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Depois de enfrentar
os preconceitos interioranos,
afinal Rosa dos Arcanjos
freqüentava a zona do meretrício
antes de ser “resgatada” pelo
Magistrado, a ida para Teresina foi
um desafio ainda maior para os
dois, mormente para o Juiz, que
tinha de enfrentar a ira de sua
família.
Nesse “segundo”
momento, aproveito para “invadir” o
espaço do ficcionista e narrar o
encontro decisivo para os dois
amantes na capital piauiense, uma
vez que o autor sonegou
propositadamente a descrição do
novo enlace.
Separo em dois, pois, a
descrição do encontro na capital.
Hoje coloco a primeira parte. Na
semana que vem a segunda. Confesso
a vocês que foi o momento mais
“divertido” do desafio de escrever
sobre a famigerada obra.
Depois de enfrentar as dificuldades dos
estigmas interioranos, o magistrado
tem o desafio de enfrentar a
própria “família-fidalga”,
residente na Capital do Estado.
Apesar da preocupação, o indigitado
operador das leis não titubeia em
rumar, junto com sua amante, ao
seio familiar, mesmo certo que
enfrentaria o peso das opiniões
desabonadoras da conservadora
família.
Os preconceitos interioranos soçobraram
diante da relutância do magistrado
em ceder aos caprichos
consuetudinários da época.
O novo desafio, potencializado pela
proximidade dos familiares, pela
vida na “Corte” e seus
sugestionamentos, terá o condão de
desenlaçar o casal unido pelo
vínculo dos desejos e dos afagos?
Até quando paixão e ternura
suplantarão costumes e
conveniências? O jogo do amor se
esvaecerá pela força bruta das
imposições sociais?
O primeiro encontro no novo ambiente da
capital deu sinais positivos de que
o enlace perduraria. A volúpia e a
cupidez de antes reverberaram
desbragadamente nos corpos trêmulos
de desejo, ensandecidos de amor e
luxúria.
O congresso carnal entre os corpos neste
novo encontro não foi narrado pelo
autor do romance. Preferiu ele
remeter-nos aos primeiros
encontros, dando a entender que
havia uma semelhança entre aqueles
e este.
Tentando preencher a lacuna deixada
propositadamente pelo autor,
arrisco-me a narrar os detalhes que
permearam o encontro dos amantes na
cidade de Teresina.
Invado, pois, o espaço deixado pelo
regionalista e ouso, influenciado
por ele, a narrar um dos encontros,
talvez o mais importante da obra,
vez que o cenário da Capital do
Estado seria o palco dos mais
importantes acontecimentos da vida
dos dois incautos amantes.
Abro aspas para mim mesmo:
“O magistrado, melindroso, seguiu até onde
a amante se encontrava. Olhar de
soslaio, passos claudicantes e uma
“nuvem” espessa de dúvidas e
desejos o acompanhavam. O coração
já não se agüentava mais de tanto
sacudir. Mais algumas horas e as
coronárias se romperiam
violentamente.
O aproximar dos aposentos, onde a amante o
esperava, não diminuía sua
excitação, ao revés, estimulava
mais ainda as sensações que o
cobriam. A noite daquele dia tinha
um novo aspecto: a brisa que quase
nunca se mostrava nas noites
abafadas da capital, naquele dia
corria todo o corpo do juiz.
Em verdade, a brisa parecia ser produzida
pelos suores gélidos que o seu
próprio corpo expelia. Um suor
esquisito que abafava e, ao mesmo
tempo, resfriava suas mãos e dedos.
A gola alta da camisa de cambraia
de linho aumentava mais ainda a
idéia de sufocamento. A sensação
era de um condenado à forca à beira
de sua execução.
O ar faltava, a sensação de que o chão iria
ceder a qualquer momento aumentava
a angústia. Uma tontura queria
barrar os seus passos curvilíneos e
o remetê-lo ao chão. A respiração
ofegante tirava o prumo de sua
caminhada.
Chegando à porta da casa, bateu com
reticências. A porta se abriu
lentamente.
Os traços femininos de Rosa se assomaram e
a meia luz do lampião iluminou
apenas parte de seu rosto bem
definido: o suficiente para
acelerar mais ainda as batidas
descompassadas do coração do
magistrado. Os traços da amante
conservavam a formosura de outrora,
ainda guardada na memória.
Zeferino
Júnior
– Servidor Público |