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A seca é tida como a maior
problemática do Sertão. Será,
de forma direta, a causa do
sofrimento dos sertanejos, ou
uma conseqüência oriunda de
outros problemas, como sociais
e estruturais? O período seco é
um fenômeno natural, certo de
acontecer em todos os anos. O
problema é a falta de
estrutura, por parte dessa
população, para o enfrentamento
dessa época crítica. Não está
somente relacionado, esse
problema, com a ecologia, mas
também com a economia. PÓLAN
LACKI, uma grande personalidade
na área, afirmou que o
desenvolvimento é mais que um
problema de falta de recursos,
é um problema de insuficiência
de conhecimento. Não existe
região subdesenvolvida, o que
existe é uma região
sub-administrada.
Existem áreas no mundo que
apresentam índices de
pluviosidade inferiores aos
nossos e, ainda assim, a seca
climática que nelas incide não
acarreta os efeitos danosos, de
natureza econômica e social.
Isso quer dizer que, naquelas
áreas e nos países em que se
situam, os povos já aprenderam
a conviver com a seca, ou seja,
com a insuficiência ou a falta
de chuvas. O povo em geral vive
em grande carência de suas
necessidades mínimas, apesar
dos enormes potenciais
representados pelas terras
férteis e os recursos naturais
que a região oferece e que
podem ser utilizados em
diversas atividades rentáveis,
de forma sustentável, desde que
os gestores públicos optem
trilhar pelo caminho da
auto-sustentabilidade, que
promoverá dignidade plena à
população sertaneja. Ensinar o
povo a conviver com a seca,
como já o fizeram, em suas
regiões semi-áridas, a Espanha,
a China, a Califórnia, e
dar-lhe as condições essenciais
para essa convivência e para
manter-se fixado à sua terra.
Tudo isso é dever do gestor
público, é respeito aos
direitos de cidadania dos
sertanejos, é acreditar em
nossa gente, no seu potencial.
A nosso ver, nenhuma região é
pobre por natureza. Certamente,
de uma forma ou de outra,
existe alguma riqueza natural,
alguma potencialidade que pode
ser explorada, de forma
sustentável, em benefício da
sua população.
Talvez, seja difícil essa
transformação por causa de
interesses tradicionais: há um
cuidado cauteloso da “elite”
política, no sentido de manter
o homem do campo afastado das
lutas emancipadoras, da
possibilidade de buscar sua
força, sua independência
socioeconômica e cultural, e
seus direitos constitucionais.
Sempre existe, de um lado, um
pequeno grupinho político bem
posicionado e estabilizado
economicamente, absorvendo
todos os privilégios políticos,
sociais e econômicos;
controlando, em suas mãos, os
poderes político e econômico.
Do outro lado, uma grande massa
pobre, excluída dos
acontecimentos e benefícios
socioeconômicos e políticos. Já
dizia ZÉ AMÉRICO, poeta popular
das frases de efeito: “A seca
do pobre é o inverno do rico”.
A miséria é o fator eleitoral
determinante, isto é, causa-se
a miséria ao nosso povo e,
conseqüentemente, a
dependência, a exploração, a
escravidão política; é o maior
e mais usual pilar
político-eleitoral existente na
nossa região. Como é que
aqueles que se beneficiam, por
ventura estão sempre no poder,
da miséria para as conquistas
eleitorais vão exterminá-la?
Como diz a sabedoria popular:
“A ignorância é a mãe de todas
as misérias”.
É necessário se debater a
comunidade como prioridade,
prevalecendo o princípio da
coletividade. Realizar-se
programas apolíticos, sem
conotação partidária, resultado
do debate e do entendimento, do
consenso, dos diferentes
segmentos sociais. Se
caminhasse a região para esse
pensamento administrativo,
poder-se-ia concretizar um
planejamento sustentável a
curto, médio e longo prazo.
Todo empreendimento deve
atender ao Triplo “E”, isto é,
Economia, Ecologia e Ética. Ser
economicamente viável, gerar
retorno financeiro à sociedade
envolvida em torno de toda essa
cadeia produtiva; ser
ecologicamente correto, dar
garantia de conservação
ambiental, respeito ao meio
ambiente; e ser socialmente
justo, proporcionar a geração
de emprego e renda para a
população incidente. Para isso,
detectam-se dois fatores
preponderantes ao seu
solucionamento: pesquisas e
investimentos. Primeiro, a
realização de um levantamento
social, econômico e cultural,
considerando-se fatores
educacionais, necessidades e
potencialidades no determinado
território. Posteriormente,
convém investimentos, colocar
em prática o resultado desse
levantamento, o diagnóstico
obtido na diagnose; buscar a
viabilização de programas
determinantes à exploração,
sustentável, desses potenciais,
dessas riquezas naturais e
artificiais; investir em
tecnologias cabíveis ao
empreendimento. Para isso, é
preciso assegurar o que diz no
Artigo 225 da Constituição
Federal: “Todos têm direito a
um meio ambiente ecologicamente
equilibrado, de uso comum do
povo e essencial à sadia
qualidade de vida, impondo-se
ao Poder Público e à
coletividade o dever de
defendê-lo e preservá-lo para
as presentes e futuras
gerações”.
Portanto, é necessário se
trilhar sempre pelo caminho do
Desenvolvimento Sustentável,
isto é, aquele que satisfaz as
necessidades das gerações
presentes sem eliminar os
recursos necessários para o
desenvolvimento das gerações
futuras. Tudo isso requer
recursos, porém, é preciso ser
prioridade administrativa. Por
último, uma dose de cultura.
Fazer com que o espírito
otimista penetre no coração das
pessoas; promover a garantia de
vida digna; melhorar, de uma
certa forma, a qualidade de
vida dessa gente.
Mudar da pobreza para uma vida
mais consentânea aos padrões
humanos de dignidade, é preciso
perseverança. Não se modifica
da noite para o dia. O que não
se pode admitir é que
continuemos com a mesma
situação problemática sem ser
solucionada. Para isso, é
necessário que os gestores
públicos decidam realmente
trabalhar, devotada e
honestamente, em prol da região
e de sua gente. Talvez assim,
evitar-se-ia o Êxodo Rural, e
viabilizaria-se o Sertão para
que o nosso povo pudesse viver
dignamente. Como se vê, novos
desafios estão colocados para
os que vêem nesse contexto de
políticas públicas, uma
oportunidade para mudar a
realidade rural, ao invés de
reproduzir padrões antigos.
Certa vez GUIMARÃES ROSA fez a
seguinte afirmação: “O
nordestino é antes de tudo um
forte”.
Dou meu testemunho da braveza
do cidadão sertanejo, em cujos
ombros suporta o peso das
conseqüências de tanto desmando
e falta de perspectivas de
solução. Como diz a sabedoria
popular: “Terra boa é a
nossa!”. Não existe lugar mais
confortável, melhor para se
morar, do que aquele que nos
deu sustento de vida, a nossa
terra natal.
Marcos Oliveira Damasceno
(Pesquisador) |