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A
pergunta é certeira: “Você já
transgrediu alguma norma quando
estava concentrado para os jogos da
seleção brasileira”. A resposta é
precisa: “Já”. Entrevistado e
entrevistador se satisfazem numa
complacência com o imoral. Os
milhões de espectadores vibram
freneticamente: “é o cara”!
O
entrevistado começa a detalhar suas
“imoralidades sadias’ que tanto
alimenta o seu ego e os dos seus
compatriotas. “Já fugi da
concentração em dias de jogo para
fazer sexo; já fiz sexo no avião de
volta de uma competição; gosto de
duas coisas na vida: futebol e
sexo”.
Assim é o tom da entrevista do
nosso maior ídolo do futebol
brasileiro, elevado à categoria de
herói nacional pelo seu “grande”
serviço prestado à nação. Romário,
o baixinho, nos (des)encanta com
sua performance verbal carregada de
egocentrismo., numa entrevista dada
ao Fantástico da TV Globo.
Quando Sérgio Buarque de Holanda,
no seu clássico Raízes do Brasil,
identificou o “Homem Cordial” não
quis ele dá à expressão nada
abonador. Ao revés, a tibieza, a
pusilanimidade e a indolência
construída durante no nosso
processo de formação cultural é que
forjaram a consciência do
brasileiro “cordial”.
A
tragédia moral que nos acomete
esgarça o tecido social que nos
envolve. As leis, as normas ganham
contornos mais sugestivos do que
imperativos. Quando os primeiros
traços do Estado de Direito, do
império da Lei, foram esboçados,
não tínhamos uma consciência de
nação sedimentada. Os arranjos, a
polticalha, o compadrio, gestaram o
Estado brasileiro.
Transgredir, para nós, é uma
façanha digna de júbilo. Por isso,
a sanha em transgredir conforta
nosso espírito e potencializa a
admiração que temos pelos
transgressores, os viciados em
vícios, os que preferem os
descaminhos morais.
Como
o que gerou o texto foi uma fala de
um futebolista, nada melhor do que
corroborar a tese com um fato
envolvendo outro da área. Quando o
Técnico de Futebol Wanderley
Luxemburgo há alguns anos foi
flagrado em operações suspeitas
auferindo vantagens em transações
de jogadores entre clubes e
sonegando Imposto de Renda,
preferiu, o famoso técnico, assumir
o crime tipificado no Código Penal
a assumir uma atitude no máximo
imoral.
Na
sua fala, ele foi enfático:
“soneguei impostos, mas não me
beneficiei das transações
envolvendo clubes, empresários e
jogadores”.
Em
resumo, entre o ilícito e o imoral
prefere-se o ilícito; entre o moral
e o imoral, prefere-se este. Essa é
a nossa dinâmica. Essa é a nossa
vida. Essa é a nossa tragédia.
Zeferino
Júnior
– Servidor Público |