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FOLHA - O Parque Nacional da Serra da Capivara será mesmo fechado
em setembro?
NIÈDE GUIDON - Se não entrarem mais recursos, seremos obrigados a
fechar. A Petrobras nos repassaria todo ano cerca de R$ 1,7 milhão. Uma
parte deveria chegar em setembro. Mas isso depende de o Ministério da
Cultura aprovar o pedido que nos autorize a receber recursos da Lei Rouanet.
Pedimos em março, e até hoje não saiu.
FOLHA - Não é a primeira vez que a senhora ameaça fechar o parque por
falta de recursos.
GUIDON - Há anos que estamos trabalhando nesse sistema. Chega
dinheiro, todo mundo suspira aliviado e continua trabalhando. Mas é um
estresse muito grande. É por isso que estamos lutando para conseguir um
orçamento fixo para o parque. O governo federal deveria garantir isso. O que
nos tem salvo esses últimos anos tem sido a Petrobras. A Chesf já nos fez
doações, a Caixa Econômica, os Correios.
FOLHA - Por que apenas estatais?
GUIDON - O parque nacional deveria ser sustentado pelo Ibama, e a
proteção dos sítios arqueológicos deveria ser feita pelo Iphan. Acontece que
esses órgãos não têm recursos.
FOLHA - Mas o problema é falta de dinheiro?
GUIDON - O Ibama tem 8.000 funcionários em Brasília. Em Teresina, tem
tanto funcionário que não há mesa para todo mundo. No parque eu tenho um
funcionário do Ibama e 23 guardas terceirizados. Nesses últimos meses, o
serviço não parou porque a fundação [Museu do Homem Americano, a organização
não-governamental que administra o parque] está pagando o combustível.
Apenas 5 das 28 guaritas no entorno do parque têm funcionários.
FOLHA - O parque tem orçamento mensal de R$ 200 mil. Quanto seria
necessário para funcionar bem?
GUIDON - Entre R$ 400 mil e R$ 500 mil por mês.
FOLHA - O governo decidiu dividir o Ibama e transferir as atividades de
conservação para o Instituto Chico Mendes. Isso pode melhorar a situação dos
parques nacionais?
GUIDON - Ali na região, o Incra faz coisas que são contrárias ao que
o Ibama defende. Agora você já imaginou Chico Mendes e Ibama? O Piauí não
vai ter uma representação do Chico Mendes. Vamos depender do Maranhão.
Quando o dinheiro chega a Teresina, não chega até a Serra da Capivara.
Agora, que vai chegar lá no Maranhão, nós não vamos ver nada.
FOLHA - Quantos visitantes o parque recebe hoje?
GUIDON - Em 2003, havia chegado a 15 mil, o que é ridículo. Mas
choveu muito em 2004, e as estradas ficaram completamente arrebentadas. Aí
as pessoas desistiram de ir. É por isso que o aeroporto em São Raimundo
Nonato [cidade mais próxima do parque] é essencial.
FOLHA - O aeroporto já começou a ser construído?
GUIDON - Uma pequena empresa do Piauí, sem nenhum currículo para
fazer aeroporto, ganhou a licitação. Começou a desmatar e logo pediu um
aditivo contratual de R$ 12 milhões, o que é completamente ilegal. Foi
desmatada a pista, começaram a fazer a terraplenagem. Pararam. Daí veio a
chuva e levou tudo embora.
FOLHA - Se 15 mil visitantes é um número ridículo de turistas, qual o
potencial do parque?
GUIDON - Uma firma suíça fez um estudo da região em 1998. Definiram
que, uma vez que o aeroporto estivesse pronto e houvesse hotéis,
receberíamos 3 milhões de turistas por ano.
FOLHA - Se o potencial é tão grande, porque falta investimento?
GUIDON - Não sei. Trabalho na região desde 1973 e vi várias vezes
coisas como, por exemplo, a BR-020. A estrada foi asfaltada, mas o trecho
que chega até São Raimundo ficou sem pavimentação até os anos 1990. Vinha
dinheiro e o dinheiro sumia. A tal ponto que as pessoas lá têm a piada de
que em Teresina faz tanto calor que o dinheiro chega de Brasília e derrete.
FOLHA - Os programas sociais do governo federal chegam até a população
pobre que habita o entorno do parque?
GUIDON - Chegam! Está cheio de Bolsa Família. Tem gente miserável que
não recebe, tem gente que é de família de político que recebe R$ 750,00 por
mês de tanto cartãozinho. É costume local que políticos paguem seus
funcionários particulares, como a empregada, com cartões do Bolsa Família.
FOLHA - Que avaliação a senhora faz do governo Lula em comparação ao
governo FHC?
GUIDON - Para o Brasil, eu não sei dizer. Não tenho vocação para
política. Para a administração do parque, existe uma diferença: no governo
anterior, eu conhecia pessoas. Numa hora de desespero, eu chegava ao Palácio
do Planalto e tinha acesso ao vice-presidente. Fernando Henrique foi meu
contemporâneo na USP.
Fonte: Folha de São Paulo
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