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   Com Zeferino Junior      

 

Entrementes, entre mentes, entre mim e ti. Entretanto, entre tantos, no entanto.......

Caros leitores-internautas, "ocuparei" este espaço pra falar e "provocar" vocês sobre política, cultura e direito.

 

 
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A loucura da normalidade

z_junior@bol.com.br


O alheamento produzido pela loucura é algo que impressiona. O “desligamento” do mundo “normal” apresenta-se com características que assustam e deveriam provocar reflexões em cada um de nós.

 

Os tiques nervosos, as falas desencontradas, o olhar catatônico, os gestos abruptos dão algumas das diversas características que identificam os, supostamente, alienados - uso a expressão alienado no seu sentido mais literal, qual seja, o de alheado, em estado de alienação, louco.

 

Quem são eles e que tipo e grau de loucura eles se encontram? Quantos existem em nossa cidade? Ninguém sabe.

 

Devem estar por aí em seus cantos, em seus “porões” mentais, “seqüestrados” por uma patologia que lhes tira o discernimento e a possibilidade de conviver em harmonia com os ditos “normais”.

 

Normal vem de norma. Norma é um preceito, um modelo, um padrão. Quem não se “encaixa” nesse padrão de conduta é tido como anormal e é excluído e relegado à margem do processo “civilizatório”.

 

Michel Foucaut, Filósofo e professor francês, fez uma incursão ao mundo da loucura em seu “História da Loucura”.  Do renascimento à modernidade o estudioso da mente humana expôs a maneira como a doença foi tratada no curso da história.  

 

Sem querer adentrar num tema tão complexo, até porque me falece conhecimentos para tratá-lo com a sapiência que merece, veio-me à lembrança alguns sanraimundenses, tidos como loucos, que circulavam, na época da minha infância, pelas ruas de nossa cidade.

 

Quem não se lembra da Janelinha, do Antônio “doido”, da Socorro “doida”,  da “Muda”, do Bié, enfim de uma porção de conterrâneos de poucos recursos que viviam perambulando pelo município, sem amparo da família e de tratamento médico. 

 

Os “nossos loucos” serviam de mote para as brincadeiras da meninada mais afoita. Serviam, também, de instrumento de medo que os pais, que não queriam que seus filhos ganhassem às ruas, utilizavam para impedir que eles saíssem de casa.

 

A Socorro “doida”, inofensiva, esquálida, desfilava, volta e meia,  sem as vestes. Nada cobria o seu corpo descarnado, pálido. Era preciso alguém acudir com um pano para vesti-la e impedir que suas “vergonhas” fossem expostas aos olhos de todos.

 

O Bié, encontrado morto em circunstâncias misteriosas, no leito do rio Piauí, era uma figura que também marcou essa época. Sofria de epilepsia, distúrbios de consciências, que o levavam, volta e meia, no ápice de suas crises, ao chão. Os espasmos e os tremores tomavam conta do seu corpo. Uma cena chocante. Não parecia ser louco. Vivia de pequenos trabalhos braçais, que garantiam seu sustento.  

 

A “Muda”, figura mais recente, desfilava, barulhenta, apontando para um e para outro. Com gestos obscenos e com um ar de agressividade, parecia rir de nossas reações medrosas. Chacoteava de nós com seus gritos estridentes. Não sei exatamente de que ela faleceu. Não tenho notícias. Lembro-me muito bem da generosidade da Dona Amenália Macedo que, volta e meia, a “capturava” para lhe dar um belo banho e tirar-lhe o encardido do corpo assentado pela ausência de higiene.

 

Esses foram os mais marcantes, pelos menos para mim. Pessoas despossuídas que viviam acometidas por algum desvio comportamental, que todos chamavam de loucura ou doidice.

 

Hoje, quando resolvo visitar São Raimundo, praticamente não vejo figuras que poderiam ser chamadas de loucos, pelo menos nos moldes de antigamente.

 

 O bom, asseado e barulhento Hipólito, que na sua verborragia diuturna anuncia boas novas, dá notícias de política, ler jornais a toda altura e fala do seu amado coringão com fervor, apesar de muitos acharem, não me parece um alheado. Confesso que acho que às vezes ele rir de nossa cara. Intuo que, quando ele se recolhe em seus aposentos, retoma sua serenidade e se comporta como um senhor sisudo, compenetrado.

 

Em verdade, os que viviam no seu mundo particular, mergulhados nos seus universos de alucinações e que emprestavam à cidade uma pitada de insanidade, capaz de “normalizar” o ambiente citadino, não preenchem mais os espaços de outrora.

 

Despojados da sandice dos “insanos”, nós, sanraimundenses, estamos mergulhados na loucura da normalidade: envoltos em escândalos de corrupção, em assaltos, no uso de drogas, em estupros.

 

“Trocamos” a “loucura dos justos” pela esquizofrenia dos que se intitulam normais e saudáveis.  

 

Zeferino Júnior – Servidor Público

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