Pensar que no
convívio democrático
não existe conflito
pode se tornar uma
ilusão perigosa:
apenas nos Estados
autoritários
permanece a aparente
e perversa
homogeneidade de
pensamento, portanto
o consenso como
concordância de
idéias e atitudes
tem sido a meta
principal desejada
pelos homens.
O debate oferece
condições para que
as pessoas alcancem
autonomia pessoal e
capacidade para
assumir compromissos
na vida privada e
pública. Esse
exercício de
aprendizagem é a
forma mais nobre de
preparar as gerações
para as convivências
democráticas,
marcadas pelo
pluralismo das
tendências
divergentes.
É importante saber
qual a origem do
DEBATE, que
sociedades o
valorizam; como
podemos aprofundar
nossos argumentos e
recusar a
manipulação das
idéias; e por que o
DEBATE é um caminho
eficiente para a
cidadania.
O debate é uma forma
ou um jogo
democrático a ser
aprendido.
Em tempos
contemporâneos, onde
prevalecem à
democracia, suas
regras de
convivência,
recomendam o
reconhecimento de
nossas posições e o
respeito às dos
outros.
Em primeiro lugar
vamos imaginar três
situações:
SITUAÇÃO 01:
Acontece numa
lanchonete. João, um
jovem torcedor do
Flamengo,
encontra-se com
amigos torcedores de
outros times. É
domingo à noite,
acabaram de assistir
a uma partida cuja
vitória foi do
Flamengo. O pessoal
avalia os lances e o
melhor jogador em
campo, discute a
favor e contra a
arbitragem. Se João
for um debatedor
justo, e se os
amigos apresentarem
argumentos, bem
fundamentados, ele
mesmo poderá
concluir que seu
time não foi o
melhor em campo –
apesar de ter
ganhado o jogo.
SITUAÇÔA 02: Foi
convocada uma
assembléia de
estudantes. A verba
arrecadada na festa
junina deve ser
usada em prol da
escola: qual a
melhor forma de se
gastar o dinheiro? A
Associação de Pais e
mestres sugere a
reforma dos
banheiros. Os alunos
sugerem a compra de
novos livros para a
Biblioteca. Outro
grupo prefere que o
dinheiro seja usado
na ampliação da
quadra de
esportes... Cada
lado argumenta sobre
seu ponto de vista
no jornal mural
durante um mês e
agora a assembléia
promove uma eleição
para confirmar
democraticamente,
qual proposta
convenceu a maioria
dos alunos da
escola.
SITUAÇÃO 03: É época
de eleições. Há um
debate político na
tevê entre dois
candidatos, de
partidos diferentes.
O telespectador
assiste ao confronto
cheio de perguntas e
argumentos. Nos dias
seguintes ao debate,
o público se divide.
Os eleitores se
convenceram que
determinado
candidato pareceu
mais preparado para
governar, argumentou
melhor sobre os
assuntos... A
imprensa pergunta
“quem ganhou o
debate” ou “quem
melhor convenceu o
eleitor”, e a
corrida eleitoral
percorre mais uns
quilômetros nos
caminhos da
democracia.
Essas três situações
são conhecidas. Quem
nunca participou de
um debate sobre
futebol, política,
religião ou até
mesmo de um crime
com requintes de
crueldade?
Essas são situações
sociais que envolvem
a prática do debate.
Um debate informal
pode ser
manifestação livre e
pessoal a respeito
de qualquer outro
assunto... Debatemos
no bar, na sala de
nossa casa, no
ônibus ou no
trabalho. Ou inda
podemos encontrar o
debate definido por
regras mais formais,
nos congressos
políticos ou
científicos, nos
tribunais ou
escolas.
Afinal o que é o
debate? Como ele se
manifesta na vida
das pessoas, desde
quando, por quê?
O debate é um
processo democrático
que existe em
sociedade, a qual
está vivendo o
momento da
democracia e aceita
o diálogo como forma
de solucionar as
questões sociais. É
parte de um processo
de diálogo que
nasceu na Grécia,
berço da filosofia e
da democracia.
