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Espetacularizar. Esse é o impulso
mais primitivo estimulado em nós,
atualmente. A sociedade "moderna"
assim exige. Um fato corriqueiro
ganha ares de espetáculo. Enquanto
algo realmente sério passará
despercebido em alguns dias, após
tanto estardalhaço. Flashes,
imagens, cliques, caras e bocas, e
muita dramatização, emprestam aos
acontecimentos um pulsar
extraordinário, algo dantesco.
A
notícia instantânea, os fatos se
atropelando, a vida se
miniaturizando, a pressa sendo
alçada à condição de motor da
humanidade. Marginalizados, somos
vez por outra empurrados para o
epicentro dos acontecimentos,
paradoxalmente, tragados pela roda
viva da vida.
Do
assassinato da garota Isabella, com
todos os seus requintes demoníacos,
ao excesso de peso do Ronaldinho, o
"fenômeno". O melhor ângulo, o
“furo” de reportagem, a matéria
“exclusiva”, as últimas notícias,
“ao vivo”, fazem o diferencial para
prender a atenção do público,
enquanto sorrateiramente um e outro
merchandising acabam se infiltrando
no subconsciente do espectador. E,
assim, sem que nos demos conta, a
imagem de uma gordurinha
sobressalente que escapa da blusa
do craque brasileiro acaba tendo a
mesma importância do olhar
catatônico do pai de Isabella sendo
levado à prisão no carro da
polícia, até que a notícia seja
esquecida e outro viés
sensacionalista tome conta de
nossas mentes.
Não
há mais hierarquia entre os bens da
vida. Todos estão no mesmo saco. A
manipulação das imagens, a inversão
dos valores, a onipresença da
mídia, a banalização da nudez e do
sexo, a normalidade das práticas
ilícitas, o desapego, a distância,
o isolamento, são os ingredientes
desse "admirável mundo novo".
A
notícia é esgotada em toda sua
essência. Quando não há notícias,
vocifera-se: "Atenção!!! Não
percam! Não saiam daí! Daqui a
pouco! Logo, logo! Em instantes."
De repente, logo depois da
imagem de uma boazuda propagando
uma marca de cerveja, volta o
apresentador, com vultuosidades na
face, anunciando: "- Não há nada de
novo no caso". Repete-se a matéria
do dia anterior e acrescenta-se um
detalhe sem importância: pronto, o
nosso vazio foi preenchido.
E
assim, a nossa vida é pautada.
Entra dia e sai dia. Esmagados
pelos acontecimentos, somos
empurrados para o mundo "moderno".
A realidade nos escapa. Somos
eternamente comandados e (re)
direcionados. Tornamo-nos
dependentes de tudo.
As
novas drogas da humanidade são
potentes, capazes de causar
abstinências terríveis. Experimente
esquecer o celular em casa, ao
sair. Um pânico só. O medo de estar
desconectado pode levar ao
desespero.
Mais
um pouco e a esquizofrenia será uma
nova "gripe". Uma espécie de vírus
mutante. A indústria farmacêutica
lucrará em demasia com isso. As
"novas" seitas religiosas
prometerão a cura imediata. Os
cientistas anunciarão pesquisas que
dependerão de "células raízes", em
vez de "tronco", como a panacéia. A
mídia, ah!! A mídia regozijará com
toda sua afetação, deleitando-se em
seu frêmito alienado.
Zeferino
Júnior
– Servidor Público |