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O
alheamento produzido pela loucura é
algo que impressiona. O
“desligamento” do mundo “normal”
apresenta-se com características
que assustam e deveriam provocar
reflexões em cada um de nós.
Os
tiques nervosos, as falas
desencontradas, o olhar catatônico,
os gestos abruptos dão algumas das
diversas características que
identificam os, supostamente,
alienados - uso a expressão
alienado no seu sentido mais
literal, qual seja, o de alheado,
em estado de alienação, louco.
Quem
são eles e que tipo e grau de
loucura eles se encontram? Quantos
existem em nossa cidade? Ninguém
sabe.
Devem estar por aí em seus cantos,
em seus “porões” mentais,
“seqüestrados” por uma patologia
que lhes tira o discernimento e a
possibilidade de conviver em
harmonia com os ditos “normais”.
Normal vem de norma. Norma é um
preceito, um modelo, um padrão.
Quem não se “encaixa” nesse padrão
de conduta é tido como anormal e é
excluído e relegado à margem do
processo “civilizatório”.
Michel Foucaut, Filósofo e
professor francês, fez uma incursão
ao mundo da loucura em seu
“História da Loucura”. Do
renascimento à modernidade o
estudioso da mente humana expôs a
maneira como a doença foi tratada
no curso da história.
Sem
querer adentrar num tema tão
complexo, até porque me falece
conhecimentos para tratá-lo com a
sapiência que merece, veio-me à
lembrança alguns sanraimundenses,
tidos como loucos, que circulavam,
na época da minha infância, pelas
ruas de nossa cidade.
Quem
não se lembra da Janelinha, do
Antônio “doido”, da Socorro
“doida”, da “Muda”, do Bié, enfim
de uma porção de conterrâneos de
poucos recursos que viviam
perambulando pelo município, sem
amparo da família e de tratamento
médico.
Os
“nossos loucos” serviam de mote
para as brincadeiras da meninada
mais afoita. Serviam, também, de
instrumento de medo que os pais,
que não queriam que seus filhos
ganhassem às ruas, utilizavam para
impedir que eles saíssem de casa.
A
Socorro “doida”, inofensiva,
esquálida, desfilava, volta e
meia, sem as vestes. Nada cobria o
seu corpo descarnado, pálido. Era
preciso alguém acudir com um pano
para vesti-la e impedir que suas
“vergonhas” fossem expostas aos
olhos de todos.
O
Bié, encontrado morto em
circunstâncias misteriosas, no
leito do rio Piauí, era uma figura
que também marcou essa época.
Sofria de epilepsia, distúrbios de
consciências, que o levavam, volta
e meia, no ápice de suas crises, ao
chão. Os espasmos e os tremores
tomavam conta do seu corpo. Uma
cena chocante. Não parecia ser
louco. Vivia de pequenos trabalhos
braçais, que garantiam seu
sustento.
A
“Muda”, figura mais recente,
desfilava, barulhenta, apontando
para um e para outro. Com gestos
obscenos e com um ar de
agressividade, parecia rir de
nossas reações medrosas. Chacoteava
de nós com seus gritos estridentes.
Não sei exatamente de que ela
faleceu. Não tenho notícias.
Lembro-me muito bem da generosidade
da Dona Amenália Macedo que, volta
e meia, a “capturava” para lhe dar
um belo banho e tirar-lhe o
encardido do corpo assentado pela
ausência de higiene.
Esses foram os mais marcantes,
pelos menos para mim. Pessoas
despossuídas que viviam acometidas
por algum desvio comportamental,
que todos chamavam de loucura ou
doidice.
Hoje, quando resolvo visitar São
Raimundo, praticamente não vejo
figuras que poderiam ser chamadas
de loucos, pelo menos nos moldes de
antigamente.
O
bom, asseado e barulhento Hipólito,
que na sua verborragia diuturna
anuncia boas novas, dá notícias de
política, ler jornais a toda altura
e fala do seu amado coringão com
fervor, apesar de muitos acharem,
não me parece um alheado. Confesso
que acho que às vezes ele rir de
nossa cara. Intuo que, quando ele
se recolhe em seus aposentos,
retoma sua serenidade e se comporta
como um senhor sisudo,
compenetrado.
Em
verdade, os que viviam no seu mundo
particular, mergulhados nos seus
universos de alucinações e que
emprestavam à cidade uma pitada de
insanidade, capaz de “normalizar” o
ambiente citadino, não preenchem
mais os espaços de outrora.
Despojados da sandice dos
“insanos”, nós, sanraimundenses,
estamos mergulhados na loucura da
normalidade: envoltos em escândalos
de corrupção, em assaltos, no uso
de drogas, em estupros.
“Trocamos” a “loucura dos justos”
pela esquizofrenia dos que se
intitulam normais e saudáveis.
Zeferino
Júnior
– Servidor Público |