Era comum, na ágora
(praça pública) das
cidades gregas,
debaterem-se os
temas de interesses
gerais. Lá surgiu um
novo ideal de
justiça, perante os
antigos privilégios
dos nobres. Todos os
cidadãos excluídos
(mulheres, escravos
e estrangeiros)
tinham direitos na
democracia. Esses
eram inerentes ao
cidadão sem
privilégio de não
ter dinheiro ou ser
de família de
nobres. Quando esses
direitos foram
reconhecidos foi
reconhecida à
igualdade. Havendo
igualdade, havia a
possibilidade de se
discutir idéias,
analisá-las e
debatê-las.
O debate pode ser
ainda uma discussão
oral ou escrita onde
há razões a favor ou
contra um tema. O
debatedor conduz
seus argumentos para
equacionar um
problema,
esclarecendo seus
aspectos e
encaminhando-os para
uma possível adesão
e solução.
Num debate não pode
haver postura
intransigente,
bate-boca,
desrespeito, a não
aceitação às
diferenças, a falta
de diálogo e a
imposição de
opinião. Tudo isso
mata o debate.
Imagine a situação
número 01 que
acontece com o João
e os outros
debatedores muito
intolerantes que, de
antemão, achassem
que todo e qualquer
palmeirense fosse
teimoso; ou que os
palmeirenses jamais
discutissem os
critérios do juiz da
partida ou que se
fechassem na
avaliação de que seu
time é o melhor do
mundo porque é.
Pode até ser que, no
exemplo
futebolístico a
maioria na
lanchonete, acabe
acatando esse tipo
de argumentação por
intimidação ou
interesse pessoal,
mas de qualquer
forma, seria uma
vitória no “grito”:
o outro não foi
convencido por
argumentos e idéias,
mas, foi obrigado a
aceitar, umas
situações fechadas,
ditatoriais.
Para que o debate
seja legal devemos
seguir algumas
regras, já que este
é considerado um
jogo, mesmo formal
ou informal. Essas
normas devem ser
respeitadas pelos
participantes.
A primeira delas é
respeitar quem está
falando. Iniciado o
debate, esperar que
o outro conclua sua
idéia, mesmo que não
concorde com ela,
para depois pedir a
palavra. Pode-se
confirmar ou
discordar da idéia
proposta. Afinal o
que está em jogo é a
idéia e não a
pessoa.
O debate pode ser,
ainda, um amplo e
posicionamento
fértil para a
circulação e
intermediação de
idéias: ou liberais,
ou práticas, ou
conservadoras, mais
inovadas ou
equilibradas ou
ainda uma maneira do
debatedor encontrar
sua turma.
Num debate não há
apenas posições
extremadas. Um mesmo
debate pode
apresentar posições
delimitadas e
intermediárias. O
mais importante é
que elas tenham
espaços para
expressão, pois isto
é próprio da
democracia se
conviver com
situações e posições
diferentes.
Para um bom debate a
pesquisa é
fundamental. É por
meio dela que o
debatedor vai falar
pela “essência” e
não pela
“aparência”. Num
debate informal a
postura do “achismo”
é um equívoco.
Na vida prática
sabemos que existem
muitos manipuladores
que muitas vezes
vencem na vida. O
que podemos fazer é
não nos deixarmos
envolver pelos
falantes, pela boa
aparência e pelo
discurso demagógico.
No cenário atual da
cidade de SRN, pelo
que se percebe, a
polêmica do momento
é o “camarote vip”.
Um assunto que
deveria ser debatido
de forma
democrática, antes
de ser criticado.
É comum nas grandes
empresas, seus
proprietários,
oferecerem um
tratamento vip a
seus funcionários em
ocasiões especiais,
principalmente,
quando estes estão
desenvolvendo um bom
trabalho.
