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Não, não estou ovacionando, com
o título do artigo, o nosso
querido Piauí, por conta da
beldade que nos representa na
casa mais promíscua e medíocre
do Brasil. Deixo o “frisson”
para os mais exaltados. Também
não estou, tardiamente,
tentando fazer um contraponto
ao representante da
multinacional que destilou seus
impropérios sobre nossa
envergadura econômica
pusilânime.
O motivo é
outro. Remonta à década de
setenta. Caiu em minhas mãos
por esses dias, numa viagem a
São Raimundo Nonato. Estava eu
numa farra, regada à cerveja e
carne de bode, quando um amigo
– Miguel Reis, um talentoso
estudante de medicina - saca da
carteira um papel amarelado,
cuidadosamente dobrado,
exalando cheiro de mofo.
A
preciosidade foi presente de
seu tio ilustre, Demóstenes
Braga, que é desembargador do
Tribunal de Justiça de São
Paulo. O piauiense, da cidade
de Fartura, no Sul do Piauí,
entregou ao sobrinho um recorte
de jornal. Este, por sua vez,
sabedor das minhas paixões
jornalísticas repassou-me o
texto.
Meus olhos
brilharam. Lá estava um texto
escorreito anunciando a chegada
de ilustres piauienses no
cenário nacional. Começa assim
a descrição da nobre travessia
dos notáveis “piauistas” que
tomariam conta do país: “...Disseram
que ele era o enjeitado e o
Brasil precisava saber
aproveitar, visitando-o antes
de acabar. Pois deu-se o
vice-versa. Hoje, o milagre
brasileiro não é mentira a 12
por cento ao ano. É a invasão
do Piauí . Eles estão descendo,
estão chegando como os hunos:
avassaladoramente”. O
brilhante articulista,
Sebastião Nery, continua sua
descrição meticulosa sobre os
“nossos” notáveis: “Reis
Veloso, no Planejamento;
Petrônio, no Senado; Francelino,
na Arena; Alberto Silva, nos
Transportes Metropolitanos;
Moreira Franco, em Niterói;
Álvaro Pacheco, na Artenova;
uma horda de simpáticos
invasores. Era uma vez uma
locomotiva chamada São Paulo
puxando vinte vagões vazios.
Agora, a locomotiva é, os
vagões continuam, mas o
maquinista, o foguista, o
agulhista, nenhum é paulista,
são todos piauistas”.
Por
fim, o texto termina com uma
observação aguda sobre o
discurso de Petrônio, “um
Pinheiro Machado de cabeça
chata” , em Araxá, Minas
Gerais, nos idos de 1962, num
encontro de governadores: “...
traumatizando o auditório
com sua eloqüência seca como os
pedregulhos de sua terra Natal”
asseverou:
“ - Mais do que
a fome, punge-me o estorvo da
dignidade. Passar fome é um ato
íntimo. Pertuba-me mais a
miséria das mocinhas do Piauí,
que não tem um vestido de chita
sequer para a missa dos
domingos. Precisa-se fazer a
revolução, nem que seja a
dente”.
Assim,
embeveci-me com o texto
exaltando as figuras políticas
mais proeminentes do nosso
Estado no cenário nacional.
Políticos que se projetavam
pelas suas qualidades pessoais
e que traziam consigo talento
de sobra.
Atualmente,
não contamos com um plantel
capaz de fazer parte dos
acontecimentos nacionais e se
tornar referência, positiva, no
cenário político atual.
O nível dos
políticos que povoam,
atualmente, a vida política
nacional, não é dos melhores.
Ao contrário, o que temos é uma
horda de velhas raposas que não
servem de exemplo a ninguém.
O nosso
querido Estado ainda é uma
locomotiva movida a vapor que
percorre os trilhos do
subdesenvolvimento. Os
maquinistas, os agulhistas, os
foguistas mudaram, decerto.
Trajam outras vestes, têm outro
gás, conseguem colocar mais
lenha na fornalha, mas o “trem”
continua no seu lento vagar,
carregando duzentos e vinte e
três vagões vazios, bem vazios.
Zeferino
Júnior
– Servidor Público |