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Mais
um capítulo nessa semana, caros
leitores. Neste, Rosa do Arcanjos,
a amante, demonstra serenidade
diante de mais um infortúnio. Ela
ajuda o Magistrado a se recompor da
enfermidade que o acometeu e, por
conseguinte, viabiliza a vida
política dele.
Percebe-se, também, que o autor do
romance releva as características
de Rosa de forma peculiar: o
silêncio dela revela suas mais
notáveis qualidades.
Sem
perder o tino, o autor denuncia,
também, os preconceitos, a
hipocrisia e a mesquinharia –
sentimentos caducos e novéis que
habitam o mundo dos vivos.
O
período de recuperação do Dr.
Alarico em Parnaíba, apesar do peso
da doença que se abatia sobre ele,
foi mais uma oportunidade para
aproximar Rosa do Arcanjos de seu
companheiro. As adversidades
novamente puseram à prova a mulher
que, durante toda a vida, foi
colocada em xeque. Desta vez, a
superação teria que ser maior,
afinal enfrentar um mal orgânico
exigiria uma dose cavalar de
sentimentos e uma determinação
digna dos obstinados.
Não
se fez de rogada a Primeira-Dama.
Conduziu o problema, com a
proficiência costumeira, e ajudou,
sobremaneira, a recuperação de seu,
agora, marido.
Na
verdade, a sua condição de
companheira inseparável, situação
percebida muito antes pelo outrora
magistrado, foi sedimentada de vez.
As dificuldades serviram de
trampolim para a nossa personagem
mais emblemática.
O
romance é um misto de superação,
que reproduziu o que de melhor há
no ser humano: a utilização da
inteligência e da sensibilidade
para romper barreiras, superar
obstáculos e criar condições de
vida num ambiente social inóspito.
Ademais, a denúncia da hipocrisia,
do preconceito e da mesquinhez
humana dá o tom e revela a
personalidade dos que viveram na
época. Apesar de retratar isso de
forma contundente, o autor joga luz
nesse ambiente “insalubre”
entremostrando que o “pacote” de
maldades que cada um de nós carrega
pode ser vencido pela força
individual do ser humano.
Pouca coisa mudou no que diz
respeito aos conceitos e
preconceitos que se vertiam aos
borbotões naquela época. A nossa
sociedade, atavicamente, carrega o
“gene” das conclusões
preconcebidas, dos sentimentos
débeis, que se enraizaram de vez
com a atual visão patrimonialista.
A
denúncia é antiga, mas serve,
hodiernamente, como motor das
relações interpessoais. Somos hoje
o que fomos ontem. Seremos amanhã o
que somos hoje. O que muda? As
indumentárias, as máscaras, os
modos, os vícios.
Se o
romance fosse escrito hoje teríamos
os mesmos personagens. O
preconceito seria estampado
diferentemente. Não menos nocivo, o
sentimento que desagrega teria a
forma cambiante que sempre teve.
A
modernidade foi capaz de muita
coisa. Avançou nisso, avançou
naquilo, só não conseguiu
destituir-se de sua própria
torpeza.
“Mulher Dama, Sinhá Madama” é uma
obra extemporânea. À frente do seu
tempo, como foi Rosa, o romance não
perde o ritmo e não se perde pela
pieguice. Bem construído, o livro
denuncia, revela e aproxima o
leitor das personagens.
Discretamente, o autor projeta Rosa
sem se valer de ardis. O silêncio
eloqüente de Rosa a projeta ao
longo de sua vida. Pouco se ouve
dela. Podemos sentir seus olhos
passando pelos fatos e
analisando-os. Podemos sentir o seu
coração pulsar lentamente sem
alterações durante todos os fatos
que a envolveram.
Mesmo nas situações em que a
personagem maior é submetida aos
suplícios dos acordos familiares e
do modelo familiar da época,
podemos perceber que na sua
submissão há algo libertário.
Paradoxalmente, a personagem fala
nas suas inações. Seu silêncio
rompe as barreiras, diz mais do que
muitos que dispõem de uma
loquacidade inerente.
Zeferino
Júnior
– Servidor Público |