Eu já vivi uma
experiência do tipo,
quando da ocasião em
que meu esposo era
funcionário de uma
empresa
multinacional –
Distribuidora de
Cerveja – onde os
vendedores que
atingissem a meta,
ganhariam um prêmio,
que era nada mais
nada menos, do que
um final de semana
em Blumenau, santa
Catarina, na “OktoberFeste”.
(festival
tradicional de
cerveja). O
tratamento vip
começou desde o
aeroporto de
“Congonhas”, onde
fomos recepcionados
na sala vip, com um
coquetel vip. Éramos
um grupo de mais de
quatrocentas
pessoas, em dois
aviões fretados. Ao
chegarmos em
Navegantes,
novamente fomos
recepcionados na
sala vip do
aeroporto. Seguimos
viagem de ônibus
leito, com
tratamento vip.
Fomos hospedados em
um hotel quatro
estrelas. (na cidade
não havia hotel
cinco estrelas). Lá
fomos recepcionados
por bandas que
apresentavam danças
típicas. Em todo o
roteiro, que
incluía: a fábrica
da Sulfabril; a
fábrica da Hering
uma fábrica de
cristal; e uma
colônia de
italianos; bem como
o Parque de diversão
do “Beto Carrero”.
A bebida e a comida,
nos melhores
restaurantes da
cidade, era por
conta da empresa. Em
todos os lugares que
faziam parte do
roteiro éramos
recepcionados por
bandas que tocavam
músicas e danças
típicas. No local
principal do evento,
onde eram feitas as
apresentações de
atividades, havia um
camarote vip para o
grupo. O mais
importante de toda
esse processo, é que
o prêmio foi para
ricos e pobres,
desde os
supervisores,
coordenadores e
vendedores.
Portanto, não vejo
mal nenhum, o Padre
oferecer aos seus
funcionários e
autoridades locais
um tratamento vip,
numa ocasião
especial, como é o
festejo do
padroeiro. Vejo isso
como uma forma
deste, promover o
seu governo e
incentivar a sua
equipe.
É necessário
ficarmos atentos. É
fundamental que
aprendamos a ouvir.
Que reconheçamos as
posições dos outros.
Que procuremos
entender o que o
outro quer
transmitir, seja num
texto ou numa
conversa ou até
mesmo numa atitude
como essa do Padre.
O pensamento e a
posição crítica,
apenas pela crítica,
é a resposta diante
do cinismo de certas
posições que
pretendem ganhar a
qualquer custo.
O debate é uma forma
eficaz para acabar
com a prepotência e
a manipulação e de
ficarmos atentos e
respeitar às
posições alheias,
checarmos as nossas
e aprofundarmos os
nossos pontos de
vista ou até mesmo
refletir sobre
nossas ações e
atitudes.
Precisamos nos
preparar tanto para
a cooperação como
para o confronto.
Procurando, em
primeiro lugar, o
consenso, mas
sabendo aceitar o
dissenso. E isso se
tornará possível por
meio do exercício da
reflexão e da
discussão.
A reflexão é uma
forma de
desdobramento do
próprio pensamento
pelo qual buscamos
avaliar e até
discordar das
convicções mais
enraizadas. Refletir
é ousar discutir
consigo mesmo, como
se cada um levasse
“outro eu” para
dentro de si.
Se por um lado à
reflexão é um
procedimento de
“discussão”
interior, por outro
a “discussão” é uma
forma de “reflexão”
exteriorizada.
Quando discutimos,
manifesta-se,
efetivamente o
confronto com
pessoas de quem
podemos discordar,
mas a quem
precisamos aprender
a ouvir e aceitar em
sua diferença”.
Em outras palavras,
a reflexão, ao
colocar em questão
nossa idéia
preconcebida,
torna-se um remédio
para o
“preconceito”. E a
discussão permite o
exercício da
tolerância...
Por tudo isso, quem
ganha com o debate
somos todos nós e a
DEMOCRACIA.
Referência
Bibliográfica:
Coleção: Debate na
Escola
Kupstas,
Márcia - Ed. Moderna
Luma, Lucineide Maria.