente economicamente e,
daí tirar o proveito que
entendesse. Forçou o povo a
esmolar e a acreditar que ele
era o único responsável pela
libertação da nossa região.
Se fizermos uma visitação à
história política e
socioeconômica do nosso
município, vamos descobrir que
há 40 anos atrás era uma região
rica, o povo vivia melhor. De
lá para cá, enquanto os avanços
foram chegando noutras regiões,
em Dom Inocêncio a ditadura
governamental, a corte
gerencial, não teve a
necessária preocupação, o
descortino mental, para
perceber e implantar modelos
administrativos que
significassem progresso,
desenvolvimento e bem-estar
para o povo inocentino. Sem
executar quaisquer planos de
interesse popular, transformou
o povo, em regra, em amontoado
de ignaros, aos quais não dá
atenção. Os pobres inocentinos
participam apenas das sobras
desse banquete deletério. Pobre
Dom Inocêncio, que ainda houve
essa nociva liderança
político-religiosa.
Infelizmente no município de
Dom Inocêncio, “Município
Educação”, a grande maioria não
possue praticamente nenhuma
massa crítica. De acordo com
SIMÓN BOLÍVAR, general
venezuelano, um povo ignorante
é instrumento cego de sua
própria destruição.
A pobreza sempre foi o tema
básico de seus discursos.
Porém, não tem dado seguimento
prático àquilo que verbaliza.
Ele sempre se comportou como um
esmoler que distribui benesses.
Vendia, lá fora, a pobreza e a
miséria do povo e da região e,
posteriormente, determinava a
parcela a ser aplicada. Sempre
se valeu da dinheirama frouxa,
coletada em fontes suspeitas,
para alicerçar suas ambições
pessoais, no engodo do povo
pouco informado e muito
carente. Sempre controlou a
população de Dom Inocêncio, em
parte, através da filosofia do
conformismo, prometendo-lhe em
troca de sua resignação,
esmolas e outras medidas
assistencialistas. Os recursos
existentes, conquistados em
nome da miséria do povo, não
são empregados como deveriam,
na implantação de ações que
tragam resultados consistentes
e sustentáveis, na promoção de
uma melhoria permanente da
condição de vida da população.
Ao contrário, são distribuídos
alguns poucos recursos, já que
o grosso toma um rumo
“especial”, de maneira infame e
desumana, com um fim
específico: manter o povo no
cabresto, observando os seus
interesses político-eleitorais.
Talvez, ninguém teve mais
oportunidades de desenvolver a
nossa região do que ele, se
assim não fez é porque é contra
o desenvolvimento regional, a
sua atuação sociopolítica
resume-se ao assistencialismo.
Isso demonstra claramente a sua
intenção: conservar a
dependência popular ao seu
controle político, através da
filantropia. Ficar insensível à
miséria e ao sofrimento do povo
inocentino já é lamentável, mas
fazer dessa miséria motivação
de aproveitamento, de turismo,
não é tolerável. Cresci em Dom
Inocêncio, ouvindo o seguinte
bordão: “Fulano de tal é o pai
dos pobres”. Quer dizer: é
preciso que existam os pobres,
para que surja também essa
paternidade. Para ele a pobreza
há que ser mantida, pois o
contrário, o seu título de
paternalista entraria em
desuso. Aí está a razão de
tudo. Se ele está tirando
proveito para si e para os que
rodopiam no entorno, se está
tudo tão bom para eles, para
que mudar? Nada de lutar pela
mudança da situação
problemática vigente.
Lembro perfeitamente de uma
cena que presenciei, em Dom
Inocêncio, quando criança, onde
uma senhora o procurou para
fazer uma reivindicação, leia
na íntegra: “Pade vim pidir uma
ajuda pra minha famia”. E ele
respondeu com arrogância: “Não
tenho, não tenho, não
tenho...”. E aquela senhora
pedinchou: “Mas pade tô
pricisando”. E ele, como de
praxe, se irritou: “Vá pro
inferno, vá morrer”. Pegarei
como raiz do problema, o fato
de que foi ele próprio que
alimentou essa cultura
assistencialista, indigna para
qualquer pessoa que tenha o
mínimo de senso crítico e de
dignidade. Esmola é humilhante.
Pedir que o que for é
mendicância. Porém, tais
pessoas não podem ser culpadas,
mas compreendidas. São frutos
do meio sociocultural
histórico, do paternalismo
regional. Certamente, a meu
ver, é a causa maior dos danos
culturais e morais existentes
na nossa terra. Também, com
absoluta certeza, o grande
entrave para o empreendedorismo
na região. Não consigo
entender: JESUS CRISTO era
revolucionário, pregava o dever
da desobediência civil do povo
cristão ao Império Romano,
especificamente ao Governo de
PILATOS. Tinha uma postura
libertária, reprovava qualquer
medida que viesse ameaçar a
liberdade da população cristã.
E qual o motivo da existência
dessa filosofia conformista?
Vejo incoerência nisso. Houve
um desvio de conduta. Na
Bíblia, em JEREMIAS 2:19, diz o
seguinte: “A tua malícia te
castigará, e as tuas apostasias
te repreenderão: sabe, pois, e
vê, que mau e quão amargo é
deixares ao Senhor teu Deus, e
não teres o meu temor contigo,
diz o Senhor”.
O fato é que o mais vultoso
roubo é praticado nas
profissões honestas. Que fazer?
Desistir, e não mais se
indignar com tanto
descaramento? Não, ao
contrário: continuar, persistir
na luta. Afinal, já aparecem
notáveis sinais de reação
popular no nosso município. É o
povo que começa a avançar em
passos seguros, em muitas
localidades interioranas, na
busca pela liberdade e pelo
desenvolvimento. O apóstolo
TIAGO, em Tiago 1.26, é muito
objetivo ao definir a religião:
“É um conjunto de atitudes
que a pessoa toma em relação a
Deus, a si mesma e ao seu
semelhante”.
Sou católico com muito orgulho.
E a nossa Igreja Católica foi
importante, e continua sendo,
para o desenvolvimento
sociocultural da humanidade.
Tenho mentalidade religiosa
liberal, e sou religioso por
necessidade de encontrar um
sentido para a vida, uma
referência moral, uma
consultoria espiritual, um
padrão cultural, a idéia de
procurar fazer o bem aos outros
e trabalhar, dentro do
possível, para que a justiça
social vá abrindo caminho neste
município. Desconfie-se de todo
político, de toda liderança
política, religiosa,
intelectual que fala ou
propõe-se a emancipar social e
economicamente um povo, à base
do tradicional populismo:
doações, empreguismo,
assistência paternalista etc.
Cabe recordar aqui, os versos
de JOSÉ DANTAS e HUMBERTO
TEIXEIRA, cantados por LUIZ
GONZAGA, o Rei do Baião: “Seu
Doutor/ uma esmola para o homem
que é são/ ou o mata de
vergonha/ ou vicia o cidadão”.
É preciso insistir que muito
mais eficiente é ensinar a
pescar do que doar o peixe. Não
dê esmola, dê futuro. Todas as
famílias de Dom Inocêncio, sem
nenhuma exceção, têm uma dívida
a saldar para com a nossa
região e o seu povo. Esta
dívida tem mais de 40 anos.
Marcos Oliveira Damasceno
(Pesquisador) |