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   Com Zeferino Junior      

 

Entrementes, entre mentes, entre mim e ti. Entretanto, entre tantos, no entanto.......

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“ELA”

z_junior@bol.com.br


Caros leitores, o texto é maior do que o de costume. Peço a vocês que leiam com atenção. Façam uma pausa e reflitam.

 

 

“ELA”

 

“ELA” – SÃO RAIMUNDO NONATO, imaginemos nossa cidade assim:

 

“Ela” acordou atordoada depois de uma longa noite atribulada, aliás as noites dos últimos cinqüenta anos tinham sido assim.

 

A seqüência de pesadelos só era quebrada, volta e meia, por um sonho bom, muito raro, diga-se de passagem. Em regra, noite após noite, dia após dia, as alucinações tomavam conta dela. Uma espécie de delírio pré-morte. Algo assustador, inenarrável.

 

Apalpou-se para se certificar da sua própria existência, pelo menos a física, vez que seu espírito já havia definhado desde os primeiros dias daquele meio século.

 

A sua pele, envelhecida e maltratada, era um retalho só. Não havia um espaço em que não houvesse uma laceração, um corte. Colocou as mãos no rosto magro, “qualhado” de rugas, para sentir os olhos e a boca.

 

Os olhos, umedecidos, encharcados de tantas lágrimas derramadas, inchados de choros compulsivos e constantes, há muito permaneciam com aquela aparência disforme. Quase cinco décadas derramando lágrimas os deixaram com um aspecto fosco. Uma espécie de catarata havia se espalhado pelas retinas. Notava-se um resquício de um brilho muito escondido, no fundo, bem no fundo, mas a diminuta “chama” dava sinais de desvanecimento. O seu tísico movimento assemelhava-se à dança de uma bailarina esquálida, anciã, despojada da pujança de outrora.

 

Aqueles olhos que um dia abrigaram o brilho de um relâmpago, agora guardavam semelhanças a um velho candeeiro a querosene, dono de uma luz estéril e febril.

 

A boca, acompanhava o declínio dos olhos. Pálida, sem expressão, ressequida, não era capaz de realçar suas formas. Pendia para um lado, como se houvesse sofrido alguma espécie de derrame.  Não conseguia, nem mesmo, esconder os dentes cariados que insistiam em se projetar além-lábios: desprotegidos e inconstantes – a cada dois, um faltava – serviam como um cartão de visitas às avessas.  

 

Depois dos dois primeiros atos tácteis, levantou-se. Olhou ao lado e lá estava o responsável por todos os seus desacertos. Refestelado na cama, roncava intermitentemente. Aquele ente que resolveu um dia apropriar-se do seu corpo e da sua alma, existia. O seu aspecto de felino saciado causava-lhe repugnância. Apesar do jeitão meio decaído, notava-se certa satisfação. Um riso “escorregando” permanentemente no canto direito da boca emprestava-lhe um aspecto sarcástico, zombador.

 

“Ela” foi ao banheiro. O espelho rachado refletia sua imagem decaída. Olhou por várias vezes sem acreditar. Reproduziu em voz baixa, num som meio gutural, os dizeres de Cecília Meireles: - “ em que espelho ficou perdida minha face?”.  Aproximou-se o mais próximo possível. O resultado foi assombroso: não conseguia mais se enxergar. Uma espécie de pânico tomou conta do seu corpo. Invadiu-lhe a alma. E a tentativa de estancar o choro não prosperou. Sentou-se no vaso sanitário e chorou, chorou como uma criança recém nascida. Depois, acomodou-se em posição fetal, numa tentativa vã de retornar aos primeiros tempos, e escorregou devagarzinho pelo canto da parede até alcançar o úmido e gélido chão.

 

Aquela tentativa de retornar às origens lhe fez bem. Lembrou como era próspera e vultosa. Um filme passou diante dos seus olhos. Recordou do ar libertário e leve quando ainda não era dominada por aquele ser daninho. Era jovem, tinha um futuro promissor.  O seu passado, então, remontava aos primeiros povoamentos humanos de uma terra. Isso mesmo. Era o berço de um continente. Uma lenda!!

 

Sorte sua ter registrado, com seu “batom” vermelho, os rituais do cotidiano nos paredões petrificados. Uma marca indelével de sua existência estava lá, inapagável, fossilizada, que não poderia ser extinta. Agora vivia na esperança de se projetar por meio desse passado glorioso. Num tempo ainda mais recente, antes é claro desse cinqüentenário, tinha vitalidade de sobra.

 

Depois do surto, retomou-lhe a sobriedade e voltou para seu inferno particular. Arrumou-se na tentativa de melhorar o seu aspecto enxovalhado. Nas pontas dos pés andou em direção à porta. Abriu-a devagar. Deixou para trás seus suplícios e enfrentou a aurora do dia.

 

Estranhou que havia uma festa das grandes em seu “quintal”. Pessoas, que parece haviam virado a noite, caminhavam de um lado para o outro ao som de um batuque estranho. Músicas indecifráveis e apelativas tomavam conta do ambiente. Muitos jovens embriagados e drogados. Um “monstro” de luz com várias bocas enormes reverberava um som inaudível. A farra tinha atravessado a noite e rompido a manhã. Era carnaval!!

 

Todos olhavam para “Ela”. Uns, com olhar judicial, reprovativo. Outros, mal olhavam: parece que haviam se acostumado com seu aspecto. Teve vontade de voltar. Mas já não podia. Ficou ali parada, inerte, observando tudo e a todos. Percebeu que ela era o palco. Sem ela não haveria aquele amontoado de gente cercada por cordas, pulando, saltitando e gritando. Sentiu-se útil pela primeira vez. Percebeu que apesar do seu aspecto de abandono, ainda era capaz de atrair pessoas para o seu convívio.

 

Enquanto isso, seu algoz ainda não havia despertado. Sem se aperceber de sua saída, continuava no seu sono ridículo. Sabia que “ela” não poderia ir longe.

 

 Com o fim da festa, olhou em volta e percebeu que estava mais suja ainda. Não se importou. Afinal, a sujeira já não a incomodava mais. Tinha que voltar para o seu leito. Tinha que enfrentar a realidade. Afinal, essa união tinha que dar frutos, ainda que não bem-aventurados. Ensimesmada, voltou de vez para os braços de quem a maltratava.

 

Sabia que ainda tinha um caminho a percorrer pela frente. Não se sabe até quando. O divórcio poderia está perto de se concretizar. Talvez, não. Tudo era imprevisível. Um enlace de meio século não se quebra de um dia para a noite.

 

Ao voltar, teve que enfrentar os caprichos e a violência. Deitou-se. Sentiu um peso subir sobre ela. Mordeu os lábios. Uma solitária lágrima escorreu lentamente pela sua face. Foi invadida novamente. Violentada, sofreu e se perguntou em pensamento: - “até quando”?  

 

Zeferino Júnior – Servidor Público

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