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Entrevista Portal Sanraimundense

Niéde Guidon

20 de agosto de 2007.                                                                                    


 

Ela preside a fundação responsável pelo único parque das Américas considerado pela Unesco como patrimônio cultural da humanidade, o Parque Nacional Serra da Capivara, em São Raimundo Nonato (PI). E foi ela quem descobriu partes do esqueleto mais antigo do Brasil, que data de 13 mil anos atrás. São mais de três décadas dedicadas ao estudo dos primeiros humanos habitantes da Terra. Niède Guidon, uma das cientistas mais conhecidas no mundo e a mais importante arqueóloga brasileira.

Em Brasília, a arqueóloga de 75 anos concedeu a seguinte entrevista à Folha de São Paulo.

 


--- ENTREVISTA ---

 

FOLHA - O Parque Nacional da Serra da Capivara será mesmo fechado em setembro?

NIÈDE GUIDON - Se não entrarem mais recursos, seremos obrigados a fechar. A Petrobras nos repassaria todo ano cerca de R$ 1,7 milhão. Uma parte deveria chegar em setembro. Mas isso depende de o Ministério da Cultura aprovar o pedido que nos autorize a receber recursos da Lei Rouanet. Pedimos em março, e até hoje não saiu.

 



FOLHA - Não é a primeira vez que a senhora ameaça fechar o parque por falta de recursos.
GUIDON - Há anos que estamos trabalhando nesse sistema. Chega dinheiro, todo mundo suspira aliviado e continua trabalhando. Mas é um estresse muito grande. É por isso que estamos lutando para conseguir um orçamento fixo para o parque. O governo federal deveria garantir isso. O que nos tem salvo esses últimos anos tem sido a Petrobras. A Chesf já nos fez doações, a Caixa Econômica, os Correios.

 



FOLHA - Por que apenas estatais?
GUIDON - O parque nacional deveria ser sustentado pelo Ibama, e a proteção dos sítios arqueológicos deveria ser feita pelo Iphan. Acontece que esses órgãos não têm recursos.

 



FOLHA - Mas o problema é falta de dinheiro?
GUIDON - O Ibama tem 8.000 funcionários em Brasília. Em Teresina, tem tanto funcionário que não há mesa para todo mundo. No parque eu tenho um funcionário do Ibama e 23 guardas terceirizados. Nesses últimos meses, o serviço não parou porque a fundação [Museu do Homem Americano, a organização não-governamental que administra o parque] está pagando o combustível. Apenas 5 das 28 guaritas no entorno do parque têm funcionários.

 



FOLHA - O parque tem orçamento mensal de R$ 200 mil. Quanto seria necessário para funcionar bem?
GUIDON - Entre R$ 400 mil e R$ 500 mil por mês.

 



FOLHA - O governo decidiu dividir o Ibama e transferir as atividades de conservação para o Instituto Chico Mendes. Isso pode melhorar a situação dos parques nacionais?
GUIDON - Ali na região, o Incra faz coisas que são contrárias ao que o Ibama defende. Agora você já imaginou Chico Mendes e Ibama? O Piauí não vai ter uma representação do Chico Mendes. Vamos depender do Maranhão. Quando o dinheiro chega a Teresina, não chega até a Serra da Capivara. Agora, que vai chegar lá no Maranhão, nós não vamos ver nada.

 



FOLHA - Quantos visitantes o parque recebe hoje?
GUIDON - Em 2003, havia chegado a 15 mil, o que é ridículo. Mas choveu muito em 2004, e as estradas ficaram completamente arrebentadas. Aí as pessoas desistiram de ir. É por isso que o aeroporto em São Raimundo Nonato [cidade mais próxima do parque] é essencial.

 



FOLHA - O aeroporto já começou a ser construído?
GUIDON - Uma pequena empresa do Piauí, sem nenhum currículo para fazer aeroporto, ganhou a licitação. Começou a desmatar e logo pediu um aditivo contratual de R$ 12 milhões, o que é completamente ilegal. Foi desmatada a pista, começaram a fazer a terraplenagem. Pararam. Daí veio a chuva e levou tudo embora.

 



FOLHA - Se 15 mil visitantes é um número ridículo de turistas, qual o potencial do parque?
GUIDON - Uma firma suíça fez um estudo da região em 1998. Definiram que, uma vez que o aeroporto estivesse pronto e houvesse hotéis, receberíamos 3 milhões de turistas por ano.

 



FOLHA - Se o potencial é tão grande, porque falta investimento?
GUIDON - Não sei. Trabalho na região desde 1973 e vi várias vezes coisas como, por exemplo, a BR-020. A estrada foi asfaltada, mas o trecho que chega até São Raimundo ficou sem pavimentação até os anos 1990. Vinha dinheiro e o dinheiro sumia. A tal ponto que as pessoas lá têm a piada de que em Teresina faz tanto calor que o dinheiro chega de Brasília e derrete.

 



FOLHA - Os programas sociais do governo federal chegam até a população pobre que habita o entorno do parque?
GUIDON - Chegam! Está cheio de Bolsa Família. Tem gente miserável que não recebe, tem gente que é de família de político que recebe R$ 750,00 por mês de tanto cartãozinho. É costume local que políticos paguem seus funcionários particulares, como a empregada, com cartões do Bolsa Família.

 



FOLHA - Que avaliação a senhora faz do governo Lula em comparação ao governo FHC?
GUIDON - Para o Brasil, eu não sei dizer. Não tenho vocação para política. Para a administração do parque, existe uma diferença: no governo anterior, eu conhecia pessoas. Numa hora de desespero, eu chegava ao Palácio do Planalto e tinha acesso ao vice-presidente. Fernando Henrique foi meu contemporâneo na USP.


Fonte: Folha de São Paulo
 

 

 

 
 
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