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   Com Zeferino Junior      

 

Entrementes, entre mentes, entre mim e ti. Entretanto, entre tantos, no entanto.......

Caros leitores-internautas, "ocuparei" este espaço pra falar e "provocar" vocês sobre política, cultura e direito.

 

 
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As Crônicas que escapam

z_junior@bol.com.br


A crônica, a meu ver, é a mais bela materialização da escrita. É ela que preenche os claros do cotidiano. A sua leveza empresta à vida um toque mais poético e cadenciado.

 

O cronista, por sua vez, é esse ser atento às filigranas, aos acontecimentos. É ele que, na sua sensibilidade, traveste ou desnuda o mundo dos fatos para que ele se apresente mais leve, menos cru: uma dissimulação saudável .

 

Vinícius, o “poetinha”, genial no seu “Exercício da crônica” vaza com maestria que lhe é peculiar o ambiente em que mergulha o cronista: “ Senta-se ele diante de sua máquina, acende um cigarro, olha através da janela e busca fundo em sua imaginação um fato qualquer, de preferência colhido no noticiário, matutino, ou da véspera, em que, com suas artimanhas particulares, possa injetar um sangue novo... ou, em última instância, recorrer ao assunto da falta de assunto, já bastante gasto, mas do qual, do ato de escrever, pode surgir inesperado”.

 

Eu, aficcionado por elas, vivo querendo achar um motivo para inventá-las ou criá-las. Despido dos dotes de cronista não encontro assunto nem na falta de assunto. Emperro na primeira frase. No primeiro olhar. Tento premeditá-la. Mas não dá. Nas minhas andanças tento captá-las, como um caçador de borboletas manejando sua haste em busca de sua presa.

 

Às vezes, encho-me de orgulho por achar que tenho uma crônica com início, meio e fim na cabeça. Tento represá-la para que logo chegue em casa e possa reproduzi-la no papel. Crio diques para que as características captadas num átimo fiquem circunscritas aos contornos da minha mente. Ledo engano. Logo os diques se rompem e os adjetivos, as exclamações, as descrições escoam numa enxurrada arrasadora.

 

Perco a crônica e a minha vida não se completa. Esqueço, afinal já há martírio demais nesse mundo desumano. Volto à minha vida normal.

 

Penso estar livre dessa “perseguição”. Mas logo no primeiro sinal vermelho do semáforo, tudo volta à tona. Aqueles garotos e garotas famélicos com seus malabares, que ora soltam chamas chamuscando suas faces, ora circundam seus rostos numa perfeita simetria com laranjas murchas, trazem a lume, novamente, o desejo de materializar o “espetáculo” do cotidiano.

 

O tempo de parada é pequeno. As fuligens que dos escapamentos dos carros dificultam mais ainda a capacidade de entender tudo aquilo. O sinal abre, os vidros não se abrem, as mãos ficam estendidas ao vento. Pelo retrovisor dá pra ver o sinal se fechando junto com o sorriso amarelo dos “artistas da fome”.

 

Eu sigo em frente. Aumento o volume da música e do ar-condicionado do carro. Penso um pouco. Tento me distrair. Vem um pensamento rápido. Reflito. Xingo, no íntimo, o motorista da frente que insiste em não sair do lugar. E sai em voz alta, abafada pelo som da música, uma queixa: “que se danem as crônicas”.  

 

Zeferino Júnior – Servidor Público

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