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Abro
espaço para algumas considerações
sobre a vitória de Dilma. Achei
interessante não passar “in
albis” diante desse fato
histórico, afinal depois de
escrever alguns textos sobre a
sucessão política nacional, não
seria de bom augúrio quedar-me
inerte diante do desfecho da
contenda eleitoral.
Todos atribuem à vitória dela,
somente, ao carisma de Lula, afinal
o homem atingiu uma aprovação
popular galáctica durante o
mandato. Dessa forma, ele conseguiu
capitanear votos para catapultar à
presidência desse gigantesco país
uma neófita política.
Em
grande medida, realmente, foi. O
Presidente, passando por cima da
liturgia do cargo, afrontando e
tripudiando das leis do país,
desancando adversários políticos,
usando a estrutura da máquina
estatal e se valendo de um torpor
em que a sociedade civil mergulhou
(diante dos seus grandes feitos),
deu as condições necessárias para
vitória da primeira mulher
presidente das terras Tupiniquins.
Alguns dizem que qualquer um seria
eleito com a benção do presidente.
Não concordo. Embora fosse fácil
perceber as limitações dela –
dificuldade de fechar um
raciocínio, aparente nervosismo
diante da exposição midiática,
pusilanimidade em relação a
posições ideológicas e religiosas
-, a evolução da candidata, durante
a eleição, foi digna de nota.
Passou a ser compreendida e, de
alguma forma, ganhou certa
independência que, acredito, ajudou
na absorção de votos.
Eu
fujo do consenso com relação a um
aspecto tão ressaltado nesse
momento: a condição de mulher daria
a ela uma “vantagem” ou já teria
feito história antes mesmo de
governar.
É
evidente que é algo interessante e
deve ser ressaltado. Não concordo,
no entanto, com as manifestações
eufóricas e desmedidas por conta da
ascensão de uma mulher ao cargo
maior do executivo.
Costumo ver essas clivagens (cortes
e separações de gênero, cor, etnia
etc.) com desconfiança. Sabe por
quê? Porque se assim assumirmos
legitimas essas diferenciações, um
exercício lógico de argumentação
deverá, necessariamente, ser
invocado. Vejamos.
Vamos imaginar que o governo Dilma
seja um sucesso, melhor mesmo do
que seu antecessor. Raciocínio
lógico: a mulher é realmente mais
apta para governar do que o homem.
Contrariu sensu: se ela for
um desastre? Mulheres-políticas
seriam vistas com desconfiança, já
que sua gestão foi um retumbante
fracasso? Isso vale para o negro, o
nativo, o operário, o empresário, o
médico etc.
Por
isso, fico preocupado quando se
elegem critérios desse naipe para
pré-anunciar que isso ou aquilo é
histórico. E, diante disso,
declarar o sucesso da empreitada
que ainda está por começar. A
história é feita de acertos e erros
monumentais. Estes são aferidos
depois e não antes, por uma questão
lógica.
O
exemplo do atual presidente
americano, Obama, é eloqüente. Com
a popularidade em baixa, o primeiro
negro a assumir a presidência do
país mais poderoso do mundo teve
que engolir, atualmente, uma
derrota gigante no parlamento –
fruto de várias dificuldades
enfrentadas em sua administração.
Ou seja, aquele que foi tratado
como “o mito-dos-mitos” amarga
dificuldades de toda ordem na sua
gestão e sua envergadura mítica,
hoje, é bem menor do que na época
de sua vitória.
Prefiro olhar – a eleição de Dilma
- como um ato extremamente
carregado de simbolismo. E, assim,
coloco, a meu modo, a importância
do acontecimento. Fico feliz por
isso. Fico feliz que a nossa
democracia permita que qualquer
cidadão – homem e mulher, branco e
negro, operário e empresário etc.-
chegue ao mais alto posto da
gerência do país, independente de
qualquer coisa.
Espero que a história registre uma
grande passagem dela pela
presidência. E se assim acontecer,
não será, espero, pelas qualidades
de gênero, mas pela competência
adquirida via conhecimento das
causas mais sensíveis e prementes
da sociedade brasileira.
Zeferino Junior - Servidor Público
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