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Caros leitores, o texto é maior
do que o de costume. Peço a
vocês que leiam com atenção.
Façam uma pausa e reflitam.
“ELA”
“ELA” – SÃO RAIMUNDO NONATO,
imaginemos nossa cidade assim:
“Ela” acordou atordoada depois
de uma longa noite atribulada,
aliás as noites dos últimos
cinqüenta anos tinham sido
assim.
A seqüência de pesadelos só era
quebrada, volta e meia, por um
sonho bom, muito raro, diga-se
de passagem. Em regra, noite
após noite, dia após dia, as
alucinações tomavam conta dela.
Uma espécie de delírio
pré-morte. Algo assustador,
inenarrável.
Apalpou-se para se certificar
da sua própria existência, pelo
menos a física, vez que seu
espírito já havia definhado
desde os primeiros dias daquele
meio século.
A sua pele, envelhecida e
maltratada, era um retalho só.
Não havia um espaço em que não
houvesse uma laceração, um
corte. Colocou as mãos no rosto
magro, “qualhado” de rugas,
para sentir os olhos e a boca.
Os olhos, umedecidos,
encharcados de tantas lágrimas
derramadas, inchados de choros
compulsivos e constantes, há
muito permaneciam com aquela
aparência disforme. Quase cinco
décadas derramando lágrimas os
deixaram com um aspecto fosco.
Uma espécie de catarata havia
se espalhado pelas retinas.
Notava-se um resquício de um
brilho muito escondido, no
fundo, bem no fundo, mas a
diminuta “chama” dava sinais de
desvanecimento. O seu tísico
movimento assemelhava-se à
dança de uma bailarina
esquálida, anciã, despojada da
pujança de outrora.
Aqueles olhos que um dia
abrigaram o brilho de um
relâmpago, agora guardavam
semelhanças a um velho
candeeiro a querosene, dono de
uma luz estéril e febril.
A boca, acompanhava o declínio
dos olhos. Pálida, sem
expressão, ressequida, não era
capaz de realçar suas formas.
Pendia para um lado, como se
houvesse sofrido alguma espécie
de derrame. Não conseguia, nem
mesmo, esconder os dentes
cariados que insistiam em se
projetar além-lábios:
desprotegidos e inconstantes –
a cada dois, um faltava –
serviam como um cartão de
visitas às avessas.
Depois dos dois primeiros atos
tácteis, levantou-se. Olhou ao
lado e lá estava o responsável
por todos os seus desacertos.
Refestelado na cama, roncava
intermitentemente. Aquele ente
que resolveu um dia
apropriar-se do seu corpo e da
sua alma, existia. O seu
aspecto de felino saciado
causava-lhe repugnância. Apesar
do jeitão meio decaído,
notava-se certa satisfação. Um
riso “escorregando”
permanentemente no canto
direito da boca emprestava-lhe
um aspecto sarcástico,
zombador.
“Ela” foi ao banheiro. O
espelho rachado refletia sua
imagem decaída. Olhou por
várias vezes sem acreditar.
Reproduziu em voz baixa, num
som meio gutural, os dizeres de
Cecília Meireles: - “ em que
espelho ficou perdida minha
face?”. Aproximou-se o mais
próximo possível. O resultado
foi assombroso: não conseguia
mais se enxergar. Uma espécie
de pânico tomou conta do seu
corpo. Invadiu-lhe a alma. E a
tentativa de estancar o choro
não prosperou. Sentou-se no
vaso sanitário e chorou, chorou
como uma criança recém nascida.
Depois, acomodou-se em posição
fetal, numa tentativa vã de
retornar aos primeiros tempos,
e escorregou devagarzinho pelo
canto da parede até alcançar o
úmido e gélido chão.
Aquela tentativa de retornar às
origens lhe fez bem. Lembrou
como era próspera e vultosa. Um
filme passou diante dos seus
olhos. Recordou do ar
libertário e leve quando ainda
não era dominada por aquele ser
daninho. Era jovem, tinha um
futuro promissor. O seu
passado, então, remontava aos
primeiros povoamentos humanos
de uma terra. Isso mesmo. Era o
berço de um continente. Uma
lenda!!
Sorte sua ter registrado, com
seu “batom” vermelho, os
rituais do cotidiano nos
paredões petrificados. Uma
marca indelével de sua
existência estava lá,
inapagável, fossilizada, que
não poderia ser extinta. Agora
vivia na esperança de se
projetar por meio desse passado
glorioso. Num tempo ainda mais
recente, antes é claro desse
cinqüentenário, tinha
vitalidade de sobra.
Depois do surto, retomou-lhe a
sobriedade e voltou para seu
inferno particular. Arrumou-se
na tentativa de melhorar o seu
aspecto enxovalhado. Nas pontas
dos pés andou em direção à
porta. Abriu-a devagar. Deixou
para trás seus suplícios e
enfrentou a aurora do dia.
Estranhou que havia uma festa
das grandes em seu “quintal”.
Pessoas, que parece haviam
virado a noite, caminhavam de
um lado para o outro ao som de
um batuque estranho. Músicas
indecifráveis e apelativas
tomavam conta do ambiente.
Muitos jovens embriagados e
drogados. Um “monstro” de luz
com várias bocas enormes
reverberava um som inaudível. A
farra tinha atravessado a noite
e rompido a manhã. Era
carnaval!!
Todos olhavam para “Ela”. Uns,
com olhar judicial,
reprovativo. Outros, mal
olhavam: parece que haviam se
acostumado com seu aspecto.
Teve vontade de voltar. Mas já
não podia. Ficou ali parada,
inerte, observando tudo e a
todos. Percebeu que ela era o
palco. Sem ela não haveria
aquele amontoado de gente
cercada por cordas, pulando,
saltitando e gritando.
Sentiu-se útil pela primeira
vez. Percebeu que apesar do seu
aspecto de abandono, ainda era
capaz de atrair pessoas para o
seu convívio.
Enquanto isso, seu algoz ainda
não havia despertado. Sem se
aperceber de sua saída,
continuava no seu sono
ridículo. Sabia que “ela” não
poderia ir longe.
Com o fim da festa, olhou em
volta e percebeu que estava
mais suja ainda. Não se
importou. Afinal, a sujeira já
não a incomodava mais. Tinha
que voltar para o seu leito.
Tinha que enfrentar a
realidade. Afinal, essa união
tinha que dar frutos, ainda que
não bem-aventurados.
Ensimesmada, voltou de vez para
os braços de quem a maltratava.
Sabia que ainda tinha um
caminho a percorrer pela
frente. Não se sabe até quando.
O divórcio poderia está perto
de se concretizar. Talvez, não.
Tudo era imprevisível. Um
enlace de meio século não se
quebra de um dia para a noite.
Ao voltar, teve que enfrentar
os caprichos e a violência.
Deitou-se. Sentiu um peso subir
sobre ela. Mordeu os lábios.
Uma solitária lágrima escorreu
lentamente pela sua face. Foi
invadida novamente. Violentada,
sofreu e se perguntou em
pensamento: - “até quando”?
Zeferino
Júnior
– Servidor Público |