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A
crônica, a meu ver, é a mais bela
materialização da escrita. É ela
que preenche os claros do
cotidiano. A sua leveza empresta à
vida um toque mais poético e
cadenciado.
O
cronista, por sua vez, é esse ser
atento às filigranas, aos
acontecimentos. É ele que, na sua
sensibilidade, traveste ou desnuda
o mundo dos fatos para que ele se
apresente mais leve, menos cru: uma
dissimulação saudável .
Vinícius, o “poetinha”, genial no
seu “Exercício da crônica” vaza com
maestria que lhe é peculiar o
ambiente em que mergulha o
cronista: “ Senta-se ele diante de
sua máquina, acende um cigarro,
olha através da janela e busca
fundo em sua imaginação um fato
qualquer, de preferência colhido no
noticiário, matutino, ou da
véspera, em que, com suas
artimanhas particulares, possa
injetar um sangue novo... ou, em
última instância, recorrer ao
assunto da falta de assunto, já
bastante gasto, mas do qual, do ato
de escrever, pode surgir
inesperado”.
Eu,
aficcionado por elas, vivo querendo
achar um motivo para inventá-las ou
criá-las. Despido dos dotes de
cronista não encontro assunto nem
na falta de assunto. Emperro na
primeira frase. No primeiro olhar.
Tento premeditá-la. Mas não dá. Nas
minhas andanças tento captá-las,
como um caçador de borboletas
manejando sua haste em busca de sua
presa.
Às
vezes, encho-me de orgulho por
achar que tenho uma crônica com
início, meio e fim na cabeça. Tento
represá-la para que logo chegue em
casa e possa reproduzi-la no papel.
Crio diques para que as
características captadas num átimo
fiquem circunscritas aos contornos
da minha mente. Ledo engano. Logo
os diques se rompem e os adjetivos,
as exclamações, as descrições
escoam numa enxurrada arrasadora.
Perco a crônica e a minha vida não
se completa. Esqueço, afinal já há
martírio demais nesse mundo
desumano. Volto à minha vida
normal.
Penso estar livre dessa
“perseguição”. Mas logo no primeiro
sinal vermelho do semáforo, tudo
volta à tona. Aqueles garotos e
garotas famélicos com seus
malabares, que ora soltam chamas
chamuscando suas faces, ora
circundam seus rostos numa perfeita
simetria com laranjas murchas,
trazem a lume, novamente, o desejo
de materializar o “espetáculo” do
cotidiano.
O
tempo de parada é pequeno. As
fuligens que dos escapamentos dos
carros dificultam mais ainda a
capacidade de entender tudo aquilo.
O sinal abre, os vidros não se
abrem, as mãos ficam estendidas ao
vento. Pelo retrovisor dá pra ver o
sinal se fechando junto com o
sorriso amarelo dos “artistas da
fome”.
Eu
sigo em frente. Aumento o volume da
música e do ar-condicionado do
carro. Penso um pouco. Tento me
distrair. Vem um pensamento rápido.
Reflito. Xingo, no íntimo, o
motorista da frente que insiste em
não sair do lugar. E sai em voz
alta, abafada pelo som da música,
uma queixa: “que se danem as
crônicas”.
Zeferino
Júnior
– Servidor Público |